A verdadeira magia
14 O aprender
O dia ainda estava no meio, então resolvi ir para algum lugar e treinar novos meios de usar Dimensão alternativa. Dessa vez não foi tão rápido chegar até o terreno perto de casa, mas não me cansei. O terreno era tipo um pequeno parque mal cuidado, onde não havia nada de cimento e o chão era pura terra. Havia árvores escaláveis e partes do chão em que o terreno era barro mesmo. Mato alto e descuidado dominava o local, por isso era um lugar que recebia poucas visitas, somente de garotos que brincam na rua.
Hoje, por sorte, não havia ninguém. Logo comecei a pensar em novas maneiras de usar Dimensão alternativa. Imaginei usando a mão, de longe. Estendi a mão e tentei mandar uma pedra. Funcionou normal, mas o meio de chamar mudou o jeito que a pedra foi. Ela pareceu ficar com as cores negativas e então sumiu.
Um outro jeito que pensei era usando o transporte precisando de alvo, como se lançasse uma onda, e precisasse acertar o alvo para manda-lo. Imaginei os detalhes e tentei mandar a pedra novamente. Imaginei uma bola de poder na minha mão, e logo ela se envolveu num branco pálido, parecendo ficar como uma bola de luz que não iluminava muito forte. Lancei mirando na pedra, mas errei e acertei um pouco depois dela, caindo perto de um mato. Pensei que iria transportar o mato, mas não aconteceu isso. A esfera voou, e quando atingiu o chão ela se espalhou, indo em todas as direções como se fosse água, e cobriu parte da vegetação com a mesma cor de antes. No segundo que alcançou a pedra, toda a luz foi atraída para ela, e se fechou em volta dela, logo irradiando um brilho fraco e fazendo a pedra sumir. Esse é o jeito, é assim que eu vou lutar.
Achando um bom jeito de enfrentar as sombras que poderiam vir, comecei a ficar criativo, pensando em inúmeros modos de usar a carta, mas tendo em mente o que tinha feito agora a pouco. Imaginei disparar com o dedo um “tiro” que enviaria o alvo pra lá, mas precisava de mira. Esse até posso usar, mas fica como modo secundário. Me diverti por um tempo, mandando mais coisas para treinar, e percebi que me cansei. Muito. Tanto ao ponto de eu cair de costas no chão, quase sem fôlego. Nunca havia percebido esse efeito antes. Estava esgotado e não sabia o porquê. Respirava fortemente tentando me recuperar, e depois de alguns minutos consegui me sentar. Tinha mandado muito mais coisas pra lá enquanto explorava novos meios de transporte, e não tinha retornado muitos. Pode ser por isso.
Me levantei e tentei mandar algo de novo, do jeito antigo, para testar. Mandei uma pedra pequena, e quando terminei, não senti o cansaço de antes. Não do mesmo jeito. Então não era por ter muita coisa lá. Chamei as coisas de volta, mas tentei usar meios diferentes para testar o melhor. Chamei usando a bola de luz de novo, e esse até que foi legal. A luz, que antes se focava no item pra mandar, agora se espalhava e crescia para longe do chão, e logo o domo sumia e deixava o item no lugar pretendido. Muito bom, mas é bem lento. Chamei uma pedra estalando os dedos e apontando pra baixo, e isso fez que ela aparecesse no ar e caísse com força no chão barroso, afundando um tanto. Então caí de novo.
Estava esgotado mais uma vez, então eu percebi. Era relacionado à como usar a carta. Ela precisava da minha energia pra funcionar. Quanto mais rápido ou efetivo eu chamar, mais cansado eu fico. Respirei de novo, e uma ou dezenove puxadas de fôlego depois eu pude me levantar. Esse método de arremesso é efetivo, mas cansativo pra caramba. Chamei todas as coisas de novo, pois havia achado os meios que queria. Chamei usando a luz para economizar energia, e depois de vários minutos eu mandei todas de volta.
De acordo com o meu relógio eram três horas da tarde, então resolvi voltar pra casa. Eu estava bastante sujo, cansado, mas havia valido a pena. Descobri melhores jeitos de usar Dimensão alternativa, e também aprendi mais sobre seus efeitos, isso era bom demais pra um dia. Comecei a andar na direção da rua quando parei por ter ouvido um barulho atrás de mim. Me virei e procurei de onde o som havia saído.
Era o farfalhar do mato alto, vindo de algum lugar lá no fundo, atrás das árvores. Pensei que poderia ser alguém, mas pensei diferente quando algumas árvores foram arrancadas e tombadas para o lado, dando passagem à força para sombras virem rapidamente em minha direção. Dei um pulo para o lado para esquivar, mas lembrei que estava sem Velocidade, e tive que me jogar desajeitadamente no chão para não ser atingido pela passagem delas. Elas seguiram voando e fizeram a curva enquanto eu me levantava. É agora.
Fiz a bola de luz e arremessei na direção dela. No segundo que tocou uma parte das sombras, a esfera implodiu, fazendo dela sair um grande número de feixes da luz anterior, criando um tubo ao redor das sombras. Elas giravam parte para um lado, parte para outro, criando uma malha e crescendo até fechar, prendendo as sombras dentro. Ainda girando, ele se comprimiu e sumiu. Olhei dentro da dimensão para ver como as sombras ficaram, mas não as vi. Não as encontrei ali dentro, e fiquei sem entender nada.
– Elas foram destruídas. – Uma foz forte falou atrás de mim de novo.
– O que? – Falei me virando, vendo um homem com uma espada. – Quem é você?
– Alguém como você. – Ele continuou. – Você as destruiu com sua carta.
– Como? – Eu falei, sem entender. – Minha carta não é pra combate, nem pra destruição, não deveria destruí-las. – Falei. E não sei por que revelei tanta coisa de uma vez.
O homem, por sua vez, tinha se virado, andando em direção à rua, e sua espada se desfez, sumindo de vista.
– Já vi que não precisava de ajuda. – Ele falou, levantando a mão e acenando. – Boa sorte, guri. – E sumiu fazendo a curva.
Olhei ainda no lugar que ele havia estado, tentando entender o momento. Aquilo era mais uma carta que havia visto. Eu corri para a rua pra tentar falar com ele de novo, mas já havia sumido de vista. Andei na direção de casa num passo lento, mais uma vez raciocinando o que havia acontecido. Tô fazendo muito isso recentemente.
A caminhada lenta passou rápido. Ironia. Cheguei em casa e logo fui tomar banho de novo. Estava sujo de barro por causa do treino. Minha mãe nem ficou surpresa, isso era comum nos sábados. Corri para o computador e abri o Face e logo falei com Amanda sobre isso. Falei sobre as sombras me atacarem de novo, e sobre como as derrotei. Falei sobre o homem que havia aparecido, e senti que ela havia pegado o livro de História de novo, pois ela disparou tanto curiosidade quanto raiva sobre o que aconteceu comigo. Ela parecia transtornada com o fato de ter acontecido comigo e não com ela, pelo que parece. Ou de eu encontrar outro portador de carta. E ao mesmo tempo queria saber sobre a nova carta e o novo cara que as tinha. Contei tudo o que sabia, e isso pareceu piorar. Eu sei lá, só sei que no final ela falou que tava de mal comigo. E eu aqui pensando que contar pra ela seria bom.
Fechei essa conversa com ela no momento que deu quatro da tarde, e desisti também de usar o computador. Fui deitar na cama, pois ainda estava cansado do treinamento. Deitei e fiquei olhando para o teto, mais uma vez, pensando sobre hoje. As cartas estavam aparecendo cada vez mais, e as sombras agora começaram a atacar. Fechei os olhos por um segundo, e logo adormeci.
Acordei com dor, sentindo o frio do chão no meu rosto, ouvindo vozes dispersas falando coisas que não entendia. Levantei lentamente, vendo várias pessoas me cercando, com as costas viradas pra mim. Todas estavam com um pé adiantado, olhando para as sombras que nos cercavam. Inúmeras, gigantescas, elas tinham se unido e formado um círculo gigantesco, impedindo qualquer saída.
Vi várias coisas saindo de nós e atacando as sombras, mas não parecia fazer efeito. Quanto mais se destruía mais sombras chegavam de algum lugar e se juntavam ali. Pareciam crescer de volume, pois aumentaram sua altura até quase nos fechar por completo por cima também. Resolvi fazer alguma coisa. Usei Dimensão alternativa do modo que aprendi antes, mas não funcionou. A esfera de luz de antes não apareceu, e desmaiei novamente.
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