Notas iniciais
Se gosta de romance negro, vai gostar dessa história. Max é um rapaz de poucas falas, tímido e sombrio se apaixona perdidamente por Érica. No entanto não será tão simples viver esse amor...

Sempre fui um rapaz tímido, talvez por isso nunca tivesse muitos amigos. O único por quem eu ainda tinha alguma afinidade era Davi, que morava na mesma república que eu. Davi, ao contrário de mim, era um rapaz alegre, brincalhão, o popular da escola onde estudávamos. Sempre chamou a atenção das garotas, sendo tido como o garanhão da escola. Eu, por outro lado, era o patinho feio, não me sentia bem em lugar nenhum que frequentava. Era como se eu fosse um peixe fora d'água. Amei muitas garotas que nem sequer olhavam para mim, enquanto Davi, por sua vez, passava despercebido pelas várias garotas que o admiravam.

Naquele dia, segui exatamente a rotina habitual. Fui até os armários pegar meu material, e Davi estava próximo, um pouco à minha frente, conversando com algumas meninas encantadas com seu jeito extrovertido.

Ricardo era uma presença imponente na escola, destacando-se por sua estatura robusta e atitude arrogante. Seus olhos e cabelos castanhos sempre bem cuidados refletiam uma vaidade notável, enquanto sua expressão permanente de provocação criava uma aura hostil ao seu redor. Conhecido por formar um grupo intimidador, ele buscava constantemente afirmar-se através de atitudes negativas, como provocar e humilhar os colegas.

Ricardo e dois de seus amigos tão babacas quanto ele, passaram por mim e me empurraram contra os armários, derrubando meus materiais no chão. Olhei timidamente para eles, tentando esconder o ódio que fervia dentro de mim naquele momento. Ajoelhei-me para recolher meus livros enquanto eles zombavam e riam da minha situação.

Ricardo, debochando, exclamou:

— Olhem só, é muito zé ruela!

Davi, ao notar a cena, se aproximou perguntando:

— Qual é a graça, Ricardo?

— Mas é claro que ele iria aparecer. Chegou o macho dele. Sei não, viu? Acho que tá rolando alguma coisa aí.

Davi, sem hesitar, respondeu:

— Também sei não, cês três sempre juntinhos. Cê é gulosa, hein? Pega logo é dois.

Ricardo se alterou:

— Qual é maluco, vai ficar de graça pro meu lado?

— Deixa o cara em paz, Ricardo. O cara nunca te fez nada.

—Dessa vez vou deixar passar, mas veja bem como fala comigo. Vamos embora, galera, as gazelas querem ficar sozinhas.

Davi me ajudou a recolher os livros do chão e perguntou se eu estava bem. Agradeci por ele ter me defendido.

— Não foi nada, esse Ricardo é um babaca.

— Não sei por que ele implica tanto comigo. — respondi, tentando disfarçar minha timidez.

Enquanto conversávamos, Suzana, uma colega, se aproximou chamando Davi para conhecer uma amiga. Ele se despediu de mim, e fui para a minha sala com os livros nas mãos. Ao olhar para frente, deparei-me com uma garota nova que não tinha visto antes.

Meus olhos se prenderam à sua beleza. Tinha longos cabelos negros que caíam graciosamente pelos ombros, destacando seus olhos verdes e penetrantes. Sua pele era clara e rosada, e sua boca pequena e carnuda. Os meus olhos se fascinaram. Fiquei maravilhado com a sua maneira de andar, o modo que jogava os cabelos, a forma em que olhava o sorriso que em seus lábios brotavam. Percebo que vinha andando em minha direção, fiquei trêmulo, não sabia o que fazer, aproximou-se de mim e já foi se apresentando:

— Oi! Sou a Érica! Quem é o responsável por essa república?

A pergunta era simples, mas minha timidez transformava cada palavra em um desafio. Tentei falar, mas as palavras pareciam congelar em minha boca. Érica olhava para mim sem compreender o motivo do silêncio, então ela reformulou a pergunta:

— Tudo bem? Pode me dizer com quem falo pra me instalar nessa república?

Gaguejando, respondi:

— É... é... a... dona Elizabeth!

Érica continuou com seu questionamento:

— E onde encontro essa Elizabeth?

Nesse momento, percebi a aproximação de Davi, sempre com seu jeito brincalhão e um sorriso de lado a lado da boca.

— Oi, posso ajudar?

Érica explicou sua situação:

— Queria saber como faço pra falar com dona Elizabeth. Quero me instalar aqui, mas ainda não sei o que devo fazer.

Davi prontamente se ofereceu para ajudar:

— Claro, vem comigo. Vou te levar até dona Elizabeth.

Enquanto Davi tomava frente, eu permaneci paralisado, observando como para ele era fácil lidar com as garotas. Um simples gesto, uma simples palavra, e a conversa tomava um rumo positivo. Perguntava a mim mesmo por que para mim era tão difícil.

Sempre fui um rapaz de estatura média, com uma presença que muitas vezes se camuflava na multidão. Meus cabelos castanhos, desalinhados e caídos sobre a testa. Meus olhos expressivos, porém evasivos, revelava a timidez crônica que sempre me acompanhou. Minha vestimenta consistia em roupas simples e discretas, uma tentativa de passar despercebido em meio à agitação cotidiana.

Diferente de mim, Davi era uma figura que naturalmente se destacava. Alto e atlético, seus cabelos pretos bagunçados e seus olhos azuis irradiavam confiança, e seu sorriso contagiante contribuía para sua popularidade. Ele se vestia com um estilo descolado, sempre na moda, uma expressão visual de sua personalidade extrovertida.

Não me achava feio, o meu problema era as palavras, não sabia como as usar diante de uma moça. Dentro de mim crescia uma inveja de Davi, um ciúme em ver a forma fácil que ele lidava com as meninas. E também inveja da veneração que as meninas da república tinham com ele. Mas meus sentimentos mudavam, pois ele era um cara legal e a única pessoa que ainda me dava ouvidos naquele lugar.

Érica conseguiu se acertar com dona Elisabeth e se instalou na república. Nossa república não era muito grande, mas era a única respeitada na cidade. Dona Elisabeth era rígida e conservadora; os dormitórios masculinos e femininos eram bem separados, e ai de quem se atrevesse a ultrapassar os limites impostos por ela.

Naquela noite, demorei a dormir, refletindo sobre a maneira como Érica se aproximava. Pensava nas palavras que poderia ter dito naquele momento. Acendi a luz do abajur e me sentei na cama, olhando para o lado onde Davi dormia, e comecei a pensar: " O que ele tem que não tenho? Por que pra ele é tão fácil, enquanto pra mim é tão difícil? Eu deveria ter falado mais com ela. Essa garota mexeu muito comigo. Preciso me aproximar dela. E desta vez, terei que ter coragem e falar alguma coisa. Não posso ficar como um babaca de boca aberta".

Davi, ainda sonolento, interrompeu meus devaneios:

— Max? O que tá fazendo com essa luz acessa?

— Nada, só tava aqui pensando um pouco. Não tô conseguindo dormir.

— Desliga a luz moço, acordará todo mundo.

— Davi, o que cê achou de Érica?

— Érica?

— Sim, a novata. Fiquei sabendo que ela conseguiu se instalar aqui na república.

— Agora entendi. É nela que cê tá aí pensando?

Balancei a cabeça positivamente.

— Achei ela muito linda. Mas cuidado não vai se apaixonar.

— Não tô apaixonado.

— Tá certo. Agora desliga esse abajur e volte a dormir, antes que acorde mais alguém.

— Tudo bem.

Desliguei o abajur e me deitei, mas o sono teimava em não chegar. Fiquei horas ali, pensando em como falar com ela, não poderia continuar assim tão tímido.

Logo pela manhã do dia seguinte, eu estava sentado no refeitório terminando de tomar meu café com leite, com pão assado na chapa com manteiga, era o cardápio de quais todas as manhãs na república da dona Elisabeth.

Érica surgiu todo sorridente e bem à vontade em uma conversa animada e íntima com Letícia, a CDF da república. Eu fiquei por um instante as observando. Letícia se assemelhava um pouco comigo, exceto pela parte dela ser estudiosa. Nunca fui bom em matéria alguma, mas, assim como eu, ela era esquecida por todos. Era uma menina magricela, de cabelos ruivos e umas pequenas sardas no rosto, usava óculos "fundo de garrafa" e roupas cafonas. A cada frase que Letícia dizia, mencionava alguma matéria que havia estudado.

Mas Érica parecia envolvida nas conversas animadas com Letícia, as risadas delas preenchiam o ambiente. Reuni coragem, levantei-me e fui até a mesa delas, iniciando uma tímida conversa:

— Oi, Letícia!

Letícia se animou ao me ver:

— Oi, Max! Conhece Érica?

Érica, virando-se para mim, comentou:

— Nos conhecemos ontem. Mas não havia me dito o seu nome.

Fiquei tímido, um sorriso meio amarelado no rosto.

— O Maxwell é assim mesmo, muito tímido. Né, Max? É difícil arrancar alguma palavra dele. Não sei como criou coragem de vir aqui falar com a gente. — disse Letícia, levantando-se da cadeira.

— Agora tenho que deixar vocês dois a sós, daqui a pouco vou ter aula de sociologia e, acredite, não estudei nada. Não posso tirar nota baixa. Érica, foi um prazer enorme te conhecer. Depois a gente se fala. Fica aí com a maravilhosa companhia do Max.

Nossa como essa garota fala, agora entendo porque ninguém fala com ela. Enquanto Letícia se afastava, eu ficava ali, em pé próximo à mesa onde Érica estava, sem jeito e sem saber que assunto iniciar naquele momento. Érica, percebendo minha timidez, sugeriu:

— Puxa a cadeira e senta aqui do meu lado. Quero te conhecer melhor.

Obedeci, mas permaneci paralisado, com um sorriso bobo estampado no rosto avermelhado de vergonha. Mexia as pernas e estralava os dedos nervosamente. Érica pegou nas minhas mãos, interrompendo meu nervosismo.

— Por que tá tão nervoso? E essas mãos geladas? Não se preocupe, eu não mordo. A não ser que cê queira. — brincou, jogando charme.

— Acho que tô mesmo um pouco nervoso. — admiti sem jeito.

Érica, sorrindo, decidiu quebrar o gelo com algumas perguntas. Conversamos sobre idade, origens, sonhos e planos futuros. Contei sobre minha cidade natal, Ouro Preto, e como meus pais me enviaram para a república. Surpreendentemente, descobri que Érica veio de uma família pobre em uma fazenda próxima a Matões do Norte, no Maranhão. Ela escolheu nossa república, a mais respeitada e acessível da cidade. A conversa fluiu por horas, e gradualmente meu nervosismo deu lugar a um conforto ao lado de Érica. Cada palavra e gesto dela me encantavam cada vez mais.

Tão envolvido estava com Érica que nem percebi que Davi sentara-se em uma mesa próxima. Sua atenção voltada para nós era notável. Ao perceber Davi, Érica comentou:

— Olha só, é aquele seu amigo que me apresentou à dona Elizabeth. Qual é mesmo o nome dele?

— Davi.

— Vamos chamá-lo para sentar aqui conosco. Ei, Davi! Senta aqui com a gente.

— Não, obrigado. Esqueci um livro no quarto, vou voltar lá pra buscar. Fiquem à vontade.

Davi, talvez ciente das minhas intenções com Érica, recusou o convite e se retirou logo em seguida.

— É impressão minha, ou o Davi quis nos deixar a sós? — comentou Érica.

— Acho que foi isso mesmo. — respondi timidamente.

— Então que bom. Pois tô gostando muito de estar aqui com você.

Ao longo do tempo, Érica e eu nos tornamos grandes amigos. Ela demonstrava constante interesse na minha vida. O que eu fazia, o que eu gostava, o que eu sonhava e até mesmo do que eu tinha medo.

No entanto, meu coração parecia uma máquina a vapor, e o que eu mais queria ia além da amizade. A cada dia, me apaixonava mais por ela. Era um sentimento avassalador, uma vontade de estar com ela o tempo todo. Meus pensamentos eram dominados por Érica, e eu sentia ciúmes quando outros se aproximavam dela. Ninguém, no entanto, incomodava mais do que Ricardo.

Certo dia, enquanto Érica estava sentada no jardim lendo um livro, Ricardo se aproximou, segurando uma flor.

— Pra você. — disse ele, estendendo a flor para Érica.

— Obrigada! — respondeu ela, recebendo o gesto de Ricardo.

— Posso sentar aqui?

Érica, sem rodeios, retrucou:

— Se eu disser que não?

Ricardo ignorou o tom e se sentou no banco ao lado dela.

— Que isso, linda? Vai me desprezar agora? — provocou ele.

— Não tô te desprezando. Mas prefiro ficar sozinha.

Eu, escondido atrás de alguns arbustos, observava a cena, curioso sobre a interação dos dois.

Ricardo, mudando o tom da conversa, perguntou com uma certa malícia:

— Só me tira uma dúvida. O que há entre você e o banana do Max? Cê sabe que é extremamente proibido namorico aqui na república, né? Dona Elizabeth é bem rigorosa, e ela disse que se pegar é expulsão na certa. Sem conversinha.

Érica fechou o livro e encarou Ricardo firmemente, enquanto eu ainda observava de longe.

— Primeiro, o Max não é nenhum banana. Segundo, cê não tem nada que se preocupar e nem relatar pra dona Elizabeth. O que existe entre eu e Max não é nada demais. Não quero nada nem com ele, e muito menos com você. Agora, se puder me dar licença, quero terminar de ler meu livro.

Ricardo, visivelmente sem jeito, levantou-se e se afastou. Assim que ele saiu, me aproximei de Érica.

— O Ricardo tava te perturbando? — perguntei.

— Garoto chato! Tava aqui querendo saber o que existe entre nós dois. — respondeu Érica, visivelmente incomodada.

— Cê acha que ele tá com ciúmes? — perguntei, tentando entender a situação.

— Ele é um impertinente, isso sim. Mas esquece ele.

Meus olhos curiosos desviaram para o livro que Érica segurava. Intrigado, perguntei:

— Dragão Vermelho?

Ela sorriu e mostrou melhor a capa do livro, revelando que se tratava de um dos romances policiais de Thomas Harris.

— Já leu? — indagou ela.

— Não. Do que se trata?

Érica bateu no banco ao seu lado, sugerindo que eu me sentasse. Aceitei o convite e me acomodei.

— Se baseia na figura central de Hannibal Lecter, um brilhante psiquiatra e cirurgião, mas também um psicopata e assassino em série que se envolve em práticas canibais.

A revelação sobre o personagem do livro, que consumia carne humana, me deixou intrigado. Como vegetariano, sempre rejeitei a ideia de matar animais para alimentação.

— Eu já gosto de carne, jamais dispensaria um bom churrasco. É a cadeia alimentar, né, meu amor? Um organismo serve de alimento para o outro, é apenas a natureza nos servindo. – Disse Érica com um sorriso encantador.

— E se a carne que cê comesse fosse humana? Cê comeria assim mesmo?

Érica arregalou os olhos, surpresa com a pergunta.

— Credo, Max! Não. Acho que essa conversa tá ficando um quanto macabra.

— Pois acho que preferia comer carne humana do que sacrificar um animal inocente.

Ela soltou uma risada diante da minha resposta inusitada.

— Tá amarrado, menino! Assim que eu terminar de ler, te empresto meu livro. Só não vai querer se inspirar e sair por aí dando uma de Hannibal Lecter.

Adorava ver aquele sorriso debochado. Sentia-me feliz, pois percebia que, apesar do incômodo causado por Ricardo, Érica não se deixava influenciar por ele. Ilusão minha ou não, também tinha a sensação de que ela apreciava minha companhia.

Conforme o tempo passava, meu carinho por Érica só aumentava.

Em um dia como outro qualquer, levantei cedo, coloquei uma calça, vesti minha camisa e penteei o cabelo um pouco para o lado. Passei um perfume e saí do quarto em direção ao refeitório. Fui andando e ensaiando as palavras as quais eu falaria quando a visse, ficava imaginando a reação dela. O desprezo que por ventura poderia ter por mim ao saber que não a queria mais só como amiga, pensava em voltar atrás, "Melhor esperar um pouco mais, estamos tão bem não posso estragar isso!". Mas por outro lado ficava imaginando o contrário: "E se ela já esperava isso a tempo?"

Ao sentar-me em uma cadeira próxima a um balcão de madeira, mergulhei em pensamentos, tentando antecipar as reações de Érica diante da revelação que eu planejava fazer. Davi, chegou e se sentou ao meu lado, iniciando uma conversa casual.

— Nem vi a hora em que saiu do quarto. — comentou Davi.

— É, eu não tava conseguindo dormir direito, resolvi levantar. — respondi, enquanto a ansiedade crescia dentro de mim.

Ricardo e seus amigos se aproximaram, e suas palavras debochadas começaram a soar como uma trilha sonora incômoda.

— Olha só rapazes, como o menino está perfumado, bem ajeitado, cabelinho no gel. Está investindo, hein, garoto, nunca te vi assim! — provocou Ricardo, alimentando a situação com seu sarcasmo habitual.

Davi interveio, tentando amenizar a situação.

— Não perturba o rapaz, Ricardo!

Mas Ricardo continuou, desrespeitoso e insensível.

— Não tô perturbando. Tô apenas elogiando. Tá uma lindeza, Maxwell. E cadê ela, a gostosa da Érica?

— Agora já chega, Ricardo, respeita o garoto!

Davi levantou se interpondo entre Ricardo e eu.

— Qual é, maluco? – Ricardo empurrou Davi que se apoiou no balcão.

— Não tô fazendo nada contigo. Fica na sua. A Érica é linda, e gostosa sim. Se eu pegasse uma mulher daquela eu torava ela no meio. Cê acha mesmo que um zé ruela como esse aí, dará conta de um mulherão daquele?

Cada palavra de Ricardo era como uma farpa que cravava em mim, despertando um ciúme avassalador. A vontade que pulsava em mim era a de pegar Érica e protegê-la, escondendo-a num lugar onde apenas eu soubesse como encontrá-la, longe dos olhares cobiçosos do mundo. Entretanto, questionava-me sobre o direito que eu teria de agir assim, especialmente quando ainda não havia encontrado coragem para confessar a ela o que realmente sentia. A raiva fervia em mim enquanto ouvia os comentários de Ricardo, cerrava os olhos e apertava o pão que estava em minhas mãos, como se tentasse conter a tempestade de emoções que se desenhava em meu interior.

Para minha surpresa, Érica adentrou o refeitório, acompanhada por Letícia. Sua presença era deslumbrante, e sua delicadeza ao ajeitar os cabelos atrás da orelha me deixava paralisado. Não conseguia mais prestar atenção nas palavras de Davi e Ricardo; estava completamente absorvido por Érica.

— Olha a nojeira que esse bunda mole faz no pão. É um mané mesmo. — provocou Ricardo, notando minha distração.

— Olha quem chegou. — Acrescentou, indo em direção a Érica.

Uma mistura de raiva e tristeza tomou conta de mim ao vê-lo se aproximar dela. Davi, percebendo minha reação, tomou o pão de minhas mãos e tentou me acalmar.

— Escuta, não fica assim, cara. O Ricardo é um babaca, e ele te provoca exatamente porque sabe que você ficará desse jeito. Olha lá, a cara desapontada dele por ter levado um toco da Érica. — Disse Davi, tentando confortar-me diante da situação.

Ao olhar, percebi que Ricardo se afastava da mesa de Érica. Ela voltou o olhar para mim, deixando escapar um sorriso de canto de boca.

— Vai lá, seu bobo. Ou vai deixar o Ricardo ficar com a sua namorada? — Provocou Davi.

Olhei fixamente para ele, e Davi continuou encorajando:

— Vai lá e se abre com ela. Conta o que cê sente. Não tenha medo.

Dei uma risada sem graça, tentando disfarçar meu nervosismo. Sem responder à pergunta de Davi, levantei-me da cadeira e dei passos apressados até a mesa onde Érica estava, acompanhada por Letícia.

— Oi, Max! — Cumprimentou Letícia.

— Oi, Letícia! Oi, Érica. Como cê tá? — Disse nervoso.

— Melhor agora na sua companhia. — Respondeu Érica.

— Opa! Já vou começar a achar que tô sobrando aqui. — Brincou Letícia.

— Desculpe, Letícia. Mas podemos conversar um pouco a sós, Érica? — Perguntei.

— Imagina, o amor é lindo, fiquem à vontade. — Disse Letícia, se preparando para sair.

— Pode ficar, Letícia. Vem comigo, Max. Vamos conversar lá no jardim. — Convidou Érica.

E para minha surpresa, ela deu aquele sorriso, levantou-se da cadeira, pegou-me pelo braço, entrelaçou sua mão na minha e me puxou para fora do refeitório. No jardim, sob imensas árvores, Érica me conduziu até um local mais reservado e, com um sorriso no rosto, indagou:

— Pois não, aqui estou. O que queres de mim?

Fiquei ali diante dela, as palavras tentavam sair, mas se prendiam em minha língua. Com delicadeza, Érica amaciava minhas mãos, notando a frieza delas.

— Elas são sempre assim, geladas? — Perguntou, curiosa.

— Só quando tô nervoso. — Respondi sem jeito.

Érica envolveu-me com um braço em meu pescoço, enquanto o outro acariciava meu rosto. Com olhar firme, revelou algo surpreendente:

— Pensei tanto em você esses dias.

Naquele momento parecia que o meu coração palpitava em minhas mãos. Minhas pernas ficaram trêmulas, que a impressão que tinha é que se Érica tirasse o braço do meu pescoço eu me sedia ao chão. O vento batia e trazia seu perfume junto a mim, fazendo se único e exclusivo cheiro a marcar aquele lugar.

Érica encostou seu rosto no meu, acariciando-me levemente com sua boca carnuda, deixando-me sentir seu fôlego quente sobre os lábios. Fechei os olhos, esperando por um beijo, mas ela afastou-se, com um olhar sapeca e um sorriso enigmático.

— E então, o que queria mesmo comigo? — Perguntou, provocativa.

— Já não sei, só sei que te quero. — Respondi sem saber direito o que estava falando, minha língua parecia ter perdido o comando. Era a primeira vez que sentia o meu coração pulsar tanto.

Érica aproximou-se maliciosamente, deu uma volta ao meu redor e sussurrou em meu ouvido.

— Acho que também te quero.

Fiquei ali sem conseguir mover um músculo sequer, mal respirava. Meus olhos a fitavam a cada movimento até que estivesse de volta à minha frente. Deixando sua mão sobre a minha nuca, com a qual me acariciava provocando arrepios, e finalmente beijou meus lábios, me deixando louco com o sabor quente e suave da sua boca molhada. Quando o beijo chegou ao fim, Érica afastou-se de mim o suficiente para que os nossos olhos se encontrassem. Eu queria sentir o seu gosto ainda mais do que antes, minha saliva descia rasgando a minha garganta em um prazer do qual ainda não estava saciado.

— Não tô acreditando nisso!

— A voz de Ricardo surpreendeu-nos.

— Cê me trocou para ficar com esse mongoloide? — Debochou Ricardo.

— Ricardo, calma! Não aconteceu nada demais aqui. Eu e Max estávamos conversando e nos deixamos levar pelo calor da emoção. — Tentou explicar Érica.

— Que coisa mais linda! Será que dona Elizabeth vai pensar a mesma coisa? — Provocou Ricardo. — Sim, porque cês sabem que é extremamente proibido namorico dentro das dependências da república, né?

— Ricardo, por favor, não fale nada disso para dona Elizabeth. Preciso muito ficar aqui. — Pediu Érica.

— Deveria ter pensado nisso antes. — Ironizou Ricardo.

— A gente não fez nada demais, Ricardo. — Tentei argumentar.

— "A gente não fez nada demais, Ricardo". Érica, fala sério, cê beijou esse cara por pena, né? Cê tava se divertindo com a cara dele, não foi isso? O cara era BV, cê achou interessante seduzi-lo, não foi isso? — Zombou Ricardo.

Érica me olhou fixamente e, depois, virou-se para Ricardo, falando com firmeza.

— Exatamente isso. Tudo não passou de uma diversão pra mim.

— Então cê não sente nada por mim, me beijou por pena? — Perguntei, tristonho.

— Ela sente, seu otário, peninha de você. Eu sabia, não tinha condição de uma gata dessa com um Zé ruela como esse. — Caçoou Ricardo.

— Desculpe, Max, eu sinto muito. Achei fofo seu jeito atrapalhado, todo tímido, e daí fui vendo até onde isso iria. Mas acho que agora já deu, vamos parar por aqui. — Disse Érica.

— Olha a cara do Zé ruela! — Ricardo debochava.

Meu coração sofria com aquelas palavras, não conseguia acreditar que tudo era um engano. Todas as palavras doces que ouvira eram mentiras, ou talvez eu que tivesse fantasiado tudo. O olhar de Érica se desviou para o chão, evitando o meu, e Ricardo continuava zombando.

— Eu sabia que isso era só brincadeira. Quem iria querer um banana como você, Max?

Sem dizer uma palavra, dei meia-volta e saí dali, ignorando os olhares curiosos dos outros estudantes. As palavras grosseiras de Ricardo ecoavam na minha mente. Estava ferido, não apenas pelo que aconteceu, mas pela ilusão que criei. A amizade com Érica tornou-se uma ferida aberta, e eu me sentia perdido naquele momento.


Notas finais
Max se apaixonou perdidamente por Érica, no entanto estão proibidos de ficarem juntos. Será que vão cumprir as exigências de Ricardo, ou vão arriscar? Por favor, comentem o que acham.