A viagem do tigre - Pov dos tigres

14 O templo de Durga - Kishan


Ren e Kelsey terminaram. Foi como na minha visão em Shangri-la. Foi por iniciativa do meu irmão e ele partiu o coração dela.

Eu não os ouvi conversando, não sei o que Ren disse a ela, mas Kelsey estava triste. Ela não sorria, não comia e sempre que podia, ficava sozinha em algum canto.

Eu resolvi dar um tempo a ela, não impor minha presença, exceto pela alimentação. Eu não queria que ela ficasse fraca, então cuidava para que ela se alimentasse, mesmo quando ela alegava estar sem fome.

Ren também preferia a solidão. Ele evitava a presença de todos, principalmente a de Kelsey, e sequer participou das aulas de mergulho naquela semana.

Em uma manhã, fui procurar por Ren. Depois de muito tempo, encontrei o tigre branco e fui falar com ele.

Avisei que me mudaria para o quarto ao lado de Kelsey e perguntei se ele realmente não se importava. O tigre branco bufou e virou o rosto para o outro lado. Eu continuei:

— Ela está sofrendo Ren. E você também. É isso mesmo que você quer?

Ren deitou a cabeça sobre as patas e fechou os olhos. Eu o observei em silêncio por algum tempo.

— Eu a amo Ren, e faria qualquer coisa por ela. Eu prometi a ela que iria me afastar até que eu tivesse a certeza de vocês não estarem mais juntos. Eu não gosto de vê-la sofrer e não acho que você a mereça. Eu farei o possível para conquistar o amor de Kelsey e ela vai ser minha.

Sai dali e fui procurar por Kelsey. Ela não estava em seu quarto. Fui até à piscina e encontrei Wes arrumando algumas coisas por lá. Ele me disse que Kelsey tinha ido à cidade com Kadam.

Fui ao meu quarto e busquei as minhas coisas. Então fui ao antigo quarto de Ren e deixei as coisas lá. Encontrei Nilima no escritório e ela me disse que Kadam e Kelsey tinham ido à cidade comprar objetos para oferecer à Deusa Durga, pois naquela noite visitaríamos o templo Sri Mangaladevi, perto de Mangalore. Meu peito se encheu de alegria. Nós iríamos ao templo e eu veria a bela Deusa novamente. Comecei a ficar ansioso.

Eu nunca fui devoto de Durga. Na verdade nunca tinha sido religioso. Eu era um homem prático, de ação. Mas havia algo na presença daquela deusa que me fazia sentir diferente. E a beleza dela era um bônus. Não havia mulher nenhuma no mundo inteiro, mais bela que Durga.

Na hora combinada, fui à garagem e encontrei Kelsey carregando a mochila onde estavam as oferendas. Eu levava os presentes e armas de Durga. Abri a porta do jipe e Kelsey entrou no banco do carona. Eu fui para o banco de trás. Ren chegou pouco tempo depois e sentou-se a meu lado. Ele olhou rápido para Kelsey, mas desviou o olhar. Seguimos em silêncio até a cidade.

Chegamos ao templo e estacionamos na parte dos fundos. O prédio estava bem iluminado. Kadam garantiu que tinha providenciado para que ficássemos sozinhos e que era normal o templo permanecer iluminado naquela época do ano.

Passamos pela porta destrancada, entramos no templo e atravessamos vários portais. Kadam nos conduziu pelo corredor até chegarmos a uma espaçosa área aberta. Na extremidade mais distante do salão, iluminada de todos os ângulos possíveis, havia uma estátua dourada de Durga sentada num trono também dourado.

Meu coração batia acelerado e eu estava ansioso pelo encontro com a Deusa. Algo nos templos de Durga mexia comigo. Eu não sabia dizer o que era, mas ali, como no templo anterior, eu me sentia seguro, forte, como se eu merecesse tudo e tudo me seria dado. Era uma sensação boa.

Kadam tinha esperança de ficar desta vez, mas estava pronto para se retirar a qualquer minuto. Kelsey retirou as oferendas da mochila e colocou aos pés da deusa. Em seguida, colocou um pedaço de tecido no colo da estátua, olhou ao redor e pareceu preocupada.

—As coisas podem ficar um pouco agitadas, por isso, tomem cuidado.

Eu balancei a cabeça e Kelsey se abaixou, tocando os sinos de sua tornozeleira. Em seguida ela se ergueu e tocou o amuleto em seu pescoço e estendeu a mão para mim. Eu dei um passo à frente e segurei sua mão. Ela estendeu a outra mão para Ren, mas ele passou para o outro lado de Kadam, que então segurou a mão de Kelsey.

—Deusa Durga, voltamos mais uma vez para pedir a sua bênção ao iniciarmos esta terceira busca. Ajude-nos a quebrar a maldição que se abateu sobre estes homens e a derrotar o malfeitor que a lançou sobre eles.

Ela apertou minha mão, então dei um passo a frente:

—Linda deusa, por favor, apareça para nós mais uma vez e nos conceda as ferramentas necessárias para vencermos aqueles que nos impedem de encontrar o seu prêmio.

Kelsey olhou para Ren, que começou:

—Viemos aqui em busca de sua sabedoria e de sua força. Por favor, nos ajude em nosso momento de necessidade.

—Senhor Kadam? Gostaria de dizer alguma coisa?

—O que eu digo?

—Diga em que gostaria que Durga ajudasse.

Ele refletiu por alguns segundos.

—Ajude-me a acudir os meus... príncipes e pôr fim a seu sofrimento.

—Certo. Agora, vocês dois, por favor, transformem-se em tigres.

Nós dois nos transformamos, mas nada aconteceu. Kadam perguntou:

—O que costuma acontecer na sequência?

—No instante em que eles se transformam em tigres, começa algum tipo de abalo ou de terremoto ou de vento terrível.

—Talvez minha presença esteja atrapalhando.

—Acho que não.

—O que mais há de diferente além da minha presença?

—A estátua é dourada, não é de pedra. Tanto Ren quanto Kishan estão aqui. Antes, era só um deles.

—Vocês sempre se deram as mãos daquele jeito?

—Sim.

—Vamos tentar outra coisa antes de abandonar este templo. Kishan e Ren, deem as mãos para a Srta. Kelsey que eu vou ficar um pouco para trás desta vez.

Voltamos à forma humana e seguramos à mão de Kelsey, embora Ren estivesse relutante. Nós três repassamos nossos pedidos bem rápido mais uma vez, e então nos transformamos. De repente o salão sacudiu. Ren voltou a ser homem logo antes de Kelsey cair contra seu peito. Ele a segurou. Um vento varreu o templo e o piso voltou a se mover. Os dois bateram em mim e nós três rolamos no chão.

Começou a pingar água da estátua. No início, era um fiozinho, mas logo algo pareceu estourar e uma enxurrada se derramou e fez poça no chão. Um rio correu para dentro do templo, vindo de todas as portas.

um vento forte começou a varrer o templo. Exatamente quando as luzes se apagaram, gotas de chuva atingiram nosso rosto. Logo, nossos pés não estavam mais encostando no chão. Não tínhamos opção além de nadar na água escura à medida que as ondas iam ficando maiores. Ren berrou:

—Kelsey! Agarre a minha camisa! Não solte!

Kelsey gritou quando eu segurei sua perna:

—Sou eu!

—Kishan? Precisamos encontrar o Sr. Kadam!

Nós três ficamos lá nadando por cima das ondas altas enquanto chamávamos por Kadam. Finalmente escutamos sua voz:

—Estou aqui.

Ren deixou Kelsey comigo e saiu para buscar Kadam e trazê-lo para perto de nós.

Logo o vento abrandou e as ondas se acalmaram. Ouvi um som de sucção e de drenagem. Depois de alguns minutos, Ren disse que já conseguia ficar em pé. Não demorou muito para que Kelsey também conseguisse, e nós quatro nos encolhemos juntos na escuridão, molhados e desconfortáveis.

—Eu devia ter feito mais perguntas antes de resolver acompanhar vocês três—comentou Kadam, dando risada.—Talvez eu decidisse deixá-los fazer isso sozinhos.

A água já tinha quase ido embora, e eu fui buscar as mochilas do outro lado da sala. Usando um bastão fosforescente, fui procurar a marca perto da estátua. Uma marca de mão tinha aparecido no trono, onde antes não havia nada.

—Kelsey! Aqui!

—Certo. Afastem-se.

Fui um pouco para trás e Kelsey tocou a marca, lançando nela seu poder de raio. Eu a puxei para trás quando a estátua começou a mudar. Uma chuva suave começou a cair, enquanto a estátua começou a derreter. O trono também derreteu e se transformou em um trono de coral incrustado de conchas, estrelas-do-mar e joias. Dos braços de Durga pingava água da chuva, e dois deles começaram a se mover.

A deusa tirou gotículas de água dos braços e, onde ela enxugava, sua pele iridescente iluminava o salão o suficiente para que nós a enxergássemos com clareza. Sua pele tinha um brilho perolado de alabastro que ia mudando conforme ela se movia, reluzindo com azuis, verdes e púrpuras. Ela se virou de leve, e um raio de luz espetacular fez com que fechássemos os olhos por um segundo. Durga empurrou para longe o pedaço do adereço de cabeça dela que tinha sobrado e colocou o cabelo para trás na chuva, como se estivesse tomando um banho de chuveiro. Ela parecia ainda mais linda que da última vez, e eu não conseguia parar de olhar para ela.

Com uma voz tilintante, Durga deu risada.

—Ah, Kelsey, minha filha. Suas oferendas foram aceitas.

As oferenda tremeluziram e desapareceram. Durga olhou ao redor e falou com naturalidade:

—Ah, mas vocês estão todos desconfortáveis. Deixem-me ajudar.

Ela bateu palmas com um par de mãos e, quando as afastou, um arco-íris apareceu. Ela o cutucou e ele se contorceu na nossa direção como uma cobra, nos rodeando. Em pouco tempo estávamos limpos e secos. O arco-íris fez voltas ao redor de Durga também antes de se dissipar, deixando-a seca, com lábios vermelho-coral e bochechas rosadas. Ela fez sinal para que Kelsey se aproximasse. Então Fanindra ganhou vida e deslizou para o pulso da deusa, que falou enquanto acariciava a cobra:

—Também estou com saudade de você.

Ela pegou o pedaço de seda e o apertou contra o rosto. Apontando para o tecido, ela disse:

—Vamos falar sobre isto em breve. Mas, primeiro, preciso ser apresentada a alguém.

—Sim. Este aqui é o Sr. Kadam

Kadam se aproximou e ajoelhou-se no chão.

—Por favor, levante-se e fale comigo—disse ela.

Ele se levantou, juntou as mãos e fez uma mesura.

—Fico contente por ter vindo me ver. Já fez muitos sacrifícios e terá que sacrificar ainda mais. Está disposto a fazer isso?

—Eu sacrificaria qualquer coisa pelos meus filhos.

Durga sorriu para ele.

—Muito bem. Se pelo menos houvesse mais homens, mais pais como você... Percebo que tem muito orgulho deles e que são sua fonte de alegria. A maior bênção e a maior satisfação que um pai pode ter é passar os anos criando os filhos e então ver os resultados gloriosos: descendentes fortes e nobres que se lembram de suas lições e que vão transmiti-las aos seus. Isso é o que todo bom pai deseja. O seu nome será lembrado com muito respeito e amor.

Eu ainda a encarava, encantado, quando Durga virou-se para mim:

—Meu tigre de ébano, chegue mais perto.

Ela estendeu a mão para mim e eu a beijei. A Deusa me olhava no rosto e eu retribuí o olhar intenso, então ela sorriu para mim.

—Isto é para você—disse Durga.

Ela pegou do próprio pescoço um colar fino e o colocou-o ao redor do meu. Havia um caramujo pendurado na ponta.

—O que é isto?— perguntei.

—É um kamandal. Uma vez mergulhado no mar de leite, nunca irá se esvaziar.

Eu me curvei.

—Obrigado, minha senhora.

—Tigre branco, venha até mim.

Ren parou do meu lado.

—Tenho algo para você também.

Outro braço se materializou em suas costas para entregar a Ren uma arma. Ela virou a faca e separou suas lâminas Depois de voltar a juntá-las, Durga torceu o cabo até as pontas rolarem e a cabeça girar. O cajado se estendeu e se transformou num tridente. Ela o apontou para longe e apertou uma ponta. Uma lança comprida e fina disparou da ponta central e se enterrou na parede de pedra. Uma lança sobressalente se materializou. Ela torceu o cabo mais uma vez e a arma retornou à sua forma menor. Ren a pegou da mão dela e ficou maravilhado com o objeto de ouro.

—Isto se chama trishula, ou tridente.

—Obrigado, deusa.

Ren recuou e não disse mais nada. Durga o examinou por um momento, pensativa, e então se voltou para Kelsey com um sorriso.

—Agora eu gostaria de falar a sós com a minha filha.

Todos assentimos...

—Vamos esperá-la no carro, Srta. Kelsey. Temos muito tempo antes de precisarmos retornar ao iate.

Ficamos esperando do lado de fora. Ren permanecia calado, mas Kadam começou a comentar sobre a Deusa Durga:

—A Deusa é muito impressionante—disse ele.

—Realmente Kadam, ela é perfeita. Seus olhos verdes, os cabelos negros e a boca tão vermelha. Eu não consigo parar de olhar quando ela aparece.

Kadam riu:

— De fato Kishan, a Deusa é muito bonita.

— Sim. Ela é a mulher mais bonita que eu já conheci.

Ren me olhou com raiva e falou:

—Discordo. Eu conheço uma mulher mais bela que a Deusa. Espero vocês no jipe.

Kadam disse que também iria aguardar no carro, mas eu fiquei na porta do templo. Então senti o cheiro de Kelsey e de flor de lótus, e ouvi seus passos. Senti meu peito se encher de alegria. Eu realmente amava aquela mulher.

Kelsey usava um colar de lótus e era linda. Quase tão bela quanto Durga. Ela estava distraída e se assustou quando segurei seu cotovelo.

—Está tudo bem com você?

—Está. Não precisava ter esperado por mim, Kishan.

Eu beijei sua testa.

— Claro que precisava. Venha. Os outros estão no carro. Vamos voltar para o iate.

Quando chegamos ao barco, Ren entregou o tridente a mim antes de desaparecer de novo.