Tirei esse pensamento da minha cabeça, não tinha motivos para pensar nele, continuei meu trabalho normalmente, consegui impedir o garoto de continuar correndo e ele voltou para o lado da moça que estava com ele. Finalizei a compra dela e recebi o pagamento. Não houveram muitos clientes nesse dia, ao final do expediente dei tchau a todos e fui ao ponto para esperar o ônibus para casa. Desci perto de casa e caminhei o resto do caminho, na porta M.A.I.A. abriu pra mim, mas não entrei, fiquei parada por alguns segundos pensando se devia comprar uma pista nova, o sistema lhe obrigava a esperar alguns dias depois de conseguir a primeira pista, mas quem quisesse podia comprar desafios no intervalo de tempo entre uma pista grátis e outra, meu irmão havia comprado uma e Gabriel também, mas eles estavam muito mais empolgados que eu e eu prometera a mim mesma descansar a minha mente por enquanto. Balancei minha cabeça e decidi cumprir minha promessa, “Pare de ser tão boba Luna”, não é por que eu vi um cara bonito uma vez que ele vai ser minha alma gêmea, não tinha porque o sistema nos unir.

Mal passei pela porta quando uma mensagem da minha mãe, me pediu para preparar o jantar, ela ia precisar fazer hora extra, ela fazia isso com frequência quando estava trabalhando, pensei em perguntar se ela estava louca, mas achei desrespeitoso então só respondi um Sim, senhora bem simples, mas como não queria matar a família inteira intoxicada, pedi alguma coisa pra entrega, feliz por poder pagar eu mesma com meu próprio dinheiro. Magnólia já havia chegado da escola quando cheguei do trabalho, acabamos comendo só nós duas, meu pai e Pietro chegaram depois, dei a eles o recado da mamãe de que iria demorar, ela chegou bem tarde, nenhum de nós conseguiu esperar.

Esperei até o último dia do prazo, depois de resolver a primeira pista, para pegar a segunda pista, fui até o leitor antes do trabalho. Como não era mais a minha primeira vez o leitor estava diferente, antes de me dar a pista ele me perguntou o que eu queria fazer. Só por curiosidade decidi dar uma olhada nos preços disponíveis para compra, as compras eram liberadas logo após a finalização do primeiro desafio. Desafios, perguntas e equivalentes custavam até R$ 450,00 dependendo da dificuldade que se queria, os níveis eram: muito fácil, fácil, médio, difícil e muito difícil, e eram limitados à dois por mês, então se uma pessoa conseguisse terminar sua pista rapidamente a cada mês ela podia conseguir três ou quatro pistas, dependendo se conseguisse pegar outro desafio nesse intervalo, cada mês podia lhe dar um ou dois desafios grátis. Cada pessoa podia fazer duas trocas gratuitas ao todo, mas dava para trocar mais duas vezes, cada troca extra custava R$750,00 as dicas que não precisavam de desafios também variavam de preço, as mais básicas custavam R$550,00 e as mais detalhadas custavam R$380,00, dados pessoais como endereço e primeiro nome custavam R$1.250,00, mas tinha um asterisco:

*Esse item é pessoal e um dado muito importante que não será divulgado pela rede, para garantir a segurança do indivíduo ao qual os dados pertencem, favor levar o comprovante de pagamento ao centro de atendimento da A.V.A.G. para maiores informações

A amostra de voz e a foto ambos custavam R$1.200,00, mas sem dúvida nenhuma o item mais caro era o dossiê completo, para conhecer sua alma gêmea profundamente que também tinha o mesmo asterisco que li nos itens anteriores, um documento que só era acessível por uma semana custava o valor total de R$ 25.000,00, era muita grana que só poucas pessoas tinham acesso, esse era o valor com os dados de uma vida de uma pessoa, não sei se era um preço justo pela minha privacidade e pela minha vida, eu valia muito mais que R$25.000,00, mas também não era um preço que estava disposta a pagar, era muita grana que podia ser melhor investida em outra coisa, talvez eu pensasse isso por não ter R$25.000,00 ou por ter o mínimo de ética nesse mundo esquisito ou talvez pelos dois. Voltei ao menu inicial ainda horrorizada com os preços e me perguntando quanto dinheiro que Pietro tinha e porque ele não comprara algo que o ajudasse mais, será que as pessoas não compravam as pistas mais caras só pelo desafio ou por que realmente não tinha grana ou os dois? Será que havia algum tipo de limitação? Ou será que era apenas uma estratégia para não gastar sua grana toda de uma vez e depois que acabasse não haveria grana para mais nada? Pedi meu desafio gratuito e esperei, não pretendia gastar meu dinheiro atoa, esse dinheiro era para investir no futuro.

Recebi uma pergunta, eu não estava tendo sorte, as perguntas, informações e desafios viam de forma completamente aleatória, antes de começar a minha busca eu acreditava que o sistema começava te dando coisas fáceis e ia aumentando o nível de dificuldade progressivamente, mas não era o caso, dessa vez a minha pergunta foi:

Qual a fórmula da felicidade?

O que eles queriam dizer com isso? Eu deveria responder de forma profunda e filosófica? Segui para a loja ainda pensando nisso.

Cheguei na loja cumprimentei Leo e Larissa, Dona Ester também estava conosco e também lhe dei bom dia, Edna não estava em lugar algum da loja, eu a procurei até mesmo no estoque e nada.

— Lari? – chamei baixinho, para que Dona Ester não ouvisse para que ela não pensasse que estávamos de corpo mole.

— Oi, Luna – respondeu ela aos sussurros.

— Você sabe por que Edna não veio hoje? Ela está doente.

— Lembra que antes ela estava num mau humor do caramba. Quer dizer, um humor do caramba pior que o normal? Descobri o que ela tinha.

— E o que era?

Ela balançou a cabeça em negativo, como se não pudesse dizer, olhou para os lados, virou-se para Leo e para Dona Ester, e mais uma vez ao redor da loja para ter certeza que ninguém estava presente para ouvir.

— A sobrinha dela, foi levada pelos vigilantes, ela não encontrou a alma gêmea dela.

— Pobre Edna, não me admira que ela esteja tão triste. Mas não houve nenhuma sirene esses dias – observei

— A sirene só toca quando alguém resiste, ela se entregou sem problemas. – Larissa respondeu encerrando o assunto.

Me lembrei do meu sonho da outra noite, dos vigilantes me levando embora. Minha ideia de não ter filhos voltou a minha mente e de repente a gravidez de tia Roberta me parecia mais uma maldição que uma benção. Passamos o dia trabalhando em silêncio, eu só abri a minha boca para conversar com os clientes ou para responder o que Dona Ester me perguntara, fora isso foi só para comer. Ao final do expediente voltei o mais rápido que pude para casa.

Decidi trabalhar o mais rápido possível para encontrar minha alma gêmea, mesmo que não gostasse dele, mesmo que ele fosse um babaca, mesmo que tivesse muito medo das mudanças que aconteceriam na minha vida depois que ele entrasse nela. Poderia ser algo bom não poderia? Mas poderia ser um desastre total? Entrei no quarto e encontrei Magnólia sentada em sua cama provisória ocupada com seus deveres de casa, ela voltava sozinha para casa e já começava a faze-los, era uma criança muito responsável. Enquanto isso eu pensava na minha questão. Qual a fórmula da felicidade? Isso poderia significar qualquer coisa. Liguei o computador e comecei a pensar nas possíveis respostas para essa pergunta. A primeira coisa que fiz foi pensar no significado da palavra felicidade. Felicidade em seu sentido mais simples significa a sensação real de satisfação plena, o estado de contentamento, de satisfação é a condição da pessoa feliz, satisfeita, alegre, contente, pelo menos é o que está no dicionário, então qual a fórmula para alcançar isso? Um estado de espírito pleno? Por curiosidade por mais bobo que parecesse joguei a pergunta na internet, mas obviamente não havia uma resposta com uma fórmula exata.

— Mas que droga. – Magnólia resmungou jogando suas coisas no chão com raiva, me tirando dos meus pensamentos.

— O que foi, Ma? – perguntei olhando sua cara emburrada.

— Odeio matemática, eu não entendo – respondeu ela com birra.

Eu ri, me lembrando de como a escola era difícil quando eu tinha onze anos, eu também odiava matemática. Pietro sempre me ajudava com as minhas contas, as coisas eram tão simples quando era apenas somar e diminuir, com essa idade começavam as divisões e as multiplicações. Coitada, nem começaram a aparecer letras e fórmulas complexas, ela vai surtar quando começarem a pedir Bhaskara nas provas. Levantei e fui olhar seu dever de casa, recolhendo suas coisas do chão. Dei uma olhada, era uma cruzadinha de matemática, a professora havia colocado o resultado final abaixo para os alunos compararem sua resposta e a da Magnólia estava bem longe, eu nem sabia como ela chegara em tal resultado e muito menos como ajuda-la, eu era um fracasso nisso.

— Olha só, não fique com raiva da matemática, quando Eto chegar peça ajuda a ele, seu primo é um gênio.

— Minha mãe diz que temos que terminar nossas obrigações antes do jantar, eu ainda não terminei, isso quer dizer que eu não posso comer? – ela me perguntou

— O que? Não, você pode comer – respondi deixando as coisas dela de lado. – Mas ainda não é hora do jantar, então se quiser pode tentar de novo, daqui a pouco alguém vai bater na nossa porta e chamar a gente pra comer uma coisa bem gostosa.

— Lu, por que você nunca cozinha? – ela perguntou

— Porque Ma, eu não sou só muito ruim em matemática, eu também sou muito ruim na cozinha, se eu tentar cozinhar é capaz de colocar fogo na casa.

— Não, isso seria terrível – ela concluiu de forma doce.

— Igual a sua matemática. Quando Eto chegar a gente pede ajuda pra ele, está bem?

Ela concordou com a cabeça e deixou suas coisas de escola de lado. As emoções de uma criança eram tão simples, fazia poucos minutos ela estava chateada e muito brava com a matemática, com o problema resolvido por ora, Magnólia pegou um tablet e começou a jogar alguma coisa, ela rapidamente se distraiu, estava genuinamente feliz naquele momento. Felicidade? Felicidade? Era um conceito muito amplo, muitas coisas me deixavam feliz, coisas que eu tinha, pessoas na minha família, amigos, mas não havia uma fórmula pra isso. Fiquei listando coisas na minha mente e acabei adormecendo onde estava.

Sonhei novamente com os Invisíveis me levando embora, mas dessa vez eu não estava escondida sozinha, Edna estava no apartamento velho comigo.

— Eles não vão te pegar – ela dizia com tristeza. – Me levaram minha Isa, mas não vão levar você.

Dava para sentir a tristeza dela, eu não sabia o nome da sobrinha dela, meu cérebro só completou com qualquer coisa, mas mesmo assim me compadeci com a dor dela, ela amava a sobrinha. Magnólia também estava no meu sonho dessa vez, junto com minha família, assim como tia Roberta, correndo atrás do carro. O número de pessoas com as quais eu me preocupava era maior do que eu imaginava.

Notas finais
Demorei um pouco mais para postar, mas aqui está. E como hoje estou generosa, postarei mais um capítulo para compensar tanta demora. Espero que estejam lendo e gostando. Se não vou me sentir muito otária que ninguém está vendo essa história incrível. Sintam-se a vontade para comentar. Me sigam nas redes sociais @louise.geise e @geiselouise Instagram e Tik Tok com informações sobre o livro físico e ebook e futuras obras.