A Última Chance
3 Capítulo 3 - O Jantar
Jasper passou algum tempo falando com o pessoal. Até batia papo com alguns, que lhe diziam coisas muito legais.
Depois da aparição, eles entraram no palácio. Passaram pela Transformação — que foi quase nula se comparada ao que faziam com as garotas —, onde apenas cuidaram de espinhas e cravos e apararam alguns cortes de cabelo.
O corredor do quarto de Charlie não era o mesmo de Jasper e Zack, então os garotos se despediram e Charlie foi ver o que o aguardava.
O quarto dele na Seleção era maior do que todo o primeiro andar de sua casa. A primeira coisa que notou foi um violão novinho — não apenas um violão comum, mas um violão do tipo que ele achava que jamais teria a chance de chegar perto, daqueles de uma madeira envelhecida e importada cujo nome ele provavelmente não conseguiria pronunciar.
Seu primeiro instinto foi correr até ele, mas a segunda coisa que notou no quarto foram as três criadas paradas perto da porta, então o garoto se conteve.
— Ah, olá — ele sorriu. — Eu sou o Charlie.
— Boa tarde, sr. Charlie — disse uma delas, fazendo uma reverência. — Eu sou Naomi, e estas são Jane e Reyna.
— É um prazer — ele cumprimentou.
Charlie não entendia para que precisava de uma criada, muito menos para que precisava de três. Mas não perguntou.
— Estava escrito no horário que os senhores conheceriam a Princesa Annabelle amanhã, mas aparentemente houve algumas mudanças e ela estará presente no jantar de hoje — anunciou Reyna.
Alguma coisa se revirou dentro de Charlie. Ele conheceria a princesa em poucas horas, e não fazia ideia do que diria, do que faria quando a visse... Não tinha nada preparado.
— Esta será a sua vestimenta, senhor — Naomi pegou um terno simples preto e o mostrou. — Cai bem com seus olhos.
Charlie corou levemente. Seus olhos eram acizentados, às vezes puxavam levemente para o azul, mas normalmente eram cinzas. Seu cabelo era preto, mas pelo menos suas maçãs do rosto eram marcadas, o que dava cor à face.
— Obrigado.
— Devemos ajudá-lo a se vestir...
— Não, não — ele abriu um leve sorriso. — Ah... Não foi uma pergunta. Eu... Eu só... Não quero que me vejam... nu. Certo?
— Mas senhor, temos ordens explícitas dizendo que...
— Ok, vamos devagar — ele as fitou. — Vocês esperam lá fora enquanto eu ponho a calça, e então me ajudam com a camisa e o paletó. Fechado?
As três criadas soltaram um riso baixo e concordaram com a cabeça.
— Ótimo — ele sorriu. — Agora podem me dar licença? Chamo vocês em um minuto.
Elas assentiram e saíram do quarto.
Zack passou o caminho todo falando sobre como o palácio era legal, mas Jasper não se importou. Quando chegou aos próprios aposentos, encontrou três criadas fitando-o.
— Moças — Jasper cumprimentou.
— Senhor Jasper — elas fizeram uma leve reverência. — Houve uma mudança na programação, então os senhores conhecerão a Princesa Annabelle hoje à noite. Ela se juntará aos senhores no jantar.
— Uau. Obrigado por avisar...
— Pensamos que um terno preto simples lhe serviria... — disse uma das criadas. — Com uma gravata marrom, talvez. Se me permite, sr. Jasper, o senhor já chama atenção por si só.
— Espero que a Princesa ache o mesmo — ele sorriu.
— O povo parece gostar do senhor. Tenho certeza de que Vossa Alteza levará tal fato em consideração.
— Não sei, a Princesa parece ter o costume de fazer o que deseja.
As criadas sorriram.
— Não posso discordar quanto a isso, senhor.
Charlie se fitou no espelho por um momento. Nunca havia usado um terno na vida, ao menos não um tão sofisticado, de modo que sentia como se estivesse olhando para um desconhecido refletido no vidro.
— Estou... Ah, meu Deus, estou apresentável! — ele arregalou os olhos, surpreso.
— Não — corrigiu Naomi. — O senhor estava apresentável quando chegou. Agora eu o classificaria como muito atraente.
Charlie havia feito um acordo com as criadas, de tratarem-no como a um conhecido, sem toda a formalidade e sem medo de dizer algo fora do estritamente necessário.
Elas ainda estavam se acostumando com a ideia, mas eles chegariam lá.
— O que eu faço quando vir a Princesa? — perguntou ele.
— A Princesa estará muito formosa hoje à noite, como em todos os jantares — disse Jane. — Se quer um bom conselho, eu diria para não ficar encarando-a como um debiloide quando a vir.
Charlie riu um pouco.
— É um bom conselho. Planejo segui-lo à risca.
— Isso é ótimo, sr. Charlie, mas agora o senhor deve descer para o salão de jantar.
Quando Charlie saiu do quarto, foi logo atropelado por Zack, que usava um terno cinza. Eles seguiram com os outros rapazes do andar para o salão de jantar. Um homem que se apresentou como algum tipo de assistente real os indicou o caminho e caminhou na frente até as largas portas.
Eles se sentaram calmamente em volta da mesa enorme de jantar.
— Uau — disse o assistente real, que se apresentou como Lucius. — Organizadamente. Parece um sonho. Quando tínhamos garotas aqui, eram brigas por lugares, quem vai sentar mais perto do príncipe, conversas altas sobre esmaltes... — ele suspirou como se a lembrança o torturasse. — A Princesa já deve estar chegando. Comportem-se.
Charlie se divertiu com o jeito como ele disse aquilo; como se achasse que eles fossem se pendurar no lustre ou algo assim.
O máximo que se sucedeu à saída de Lucius foram algumas conversas ocasionais baixas.
— É óbvio que a Princesa não está procurando alguém para reinar — disse um garoto que estava sentado ao lado de Charlie. — Tudo isso é apenas para que ela possa ser a Governante. Ela provavelmente vai escolher o rapaz mais tolo, um que vá fazer tudo o que ela mandar e jamais tomará como seus os direitos de um Rei. Além do mais...
— Você — disse uma voz feminina próximo da porta.
Trinta e cinco cabeças se viraram automaticamente para fitar a Princesa Annabelle, que estava escutando há Deus sabe quanto tempo. Zack admirou a capacidade dela de se mover sem fazer barulho algum.
A Princesa estava magnífica, era desnecessário dizer, em um vestido vermelho escuro de mangas longas. Seu cabelo ruivo caía em ondas perfeitas. Seus olhos azuis estavam semicerrados, apontando para o garoto que estava falando sobre ela.
— Sim, você, rapaz que eu não sei o nome — ela repetiu ao ver a incredulidade do garoto. — Saia da minha frente. Agora.
— Al... Alteza?
— Você é surdo ou o quê? Não quero olhar na sua cara. Saia daqui. Desapareça.
— A senhorita está me mandando para casa?
A Princesa o encarou por um minuto.
— Já que sugeriu — ela começou. — É uma excelente ideia. O senhor está dispensado.
Charlie observou incrédulo enquanto o garoto deixava o salão. E assim, tão fácil, eles se tornaram 34.
A Princesa os fitou por um momento, e por fim suspirou.
— Mil perdões por isso — sua voz se suavizou. — Eu apenas... Ah! Bem, se aquele rapaz realmente pensava aquelas coisas de mim, por que diabos estava aqui? Além do mais, senti que não queria conhecê-lo. Porém, ainda quero conhecer vocês... Trinta e quatro — ela abriu um leve sorriso. — A não ser, é claro, que algum de vocês também pense que eu sou do jeito que vosso amigo descreveu. Porque aí eu também não sei o que vocês estão fazendo aqui. Quero dizer, não sei os senhores, mas eu não iria querer casar-me com uma moça daquelas — ela torceu o nariz. Silêncio absoluto. — Então acho que podemos começar.
Annie reformularia aquela fala se pudesse. Lembrou-se ocasionalmente de que deveria dirigir-se a eles como "senhores", mas sabia que alguns "vocês" haviam escapado.
A princesa caminhou pelo salão e se sentou na cadeira vazia do garoto que fora para casa.
— Eles esperam que eu me sente lá na ponta — disse ela, apontando para a maior das cadeiras na borda da mesa. — Mas não sei. Vou ter que falar alto se quiser falar com alguém. Não gosto de falar alto.
Muitos criados entraram no salão e rapidamente serviram os Selecionados e a Princesa.
— Ah, obrigada! — Annie sorriu para a criada que a serviu. Depois se virou para os rapazes. — A comida deles é maravilhosa. Realmente. Não sou uma cozinheira muito boa, sabem? Mas um dia eles me ensinaram a fazer algo chamado cachorro-quente — disse ela, parecendo encantada. — Vocês já provaram? É delicioso.
— A senhorita... costuma passar bastante tempo com os criados? — perguntou o garoto que estava sentado do lado esquerdo dela. Era um garoto alto e em ótima forma, com cabelos cor de areia e olhos verdes. Um Dois.
— Ah, eles são uns amores — ela sorriu. — Ótimas pessoas. O palácio pode ser um pouco solitário às vezes. Qual seu nome?
— Brad — disse o garoto. — Brad Cavanaugh, Alteza.
— Há mais uma coisa que eu gostaria de informar aos senhores — disse a Princesa. — Por mais que tenham me recomendado que eu o fizesse, eu não li os formulários da Seleção de vocês. Nem sequer toquei neles. Portanto, não sei absolutamente nada sobre nenhum de vocês. Pensei que gostaria de conhecê-los pessoalmente, e não através de uma ficha idiota — ela sorriu. — Então... Nas próximas semanas, contem-me o que julgarem apropriado. Surpreendam-me.
Houve um pequeno momento de silêncio antes que Annie se virasse para Charlie.
— Pode me passar o sal, por favor?
Charlie assentiu e desviou o olhar, seguindo o conselho de Jane. Passou o sal à princesa.
— Seu nome? — ela o fitou, calma.
— Charlie Hutton, Alteza.
— É um diminutivo para Charles, suponho?
— Sim, senhorita.
Annie assentiu e continuou comendo. Depois que todos estavam satisfeitos, ela se levantou.
— Foi um prazer conhecer os senhores. Obrigada por comparecerem ao jantar de última hora — ela sorriu. — Durmam bem.
E então apenas se retirou do salão.
— Alteza — chamou Lucius. Ela se virou. — Eu... Me disseram... Chegou os meus ouvidos que a senhorita dispensou Victor Wayland da Seleção.
— Ah, esse era o nome dele? — a Princesa deu de ombros. — É perfeitamente verdade. Aparentemente, o sr. Wayland tirou certas conclusões sobre a minha pessoa que não pude tolerar. Ele já se foi?
— Sim, Alteza.
— Ótimo — e então ela subiu para o próprio quarto.
Encontrou suas três criadas fitando-a com certa expectativa.
— Correu tudo bem — disse Annie. — Mas ainda há muito trabalho pela frente, vocês sabem.
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