A Última Chance
12 Capítulo 12 - Prioridades
Notas iniciais
Aquele certamente foi o jantar mais desconcertante da vida de todos os Selecionados até ali. Com destaque especial para Matt Dickens, que começou a chorar antes que Annie terminasse o pronunciamento.
— Hã... — ela parou de falar e o encarou, claramente atônita. — Sr. Matt... Vá para o quarto, sim? Lucius vai dar uma palavrinha com o senhor.
Matt saiu do salão rapidamente, enquanto todos os restantes apenas fitavam o chão num silêncio embaraçoso. Até que a Princesa tornou a falar:
— Se eu chamar seu nome, o senhor também deve deixar o salão. Mais instruções serão dadas por uma equipe do lado de fora.
Charlie não sabia se os outros haviam percebido, mas eram claramente eliminações. Ele podia sentir no tom de voz dela, ou nas pausas para engolir em seco.
Só não sabia que seriam tantas.
— Gabriel Fiday. Peter Jensen. Leo Nyns. Bart Fletcher. Kennedy Dinsenn.
E a lista continuou, até que ela tivesse dito dez nomes. Dez eliminações.
E, simples assim, eles se tornaram quatorze.
Charlie ficou esperando que Annie olhasse em sua direção para que ele pudesse mexer na orelha, mas ela não olhou. Nem uma vez sequer. Parecia distraída demais, como se tentasse convencer a si mesma de que tal coisa estava acontecendo.
Apenas uma pergunta preencheu a mente dos Selecionados restantes nos três dias seguintes: O que os vinte e um eliminados haviam feito de errado? Certamente havia algo. A Princesa certamente tivera um motivo.
Charlie conhecia dois motivos: os modos de Dennis e a invasão de privacidade de Ryder, mas não contou aos outros.
Não porque não quisesse. Queria. Mas então teria de dizer como sabia daquilo. E os outros ficariam se perguntando por que a princesa dissera apenas a Charlie, e ele não estava muito a fim de ser perseguido, ou acordar com o cabelo pintado de azul.
— Sabotagens são proibidas. — lembrou Jasper. — O infrator acaba com seu destino nas mãos da Princesa, que decide se o manda para casa ou não.
— Duvido que ela tenha qualquer paciência com brigas internas dos Selecionados — comentou Charlie, sendo sincero.
— Sabotagens são proibidas se o culpado for estúpido o bastante para ser pego — corrigiu Brad.
— Se você se acha esperto o suficiente, vá em frente — Charlie deu de ombros. — Afinal, há apenas uns seiscentos trabalhadores no palácio, mais os Selecionados e a família real. Com certeza ninguém perceberia. E, como eu disse, Vossa Alteza não hesitaria em mandar o porco infantil que fez alguma sabotagem de quinta série para casa.
— Como tem tanta certeza?
Charlie não estava exatamente com vontade de discutir.
— Porque é verdade, cara. Pode confiar. Ou não. Mas estou falando a verdade.
E estava.
Charlie não via a Princesa há três dias. Estava ocupado com a montanha de tarefas para a visita dos franceses, e nunca a encontrava no jantar.
Imaginou que ela também tinha muito a fazer.
Charlie estava conversando com Jasper, que parecia querer arrancar algo dele. O que fez o moreno querer arrancar alguma coisa também. Só não sabia direito o quê.
— Você a chamou de "você" na frente da nação inteira — lembrou Charlie.
— Você também.
— Você chamou primeiro.
— Você chamou mais vezes.
— Ela te deu permissão?
— Quê?
— Ela disse, especificamente, "Não precisa me chamar de senhorita"?
Jasper franziu o cenho.
— Por que ela o faria?
"Isso é um não", pensou Charlie. "Um não muito defensivo".
— Você gosta dela? — perguntou Jasper de repente.
— Hum?
— Você gosta dela? — ele repetiu, mas Charlie havia ouvido da primeira vez. — Porque eu gosto dela. Gosto muito dela.
— Ela deve gostar de você também.
— Você não respondeu à pergunta.
— Sinto algo. Não sei classificar. Serve?
— Não.
— Onde ela está, falando nisso?
— A pergunta é com quem.
* * *
Annie usou os três dias longe de Charlie para conhecer todos os outros Selecionados. Sua mãe ficou bem mais satisfeita e Lucius pareceu parar de olhar feio cada vez que a Princesa abria a boca. Tudo parecia estar finalmente dando certo.
Até que ela ouviu Charlie tocando violão no jardim.
Precisava falar com ele. Meu Deus, precisava muito falar com ele. Precisava de um assunto. Que assunto? Não havia assunto. Tinha de haver um assun...
O que ela estava fazendo? Censurou a si mesma, afundando a cabeça no travesseiro. Não, ela não precisava falar com Charlie. Não sem razão nenhuma.
Ele estava ocupado. Precisava terminar todos os preparativos para a visita. Bem, não estava TÃO ocupado assim, afinal, estava tocando violão, não estava?
Não sabia exatamente quanto tempo ficara devaneando, mas a música parara.
"Se ele precisar falar comigo, vai me procurar", ela disse a si mesma.
Foi quando ouviu uma batida na porta.
* * *
Charlie estava conversando com as criadas. Estava sem sapatos e com o cabelo mais despenteado do que o normal. Sua camisa estava abotoada errado e ele estava jogado na própria cama. Parecia-se muito com o Charlie Pré-Seleção em sua casa.
— Essa visita é importante para ela — disse Jane, séria. — Não se admire se ela sumir no meio. Algumas coisas não serão exatamente fáceis para ela.
Charlie assentiu, mesmo sem ouvir direito o que Jane estava dizendo. Sua cabeça estava bem longe dali.
— Não sei exatamente sobre o que você está falando, mas tentarei ajudar Annie na medida do possível.
As três criadas arregalaram os olhos e ele demorou um momento para perceber o que dissera. Tentou consertar, mas não havia conserto.
— O senhor a chamou de Annie — Reyna arregalou os olhos.
Jane tinha outras prioridades.
— Vossa Alteza pediu que a chamasse assim?
Charlie assentiu, relutante.
— O que tem?
— Senhor Charlie. Ninguém a chama assim, com exceção de seu pai. Ninguém. É algo muito pessoal para ela.
— Ela deve confiar muito no senhor — concordou Leah.
— Bem... Não é nada tão dramático. Ela pediu que eu a chamasse de Annie. Eu pedi que ela me chamasse de Charlie. É isso. Mas é sério? — ele fitou as moças, surpreso. — Ninguém a chama de Annie?
— Ninguém desde... — a voz de Jane falhou. — Faz dois anos, mais ou menos, desde a última vez que ouvi alguém fora da família a chamar assim.
Dois anos. A mente de Charlie ligou os pontinhos rapidamente.
Jane encarou o rapaz por um minuto, tentando entender o surto de esclarecimento que se passara em seus olhos. Não era possível que a Princesa... Meu Deus. Era possível, sim.
— Ela te contou! — disse a moça, parecendo mais surpresa do que irritada. — Meu Deus. Ela contou, não foi?
Charlie enrubesceu, mesmo sem saber por que, e assentiu.
— Não contou tudo. Só o início e o fim. A primeira e a última página do livro.
— O senhor aprenderá — ela suspirou. — que algumas coisas na vida da Princesa são mais agradáveis se o senhor não tentar descobrir.
— Quero entender. Preciso entender.
— Jamie a machucou muito, senhor, não há...
— Então esse é o nome dele!
Jane bufou, derrotada.
— Não vou contar nada ao senhor.
— Ótimo — ele suspirou e saiu correndo para fora do quarto, tropeçando nas meias.
Na lista de Annie de Coisas que Não Espero Encontrar Quando Abro a Porta de Meu Quarto, podemos citar:
A) Unicórnios
B) Lucius de saia
C) Príncipe Edwin
D) Charlie sem ar por causa de uma corrida, com os cabelos totalmente bagunçados, sem sapatos e com a camisa abotoada errado
E ela realmente achava que unicórnios eram a opção mais provável. Até encontrar Charlie sem ar por causa de uma corrida, com os cabelos totalmente bagunçados, sem sapatos e com a camisa abotoada errado em sua porta.
Ele mexeu na orelha levemente e Annie deu licença para que ele entrasse.
Eles se sentaram no chão, encostados na cama dela. A moça tentava arrumar o cabelo do rapaz enquanto falava.
— Não vamos discutir isso.
— Você pede que eu a chame de Annie. A última pessoa a quem você fez esse pedido foi o garoto que quebrou seu coração. Isso quer dizer que...
— Não — ela respondeu rapidamente, como se soubesse o que ele estava pensando. — Você não tem nada a ver com o Jamie. Esse é o ponto. Depois daquilo, eu não conseguia ouvir "Annie" sem lembrar dele. Lembrar de como o nome soava na voz dele. Mas sempre gostei muito desse apelido, e não queria que ele ficasse marcado por pessoas ruins. Foi então que se tornou sagrado. Só pessoas que eu confio de verdade podem me chamar de Annie.
Charlie piscou, atônito.
—... Então, é, eu confio em você esse tanto, Charles. É isso. Feliz agora?
Ele assentiu, surpreso.
— Você se importa comigo? — perguntou ela, encarando-o.
— Claro que me importo com você.
— Então vá estudar para a droga de visita. Não sei se teria condições de mandar você para casa, então não me faça fazer isso. Por favor, não faça besteira, Charlie.
— Posso sentir a confiança que Vossa Alteza tem em mim.
Ela suspirou.
— Certo. Desculpe. Apenas... Faça o que Lucius pediu, está bem?
Charlie assentiu e deixou o quarto.
Annie passou o resto do dia com Jasper, que se oferecera para ajudá-la com as cartas da Seleção.
— É muito legal que a senhorita esteja mesmo lendo as cartas do povo — ele sorriu, olhando para ela quando estavam sentados no sofá, com uma pilha de cartas entre eles.
— Eu prometi ouvi-los, não foi? O que essa aí diz?
— Margareth Winson, de Carolina, acha que o sr. Jasper é cortês, bonito, inteligente, decente e bom. Também escreveu que ele seria um ótimo rei.
Annie revirou os olhos, sorrindo por causa da indiferença fingida com a qual Jasper disse aquilo. Não dissera a casta da moça, pois a Princesa pedira ao povo que não as identificasse na carta. Não se importava com a renda de quem criticava. Um daqueles quatorze rapazes seria rei de todas as castas, mesmo.
— Pode colocar na pilha do sr. Jasper, então.
A pilha do sr. Jasper era uma das maiores. Algumas pessoas o julgavam por ele ser um Dois. Pareciam estar cansadas da nobreza reinando, mas Annie não estava preocupada com isso. Jasper nunca tirava vantagem de sua condição. Ele era sempre Jasper. E não "Jasper, um Dois". Olhou para ele por um minuto, tentando imaginá-lo como "Jasper, o Rei".
Não era tão difícil, na verdade. Havia algo nele que sempre parecia confiante — porém não arrogante — e reluzente. Algo capaz. Algo bom.
Vê-lo como "Jasper, seu marido" era um pouco mais difícil. Parecia algo bem mais pessoal — de fato, era, mas...
Jasper parecia sempre distante. Era como se ela visse apenas um garoto gentil, uma camada fina por cima do Jasper de verdade. Ela percebeu que gostaria de conhecer o Jasper de verdade, e ficou imaginando se ele a deixaria conhecê-lo.
Mas não queria pedir. Imaginou que ele se sentiria mais confortável com o tempo, assim como ela.
* * *
A noite de sexta-feira chegou rapidamente. Annie estava nervosa. Falariam sobre a tarefa dos cinco Selecionados e dela própria. Tudo sobre a visita francesa.
O Selecionados ficariam apenas sentados lá. Talvez Gavril lhes dirigisse algum comentário ou algo do gênero, mas não tinham com o que se preocupar.
Ela estava sentada em sua poltrona, mexendo nervosamente em seu colar. Não havia pingente. No corrente fina de ouro havia uma inscrição em francês: "Je m'en vais chercher le grand peut-être".
Abaixou a cabeça, esquecendo-se de que estava com a coroa — consequência de quase não usá-la (coisa que não agradava em nada sua família, ou Lucius) —, que caiu no chão.
— Oh! — ela deixou escapar, agradecida por ainda não estarem gravando.
Antes que pudesse abaixar-se para pegar, alguém lhe entregou a coroa em suas mãos.
Jasper.
— Obrigada — ela sorriu, colocando a coroa de volta.
— Está um pouco torta — ele torceu o nariz e arrumou para ela, sorrindo levemente. — Pronto, aí está.
— Obrigada... de novo. Meu Deus, não estou nada bem hoje.
— Por quê?
— Nervosa, só isso... Ansiosa por amanhã.
— Não deveria estar. Tenho certeza de que todos os franceses adoram a senhorita.
— Ah, é?
— Bem, eles seriam grandes idiotas se não adorassem — Jasper deu de ombros, sorrindo de forma acanhada.
A imagem de Jamie veio à mente dela e o sorriso desapareceu.
— Eu disse algo errado? — perguntou Jasper, preocupado.
— De forma alguma — Annie balançou a cabeça, tentando voltar ao mundo real. — Como eu disse, não estou muito focada hoje.
— Bom... Só vim desejar boa sorte — ele beijou de leve a mão dela. — Boa sorte.
— Obrigada.
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