Depois da visita ao templo, me senti pronto para encarar Kelsey novamente. Então na manhã seguinte, com o iate já em movimento, encontrei Wes. Ele me disse que veríamos um vídeo sobre ataques de tubarão. Kishan se juntou a nós e Kelsey chegou depois.

Wes começou a dizer o que deveríamos fazer para não chamar a atenção de tubarões quando estivermos na água.

— Não usem roupas coloridas e chamativas. Tons neutros são melhores, como a roupa de mergulho de vocês. Uma cor chamativa parece escama de peixe na água.

Lembrei-me do maiô vermelho que Kelsey usava e falei do fundo da sala:

—Vamos providenciar um maiô preto para você no próximo porto.

—Que fique claro que foi você quem insistiu para que eu comprasse um maiô colorido.

—Fico feliz de saber que não vai mais usar aquele. Ele é... provocante demais.

Não pude deixar de lembrar das curvas dela, acentuadas pelo maiô, e a sua pele branca contrastando com o tecido vermelho de forma sedutora. Kelsey me olhou de cara feia:

—Você não tem mais o direito de escolher o que faço da minha vida, está lembrado? E se eu quiser provocar alguém, vou provocar.

Eu tinha me esquecido que deveria evitar Kelsey e manter a distância. Era muito difícil não interagir com ela quando estávamos perto.

—Ótimo. Provoque todos os tubarões, então. É esse o seu objetivo?

—Você ia gostar bastante disso. Certamente seria bem mais fácil para você se algum tubarão gigante acabasse comigo. Isso resolveria todos os seus problemas, não é mesmo?

Kishan nos interrompeu depois de dar uma cotovelada no meu braço.

—Ninguém quer que você seja devorada por um tubarão gigante, Kells. Nem mesmo Ren.

Wes explodiu numa gargalhada.

—Caramba! Vocês estão soprando mais ar quente que um tornado ao redor de um vulcão no Hades. Vão derreter todos os rebites que seguram este iate.

—Desculpe, Wes, mas ele começou—falou Kelsey, irritada.

—E vou ficar mais do que contente de terminar.

—Então tenta, seu teimoso...

Eu dei um sorriso irônico e retruquei:

—Inflexível.

—Turrão!

—Irracional!

—Cabeça-dura, cabeça de bagre, cabeça de tigre...

—Cabeça de tigre?—perguntou Wes, confuso.

Kishan só deu de ombros e Kelsey continuou:

—Seu insensível, calculista, cruel... sem coração!

—Tudo bem! Use o que você quiser. Nade pelada que eu não estou nem aí! Qualquer tubarão que comesse você provavelmente ficaria com dor de barriga mesmo e iria cuspi-la na mesma hora.

—Rá! E aí vocês dois teriam muito em comum, não é mesmo?

Meu coração se encolheu ao ouvir aquilo. Eu não gostava de saber que era assim que ela se sentia: cuspida, rejeitada por mim. Mas eu estava fazendo aquilo para o seu bem. Wes jogou as mãos para cima:

—Eia, eia. Vamos fazer uma pausa e esfriar a cabeça. Nilima deixou uns sucos no bar, então, por que vocês não vão lá tomar um negocinho, resolvem o assunto e voltam daqui a cinco minutos?

Kelsey saiu batendo os pés e eu sai logo atrás. Ela colocou as mãos sobre a bancada de sucos e respirou fundo. Eu resolvi falar com ela. Estiquei o braço para pegar uma bebida e encostei nela levemente, para chamar sua atenção.

—Por que você precisa tornar as coisas tão difíceis, Kelsey?

—Por que você precisa?

—Acredite se quiser, mas estou tentando tornar tudo mais fácil.

—Aliás, por que você está aqui? Achei que estivesse me evitando.

—E estou mesmo. Mas preciso aprender sobre os tubarões.

Ela bebeu um pouco de suco e então disse:

—Por acaso um predador já não sabe tudo sobre os outros predadores e sobre como eles pensam? Talvez, se eu prestar muita atenção, eu finalmente consiga entender você.

—É fácil me entender. Um tigre só precisa de três coisas para ficar bem: muita comida, sono e... na verdade, são só essas duas coisas.

Ela deu uma gargalhada de desdém.

—Por algum motivo, não acho que Kishan fosse se limitar a apenas essas duas coisas.

—Tenho certeza de que não.— Respondi tenso, rancoroso.—Ele provavelmente iria adicionar você à lista dele.

—Por que ele iria precisar de mim, uma garota irracional e feia?

—Eu nunca disse que você era feia, mas que iria procurar alguém mais bonita. Também não disse que iria encontrar alguém mais bonita, só que iria procurar.

—Bom, então, por que ainda não procurou? Vá logo atrás dela e me deixe em paz.

—Esse é o meu plano. Agora, pare de me provocar durante a aula para que eu possa aprender alguma coisa.

Voltamos para a aula e Kelsey sentou-se ao lado de Kishan. Ela tentou me provocar algumas vezes mas eu a ignorei. Eu queria prestar atenção na aula para aprender ao máximo, caso fôssemos mesmo enfrentar um tubarão.

Depois da aula, Kishan e eu saímos para pescar com Wes. Ele nos ensinou a pescar com arpão, nós conversamos, rimos. Foi bom para relaxar.

Voltamos para o barco e eu fui para o meu esconderijo. Antes, fui para a sala secreta de refeição dos tigres, me transformei e me alimentei. Eu não iria me juntar aos outros na sala de jantar. Não queria voltar a ver Kelsey naquele dia. Ainda era difícil para mim, ter que tratá-la mal ou com indiferença, quando tudo o que eu queria era estar com ela e fazê-la feliz.

Mais tarde, resolvi dar uma volta no iate. Então eu vi Kishan e Kelsey encostados na amurada do barco. Kelsey ria e apontava para alguns golfinhos que nadavam ao lado do barco. Eu me escondi para observá-los. Kishan se inclinou para a frente na amurada, olhou para Kelsey e então respirou fundo e voltou a fitar a água.

—Eu estava pensando numa coisa. Você está mesmo cogitando ir àquela festa com Wes? Porque não acho que seja uma boa ideia.

—Por que não?

—Não confio nele.

Ela riu.

—Você por acaso não acabou de ir pescar com ele usando arpões? Ele poderia ter feito espetinho de Kishan, mas não fez. Então você obviamente confia nele.

—Eu confio nele, sim, para mergulhar, só não confio nele com você. Ele é... espertinho demais. Exagera com os elogios. E é petulante. Esse tipo de homem tira vantagem de mulheres vulneráveis. Ele não é para você.

—E como você poderia saber que tipo de homem ele é? E, o mais importante, o que o faz pensar que eu seja vulnerável?

—Kelsey. Ren acabou de terminar com você, e ainda está magoada por causa disso. Você está vulnerável.

—Bom, vulnerável ou não, ainda sou responsável pelas minhas escolhas. Vocês, tigres, não podem planejar todos os aspectos da minha vida. Se eu quiser ir com Wes, eu vou.

—Eu sei disso. Só... não achei que já estivesse pronta para seguir em frente.

—Parece que é justamente isso que preciso fazer.

Senti uma pontada de dor ao ouvir aquilo. Não física. Minhas emoções estavam confusas. Era o que eu precisava que ela fizesse: seguisse em frente. Mas não era o que eu queria.

—Isso não significa que esteja pronta, Kelsey.— Disse Kishan.

—Durga me aconselhou a continuar pulando de uma pedra para outra. Ela disse que objetivo da vida é atravessar o rio. Ela não quer que eu fique estagnada na lama. Então acho que é melhor seguir em frente.

Kishan ficou em silêncio durante vários segundos e então disse:

—Tem certeza de que está preparada para dar este salto?

—Como jamais vou estar.

Ele se virou para olhar para Kelsey e pegou suas mãos.

—Então... quero que considere a possibilidade de ir comigo.

Então meu irmão iria tentar conquistar Kelsey...

—Ir com você?—Ela parecia assustada.—Não posso ir com você.

—Por que não?

—Porque... bom... Wes me convidou primeiro. Seria falta de educação aceitar o seu convite depois de ele falar comigo.

Kishan refletiu e assentiu para mostrar que compreendia.

—Mas estarei lá, de qualquer maneira—continuou ele.—Não vou interferir, mas vou me sentir melhor se puder ficar de olho em você. Como eu disse, Wes é espertinho demais. Aliás, tenho certeza de que o lugar vai estar lotado de homens espertinhos... e metade deles vai tentar colocar as mãos em você.

—Acho que está exagerando.

—Não está lembrada do Festival das Estrelas? Tinha uma fila tão grande de caras querendo dançar com você que dava a volta no quarteirão.

—Agora está exagerando mesmo. Você dançou comigo quatro vezes.

—Furei a fila.

Kelsey deu risadas.

—Vamos, Kishan. Você pode me acompanhar até o quarto.

Eles caminharam em direção a seus quartos. Eu fiquei ali, triste, pensando que era hora de dar adeus à Kelsey. Ela estava pronta para seguir em frente e meu irmão estava pronto para conquistá-la para si. Resolvi que também iria àquela festa.

Na manhã seguinte encontrei Nilima e ela me convidou para ir ao luau na praia de Trivadum, nossa próxima parada. Ela mencionou que Kelsey acompanharia Wes e Kishan também iria. Eu disse a ela que talvez aparecesse por lá. Então, aquela seria a festa onde Kelsey começaria a “seguir em frente”. Eu tinha planos de tornar esta tarefa mais fácil para ela.

Saí antes de todos e fui à praia. Havia poucas pessoas no local e eu comecei a circular para avaliar a situação. Alguma mulheres bonitas começaram a me olhar. Fiquei um pouco sem jeito no início, mas logo relaxei. Comecei a me aproximar de uma ou outra garota, apenas para ver como elas reagiam. Havia mulheres de todos os tipos, indianas e muitas estrangeiras. Loiras, morenas, ruivas. Todas usavam pouca roupa ou apenas biquíni. Algumas vinham falar comigo por iniciativa própria, mesmo se eu já estivesse falando com alguém.

Kishan passou por mim algum tempo depois. Eu estava falando com algumas garotas e ele ficou me encarando de longe. Havia reprovação no seu olhar, mas ele se foi sem dizer nada. Eu estava me divertindo, embora nenhuma daquelas garotas me interessasse de verdade. Elas se insinuavam para mim, mas eu não sentia vontade de ficar com nenhuma delas. Então ela chegou.

Vi Wes primeiro. Ele estava falando com um homem que abriu um carrinho de sorvete. Ele conversou com alguém e depois riu animado. Em seguida, caminhou para a pista de dança, puxando esta pessoa pela mão. Então, os dois começaram a dançar e eu vi que quem o acompanhava era Kelsey.

Meu coração disparou. Ela era a mulher mais bonita do lugar. Enquanto a maioria das mulheres ali usava roupas provocantes, Kelsey estava elegante, com um bonito vestido de alças, bege com detalhes pretos. Ela era mais sensual do que qualquer uma das mulheres de biquíni que me rodeavam, desesperadas pela minha atenção. Senti inveja de Wes. Senti ciúmes. Meu primeiro impulso foi o de ir até eles e socá-lo, depois, puxar Kelsey pela mão e sair dali com ela, tocar nela, beijá-la, tomá-la para mim.

Então eu despertei do meu devaneio quando uma mulher, mais provocante do que as outras, me chamou. Ela era bonita, mas nem se comparava a Kelsey. Na verdade, elas eram completamente diferentes.

Randi era loira, muito magra e produzida. O tipo de mulher que parecia uma modelo saída de uma revista de moda. Ela usava um biquíni muito pequeno e uma sandália de salto muito alto. Mesmo estando em um luau na praia, seu cabelo estava arrumado e ela estava maquiada. Não era bem o tipo de mulher que me interessava, mas era o tipo de mulher com quem eu precisava estar.

Fui com ela e as outras garotas para um lugar onde eu pudesse ser visto. Passei a dar mais atenção a elas, rindo e flertando com cada uma. Comecei a dançar com uma bela morena de cabelos curtos e ela se inclinou para falar no meu ouvido. Eu me abaixei para ouvi-la me dizer que queria sair dali comigo. Mas eu ainda não podia ir. Kelsey precisava me ver.

Uma outra morena, de cabelos compridos, tocou o meu braço e fez biquinho, dizendo que era sua vez de dançar. Eu me virei para dançar com ela e percebi Kelsey me olhando. Eu fingi que não a vi, e toquei o rosto da mulher a meu lado. Então Randi se aproximou atrevida e disse que agora era sua vez, e que não me dividiria com ninguém, pelo resto da noite.

Eu a abracei pela cintura e sorri, impressionado com seu atrevimento. Ela estendeu a mão para tirar o cabelo de cima do meu olho e eu senti um pouco de ternura por causa desse gesto. Lembrei-me de Kelsey. Senti vontade de tocá-la. Não a Randi, mas Kelsey. Olhei para o lado e vi Wes puxando-a para longe dali. Randi virou meu rosto para si e me beijou.

O beijo dela era quente, molhado, insistente, erótico. Fez com que eu me sentisse vivo e esquecesse minha dor por alguns segundos. Eu gostei. Eu precisava daquilo. Respondi ao beijo com entusiasmo e Randi ficou mais atrevida. Quando nos separamos, ela me deu um sorriso sensual e disse que iria me levar para casa, prometendo uma noite inesquecível, depois saiu para buscar suas coisas. Olhei para a frente e vi que Kelsey tinha sumido na multidão.

As outras garotas também tinha se afastado e de repente, eu estava sozinho. Senti um vazio e uma profunda tristeza. Então uma voz conhecida me chamou pelo nome. Era Nilima. Ela estava bonita, usando um sari amarelo e com os cabelos negros caindo pelas costas. Eu sorri para ela e disse que estava linda. Ela agradeceu.

— Você viu a senhorita Kelsey e Wes? — Perguntou ela.

— Não. — respondi friamente — Eu não os vi.

— E Kishan? Ele me disse que também viria. Tinha esperança de encontrá-los e que todos nós poderíamos nos divertir juntos.

— Eu vi Kishan mais cedo, mas não tornei a vê-lo. Não está gostando da festa Nilima?

— Esse não é meu tipo de festa. Acho que vou voltar para o iate.

— Não sem antes dançar uma música comigo.

— Eu adoraria!

Ela sorriu e estendeu os braços, no momento em que começava a tocar uma música lenta. Eu a girei depois aproximei nossos corpos e coloquei a mão em suas costas. Ela levantou a cabeça para dizer algo e eu me inclinei para ouvi-la.

— Oh Ren, vejo que você aprendeu a dançar muito bem!

— Ah sim, eu tive uma ótima professora.

Nós rimos. Imediatamente eu me lembrei de uma conversa que tive com Kelsey. Lembrei dela me dizendo que eu tinha lhe prometido não voltar a dançar com Nilima, porque ela tinha ciúme. Então eu lhe disse que jamais voltaria a dançar com Nilima ou qualquer outra mulher. Mas esta, era só mais uma promessa quebrada.

Eu ainda estava dançando com Nilima quando Randi voltou. Ela parou diante de mim fazendo biquinho. A música parou e eu a apresentei a Nilima. Elas se cumprimentaram friamente. Então Randi se agarrou a meu pescoço e me disse que estava pronta para ir. Nilima se despediu e saiu.

Fui-me embora com Randi, mas meu coração ainda estava com Kelsey.