A verdadeira alma gêmea
14 O que fazer agora?
Nos afastamos e ficamos nos olhando, eu tinha gostado do beijo, mas quando terminou eu não sabia muito o que fazer. Nunca imaginei que meu primeiro beijo seria com o Gabriel.
Eu fiquei um pouco confusa, meus sentimentos estavam um pouco bagunçados. Eu me senti nas nuvens com aquele beijo, mas ao mesmo tempo a gente sabia que não íamos poder ficar juntos por muito tempo, eu sabia que isso ia mudar nosso relacionamento pra sempre, eu queria que continuássemos amigos. Eu não sabia o que fazer agora. Como as coisas iam ficar dali em diante.
— Acho melhor eu ir agora – Gabriel comentou, pegando sua camisa para voltar a se vestir.
— O quê? Por quê? – perguntei.
— Você não quer que eu vá?
— Não. Fica, depois a gente conversa.
— Tudo bem então, boa noite Lu. – Ele desistiu da camisa, voltando a colocá-la no chão.
— Boa noite, Biel – respondi dando um beijo na bochecha dele pra mostrar que estava tudo bem.
Fui para o quarto dormir, Magnólia já estava dormindo. Deitei na cama e comecei a pensar na vida. Eu sentira uma conexão com Astro durante a nossa dança, mas eu o conhecia a pouco tempo e ainda não confiava no programa o suficiente para achar que ele era uma pessoa perfeita pra mim, porém ele se mostrara um cara legal e se eu tivesse o conhecido em outra ocasião, de outra forma, as coisas seriam tão diferentes. Por outro lado, o Biel era meu amigo desde sempre e talvez a Ma tinha razão, talvez eu gostasse dele mais que como amigo. Quando é que minha vida virara uma série de clichê adolescente? Eu não imaginei isso para a minha vida. Eu gostava da minha vida como ela era, mas mudanças são invitáveis. Fiquei pensando e refletindo em busca de uma resposta até que adormeci.
Acordei com o barulho de chuva batendo na janela, estava incrivelmente descansada e bem disposta, mesmo depois de ficar tanto tempo pensando durante a noite. M.A.I.A. me acordou no horário de sempre, me arrumei muito rápido e corri para tomar meu café da manhã, passei pela sala e vi Gabriel ainda dormindo no sofá, normalmente ele dormiria no meu quarto comigo, mas com meu quarto ocupado pela Magnólia ele acabou ficando por lá mesmo.
— Biel, levanta. – Sacudi ele até ele acordar.
Eu estava tentando agir de forma natural, não que o beijo não significasse nada, mas agir com naturalidade era a forma de eu lidar com as coisas. Quando eu tinha coisas demais para pensar eu tentava só seguir em frente, mesmo com muitas preocupações batendo na minha cabeça. E naquele momento o Gabriel tinha que levantar e ir trabalhar, ele não podia ficar na minha sala dormindo pra sempre.
— Bom dia – eu disse sorrindo quando ele abriu os olhos.
— Bom dia – ele respondeu sonolento.
Gabriel levantou e se vestiu, ele não quis tomar café conosco, eu comi bastante rápido, pois em dia de chuva é comum meu ônibus atrasar um pouco e não queria que Dona Ester tivesse outro ataque.
Consegui não chegar atrasada, Larissa já estava no estoque verificando o que tínhamos na loja, Leo já estava no seu posto de sempre, Dona Ester não estava à vista, ainda não tínhamos nenhum funcionário para substituir a falta de Edna, então o trabalho ainda estava um pouco apertado. Com todo o trabalho eu pude deixar Astro e Gabriel fora dos meus pensamentos por bastante tempo, mas na hora do almoço Lari me perguntou o que havia de errado comigo, talvez meus pensamentos não estivessem tão quietos como eu achava que estavam e provavelmente estavam me escapando pelo meu rosto.
— O que há com você hoje? Está tão silenciosa, muito mais que o normal – Larissa me perguntou.
— Não é nada – desconversei.
— Nada? Você mal tocou na sua comida – ela comentou apontando para o meu prato.
— Não estou com fome.
— Você não quer me contar – ela me acusou, apontando o garfo dela pro meu nariz.
— Você nunca desiste. Está bem, eu te conto. – Revirei os olhos.
Se bem que conversar com alguém podia me dar alguma luz sobre o que fazer com a minha vida. Eu não estava nem perto de me apaixonar por que eu deveria e estava apaixonada por quem eu não deveria. Larissa estava me olhando enquanto esperava ansiosa pelo o que eu ia contar.
— Muito bem, por onde começo? – Suspirei.
Tive que fazer um resumo rápido sobre o que estava acontecendo, comecei cintando sobre Astro, a reação foi exatamente como eu esperava, assombro misturado com felicidade, ela também achava que ele estava muito empolgado e ansioso para me conhecer e que era um gesto muito lindo pagar para me conhecer, eu não queria entrar nesse tópico de novo, também não quis entrar na discussão se era sorte eu não ele ser meu par, segui contando a outra parte, falei sobre o Gabriel e sobre o beijo e como tudo aquilo estava me abalando profundamente.
— Bem, eu te aconselhei a aproveitar enquanto não encontrava sua alma gêmea, mas você é mesmo uma esperta, não é?
— Eu não planejei isso – respondi irritada, não gostei do tom que ela usou.
— Calma Luna, eu não quis insinuar nada, só queria descontrair um pouco – ela comentou.
— Só não sei o que fazer agora.
— Bom, você ainda não está apaixonada pelo Astro, mas eu acredito muito que isso vai acontecer, não conheço nenhuma alma gêmea que não é apaixonada pelo outro. Então acho que seria melhor focar nisso, você não quer magoar o Gabriel, então seria melhor conversar com ele, vocês sabem que não podem ficar juntos – ela aconselhou
Eu ainda não tinha certeza de que eu ia realmente me apaixonar pelo Astro, eu nem sabia se iria continuar saindo com ele, mas não podia negar a conexão que tivemos, por outro lado eu tinha uma conexão antiga e profunda com o Biel e estar gostando dele desse jeito era muito confuso, por um lado era bom, a gente combinava em muitas coisas e seria um sonho se fossemos pareados, mas ao mesmo tempo ele era meu melhor amigo, eu conhecia tudo sobre ele e para completar a regra era bastante clara, somente alma gêmeas controlavam a população.
— Você deveria sair com Astro mais uma vez, quem sabe alguma coisa acontece com você aí dentro – Lari continuou. – Você precisa de resolver isso o mais breve possível, uma pena que o coração não tem botão de desligar, por isso que o sistema é tão bom, ele não deixa o coração mandar sozinho, ele usa o cérebro em vez disso.
— Não acho que isso seja uma coisa boa, não acho que o cérebro seja melhor que o coração, os dois são igualmente valiosos – respondi.
— Ah, é mesmo? Então por que você está nessa confusão toda?
Porque eu não sou um robô, não tenho controle nenhum sobre o que eu sinto e esse sistema só complicou ainda mais essa história. Suspirei e não respondi, por sorte a nossa hora de almoço estava no fim, me levantei e segui de volta para a loja.
No meio do expediente recebi uma mensagem de Astro perguntando se ele podia me ver depois do trabalho. Pensei bastante antes de aceitar, eu havia pensado em apenas continuar a minha vida, mas talvez queria conversar com ele, deixar tudo bem claro, nós não somos amigos e nem mesmo um par, e seria bom também conversar com o Gabriel, deixar tudo às claras, Astro podia ser minha alma gêmea porque o sistema o fez ser, mas ele não podia basicamente comprar por mim, além disso ele precisava saber sobre os meus sentimentos, era justo com todos nós.
No fim do expediente, eu deixei Leo e Larissa saírem mais cedo e fiquei esperando Astro chegar enquanto organizava as coisas com Dona Ester. Ele chegou meia hora depois do meu horário de trabalho, eu já estava na rua esperando, Dona Ester não quis esperar pra fechar a loja. Ele estava bem arrumado, de traje social, calça preta, camisa branca, por cima um paletó azul claro, como ele estava aguentando aquela roupa no calor, eu não sabia dizer, mas estava bem bonito, bem cara de executivo de empresa.
— Oi Luna – ele me cumprimentou com um abraço rápido.
— Oi.
— Podemos ir?
— Aonde vamos? – perguntei entrando no carro.
— Pensei em dar uma passada lá em casa – ele me respondeu quando entrou.
— Mas já? Tudo bem – respondi sem jeito. Como assim para a casa dele? E por que eu concordei, não era para as coisas estarem acontecendo assim. Melhor acabar com isso logo e não deixar ir tão longe.
— Mas se você não quiser, podemos fazer outra coisa. Estou aberto a sugestões. – Ele completou enquanto dirigia.
— Não, tudo bem. Só podemos passar na minha casa antes? – Se eu ia para casa dele primeiro eu precisava tirar aquele uniforme e o cheiro de trabalho.
— Claro, por quê? – Ele parecia muito confuso.
Apontei para o meu uniforme, eu precisava tomar um banho e colocar uma roupa decente, fazer um penteado menos bagunçado, parecer menos um pouco menos pálida, não estava com nenhuma maquiagem, precisava de um batom e cinco minutos de descanso.
— Porque eu não vou na sua casa de uniforme, estou horrorosa – respondi indignada.
— Eu acho que você está ótima, mas tudo bem.
Chegamos bem rápido, deixei um recado para meus pais com a Magnólia que já tinha chegado do colégio e por via das dúvidas deixei também com M.A.I.A., deixei Astro na sala com a Ma, enquanto eu tomava banho muito rápido e colocava uma roupa bonitinha para visitar a casa dele. Acabei escolhendo um vestido um pouco mais elegante, ia até o joelho, vermelho, pois a cor fica bem em mim, o decote não era muito grande, mas estava presente, decidi não usar salto, também não fiz maquiagem completa, mas passei um batom e coloquei brincos pequenos, não fiz nada no cabelo para deixá-los secarem naturalmente.
— Estou pronta. – Entrei na sala correndo para não atrasar mais.
— Você está linda – Astro comentou
— Está parecendo uma princesa. – Magnólia completou.
— Obrigada, vamos? Ma, você vai ficar alguns minutos sozinha, Pietro e meu pai estão chegando e minha mãe chega logo depois, tá? – Me despedi dela dando um beijinho em sua bochecha.
Magnólia não gostava muito de ficar sozinha, mas todos os dias ela chega mais cedo que todos nós e tem que ficar por um tempo, M.A.I.A. ajudava bastante porque ela podia avisar qualquer um de nós se tivesse algum problema e Ma era uma criança supertranquila também e não causava problemas, ela apenas concordou com a cabeça e me deu um beijo na bochecha.
Chegar até a casa dele foi sossegado, era um pouco mais longe do que eu esperava. O bairro era bem elegante, as casas modernas, algumas com paredes de vidro, uma das casas em frente à casa dele, tinha dois andares, o segundo andar era inteiro de vidro, havia um gato na casa, eu não podia vê-lo, mas estava ouvindo os miados, parecia que ele estava preso no cômodo e queria sair e não podia. A casa de Astro era diferente, se destacava das demais pelo, não era tão modernizada, apesar de obviamente estar cheia de alarmes e uma M.A.I.A., a casa era uma velha mansão antiga, os portões ainda eram de ferro, as paredes eram de pedra também.
Passando pelo portão havia um caminho até a porta principal, no jardim de entrada havia algumas plantas aqui e ali, cascalho no chão, dois grandes chafarizes, um de cada lado respingando nas pessoas no caminho, achei brega, mas a casa não era minha para dar alguma opinião, apenas continuei andando, o plano estava dando certo até ali.
Por dentro a casa era bem diferente do que eu imaginava, bem mais moderno que o lado de fora, era um contraste interessante. A sala de estar era tão grande que caberia minha sala inteira mais a cozinha e ainda teria espaço para um banheiro ou dois, eu nem saberia o que fazer com tanto espaço, tinha três sofás bem grandes e confortáveis, eu nem sei quantas pessoas cabem em sofás desse tamanho, uma mesa de centro grande cheia de objetos decorativos, um tapete fofo, tv e alguns eletrônicos para diversão, havia um quadro da família em uma lareira também. “Ele tem um quadro dele mesmo e uma lareira, ‘pensei’. Nós vivemos em um país quente, mas ele precisa de um quadro dele mesmo e uma lareira. Gente rica é esquisita.” Lá estavam eles, Sophia, Ferdinando e Astro, a mãe de Astro pela foto parecia alta, magra e muito pálida, tinha os mesmos olhos azuis do filho, os cabelos eram loiros escuro quase chegando ao tom castanho, os lábios eram finos e as sobrancelhas também, deixando seu olhar muito marcante, ela parecia extremamente arrogante ou talvez o fotógrafo que escolhera uma foto muito ruim, já que o pai dele também não parecia nada agradável, ele era um homem com um peito largo e braços fortes, mas não era tão bonito quanto a mãe, tinha boa aparência no sentido de elegância e não de beleza, tinha uma face triangular com um queixo duro e pontudo, olhos negros e cabelos tão claros que eram quase brancos, o que me fazia questionar de onde vinham os cabelos tão escuros do filho, no meio dos dois estava Astro, com cara de que fora obrigado a tirar aquela foto.
— É o cúmulo do egocentrismo, não? – comentou Astro com um leve desgosto.
Em frente à entrada estava a escada que levava ao andar de cima, parecia uma versão menor das escadas que vemos em castelos dos filmes de princesas, tinha até uma estátua ao lado, achei brega, não precisava da estátua, mas eu tive que chegar perto da escada antes que meu queixo caísse no chão, era mármore de verdade e o corrimão de vidro e metal, lindíssima.
— Sua casa é muito bonita – elogiei para Astro.
Ele caminhava lentamente atrás de mim, me deixando caminhar livremente.
— Eu só gostaria de saber onde está todo mundo. Gostaria que você conhecesse todos antes do jantar – ele comentou. – Meu pai deve estar lá em cima, minha mãe eu não sei. – Ele me ofereceu a mão para podermos subir.
O escritório do Sr. Mayer era muito moderno e bonito, todos os eletrônicos estavam apagados, eram muito caros e valiosos com certeza, Ferdinando estava no computador muito concentrado e não nos viu entrar, ainda estava de roupa social, talvez chegara do trabalho e não se trocara ou algo assim.
— Pai? – Astro chamou. – Eu fiquei um pouco para trás esperando ele me apresentar, não queria tomar a frente e parecer mal-educada. – Podemos entrar? – Nós já estávamos dentro, mas foi educado perguntar.
O pai dele mal olhou para nós, fez apenas um sinal para nos aproximarmos e outro sinal para esperar. Me senti bem desconfortável, meus pais jamais tratariam uma visita assim, mesmo estando bastante ocupados eles pelo menos tentariam ser mais simpáticos, se pudessem parariam o que estavam fazendo para nos receber e se não pudessem pelo menos olhariam na nossa direção por alguns segundos, sorririam e pediriam verbalmente para esperarmos, depois tentariam compensar com simpatia e alegria. Esperamos um pouco, ele escrevia furiosamente no computador e sua expressão ficava cada vez mais irritada, até que por fim ele desligou muito irritado.
— Está tudo bem pai? – Astro perguntou, eu continuava atrás dele de cabeça baixa.
— Nada com o que se preocupar. Você queria alguma coisa? – Ferdinando respondeu indiferente, ele mal notou a minha presença.
— Só queria lhe apresentar uma pessoa. – Ele me puxou suavemente para mais perto. – Pai, essa é a Luna, a minha alma gêmea. – Ele me apresentou com um tom de alegria na voz.
— Muito prazer, senhor – cumprimentei, estendendo a minha mão, antipático ou não, eu devia cumprimentá-lo com decoro, afinal um de nós tinha que ser educado.
A postura dele mudou completamente quando me viu, o aperto de mão era firme, um sorriso social se abriu, sabia que era um sorriso social, pois não chagava aos olhos, ele parecia ter virado outra pessoa.
— É um prazer enorme recebê-la em nossa casa, espero que goste do jantar. Sinto muito que tenha visto essa cena lamentável, Astro, por que não mostra ela o restante da casa? Vou procura sua mãe – ele disse rapidamente tentando ser agradável enquanto praticamente nos expulsava dali.
— Não leve isso para o coração, meu pai não é muito agradável com ninguém fora de um evento social, mas achei que seria educado e necessário te apresentar a ele primeiro – Astro comentou comigo enquanto me conduzia pela casa, a minha cara devia estar denunciando os meus sentimentos pelo comentário dele.
O andar de cima eram basicamente quartos, banheiros, uma varanda e uma biblioteca. Nós não entramos no quarto dele, ele apenas me mostrou onde ficava, disse que voltaríamos lá depois, voltamos a descer.
Astro mais uma vez me deixou explorar com calma, soltou minha mão e ficou caminhando perto de mim em silencio, abri uma porta e não entendi o que exatamente era aquele cômodo, atiçara muito a minha curiosidade e atenção, parecia algum tipo de coleção, muitos frascos e muitas caixinhas, mas parecia para mim um monte de lixo e tranqueira, dei uma olhada para acalmar minha curiosidade, os frascos estavam cheios de areia, várias camadas e várias cores e as caixinhas cheias de pedras. Quem coleciona pedras e areia? É muita falta do que fazer com o dinheiro na minha opinião, mandar construir um cômodo inteiro e encher ele de pedras e areia, eu entendo a apelação visual, é para lembrar de como algumas coisas eram antigamente, como era o mundo, mas pedra e areia ainda existem. Será que quando uma pessoa tem tanto dinheiro, ela fica tão perdida que pensa “já sei vou começar a guardar pedras”? A próxima porta era uma sala de música com muitos instrumentos diferentes, alguns em armários de vidro, mas também tinha algumas cases para protege-los, eu reconhecia mais ou menos algumas formas, havia um piano lindíssimo no centro se destacando dos demais, os que estavam expostos pelo vidro eram um saxofone, uma trompa, um handpan, um clarinete e um bongô, mas talvez houvessem mais em caixinhas e gavetas, em um canto havia um sofá escuro que parecia ter sido largado ali fora do lugar, não combinava com a sala. Essa sala sim me parecia um investimento útil, eu sempre quis aprender piano, mas nunca pude pagar pelas aulas, eu só sei tocar violão, meu pai ensinou a nós, Pietro e eu, então não tivemos que pagar nada. Saímos desse cômodo e continuamos para o jardim dos fundos. A parte de trás da casa fora planejada para ser uma área agradável para tomar sol, fazer churrasco e curtir uma piscina no fim de semana, mas também havia uma área que dava para dançar e curtir uma festa.
— Não consigo imaginar por que uma pessoa precisa de uma casa tão grande – comentei comigo mesma.
— Não lhe agrada? – ele perguntou.
— Não é isso, é só desnecessário, ainda mais com uma família tão pequena – expliquei, não era pra ele ouvir.
— Compreendo.
— Por exemplo, nessa casa com tantos quartos, caberia facilmente, eu, meus pais, meu irmão, minha tia, o marido, Magnólia e as gêmeas que estão por vir.
— Sua família é tão grande. Deve ser incrível.
— Eu gosto muito, não consigo imaginar uma vida melhor.
Voltamos para o interior da casa, ainda faltava alguns cômodos para ver. Era uma casa grande e tão silenciosa, tão diferente da minha. A minha casa era pequena e bem mais barulhenta. Nossas realidades eram tão distintas, no entanto, estávamos nos dando tão bem.
O último cômodo que ele me mostrou foi a cozinha que também era a sala de jantar, era tão bonita e moderna quanto o resto da casa, baseada nas cores preto e branco, um balcão de pedra dividia o cômodo, os armários eram grandes e brancos, o fogão era pequeno e elétrico como qualquer outro no mundo, a mesa era de vidro e as cadeiras metalizadas, haviam banquinhos perto do balcão, também metalizados, haviam dois androides trabalhando ali, eles se vestiam com uniformes bem clássicos de empregados, eram dois robôs, um feminino e um masculino, ele estava vestido como um chefe de cozinha e ela como uma típica roupa preta com avental de empregada doméstica, eu soube que não eram humanos por causa dos olhos de bicho de pelúcia e pelo tom de pele incomum levemente metálico acinzentado deles. A robô feminina tinha uma aparência jovem, gordinha e bem fofa, o rosto redondo, nariz grande e arredondado, bochechas cheias, o cabelo azul metálico na altura do ombro bem ondulado, parecia uma boneca viva, o robô masculino tinha um bigode longo e fino, um nariz bem pronunciado e queixo longo, aparentava ser mais velho que ela, mesmo robôs não tendo idades especificas, embora humanoides, nenhum dos dois era muito parecido com um ser humano mais do que só o suficiente para identificar a forma, já vira androides mais perfeitos, mas não era tão robóticos também.
— Esses são S.A.U.L.O. e M.I.A., nossos assistentes androides, minha mãe não queria que eles fossem tão perfeitos. Essa é a Luna, nossa convidada esta noite – ele me apresentou aos robôs.
— Boa noite, senhorita Luna, seja bem-vinda à casa Mayer, esperamos que o jantar seja de seu agrado – respondeu M.I.A.
— É um enorme prazer conhecê-la, espero poder fazê-la feliz hoje à noite – respondeu também S.A.U.L.O.
Eu sabia que eles foram programados para tratar bem as pessoas, mas aqueles dois robôs eram mais educados que muita gente, inclusive mais educados do que outros robôs.
— Obrigada, tenho certeza que vou adorar – respondi com um sorriso.
S.A.U.L.O. e M.I.A. eram muito eficientes na cozinha, eles cortavam e misturavam em muita sincronia, M.I.A. cortou tomates, cebola, cenoura em pouco tempo, enquanto S.A.U.L.O. separava utensílios e lavava tudo, nunca vi robôs tão eficientes em toda a minha vida, e eu já tinha visto muitos robôs trabalhando, esses dois agiam como se fossem um só. Não sabia dizer o que eles estavam fazendo, mas estavam cortando e temperando de um jeito que estava ficando muito cheiroso e bonito. Os pais de Astro entraram na cozinha bem no momento que eles colocavam a comida para assar, o senhor Mayer dizia algo a esposa, entendi algo como “jantar assim com a visita”, mas o resto não deu para entender.
— Boa noite. E você é? – Me cumprimentou Sophia Mayer ao entrar.
Ao contrário do marido, a senhora Mayer parecia um pouco mais simpática, ela já estava usando seu traje de dormir, uma camisola longa de cetim branco, parecia um vestido antigo e elegante, mas era só uma roupa de dormir.
— Boa noite senhora Mayer. Sou Luna – respondi estendendo a mão para cumprimenta-la.
— Minha alma gêmea mãe, eu disse que talvez ela viria hoje para jantar – completou Astro.
— É um prazer conhece-la, é muito bonita. – Sophia comentou com um sorriso simpático.
— Obrigada, senhora Mayer. A senhora também é muito bonita – respondi da mesma forma gentil.
— Obrigada querida. Espero que vocês estejam gostando um do outro – ela comentou de forma simpática.
— Ainda estamos nos conhecendo – respondi.
— Somos minimamente agradáveis um com outro, não é mesmo, Luna? – Astro piscou pra mim com um sorriso arrebatador lembrando do nosso acordo no primeiro encontro.
— Minimamente agradáveis? – perguntou Ferdinando.
— É um acordo nosso. – Astro completou.
— S.A.U.L.O. poderia levar um prato do jantar para o meu escritório? – Ferdinando pediu. ao robô, mudando de assunto de forma brusca.
A senhora Mayer fez uma cara de desagrado, mas logo sumiu.
— Sim senhor. – S.A.U.L.O. respondeu.
— O senhor não vai jantar conosco? – perguntei.
— Minha querida, tenho muita coisa para fazer, só vim cumprimenta-la mais uma vez – ele respondeu como se fosse obvio demais que ele era um homem muito ocupado.
Ele se retirou sem dizer nada. O jantar estava bem gostoso, mas foi bem desconfortável, a mãe dele conversou pouco conosco e não parava de olhar o telefone. S.A.U.L.O. saiu sem ninguém perceber, M.I.A. também saiu em silêncio e quando me dei conta ela já tinha ido também. Não pude deixar de novamente comparar a forma como meus pais tratavam a visita e como eu estava sendo tratada, não que eles estivessem me tratando mal, mas eu me sentia um pouco tímida, meus pais nunca deixavam ninguém mexer ao telefone à mesa e sempre tentavam deixar as pessoas muito confortáveis, mas essa era só a primeira impressão, com tempo talvez o nosso relacionamento pudesse melhorar, o tempo era um ótimo construtor de relações, para o bem ou para o mal, eu só esperava que tudo melhorasse, aquela família era tão fria e distante uns dos outros, era como se não fossem uma família, eram completos estranhos.
Quando terminamos de comer nos despedimos de Sophia e fomos procurar Ferdinando para me despedir também, mas ele não estava no escritório e desistimos, em algum momento enquanto desistíamos de procurar Astro apenas suspirou resignado e balançou a cabeça, como se ele fosse se preocupar com isso depois. No carro Astro se desculpou pelo desconforto no jantar.
— Não se preocupe, foi só um dia ruim – respondi.
Ele não respondeu, olhou para frente e suspirou, dirigiu com calma, a nossa noite estava acabando e eu ainda não tinha começado a conversa que eu queria ter.
— Astro, poderia parar o carro por favor – pedi.
— O que, algum problema? – ele pareceu preocupado comigo.
— Eu queria conversar com você antes de chegar em casa.
Ele saiu do trânsito e procurou um lugar tranquilo para estacionar para podermos conversar. Parecia um pouco confuso, porém não tão preocupado mais, seu rosto estava suave.
— Muito bem, pode falar.
— Muito bem, você disse que gostaria de me conhecer, pois bem – respondi respirando fundo antes de começar.
Astro me ouviu com atenção e sem me interromper, não falei muito, foi mais breve e menos horrível do que eu imaginei. Contei a ele que eu ainda não estava apaixonada por ele, mas que sentira alguma conexão durante a nossa dança, falei um pouco sobre o Biel em como nossa amizade era muito importante pra mim e que eu estava gostando um pouco mais dele agora, não quis usar a palavra apaixonada, e que isso podia afetar minha relação com Astro como amigos e isso era tudo que ele podia esperar de mim, eu estava tentando me convencer que seguir o sistema não fazia dele uma pessoa ruim, apenas conformado, mesmo eu sabendo que não devo gostar dele. Astro me ouviu prestando atenção e sem me interromper, quando eu terminei, ele estava me olhando com tranquilidade.
— Vejo que andou pensando bastante na vida. Não vejo razão para estar tão preocupada em não estar apaixonada por mim, eu também não estou apaixonado por você. Acredito que possamos nos apaixonar, mas mesmo que isso não ocorra, não seria o ideal, mas acontece. Quanto ao seu melhor amigo é melhor você conversar com ele, expor seus sentimentos a ele e deixar tudo às claras – ele me aconselhou com simpatia.
Me senti mais aliviada depois dessa conversa, Astro foi muito compreensivo e me deu um bom conselho. Dei um sorrisinho meio sem graça e lhe fiz um carinho na bochecha. Até que ele estava sendo minimamente agradável de fato, não era um príncipe encantado, mas talvez não precisasse ser o monstro terrível que eu criei, não era culpa dele ser rico e estar preso nessa condição de bosta onde se paga pela privacidade alheia, estamos todos jogando com as cartas e habilidades que temos, ele assim como meu irmão, só é mais empolgado com o jogo, enquanto eu empurro com a barriga.
— Obrigada por entender – falei com doçura
— Não há de que. Podemos ir? – ele respondeu também de forma doce olhando nos meus olhos.
— Por favor.
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