No dia seguinte fui para o trabalho e parecia que o caos da noite anterior permanecia naquela manhã, Dona Ester corria de um lado a outro muito atarefada, Seu Paulo, o marido que raramente aparecia na própria loja também estava muito ocupado, não vi Larissa e nem Edna, elas ainda não haviam chegado, perguntei ao Leo se ele sabia o motivo de tudo. Ele não sabia dizer, chegara pouco tempo antes de mim. Larissa entrou correndo e quase me jogou no chão.

— Ah, aí estão vocês, as bonitas decidiram trabalhar hoje – falou Dona Ester ao nos ver.

— Algum problema, Dona Ester? – perguntei com cautela devido ao mau humor dela.

— Edna pediu demissão, não me deu nem um aviso, simplesmente mandou uma mensagem dizendo que não pode voltar a trabalhar na loja. Ainda por cima, vários clientes, estão desde ontem reclamando de um problema na entrega, esses pedidos foram enviados a eles. Adivinhe por quem? Edna, ela anda com a cabeça nas nuvens já faz algum tempo e pra completar, minhas duas funcionárias que ainda me restam estão olhando para mim paradas igual um dois de paus e não estão me ajudando a resolver o problema – respondeu Dona Ester, à beira de um colapso.

— Meu bem, calma, elas acabaram de chegar. – Tentou acalmá-la o marido.

Dona Ester normalmente calma e gentil, estava uma pilha de nervos, não nos atrevemos a perguntar mais nada, começamos nosso trabalho em silêncio. Para completar o estresse do dia, a loja estava vendendo muito nesse dia, parecia até que o natal havia chegado mais cedo e ninguém havia comprado nada ainda, o que era bom para o caixa, estava saindo uma compra atrás da outra, tanto online quanto pessoalmente e normalmente eu ia ficar super animada com isso, mas com Dona Ester com a cabeça fervendo, ficou bem difícil de comemorar. Eu quase fui demitida pois ainda errei duas encomendas online que acabaram voltando para a loja tendo que ser trocadas, depois pra piorar de vez cancelei sem querer uma compra enorme. Eu estava quase tendo um treco. O universo havia virado meu dia de cabeça pra baixo daquele jeito, eu só queria um momento de paz.

Na hora do almoço as coisas deram uma acalmada por tempo suficiente para eu conseguir comer um sanduíche e beber um suco, Larissa e eu estávamos tão cansadas que nem conversamos muito, estávamos tristes pela Edna ter ido embora. Mas o intervalo de paz não durou muito, o fluxo até deu uma diminuída, mas muitas outras coisas deram tão errado, que eu só queria que o dia acabasse logo. Quando os dias eram ruins assim, eu tinha a teoria que dormir e acabar logo com o dia era o melhor a ser feito, assim o dia seguinte chegava mais rápido, talvez eu de olhos fechados o dia passasse mais rápido. Quando cheguei em casa mais tarde, eu só queria colocar a cabeça no travesseiro e assim foram os dias que se seguiram até o final de semana. Eu não costumo acreditar em astrologia, mas parecia a semana do meu inferno astral, na verdade nem sei se era a suposta data correta, mas que fora a semana mais cansativa da minha vida, isso foi.

Na manhã de sábado acordei com um pouco de dor de cabeça, a semana havia sido cansativa demais, acabei acordando mais tarde, no banho a água quente ajudava meus músculos a relaxarem, estava muito dolorido. Enquanto penteava o cabelo chegou uma mensagem pra mim de Astro.

Posso te buscar mais tarde? Droga, eu havia esquecido completamente dele.

Sim, que horas?

Às 16:00

Perfeito.

Passei o dia em casa com minha família com bastante tranquilidade, quando faltava um pouco mais de uma hora para o meu encontro chamei minha mãe para o quarto pra ela me ajudar a escolher uma roupa adequada.

— Onde é esse encontro? – ela perguntou animada.

— Não sei.

— Como assim não sabe?

— Não sei mãe, só me ajuda escolher uma roupa bonita por favor.

Acabamos escolhendo um vestido florido um pouco mais básico, por não saber exatamente o que esperar não queria arriscar estar muito ou pouco arrumada, coloquei um salto não muito alto, os mesmos brincos de pérola que usava sempre, um pouco de maquiagem com batom mais claro, preparei uma bolsa de mão e para completar fiz um penteado, fiz uma trança de cada lado e prendi atrás, fiquei na dúvida se colocava algum acessório no cabelo, mas nenhum que eu tinha ficou bom com o vestido. Astro chegou pontualmente, dei tchau para todos e entrei no carro. O perfume dele estava por toda a parte, era um cheiro forte, mas bem agradável. O carro estava limpo e o banco era macio, bem confortável, combinava com tudo o que eu imaginava de Astro, ele estava muito bem arrumado, o cabelo penteado num topete firme, uma jaqueta que imitava couro, não usamos couro de verdade há anos, calça jeans e camisa, elegante, mas comum.

— Boa tarde, Luna. – Ele me cumprimentou sorridente.

— Boa tarde, Astro. Aonde vamos? – perguntei.

— Vamos dar um passeio pelo parque, podemos assistir ao pôr do sol, pensei em dançar um pouco e depois jantar, antes de eu poder trazê-la de volta pra casa. O que você acha? – ele respondeu começando a dirigir.

— Acho que você leu meu dossiê direito – comentei, não havia nenhuma surpresa no passeio, mas o que eu estava esperando? Ele pagara pela minha privacidade, sabia tudo sobre mim, eu que não sabia nada dele.

— Olha, eu sei que essa situação não parece a ideal, mas eu prometo conquistá-la pouco a pouco e no fim, verá que somos um par perfeito – comentou ele sério.

— Se a matemática diz... – Revirei os olhos, queria deixar bem claro que não estava feliz com aquela situação.

— Você pode não acreditar no amor, mas estou disposto a fazê-la mudar de ideia.

— Eu acredito no amor, encontrar uma pessoa do jeito que fomos obrigados é que está bem longe de ser amor.

— Ajudaria se eu dissesse que não paguei pelo seu dossiê? Eu só peguei algumas informações. Quando disse que pretendo conhecê-la, eu estava falando sério. Nossos destinos estão ligados, Luna, quer você queira ou não, e não há nada que possamos fazer em relação a isso, mas se depender de mim, nós podemos ao menos ser amigos e pode ser minimamente agradável, o que acha? Podemos pelo menos tentar? – ele perguntou.

— O sistema nos colocou como almas gêmeas Astro, mas não espere mais do que isso.

— Por favor? – Ele me olhou com doçura, quase como um cachorrinho pedindo carinho.

Não sabia se eu acreditava nele ou não sobre o meu dossiê, minha privacidade era muito importante e entregá-la de bandeja para a A.V.A.G. me incomodava muito, mas a proposta dele não era nada absurda, pensei por um momento e respirei fundo antes de concordar.

— Tudo bem, minimamente agradável parece bom pra mim.

— Aliás, você está bonita, não tive a oportunidade de dizer antes. – Ele sorriu de verdade ao dizer isso.

— Ah, obrigada. Você também está bonito – respondi. – E cheiroso também – completei para ser educada.

— Obrigado, é meu preferido, achei que talvez fosse gostar.

Ele me levou a uma reserva natural que havia na nossa cidade, uma das que fora criada depois da guerra pelos recursos e uma das poucas abertas para visitação. Era um parque muito bonito, com muitas árvores, uma lagoa artificial de águas claras, alguns bancos e mesinhas onde dava para fazer piqueniques, muitas flores coloridas, grama verdinha, muitos caminhos para fazer trilha, mas também alguns só para passear e andar de bicicleta, estes não passavam no meio das árvores, era um lugar fresquinho e muito gostoso de estar, mesmo não vendo os animais eu sabia que haviam alguns, pássaros e micos, além de borboletas, era um lugar muito bonito e eu gostava de estar ali, ainda bem que escolhi roupas frescas e sapatos confortáveis, Astro acertou em cheio, era um bom encontro pra começar.

Nós caminhamos um pouco lado a lado, era meio estranho, ele ainda era um desconhecido, mas eu não demonstrei desconforto. Observamos os patos na lagoa e alimentamos os peixes com ração que compramos, ele me chamou para um passeio de barco na lagoa, nós alugamos um barquinho com um homem, não deixei Astro me ajudar com o colete, mas deixei ele me ajudar a entrar no barco.

— Obrigada, muito gentil – falei.

— Aproveite o passeio.

Tinha que remar, pois não tinha motor, era um barco antigo de madeira, mas mesmo sendo antigo não entrava água pelo fundo, o que me tranquilizou.

— No que está pensando? – Astro perguntou me olhando com curiosidade.

— Que é uma sorte estarmos de colete.

— Não tem a mínima chance desse barco virar. Está gostando do passeio?

— Sim, obrigada por me trazer.

Ele sorriu de novo, uma coisa que eu tinha que admitir, ele tinha um sorriso lindo, quando ele sorria com sinceridade seu rosto parecia se iluminar, não pude deixar de sorrir também. O passeio foi bem tranquilo e como prometido, o barco não virou, depois nós caminhamos até um ponto mais alto e nos sentamos para ver o pôr do sol, ele me ofereceu a jaqueta para que eu não me sentasse na grama e me sujasse de terra, eu aceitei, a jaqueta dele era muito mais fácil de limpar que o meu vestido.

— Obrigada.

— Não precisa me agradecer por tudo que eu faço – ele comentou

— Isso te incomoda? Desculpe.

— Não me incomoda, você é muito educada, isso dá para perceber, mas acho desnecessário.

— Então eu vou continuar, se não se importa.

— Não, tudo bem.

— Tudo bem.

Ficamos observando o sol baixar, ao final ele me ajudou a levantar e caminhamos de volta ao carro para irmos ao próximo destino, enquanto andávamos ele me ofereceu uma maçã do amor coberta de chocolate e confeitos coloridos, eu aceitei, pois gosto muito de chocolate e maçã é minha fruta preferida.

— Gosta de maçã? – ele perguntou.

— Gosto, é minha fruta preferida, obrigada.

— Eu não sabia o que esperar de hoje, eu é quem agradeço por vir e por deixar esse início de noite minimamente agradável – ele respondeu sorrindo, me lembrando do nosso acordo.

— Minimamente agradável, não espere mais que isso.

Ele dirigiu para nosso próximo destino, conversamos um pouco no caminho. A conversa com ele era surpreendentemente fácil, mesmo eu não o conhecendo nada, ele se demonstrou interessado em saber sobre a minha vida e me falou um pouco sobre ele. Astro me perguntou sobre a minha família, como era crescer com um irmão, já que ele era filho único.

— Foi divertido passar a minha infância com Pietro, eu cresci cercada de garotos, não tinha muitas meninas na minha rua, meu contato com outras garotas era só na escola, por isso eu brincava de luta e andava de skate, eu era uma peste na infância, até hoje meu melhor amigo é um garoto, mas eu tenho também algumas amigas, só não sou tão próxima delas. Meu irmão é tudo pra mim, a gente quase nunca briga – respondi com carinho ao falar do meu irmão. – E você? Nunca sentiu falta de um irmão?

— Minha mãe não queria mais filhos, passei minha infância muito sozinho, quando meus amigos não estavam em casa para brincar, passava meu tempo jogando videogame e vendo filmes, mas não foi uma infância triste, eu também vivia aprontando e deixando todos loucos, minha mãe sempre diz que a maior parte dos seus cabelos brancos são minha culpa. – Ele riu consigo mesmo com as lembranças de uma infância feliz.

— Nós somos tão diferentes, como o sistema achou que devíamos nos juntar? – comentei.

— Não sei se somos tão diferentes, apenas nos conhecemos agora. Além disso, não é esse o segredo da evolução? Variedade? – ele comentou, olhando para mim muito rapidamente.

— Mantenha os olhos na estrada. Quer sofrer um acidente? – repreendi.

Ele balançou a cabeça rindo, mas não voltou a virar a cabeça até pararmos.

O lugar que ele escolheu para dançar era bem interessante, a música estava alta e havia uma pista de dança bem grande no centro, dava para se movimentar com fluidez, mesmo com tantas pessoas dançando, era um lugar bastante animado. Ele me ofereceu a mão para me ajudar a chegar à pista de dança e podermos dançar próximos.

Astro era um bom dançarino, seus movimentos eram bem fluídos e ele era bem solto, eu conseguia acompanhá-lo bem, era o tipo de música que eu gostava, eu gostava menos de músicas lentas para dançar colado, gostava mais de músicas animadas como aquela, nossos movimentos se encaixavam perfeitamente, era estranho, mas confortável essa sincronia, talvez eu pudesse me acostumar. Ele estava sempre ao meu redor, nossos olhares se cruzavam e era fácil acreditar naquele instante que ele era a minha alma gêmea, as vezes ele se aproximava mais e colava seu corpo ao meu, eu devia me sentir desconfortável com essa aproximação tão íntima, mas ele se afastava antes de eu ficar desconfortável e só fazia movimentos que se encaixavam na dança, estava sendo um total cavalheiro e um ótimo par de dança, eu estava sorrindo e me divertindo de verdade.

— Você parece estar gostando – ele sussurrou no meu ouvido atrás de mim. Teve que se aproximar e sussurrar por conta da música.

Eu me virei de frente para ele e puxei seu pescoço para próximo da minha boca para poder responder em seu ouvido.

— Obrigada, eu estou gostando – falei com sinceridade.

Ouvi ele rindo, eu havia prometido continuar agradecendo e continuei. Depois da terceira música pedi licença para ir ao banheiro para retocar a maquiagem. Entrei e me olhei no espelho, estava tudo certo com a minha aparência, retoquei o batom e ajeitei o cabelo mesmo assim. Não demorei muito e logo voltei para procurar por Astro, ele havia buscado bebidas para nós. Bebemos e decidimos dançar mais um pouco antes de irmos para a última parada da noite, que seria o jantar. Começou uma música mais antiga, não era tão animada pra dançar como estávamos antes, mas não chegava exatamente a ser uma música lenta, era algo mais sexy, uma mistura de pop e latina, dava para saber pois os cantores falavam espanhol, estava quase fora da minha zona de conforto, mas eu ainda conseguia dançar de forma coordenada e até graciosa. Astro me ofereceu a mão para dançarmos juntos novamente, mas dessa vez com um pouco mais de contato, era de fato uma dança para dois, diferente da música anterior. Nós dançamos juntos e eu estava muito concentrada na dança e em nós dois, eu amava dançar e me entregava totalmente, o mundo podia acabar com um meteoro bem ao meu lado, se estivesse dançando eu só sairia correndo quando a próxima música acabasse, era minha segunda atividade física preferida, a primeira era correr. Astro e eu parecíamos nascidos para dançar juntos, ele conduzia bem, nossos pés e mãos se acompanhando com facilidade, a respiração dele regular com a minha, o mundo era nosso naquele momento, as mãos dele e meu quadril, os giros e as minhas pernas, tudo estava se encaixando. Ele me girou e a mão passou pela minha perna e me dobrou em direção ao solo, me puxou de volta e nossos rostos estavam próximos, seus olhos estavam muito perto e eu podia mergulhar em seu azul profundo, o hálito dele passando no meu rosto, respirei fundo e pude sentir o seu perfume, foi o final perfeito, outra música começou e voltei a realidade.

— Acho melhor irmos jantar agora – comentei ainda anestesiada pela dança, levemente assustada em como nos encaixamos e com o turbilhão de emoções que se passara por mim em minutos.

— Você tem razão – ele respondeu meio sem graça.

Ele pagou por nossas bebidas e nos dirigimos para a saída onde um homem buscou o carro para nós. O restaurante era perto de onde fomos dançar, então não conversamos muito, o que me deu tempo de pensar no encontro até ali. Astro estava mesmo sendo uma surpresa bem agradável, o que me fez lembrar o encontro entre ele e Linda no dia do teste, mas ela também não fora aquela pessoa quando nos conhecemos sem outras pessoas ao redor, o que me fez pensar, no por que de tudo aquilo, ele estava me tratando de forma cortês, bem diferente do homem que saíra na mídia com um término conturbado e uma declaração bem duvidosa, talvez eu estivesse errada sobre ele, talvez eu não devesse ter julgado uma relação da qual eu não fazia parte e nem conhecia tão bem os envolvidos.

O restaurante era um lugar bem bonito e simples, o que mais uma vez me surpreendeu em relação à Astro, o que mais uma vez me fez repreender a mim mesma, não devia julgar tanto uma pessoa que mal conhecia. O restaurante era meio rústico e antigo, o teto era iluminado por velas dentro de garrafas, a mesma decoração nas mesas, algumas flores artificiais pelas pilastras, uma garçonete baixinha de óculos com uma carinha muito fofa veio até nós.

— Sejam muito bem-vindos, meu nome é Carina e atenderei vocês essa noite.

— Boa noite, Carina, temos uma mesa em nome de Astro Mayer, mesa para dois.

— Vou verificar, só um minuto.

Ela olhou no sistema e fez sinal para que nós a seguíssemos, ela nos levou para uma mesa num local mais calmo, longe da área principal do restaurante. Rapidamente nos deu o cardápio e levou um pãozinho de cortesia para comermos enquanto esperávamos nossos pratos. Abri o cardápio e comecei a olhar os pratos, tudo parecia muito gostoso, me deixava na dúvida do que escolher.

— Eu vou querer um fettuccine de frango com legumes por favor – pediu Astro.

— E eu vou querer um espaguete carbonara por favor.

— Sim, claro. Algo para beber? – perguntou Carina.

— Um guaraná, por favor.

— Pra mim também.

— Já trago os pedidos pra vocês.

— Aqui é muito bonito – comentei quando Carina saiu.

— Nunca veio nesse restaurante? – ele me perguntou um pouco surpreso.

— Não, eu não vou muito a restaurantes, principalmente os mais chiques como esse.

— Ah, é mesmo? Por quê? Você não gosta desse tipo de passeio?

— Não é isso. Eu gosto, mas não é fácil para mim poder vir a um lugar assim.

Ele continuou me olhando sem entender, então continuei explicando.

— Astro, olhe pra mim. Nós vivemos em realidades muito diferentes, você jantou lá em casa, quantas vezes por semana você acha que comemos arroz e ovo? Não estou dizendo que nossa situação é ruim, não, não é. Nossa situação até que é bastante decente, mas olhe pra você, você me buscou de carro hoje, e sim, está sendo um encontro até bem agradável, mas eu aposto que você come carne todos os dias. Restaurantes caros estão fora da minha realidade – expliquei de forma tranquila.

— Desculpe, eu não queria ofender você.

— Não estou ofendida, é a realidade e só. Não precisamos deixar as coisas ruins por causa disso.

– Ainda assim, peço desculpas.

— Pelo o quê? Não é sua culpa.

— Bom, comigo você poderá ir a muitos lugares novos se quiser – ele comentou, tentando voltar ao clima que estávamos.

— Claro, podemos sair mais vezes – respondi sorrindo.

— Me conte mais sobre você – ele pediu.

— O que quer saber sobre mim? – incentivei-o a perguntar.

— Mais cedo, no carro, você disse que acredita no amor, mas deu a entender que não acredita no projeto de almas gêmeas. Estou me perguntando, o você acha sobre o projeto exatamente? O que você acha disso tudo?

Eu não esperava por isso, ele continuava me surpreendendo, virei a cabeça de lado para pensar em como colocar a minha resposta sem parecer uma tola, ainda mais pelo fato dele ser filho do atual dono da A.V.A.G.

— Antigamente as pessoas não precisavam de algo tão complexo para conhecer alguém e se apaixonar, elas se conheciam sozinhas sem ajuda de máquinas e números, ninguém escolhia por elas, as pessoas eram livres e escolhiam com quem queriam namorar e ter filhos. Acho a ideia mais pura de romance, você por exemplo, não precisou de ninguém para sair com Linda, foi uma escolha no relacionamento de vocês, assim como terminar esse relacionamento, nós dois não tivemos isso.

— Mas você não acha que as pessoas podem passar a se amar depois de algum tempo? Depois de se encontrarem, você não acha que por exemplo, os seus pais, você não acha que eles se amam? Não acredita que o que estamos vivendo possa crescer e se desenvolver? O que eu tive com a Linda, era diferente, eu não estava apaixonado. Eu sinto que mesmo estando numa relação por obrigação, acho que podemos no futuro ser amigos e talvez até poderemos nos apaixonar. Não acho que só porque não é convencional, não significa que não vai dar certo.

— Talvez. Mas por que essa conversa agora?

— Para fazer o tempo passar e para te dar o que pensar.

Carina voltou com nossos pedidos, o que foi bom, ele conseguira mesmo me dar uma coisa para pensar. Enrolei meu macarrão com o garfo e experimentei, estava muito bom, o bacon estava crocante e o molho muito gostoso.

— Isso está muito bom – comentei depois de engolir a primeira garfada.

— Que bom que gostou.

Conversamos pouco enquanto comíamos, Astro me perguntou sobre meus planos para a o futuro e falei sobre a faculdade, me perguntou mais sobre a minha família, não voltamos no assunto anterior, o que foi bom, gostava dos assuntos mais leves, era mais fácil conversar com ele sobre isso. Quando terminamos, ele me perguntou se eu queria uma sobremesa ou se queria ir pra casa, decidi pedir uma sobremesa.

— Posso lhe dar uma sugestão? – ele perguntou.

— Claro.

— Carina, por favor, traga essa sobremesa para ela, obrigada – ele pediu à garçonete com ar de mistério apontando no cardápio

— Eu não posso saber o que é? – perguntei curiosa.

— Espere e verá, espero que goste.

— Você não vai querer sobremesa?

— Hoje não, aproveite a sua.

Esperamos um pouco e chegou minha sobremesa, olhei para ela desconfiada, era uma simples tortinha de frutas vermelha, no topo morango, amora e framboesa, estava bonito. Peguei a colher e peguei um pedaço para provar, primeiro veio o sabor doce e ácido das frutas, em seguida veio o chocolate, não pude deixar de fechar os olhos para aquela delícia, a massa docinha, mas o que me surpreendeu foi o que veio ali no meio um pouco de pimenta, nunca imaginei uma sobremesa com pimenta, estava combinando tão perfeitamente, me derreti inteira por dentro.

— Pela sua cara, vou supor que gostou. – Astro estava me olhando curioso. – Achei que pudesse gostar do chocolate, a pimenta foi só um toque especial que achei que seria interessante.

— Obrigada, é muito boa.

Terminei e pagamos a conta. Pegamos o carro e Astro me levou para a casa, no caminho percebi que estava muito cansada, não conversamos muito, ele me deixou na porta de casa e se despediu de mim com um “te vejo depois”, entrei meio anestesiada, estava feliz por ter dado a ele uma chance, o encontro foi ótimo, isso não queria dizer que eu ia me apaixonar por ele só porque um sistema disse que eu e ele erámos perfeitos um para o outro, mas eu gostara da companhia dele e talvez se outros encontros viessem a gente poderia ser amigos. Fui para o meu quarto me preparar pra dormir enquanto pensava na vida.