A Última Chance
4 Capítulo 4 - Conspirações a Cavalo
Charlie dormiu bem. Afinal, como não dormir bem naquele colchão? Era incrível. No dia seguinte, os Selecionados tinham a manhã livre. A maioria deles se juntou em algum tipo de salão de jogos para jogar sinuca e falar besteira, mas Charlie queria muito testar seu novo violão.
Sua janela dava para um jardim muito bonito que lhe pareceu perfeito, então ele vestiu-se com as roupas mais simples que encontrou — uma camisa branca de botão e jeans —, pegou o violão e desceu para os jardins. Sentou-se em um banco de pedras e começou a calmamente dedilhar no violão uma de suas canções favoritas. Simples e lenta, mas que sempre trazia um sentimento bom.
Charlie fechou os olhos e sentiu a brisa de primavera bater em seu rosto. Acordou de sopetão quando ouviu uma voz ligeiramente conhecida atrás dele:
— Você é muito bom, sabia?
Ele se virou para fitar a Princesa, que estava parada um pouco atrás do banco. O garoto se levantou e pensou em fazer uma reverência, mas não sabia exatamente como, então apenas tentou repetir o que havia visto no dia anterior.
— Alteza.
Quando se levantou, a Princesa estava sorrindo.
— Você não faz ideia do que está fazendo, faz?
Para sua surpresa, ela estava usando uma blusa básica e jeans. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto. Ela ainda estava linda, claro, mas parecia-se mais com uma jovem comum. Por um momento Charlie até se esqueceu de que estava falando com a Princesa de Iléa.
— Como eu estava dizendo — ela o fitou com aqueles olhos azuis bonitos. — Você toca muito bem, sr. Charles.
O garoto se surpreendeu por ela lembrar de seu nome, mas não disse nada.
— Muito obrigado, Alteza.
— Por favor, não pare de tocar por minha causa. Posso sentar-me?
— Longe de mim impedi-la.
Annie sorriu e se sentou no banco de pedras ao lado dele.
— A família de minha mãe é de músicos, sabe. Verdadeiros artistas.
— A senhorita toca?
— Piano, violino... Sabe, você... — ela fez uma pausa, respirando fundo. — Quero dizer, o senhor. Não posso chamar vocês de "você", sabe? — ela parou de falar novamente. — Droga, eu fiz de novo. De qualquer forma, tenho de referir-me aos senhores dessa forma.
— Ou não — disse Charlie antes que pudesse se conter.
— O que disse?
— Quero dizer... — ele recuou um pouco. — Ninguém mais está ouvindo. E a senhorita é a Princesa. Teoricamente, pode chamar-me de como achar que deve. Se quiser me chamar de Pêssego, quem vai impedi-la?
Annie riu um pouco.
— Acho que tem razão, Pêssego.
— Cavei minha própria cova — Charlie fingiu estar desapontado. — Posso fazer uma pergunta?
— Vá em frente.
— A senhorita pode usar calça jeans em dias normais?
A Princesa o encarou por um minuto.
— Sr. Charles — disse ela. — Eu sou a Princesa. Quem vai me impedir?
Charlie sorriu.
— Vocês têm a manhã toda livre hoje? — perguntou ela. Ele assentiu. — Que sorte. Tenho algum tipo de reunião entediante daqui a alguns minutos. Isso me lembra. Não posso usar calça jeans nela. Tecnicamente, não deveria ser vista por ninguém de calça jeans.
O garoto entendeu o recado.
— Ninguém vai ouvir nada de mim. Hoje à tarde temos aula.
— De quê?
— Etiqueta.
A única reação da Princesa ao nome foi uma torcida de nariz, o que não animou Charlie.
— Eles não vão colocar livros em nossas cabeças ou algo do tipo, não é?
Annie riu um pouco.
— Eu duvido muito.
— Afinal, você toca violão?
— Não — ela admitiu. — Nunca tentei, na verdade.
— Eu poderia ensiná-la, qualquer hora dessas — ofereceu ele, surpreso com a própria confiança. — Se quiser, é claro.
Annie sorriu.
— Eu gostaria muito.
— Alteza — disse Lucius na entrada do jardim.
A Princesa revirou os olhos.
— Tenho de ir. Vou cobrar essa aula, hein?
— Eu adoraria se o fizesse.
Quando a Princesa se retirou, Charlie ouviu Lucius dizer a ela:
— Alteza, a forma como a senhorita está vestida é totalmente inapropriada para a reunião e...
— Tudo o que eu ouço é "blá blá blá blá" e... Olha, você trouxe um cupcake!
Charlie sorriu sozinho e voltou a tocar.
* * *
Jasper estava ganhando de lavada uma partida de sinuca contra um garoto cujo nome ele achava ser Michael. Charlie entrou na sala sorrateiramente. Queria falar com alguém sobre a conversa com a Princesa, mas como fazer soar como se não estivesse se vangloriando? Além do mais, era uma competição. Ele podia confiar nos outros rapazes?
— Algum de vocês já falou com a princesa? — perguntou Jasper de repente.
— Não — disse Brad. — Mas estou planejando algo especial.
Todos os outros disseram que não também. Charlie se sentiu melhor ao descobrir que poucos haviam preparado alguma coisa para ela.
— Onde você estava de manhã, Charlie? — perguntou Zack, curioso.
— Tocando violão — disse ele. — E não, não encontrei a princesa.
Depois do almoço, eles se sentaram em volta da mesa de refeições para ter a aula de Etiqueta. Lucius entrou na sala apressadamente.
— Perdão pelo atraso — ele se sentou na ponta da mesa. — Tive de resolver algumas coisas com a Princesa. Vossa Alteza pediu que eu lhes transmitisse a seguinte mensagem: "Não derrube os livros, Pêssego".
Charlie deu seu máximo para não reagir ao recado, mas sorria estupidamente por dentro.
— É só isso? — Jasper ergueu uma sobrancelha.
— Faz sentido para alguém? — Lucius indagou. Todos ficaram em silêncio. — Então, tenho o prazer de informar que a competição começou, rapazes.
Jasper estava voltando para o quarto depois da aula quando viu a Princesa Annabelle andando apressada pelo corredor. Ela estava tão distraída que quase trombou nele, que desviou no último instante.
— Perdão — ela abriu um pequeno sorriso constrangido.
— Sem problemas. Meu nome é Jasper, por sinal.
— Muito prazer, Jasper.
Quando ela estava se distanciando, Jasper a chamou:
— Alteza!
Ela se virou, surpresa.
— Eu estava pensando... — ele reuniu coragem. — Quando a senhorita tiver um tempo livre, talvez pudéssemos cavalgar? É um belo campo que vocês têm aqui, e o clima tem estado magnífico.
A Princesa sorriu.
— Na verdade, tenho um tempo livre agora mesmo. Mas preciso me trocar. Encontro o senhor lá em vinte minutos?
Jasper assentiu, feliz, e observou enquanto a Princesa caminhava para seu próprio quarto. O garoto esperou ela desaparecer, e então correu a toda velocidade para o próprio quarto. Encontrou Piper, uma de suas criadas, arrumando sua pilha de roupas.
— Piper — chamou ele, ainda sorrindo. — Sabe aquelas roupas de montaria que eu lhe falei?
Em menos de quinze minutos, Jasper se dirigia aos estábulos no campo para esperar pela Princesa. Ela se atrasou uns cinco minutos, mas chegou. Vestia trajes de montaria, e seu cabelo ruivo estava preso em uma trança bem-feita.
— Perdão pelo atraso — pediu ela. — Às vezes é realmente difícil fazer as pessoas entenderem que tenho meus próprios assuntos a tratar.
— Uma princesa nunca está atrasada. São os outros que estão adiantados — Jasper sorriu.
Annie ergueu uma sobrancelha.
— Você viu isso naquele filme O Diário da Princesa, não viu?
Jasper riu um pouco.
— É claro que não!
A Princesa sorriu e ele soube que ela não acreditava nele. Ela se aproximou de um dos cavalos, branco e majestoso.
— Esta é a Hope — apresentou ela, fazendo carinho em seu dorso. Depois colocou a sela e subiu rapidamente no animal. — Pode escolher qual quiser.
Jasper se aproximou de um cavalo grande, com pelos castanho-escuros.
— Este é o Billy — disse a Princesa.
Jasper fez um pouco de carinho em Billy antes de colocar a sela e subir. A Princesa disparou na frente com Hope, e Jasper, surpreso, tentou acompanhar.
— Qual é! — gritou ela, sorrindo. — Você pode fazer muito melhor do que isso!
Jasper acelerou o cavalo e logo estava cavalgando ao lado da Princesa.
Annie fitava Jasper de relance às vezes. Era um rapaz muito bonito, seria idiotice negar. Ela gostava de como seus cabelos louros refletiam na luz do sol, parecendo ainda mais dourados, ou do efeito do mesmo em seus olhos azuis.
— Já que a senhorita não leu as fichas — Jasper a fitou. — Está fazendo suas próprias estatísticas? Tipo "Oh, Jasper... Cabelos sedosos. Monta a cavalo. Dois pontos".
Annie riu.
— Quem sabe?
— Porque nesse caso, eu acho que montar a cavalo deveria valer dois pontos, porque acompanhar a senhorita não é exatamente uma tarefa fácil.
— Só para saber, Lucius passou aos senhores o meu recado?
— Sim, Alteza. Mas não pareceu fazer sentido para nenhum de nós.
A Princesa abriu um sorriso distante e disparou com o cavalo novamente.
* * *
Charlie estava ocupado sendo um desastre em sinuca quando Jasper entrou no salão.
— Onde você estava? — perguntou Dennis, erguendo uma sobrancelha.
— Eu... Escuta — Jasper se virou para o resto dos Selecionados. — Nós somos homens, certo? Não somos garotinhas. Não é como se precisássemos ficar inventando intrigas e nos odiando, sabotando. Podemos conviver e ser sinceros um com os outros, não é?
Os rapazes assentiram, fazendo piadas ocasionais.
— Eu estava cavalgando — disse Jasper. — Com a Princesa.
— Imagino como isso aconteceu — Brad soltou um riso levemente debochado.
— É bem simples, na verdade. Eu encontrei com ela no corredor e a convidei.
— E ela disse sim?
— É.
A promessa de sem intrigas não durou muito. Charlie podia ouvir teorias de conspiração ocasionais. A mais comum era o fato de Jasper ser um Dois, e portanto estaria sendo privilegiado. Alguns diziam que ele estava mentindo e não havia visto a Princesa.
Fale com o autor