A verdadeira magia
15 O reagir
Senti um grande movimento, e abri os olhos e vi minha mãe me olhando preocupada. Ela me olhava como se eu estivesse tendo um troço.
– Filho, você tá tendo um troço? – E ela pergunta logo isso.
– Não. – Respondi estranhando, ainda meio tonto por causa do sono. – Porque a pergunta?
– Porque parecia que você tava tendo um ataque epiléptico. – Ela falou séria.
– Sério? – Falei incrédulo. – Bom, não se preocupe porque eu estou bem. Pode ter sido do sonho que tive. – Falei.
– Mas tem certeza? – Ela continuou. É claro, mães fazem isso mesmo. – Não tá doendo nada não?
– Não, mãe, não dói nada. – Falei. – Eu tô legal.
Só depois disso ela saiu do lado da cama e me deixou levantar de novo, mas ainda olhava preocupada. Olhei no meu relógio e vi que eram nove horas. Pera, eu dormi cinco horas? Como isso? Não gosto de dormir à tarde, então como consegui essa façanha? Foi do treinamento, deve ser por isso.
Com olhares ainda preocupados da minha mãe, ela foi descendo pela escada e eu fui seguindo ela até chegar na cozinha. Peguei uma maçã e comecei a andar de volta pro quarto, mas minha mãe me chamou a atenção.
– Filho, só avisando, iremos sair no domingo de manhã. Seu pai e eu temos um evento com amigos pra ir.
– Oh, não, eu odeio essas reuniões... – Reclamei. – Deixa eu não ir, pelo menos dessa vez. – Continuei. Essas reuniões eram sempre ir na casa de um deles pra jantar, ele tomam vinho e os filhos ficam na sala. O problema é que da última vez eu tinha catorze e os outros sete. Era um saco. Imagina agora.
– Na verdade eu ia falar pra você não ir dessa vez. – O que? – Vai ser uma reunião na casa de um amigo nosso, e dessa vez não daria pra te levar.
– E porque não? – Pera eu tô defendendo eu ir? – Não precisa responder, eu entendo. – Por favor, me deixa ir agora.
– Eu não tenho que explicar o porquê. – Ela falou isso não no tom de mãe irritada, mas no tom de cínica.
– Ok. – Falei antes de piorar a situação. – Vou voltar pro quarto. – E me virei. Ela não falou nada pra me impedir dessa vez, então fui de novo pro meu quarto.
Subi as escadas e alcancei a porta do meu quarto. Entrei e dei uma mordida na maçã. Sentei na cadeira e me ajeitei pra usar o computador. Usei por pouco tempo, só até meia noite. Desliguei a tela e me preparei pra dormir. E logo que deitei a minha mente entrou em overdrive. Nem sei por que imaginei tanta coisa, mas tudo era inútil. Isso, claro, tirando o encontro com aquele homem. Ele tinha outra carta, uma bem diferente. Meu cérebro pensou em tantas possibilidades de cartas que nem notei quando dormi realmente.
Estava caindo. Abri os olhos e vi tons de verde, cinza, com pequenas linhas azuis de vez em quando, bem espalhadas. O cinza dominava mais do que o verde, mas não é importante. O importante era que eu estava caindo em queda livre, e agora que notei, de uma altura gigantesca. Olhei para os lados e vi outras pessoas caindo junto, dois na minha direita e três na esquerda. Reconheci as pessoas que caíam comigo.
Da esquerda pra direita estavam Amanda, Will, Jessica, eu, uma garota que não reconheci, e o homem que encontrei hoje à tarde. Vi o chão se aproximando cada vez mais, e quando estávamos perto de atingir em cheio o solo, a garota à minha direita mexeu os braços, e diminuímos a velocidade até pararmos a metros do chão. Sentia um grande vento no rosto, mesmo estando tão perto do chão. Me apoiei com as mãos, e logo senti meu corpo ter o peso normal. Quando fiquei em pé, me vi sozinho no meio da cidade, na mesma rua que fui atacado.
Vi sombras vindo dos dois lados, avançando lentamente e me cercando. Recuei até a parede sem saber o que fazer. Tentaria usa Velocidade, mas não tinha jeito de sair. As sombras se aproximavam cada vez mais, até que se juntaram e cobriram tudo ao meu redor. Quando eu não vi mais jeito de sair, eu ouvi uma voz na minha cabeça dizer suavemente pra mim.
Do not waver...
Era uma voz feminina, suave e tranquila, que trouxe conforto pra mim. Senti uma suavidade em meu rosto, e abri os olhos que não tinha visto fechar antes. Vi uma imagem que parecia um fantasma, mas brilhava bastante sobre as sombras. Era uma mulher, com pele tão branca quanto a neve, cabelos igualmente brancos descendo até a cintura, vestida com roupas de baile de histórias infantis, com tons de branco e prata. Ela tocou levemente meu rosto com sua mão, e olhava no fundo dos meus olhos, me passando muita calma e tranquilidade.
Do not fear...
Ela falou mais uma vez em minha cabeça, sem mover seus lábios. Eu então estava mais tranquilo, e vi uma bola de luz se formar na minha mão direita. Entendi o que era. Era Dimensão alternativa. Eu olhei novamente para a mulher e ela sorria confirmando. Ouvi sua voz mais uma vez.
Do not forget me...
Ouvindo isso eu acordei. Abri meus olhos tranquilamente e vi o teto do meu quarto iluminado fracamente pela luz da janela. Era o domingo de manhã, e como minha mãe tinha falado, eles iriam na casa de um amigo deles, então nem me preocupei de sair da cama. Fiquei nela sem me mexer por um tempo. Dimensão alternativa se formou fisicamente pra mim em sonho. Será que era por ter pensado em usar desse jeito? E Velocidade, será que ela também tem uma forma física? Me levantei da cama e fui olhar para o celular pra saber as horas.
O celular indicava ser oito da manhã. Eu não gosto muito de dias de folga, porque sai da rotina, e prefiro ter coisas pra fazer. Levantei demoradamente da cama e me dirigi ainda tonto pro banheiro. Lavei o rosto, escovei os dentes, e desci para comer alguma coisa. Preparei um sanduíche bem simples e comi ainda com sono.
Ouvi o barulhinho chato que coloquei no celular indicando mensagem nova, então me levantei da cadeira que nem tinha percebido que estava e subi as escadas de novo.
No quarto degrau eu ouvi de novo o toque do celular. Meu ânimo não havia mudado ainda, e prossegui a passos lentos para o quarto. Peguei o celular, uma toalha fresca, e fui para o banheiro. Abri o celular e vi que tinha uma mensagem no Face. Ignorei por enquanto e pus uma música pra tomar banho. Vou ir treinar mais um pouco, tem que ter mais alguma coisa que eu possa aprender.
O banho foi lento, mais pelo sono do que por qualquer outra coisa. A água era quente, aconchegante, tão perigosa que eu poderia ter dormido se não estivesse em pé. Terminei e fui rapidamente para o quarto me vestir. Uma roupa relativamente velha, não muito preocupada com a aparência, pois ia treinar de novo no mesmo lugar de ontem. Quando fui pegar o celular o toque de mensagem apareceu de novo. Fui ver de quem era. Era de Amanda. E eu devia ter lido antes.
A primeira mensagem era pra me chamar pra ir na casa dela, a segunda foi dizendo que era urgente. A terceira dizia que precisava de ajuda. Li isso e saí correndo pelas escadas, descendo com agilidade e trancando a porta da casa com maestria, dessa vez pelo menos. Corri através do pequeno jardim e segui para onde ela tinha falado antes, subindo a ladeira.
Enviei uma mensagem pedindo o endereço correto, e esperei. Foi agoniante esperar tanto tempo pela resposta, mas ela chegou me dando um endereço que estava no rumo que ia. Só faltava subir... A ladeira. Corri até onde pude, isso era antes da metade dela, e comecei a caminhar rápido, tentando subir depressa para o endereço. Quase dez minutos depois eu achei a casa dela. Entrei pelo portão sem cerimônia e bati com força na porta.
– Seja bem-vindo à casa dos von Braaig. – Respondeu uma senhora vestida em preto e branco.
– Preciso falar com Amanda. – Falei, ainda sem ar. – É urgente.
– E quem eu digo que quer vê-la? – Ela respondeu.
– O qu... – Eu me interrompi. Agora havia notado suas roupas. Preta e branca, com um babador ridículo na frente, roupas de empregadas. Olhei um pouco pra casa e percebi que era branca igual à de ricos. – Olha, eu sei que parece rude, mas Amanda pediu pra eu vir aqui com urgência. Sou Filipe, amigo dela e de seu pai.
– Oh, me perdoe, senhor Filipe. – Ela disse mudando pra uma expressão levemente assustada. – Milaide Amanda disse que o senhor apareceria hoje. – Essa educação toda já tá me deixando incomodado. – Por favor, entre.
Ela abriu caminho e pude entrar na casa. Não vi o exterior, mas o interior era não tão parecido com casa de rico, por assim dizer. Era grande, mas não tãããão grande. Tinha algumas coisas parecidas, como uma sala de estar pela esquerda e uma escadaria no centro, bem ampla e reluzente, mas não tinha a imponência e o luxo espalhafatoso. Ela me guiou até a escadaria, onde vi uma outra empregada, mais jovem do que a anterior, que me guiou pelo andar de cima. Ela tinha cabelos pretos que passavam um pouco do ombro, parte sendo preso em um coque que permitia ao cabelo ficar pelo caminho. Muito estranho, mas legal.
– Amanda e o pai moram aqui sozinhos? – Perguntei, tentando quebrar um gelo que incomodava bastante.
– Sim, senhor. – Ela respondeu simplesmente.
– Não precisa usar tanta educação comigo, senhorita. – Sim, senhorita. Não havia sinal de anel em sem dedo.
– Oh, entendo. – Ela falou. – Milaide Amanda e Senhor von Braaig moram aqui sozinhos, sim. – Ela completou, prendendo a língua para não falar senhor.
– Uma pena. Uma casa grande assim deveria ter um monte de gente morando junto. Deixa o ambiente mais feliz. – Falei, e logo ela se virou, me indicando uma porta.
– A Milaide lhe aguarda aqui. – Ela estendia o braço apontando.
– Muito obrigado. – Disse, e logo entrei.
Esperava ser derrubado por um quarto com rosa claro berrante, como o quarto de garotas ricas mimadas, mas não vi. Amanda não parecia ser mimada. O quarto dela era normal, com algumas pinturas muito lindas feitas nas paredes, como se tivessem sido pintadas à mão. As paredes tinham tonalidades que variam do dia pra noite, algo que parece ter demorado muito tempo pra ser feitas. Vi Amanda na cama, abraçando as pernas como havia feito no beco.
– Amanda. – Falei, e me aproximei um pouco da cama. – O que aconteceu pra me chamar com tanta urgência?
– Filipe... – Ela falou com uma leve mudança de voz. – Eu preciso de ajuda.
– Pois me diga no quê que eu vou ajudar como posso. – Falei, me ajoelhando perto da cama.
– Filipe... Eu... – Ela deu uma pausa. – Eu... Eu preciso de um vestido.
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