A verdadeira alma gêmea
6 Enlouquecendo
Passei o resto de domingo tentando decifrar aquela imagem, era tão entediante, procurei em cada canto, comecei a pensar que teria que olhar pixel por pixel, estava me dando tanto sono ficar olhando para aquela tela que sentia minha cabeça pendendo como se a qualquer momento ela fosse cair do pescoço, tive que me levantar e lavar meu rosto com água fria pelo menos umas três vezes porque senti a baba se formando e quase pingando da minha boca. Coloquei uma música animada de fundo pra ver se ajudava e ainda continuava com sono. A verdadeira alma gêmea, encontre seu par perfeito ou morra de tédio no caminho. Em algum momento comecei a imaginar uma história para o casal, pelo menos assim eu me distraia, comecei a pensar em como aquele casal se conhecera, imaginei que eles eram de um tempo diferente, de um tempo em que ninguém vivia junto por obrigação. “Eles se conheceram numa viagem, se sentam lado a lado por coincidência, ela senta perto da janela e ele perto do corredor. O nome dele é Miguel e o nome dela é Helena, ambos estão se mudando para uma cidade nova, não conversam muito durante a viagem. Ele não gosta dela de imediato, só não consegue explicar o motivo. Ela tem um noivo, ele é um homem religioso e não pode se casar, mas de algum jeito eles se apaixonam, ele se sente culpado por tais pensamentos. Um dia ele desesperado larga tudo e vai embora, ela se casa com outro. Quando ele volta já em outra profissão e disposto a ir atrás do seu amor verdadeiro, descobre que ela está casada, mas é um casamento infeliz, o marido a trai diversas vezes, mas por medo ou por vergonha ela não se separa. Eles tentam manter uma amizade sincera, mas em um dia de chuva ele a encontra sozinha andando pela rua descalça e desamparada, ele a ajuda e a leva para a casa dele, onde ela passa a noite. Na manhã seguinte, ela o agradece e quando estão se despedindo, eles se beijam. Helena e Miguel começam a viver esse romance escondido, procurando lugares distantes como uma cabana na floresta para poderem viver seu amor proibido. Aquela ponte fica em um dos pontos que dava para chegar à cabana, ele levara uma rosa, estavam aproveitando o nascer ou o pôr do sol, ainda não decidira esse ponto da história.’’ Era isso, a única coisa que a imagem dizia pra mim, uma história de amor que eu nunca iria viver.
Apesar de ter acordado mais tarde fui dormir mais cedo que o normal, logo depois da janta. Minha cabeça estava explodindo e minha vista estava até um pouco cansada por tanto tempo que fiquei olhando para aquela mesma imagem, em algum momento fiquei com raiva de Helena e Miguel, os personagens que eu mesma criei, tanto que dei um final trágico para a história, Miguel e Helena não ficaram juntos.
Tive um sonho tão estranho, eu estava na praia, um lugar que eu gosto muito, adoro o sol, o mar, o clima. A brisa tocava em meu rosto, as ondas batiam na areia, estava de pés descalços, a areia não estava muito quente, na verdade estava bem agradável. Eu estava sozinha, comecei a caminhar, apesar de gostar do ambiente, algo estava estranho. Eu estava usando um vestido branco, parecia uma camisola muito comprida, ia até o chão. Tinha a sensação que alguém me observava enquanto eu caminhava. Fiquei com medo, alguns metros à frente estava Gabriel, mas ele não se chamava Gabriel, ele era Miguel, o meu personagem e ele me chamou de Helena, ele dizia “Não posso lhe dar o que você quer” “Ele descobriu” repetidamente, mesmo estando um pouco distante eu podia ouvi-lo. Tentei me aproximar dele, mas quanto mais eu andava, mais longe ele estava e minhas pernas ficavam cada vez mais pesadas. Quando acordei na manhã seguinte deixei o sonho pra lá, nada fazia sentido, eu não era Helena, não havia motivos para continuar pensando nisso, tomei uma xícara de café e me arrumei para o trabalho.
Cheguei na loja no horário de sempre, Leo como todos os dias me cumprimentou com um “bom dia” sorridente, já estava em seu posto na entrada da loja com sua melhor expressão de “sou um homem mau’’ que ele conseguia colocar em seu rosto bonachão, Edna já estava em uma prateleira arrumando os produtos que estavam fora do lugar e Larissa não estava a vista, uma procura rápida e a encontrei no estoque, dei um alô com a mão só para lhe cumprimentar, não queria atrapalhar e voltei para poder esperar os clientes começarem a chegar.
Eu ainda estava pegando o jeito das coisas, mas Edna e Larissa tinham muita paciência ao me ensinar. Eu aprendi a lidar com o sistema de transferência para o pagamento, há que a anos não existia mais dinheiro físico, é louco pensar que antigamente existia dinheiro em papel, era um sistema muito fácil de mexer. Elas também me ensinaram onde ficava cada coisa e como eram separadas as seções. Não demorei muito para aprender e em uma semana eu já sabia fazer tudo sozinha.
O tempo na loja passava muito rápido, eu chegava lá às 6:00h da manhã, 11:30 parava para o almoço, voltava 12:30h e ficava até às 18:30h ou 19:30h se estivesse muito cheia, o que raramente acontecia, pois muitas vendas eram online e a gente só tinha que embalar tudo com bastante cuidado, colocar um brinde e entregar para quem viesse buscar, ou deixar com Dona Ester ou para o Senhor Paulo quando ele ia, um dos dois faria a entrega ou daria um jeito dela acontecer, nas sextas a gente fechava a loja as 16:00 ou 17:00 horas, dependendo do movimento, normalmente mais cedo. Eu peguei o ritmo bem rápido, embora M.A.I.A. ainda tivesse que me acordar pra eu não perder a hora. Com tanta rotina, eu nem me preocupei mais com aquela imagem idiota, quase nunca pensava nela. Mas obviamente ela ainda me preocupava.
Já fazia um mês que eu olhava aquela mesma imagem, estava tão gravada na minha mente que as vezes eu sonhava com ela. Miguel e Helena, como eu havia os nomeado estavam se tornando meu pesadelo pessoal. Eu não conseguia decifrar aquele código idiota, eu pegava a imagem no meu celular em cada parte livre do meu tempo, estava começando a pensar que teria sido melhor ficar de fora dessa coisa, ter falhado. Às vezes eu sonhava que eles vinham até mim, os guardas desconhecidos e me levavam embora. Quando não estava sonhando com a história que eu mesma criei e sendo assombrada por meus personagens, estava sendo assombradas pelos Invisíveis. Certa vez sonhei que estava em um apartamento, não era um lugar agradável, era escuro, as janelas estavam quebradas e fazia frio, duas cobertas amarelas estavam no lugar das cortinas, a porta um dia havia sido vermelha, mas a tinta descascara a muito tempo, a parede estava cheia de bolor e tudo cheirava a coisa velha, então a sirene começou a tocar, eu me levantei do chão sujo para correr, quando abri a porta havia dois homens ali, eles não tinham rosto, eles me pegaram a força e começaram a me arrastar pra fora dali, eles me jogaram em um carro e começaram a dirigir muito depressa pela cidade, as ruas vazias, mas mesmo com a velocidade quando eles passaram pela minha casa, eu podia ver pela janela, todos estavam me olhando com tristeza, minha mãe chorava muito, meu pai mal conseguia olhar a cena, Pietro estava em choque, ao lado dele uma mulher sem rosto, a alma gêmea que ele havia encontrado, não sabia dizer o sentimento que ela estava sentindo, a porta se abriu e correndo atrás do carro em desespero surgiu Gabriel, meu coração se apertou tanto que me ajoelhei no banco de trás e comecei a gritar “Não, por favor. Me levem de volta”, acordei assustada com batidas na minha porta e por um segundo pensei que podia ser eles, levou algum tempo para lembrar que estava segura no meu quarto. Essa alma gêmea ainda ia me enlouquecer, me matar ou os dois.
Me levantei desnorteada pensando que M.A.I.A. não havia me acordado para o trabalho, bateram na porta de novo. Comecei a raciocinar de novo com o sono indo embora e o pesadelo se afastando aos poucos da minha mente, se havia gente em casa, não era dia de semana.
— Entre – consegui responder entre bocejos.
— Mamãe está chamando a gente na sala. – Pietro me chamou
Levantei e fui escovar os dentes, qualquer que fosse a urgência minha mãe podia esperar eu ir ao banheiro e lavar minha cara. Troquei de roupas o mais rápido possível colocando só um vestido, pois era uma peça única, fiquei descalça mesmo e fui pra sala. Tia Roberta e Magnólia estavam esperando no nosso sofá, abracei as duas e me sentei, minha mãe levou suco de maçã e biscoitos para nós comermos enquanto, todos já estavam reunidos.
— Gente, eu tenho novidades – declarou tia Roberta, alegre como sempre. – A família vai aumentar.
— Como é você está grávida? – eu disse incrédula.
— Não ela está esperando melões, é claro que ela está grávida. Está grávida, não está? – perguntou Pietro, também em choque com a notícia.
— Sim, eu estou. Por isso que eu vim aqui hoje. Preciso de um enorme favor, será que a Magnólia pode ficar com vocês por algum tempo? Nós vamos precisar fazer umas mudanças na casa e vocês sabem como eu fico na gravidez, seus pais devem se lembrar bem meninos. Ela vai ficar muito desconfortável em casa, não vai ser por muito tempo. Eu sei que isso vai mudar toda a rotina de vocês, mas é só por um tempo – explicou ela.
— Meus parabéns, vai ter um segundo bebê. Que coisa linda – disse meu pai animado abraçando a irmã com carinho.
— Meus parabéns pelo seu segundo bebê. É claro que a Magnólia pode ficar, é sempre muito bem-vinda. – concordou prontamente minha mãe, a abraçando logo depois de meu pai. – Lu, você se importa de dividir ou seu quarto?
— Não, claro que não. Eu vou adorar ter a Magnólia comigo, só vou avisando, se ela roncar vou jogá-la pela janela – brinquei com elas bagunçando o cabelo da minha prima.
Tia Roberta e Magnólia passaram o dia conosco, mais tarde o marido dela trouxe algumas coisas que a Magnólia ia precisar para o tempo que ela ficar e todos almoçamos juntos, mais à tardinha eles se foram e minha prima ficou conosco, estava super animada para morar na nossa casa por um tempo.
— Então Pietro, como anda seu enigma? – perguntei, tentando parecer desinteressada na hora da janta.
— Ah, aquele? Terminei ontem no caminho pra casa, antes de entrar, passei na esquina e peguei mais um, custou caro, mas vai valer a pena no futuro. Cada número vermelho representava uma letra, os números pretos a quantidade de letras que havia do número vermelho, quando descobri isso, foi muito fácil descobrir o resto, formou um anagrama que virou uma frase. Recebi a dica que minha alma gêmea tem uma tatuagem de fênix, mas não tenho como verificar essa informação, mas não vou desanimar, o novo desafio é mais empolgante que o anterior. E você?
— As economias vão valer a pena agora. Ainda não consegui – respondi desanimada.
— Quando eu crescer, espero encontrar a minha alma gêmea bem rápido, assim não vou gastar muito dinheiro – comentou Magnólia enquanto partia um brócolis em dois.
— De nós três, você é a mais esperta, aposto que vai encontrá-la em pouco tempo. – Pietro lhe disse empolgado com a empolgação dela.
Terminamos de jantar e fui arrumar meu quarto para receber minha prima, coloquei um colchão no chão, cobri com um lençol, coloquei alguns travesseiros e uma coberta. Quando terminei, disse que ela podia dormir na minha cama, ficava mais perto do banheiro e não atrapalhava o caminho, eu não ia deixar uma criança dormir no chão, ela ficou feliz quando cedi meu travesseiro favorito porque ela achou mais macio e tinha um cheiro bom.
Botamos nossos pijamas e ela foi deitar, deixei uma luminária fraca acesa pra ela dormir tranquila, podia cobrir meus olhos e dormir sem me incomodar, mas antes eu voltei para a imagem, estava a dias procurando pixel por pixel, pra saber se não havia nada escondido, era a única solução possível de ter algo escondido, já procurara ilusões óticas, frases escondidas, letras, números, virei a imagem ao contrário, tentei mudar as cores para ver a imagem colorida, não sabia mais o que fazer. Já estava nisso a algum tempo quando Magnólia me perguntou o que era.
— O que é isso? – disse curiosa
— A minha primeira pista. Todo mundo já decifrou pelo menos uma e eu não sei o que fazer com isso.
— Não sabia que era uma competição.
— Não é. Mas a gente tem um tempo.
— Posso ver? – disse ela sob meu ombro.
Abri a imagem completa pra ela dar uma olhada, lá estavam eles como sempre, Miguel e Helena.
— Eles parecem tão fofinhos. O que é para fazer? – ela perguntou.
— Tem algo escondido na imagem, mas não sei o que é, não sei mais como procurar.
Continuei procurando até começar a ficar com sono, Magnólia voltara para a cama, mas não reparei se estava dormindo ou não, estava muito silêncio na casa, então quando Magnólia voltou a falar eu me assustei e tive que tapar a boca com as mãos para reprimir um grito, não prestei atenção no que ela disse, só ao meu coração disparado.
— O quê? – perguntei enquanto tentava recuperar o fôlego.
— E se não tiver? – ela repetiu
— E se não tiver o quê? – perguntei confusa.
— E se for uma pegadinha? E se não tiver nada na foto? Você está procurando aí há um tempão, já teria achado.
— Não ia ser tão fácil – respondi descrente
— E se for? – ela continuou com convicção.
— Mas não é – teimei.
— Eles podem ter feito isso.
É eles podem, as pistas não eram claras de propósito e talvez seja bem mais fácil, eles poderiam simplesmente fazer parecer mais difícil do que é, mas talvez seja simples, afinal eu estava a dias procurando, conhecia aquela imagem muito bem e se tivesse algum segredo, eu já teria achado. Ainda sem acreditar que uma criança de onze anos ia desvendar minha pista primeiro do que eu, entrei no meu cadastro e anexei a imagem com a resposta mais improvável que tinha:
Não há resposta
Errado a máquina me respondeu
Tentei novamente:
Não há segredos
Errado voltou a aparecer.
Eu queria jogar Miguel e Helena pela janela, com computador e tudo, eles eram o casal mais irritante da história, foi então que me deu um click na mente, eles são um casal, talvez a história que eu criei não fosse verídica, mas eles são um casal.
Almas gêmeas
Correto, parabéns você agora está mais próxima de sua alma gêmea, favor colocar a resposta no leitor e receberá sua pista de quem é sua alma gêmea.
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