A verdadeira alma gêmea
7 Um Estranho de Olhos Azuis
Fiquei desacreditada, era uma solução tão mais simples do que eu imaginei, fiquei me sentindo meio otária. Beijei a testa de Magnólia e saí correndo do quarto, sem me preocupar que estava indo para a rua de pijama e descalça, nem me preocupei se teria gente na rua para me ver daquele jeito. Eu fiquei um pouco eufórica por um momento, estava avançando, “Toma essa A.V.A.G.” pensei comigo mesma, os pesadelos não iriam se realizar, nenhum um guarda sem rosto ia bater na minha porta, eu ia encontrar esse desconhecido nem que fosse a última coisa que eu fizesse na vida, ia mostrar a eles que eu podia, eles não iam me expulsar da minha própria vida. Cheguei na esquina com a minha resposta e ativei o leitor, digitei o comando para enviar a resposta e esperei, na tela apareceu uma felicitação por conseguir cumprir o desafio, e logo abaixo a pista sobre minha alma gêmea, “Olhos azuis”. Isso não ajudava muito, uns 8% da população tem olhos azuis, parece até que não querem que eu o encontre. Um desconhecido de olhos azuis, podia ser qualquer pessoa no mundo inteiro ou pelo menos do país, já que o programa é único em cada lugar, não acredito que me juntar com uma pessoa do outro lado do planeta, seria como procurar agulha no palheiro.
Voltei para casa bem mais leve e bem mais tranquila, embora a pista não me dissesse coisa alguma sobre a minha alma gêmea e eu ainda não tinha ideia de quem ele era, conseguir a primeira pista era um alívio, todas as noites que passei preocupada e com medo pareciam diminuir um pouco. Já que não tinha outra opção, esperava pelo menos não enlouquecer até o final da minha jornada, conseguir me deixava um passo mais perto de terminar e me livrar disso logo. Quando estava voltando me perguntei se deveria comprar o segundo desafio, mas decidi que merecia pelo menos alguns dias de descanso, não eu não ia comprar pistas por enquanto, este seria meu último recurso, se dentro do meu primeiro ano eu não tivesse pistas o suficiente pra saber mais e encontra-lo, então aí sim eu correria atrás de mais pistas com meu dinheiro, as pessoas deviam encontrar só com o básico, não? Não acredito que todo mundo compre pistas o tempo todo.
Quando entrei de novo no meu quarto, Magnólia já estava dormindo, foram poucos minutos, mas ela não me esperara, caminhei devagar, na pontas dos pés para não fazer barulho e acorda-la. Deitei no meu colchão e dormi com tranquilidade.
No dia seguinte decidi dar uma volta pelo bairro, passar na casa de Gabriel, já que fazia algum tempo que não o via, precisava contar a ele a novidade sobre o bebê, tia Roberta estava tão animada no dia anterior, eu já estava ansiosa para conhecer meu novo primo ou prima. Falando no Biel, recebi uma mensagem pedindo para me encontrar na praça, nossos pensamentos as vezes se sincronizavam sem o menor esforço. Coloquei um macaquinho florido azul claro e sandálias rasteirinhas, o tempo estava agradável, fresco e ensolarado. Encontrei Gabriel sentado num banco, também usava roupas frescas, uma camiseta branca, bermudas e chinelo, era engraçado como ele sempre parecia propositalmente desleixado, mas não de um jeito ruim, fiquei feliz ao vê-lo, dei um abraço apertado nele e me sentei.
— Achei que tivesse esquecido de mim, faz dias que não nos falamos – ele falou.
— Não, nunca. Você é meu melhor amigo, nunca vou esquecer você – respondi com carinho. – Eu só estive ocupada, com a loja, a alma gêmea, o bebê de tia Roberta – continuei de forma casual.
— Espera, o que disse? – perguntou ele curioso, exatamente como eu queria.
— Minha alma gêmea? – Me fiz de boba.
— Luna.
— Eu precisava te contar, a tia Roberta vai ter um bebê.
— Sério? Que máximo.
— Pois, é. Mas você me chamou pra cá. O que houve?
— Preciso de um motivo para ver minha melhor amiga?
— Não, não precisa. O que vamos fazer hoje?
— Pensei em andar pelo shopping e não comprar nada. Faz tempo que não batemos perna atoa. Sinto falta dos nossos passeios, sinto que nossas buscas estão nos afastando e não quero isso – ele falou com sinceridade.
Era isso que eu mais temia, que a alma gêmea se tornasse uma prioridade tão grande na minha vida ou na vida das pessoas que eu amo que elas se esquecessem de mim, antes disso tudo, nós dois nos víamos praticamente todos os dias e saímos juntos com frequência, agora com a loja nosso tempo diminuiu, mas isso é consequência da vida adulta chegando, mas além disso ele e eu passamos todo nosso tempo livre tentando decifrar nossas próprias pistas que nem ao menos nos falamos pelo telefone.
— Certo, vamos bater perna no shopping, mas com uma condição.
— Qual?
— As palavras “alma gêmea” estão banidas do nosso dia, não vamos nem lembrar dessa busca, seremos Biel e Lu andando pelo shopping e não Gabriel e Luna com seus fantasmas sem rosto. Vamos olhar roupas caras que não podemos comprar, comer comidas que não gostamos só para falar mal depois, veremos um filme idiota, falaremos mal das mesmas pessoas, reclamaremos dos custos e nada mais que isso, esqueceremos o chip, os leitores e as pistas, será como se nada disso existisse hoje – concluí seriamente, não ia deixar a A.V.A.G. atrapalhar nosso dia.
— Feito – ele respondeu, apertando a minha mão com um sorriso.
Ao chegar ao shopping fizemos exatamente o que combinamos, olhamos roupas e ficamos comentando em como podiam existir peças de roupas que variavam tanto de preço em um só lugar e como algumas peças sem nada de espetacular podiam ser tão absurdamente caras, era uma coisa tão absurda que não entrava na minha cabeça, enquanto outras peças similares em outras lojas eram mais baratas, simplesmente porque há muitos anos alguém decidiu que algumas marcas eram mais caras e melhores que outras, o capitalismo havia há muito tempo criado um mundo de idiotas. Mais tarde entramos no acordo de ver o filme de Linda Halley que também estava no cinema, Antonella, eu não gosto de terror, mas sou muito fã dela e o Gabriel gosta muito desses filmes assustadores, eu particularmente não vejo graça em tomar sustos, mas como era a Linda, então aceitei, desde que ele não se importasse que eu apertasse sua mão nos momentos mais tensos e nem se importasse com meus gritos e tapas quando eu ficasse com medo, o que me conhecendo bem ia ser 90% do filme.
O filme era bom, pelo menos foi o que o Gabriel disse, eu passei metade dele encolhida na cadeira, gritando nos momentos de jump scare ou me contorcendo nas cenas mais fortes de sangue, concluí que sim, eu ia ter pesadelos essa noite, mas estava orgulhosa de mim mesma, não fechei os olhos nem uma única vez. Linda fazia a personagem que dava nome ao filme, um espirito vingativo que estava preso numa casa em busca de vingança daqueles que lhe fizeram mal em vida, um tema muito clássico que sempre funcionava, nunca a vi tão assustadora, mas a atuação estava impecável.
— Você vai dormir lá em casa essa noite, eu não vou dormir sozinha – comentei depois do filme.
— Tudo bem, sua medrosa – ele comentou rindo de mim.
— Ai, não, não dá. A Magnólia está dormindo no meu quarto, não tem um colchão pra você. – Lembrei enquanto caminhávamos para a praça de alimentação do shopping.
— Ah, é mesmo. Me explique essa história direito. Como assim sua tia vai ter outro bebê?
Contei a ele sobre a visita de tia Roberta no dia anterior, que havia ficado decidido que Magnólia ia morar conosco por um tempo até a reforma na casa acabar e a fase mais sensível da gravidez passar. Nós escolhemos o que íamos comer e continuamos conversando, contei a ele que Magnólia era muito inteligente, descobrira sobre meu desafio em cinco minutos enquanto eu ficara dias olhando para a foto, contei para ele sobre a história de Miguel e Helena que criei para passar o tempo, mas não contei do sonho estranho, não havia motivo. A conversa e o lanche foram uma boa distração da imagem sangrenta do filme e foi muito bom estar com ele, foi como eu queria que fosse, como se nada tivesse mudado, nossa amizade estava intacta. Foi um dia perfeito, caminhamos de volta pra casa, quando estava no portão dele, nos despedimos.
— Até mais Lu, e boa sorte essa noite. – Ele riu antes de entrar.
— Gabriel! Eu tinha me esquecido do filme seu pateta, agora eu estou com medo. – Respondi assustada de novo, eu sou muito medrosa mesmo.
Ele entrou e me deixou sozinha, eu ia ter que subir sozinha o resto do caminho, passar o fim da tarde e à noite sozinha, tinha a minha prima, mas ela tinha 11 anos, como eu ia contar pra uma criança que estava com medo de um filme de terror idiota sem deixar essa mesma criança com medo? Ela tinha medo do escuro e dormia com uma luminária acesa, não precisava adicionar uma assombração adolescente na lista.
— M.A.I.A. me deixe entrar, por favor. – Pedi à secretária dele e o portão se abriu.
Mal passei pela porta de entrada para ir atrás dele quando ele pulou na minha direção gritando como um louco, dei um grito e comecei a bater nele em desespero.
— Seu idiota, quase me mata do coração. Vou matar você. – Disse apoiando as mãos nos joelhos.
Ele estava deitado no chão se contorcendo de rir, que vontade de bater no rosto lindo dele e acabar de uma vez por todas com aquele sorrisinho de covinhas incrivelmente fofo.
— Quer saber, eu ia pedir para dormir aqui, mas agora não quero mais, passar bem Gabriel. – Falei com raiva me virando pra sair de novo.
— Até parece. – Ele levantou de um salto e me puxou pra ele num abraço pelas costas. – Pode dormir aqui todas as noites que quiser, mas eu vou continuar te assustando com filmes de terror.
— Pateta. Sorte sua que somos amigos. – Respondi já mais calma.
Apesar de as vezes parecer que o Biel nascera para atormentar a minha vida e me enlouquecer, eu não conseguia ficar com raiva dele. Mais tarde os pais dele chegaram, não ficaram surpresos ao me ver, eu passava muito tempo ali, mandei uma mensagem avisando em casa que ia dormir ali, minha mãe respondeu com um simples ‘boa noite’, Foi só então que me dei conta que não levara nada para dormir, nem pijama, nem minha escova de dentes, nem meu uniforme para o dia seguinte.
— Tudo bem, eu lhe empresto uma camisa minha para você dormir. Quanto a escova de dentes, minha mãe deve ter uma extra, ela compra a mais para trocar de vez em quando, você sabe, e seu uniforme, se levantarmos cedo podemos ir buscar. Não precisa se preocupar.
Decidi deixar pra lá e concordei, passamos um tempo com os pais dele, mas não jantamos com eles, ainda estávamos cheios do lanche no shopping. A mãe dele me deu uma escova de dentes e disse que podia deixa-la lá para o futuro, agradeci e fui me preparar para dormir. Tive que esperar o Gabriel terminar para ele sair e me deixar trocar de roupa, ele saiu do quarto com seu pijama habitual, ou seja, sem camisa e só de calção. Ele me emprestou uma camisa comprida, vesti e fiquei de blusa e calcinha para dormir, estava bem confortável. Ele não tinha colchão para visitas, normalmente a gente dormia na mesma cama, já que a dele era bem maior que a minha, tinha espaço para nós dois. Nos deitamos lado a lado olhando para o teto e ficamos conversando até o sono bater e acabamos dormindo.
Um dos motivos de eu não querer dormir no mesmo quarto que Magnólia depois de ver um filme de terror, era porque eu mesma ficava muito impressionada com filmes desse estilo, acabo sonhando com o enredo e acordando assustada no meio da noite, eu tinha que lembrar que minha prima mesmo sendo alta para a idade dela, ainda era uma criança que dormia de luz acesa com medo do escuro, não precisava acrescentar assombração na lista. Toda vez era sempre a mesma coisa, eu sempre era aquela vítima burra que morre primeiro por culpa da própria burrice, aquela vítima que quando você está vendo o filme fica até com raiva, pois sabe que ela está fazendo besteira e que vai morrer e não dá outra. No meu sonho eu sempre sou ela e fico revendo as mortes do filme, acordo assustada e suando frio. Magnólia não podia ver essa cena, coitada, ia ficar preocupada e com medo. O Gabriel era muito menos impressionável, mas incrivelmente não tive pesadelos, sonhei com olhos azuis desconhecidos e tive uma noite bem tranquila, talvez eu estivesse mesmo me tornando adulta.
No dia seguinte eu acordei bem cedo, os pais dele estavam se arrumando para o trabalho e eu conseguia ouvir, lavei meu rosto e escovei os dentes antes de sair, não me despedi do Gabriel, pois não queria acordá-lo. Como tive que passar em casa para buscar meu uniforme, acabei demorando um pouco mais, deu tempo de me despedir dos meus pais e do meu irmão e eu quase perdi meu ônibus. Cheguei na loja bem em cima da hora, cumprimentei a todos e comecei o meu dia.
— Quase atrasada hoje? O que aconteceu, Luna? – Perguntou-me curiosa Larissa.
— Cuide da sua vida Lari, a menina tem outras coisas pra fazer no fim de semana. – Resmungou Edna mal humorada
— Aconteceu alguma coisa Edna? – perguntei, ela era muito quieta, mas nunca mal educada.
— Cuidem do trabalho de vocês – ela respondeu.
— Ela não quer conversar com ninguém, melhor deixar pra lá – comentou Leo.
Dei de ombros e comecei meu trabalho em silêncio. O dia se arrastou com pouco movimento, quase ninguém entrara na loja e muito menos houveram encomendas que ocupassem muito nosso tempo, na hora do almoço Lari voltou a me chamar, Edna não quis almoçar conosco, alegando que a loja não podia ficar sem ninguém, Dona Ester ainda não havia aparecido.
— E então Luna, agora que estamos só nós. O que fez você se atrasar? – ela perguntou com um sorriso sugestivo.
— Nada, fui só dormir na casa de um amigo e tive que passar em casa para pegar meu uniforme – respondi com sinceridade.
— Na casa de um amigo ou com um amigo? – ela continuou.
— Os dois, a gente dormiu junto – respondi, depois percebi o que aquilo poderia sugerir e complementei. – Gabriel e eu somos só amigos, não me olhe assim, ele também está procurando a alma gêmea dele.
— Ora, Luna, não tem problema se divertir e procurar a alma gêmea.
— Você se divertia muito quando estava procurando a sua?
— Um pouco. Ele é bonito?
— É, eu acho que sim. Deixe-me mostrá-lo a você – disse, pegando meu telefone e procurando uma foto nossa juntos. – Aqui, esse é o Gabriel.
— Ele é bem gatinho. Devia aproveitar, daqui a pouco você encontra sua alma gêmea e a oportunidade vai embora.
— Lari, a gente não se vê assim. Mudando de assunto, Edna, o que ela tem?
— Eu não sei, mas até o fim do turno eu descubro – prometeu ela.
Depois do almoço voltamos ao marasmo que estava aquela segunda feira, quando finalmente alguém entrou na loja, era uma mulher e uma criança, fui atendê-los.
— Posso ajudar? – perguntei à mulher.
— Eu preciso desses itens. – Ela me entregou uma lista.
Peguei uma cesta e fui colocar os itens que ela pedia, no meio do meu processo de escolha o menino passou correndo por mim, esbarrou numa prateleira e quase derrubou alguns itens frágeis, a mulher não disse nada para controlar a criança, decidi intervir com educação antes que o menino causasse algum prejuízo ou se machucasse.
— Com licença, menino. Não pode correr aqui dentro, não – disse, indo atrás dele.
Ele correu, parou por alguns segundos, olhou pra mim e sorriu com travessura. Olhei pra ele de volta, o menino tinha lindos olhos azuis, o que me lembrou do meu desconhecido. Meu misterioso que também tinha olhos azuis, eu não conhecia ninguém que não fosse da minha família que tinha olhos dessa cor, bom na verdade eu conhecera uma pessoa, mas era impossível, não era?
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