Alex me pegou em frente ao meu prédio, na hora combinada. Como um rapaz elegante e bem-educado, me elogiou, agradeci satisfeita, sabendo que, definitivamente, estava bem bonita naquela noite. No carro, mantivemos uma conversa leve e superficial, sem segundas intenções, até chegarmos ao nosso destino.

A casa dos pais de Alex era, na verdade, uma mansão de estilo Georgiano, com tijolos aparentes e várias janelas brancas simetricamente dispostas, era cercada por altos muros, grandes portões e belos jardins muito bem cuidados, e estava toda iluminada para festa. Na entrada, um serviço de valet cuidava dos muitos carros caros estacionando na sua frente. Fiquei boquiaberta, pois não esperava por tudo aquilo.

— Você mora aqui? – perguntei, atônita, admirando o lugar.

— Moro. – Ele foi sucinto.

— Sua casa é muito linda e ...Grande!

— Ela pertence a minha família a gerações.

— Esta festa é por alguma ocasião especial?

— Sim. O aniversário do meu pai – ele me informou, sem emoção, abrindo a porta do carro para eu sair.

— Mas, eu não comprei nada para dar de presente a ele! – Sinto-me um tanto constrangida.

— Não há necessidade disso, Julia. Meu pai tem tudo que precisa – Ele rebate, secamente.

Entramos no lindo salão principal, todo decorado com velas e belíssimos arranjos de flores que caiam em cascatas, e que estava cheio com muitos convidados, elegantemente trajados, as mulheres em vestidos caros cintilavam com suas joias. Reconheci alguns rostos de revistas e noticiários. Vários garçons circulavam com bebidas e aperitivos elegantes e sofisticados.

— Venha, Julia! Vou apresentar você para meus pais – Alex disse, segurando o meu braço, e me conduzindo pelo salão, desvencilhando-se, educadamente, das pessoas que o cumprimentavam e tentavam chamar a sua atenção. Foi a primeira vez, que Alex havia tocado a minha pele, assim com tanta intimidade e, diferente do que eu imaginava, não senti nenhum formigamento, nem arrepio percorreu o meu corpo, nada a não ser o toque quente e seco da sua mão. Paramos em frente de um elegante casal de meia idade, porém, ainda bem bonitos. O homem lembrava Alex, elegante e alto, com um terno caro e bem cortado, provavelmente, feito sob medida. A mulher era muito bonita com cabelos louros, bem tratados, cuidadosamente penteados, usava um vestido sofisticado de uma marca francesa famosa e muito cara, que logo reconheci, devido a convivência com minha irmã e o mundo da moda.

— Pai, mãe, esta é Julia! – Alex me apresentou e continuou – Julia, este é meu pai, Ruy Hierro e minha mãe, Isabel.

— Muito prazer e parabéns pelo seu aniversário. Ruy Hierro? O senhor não está ligado à política, não é isso? O senhor já foi ministro? – perguntei, sem rodeios, depois me arrependi pela minha indiscrição.

— Obrigado. Muito prazer em conhecê-la, Julia. E sim, eu já fui ministro no outro governo. Na verdade, sou um homem que gosta muito de política, está no sangue. Espero que meu filho siga o meu caminho e do avô dele um dia – Ruy olhou para Alex, que parecia um tanto incomodado com aquela conversa, mas seu pai prosseguiu: – Alex falou muito sobre você, Julia. Li seu livro e achei muito interessante – Dei-lhe um sorriso, meio sem jeito, pelo elogio.

— Belo colar, esse o seu, Julia – Isabel observou – Uma bela peça antiga e rara. Acho que é um Cartier clássico, muito bonito.

— Ah! Obrigada, é uma herança de família – expliquei, segurando o pingente.

— Minha mãe é uma admiradora de joias – Alex explicou todo aquele conhecimento.

— Mas, agora, me conte, Julia, como uma garota tão jovem conseguiu inspiração para escrever uma história sobre o crime organizado da década de 60? – Ruy retomou a palavra, eu pensei comigo mesma que essa pergunta estava ficando chata.

— Gostei da história, pesquisei um pouco e escrevi, tirei tudo da minha cabeça, só isso – Mantive a mentira de sempre, já estava quase acreditando nela. Então, Alex segurou o meu braço, novamente, senti sua mão quente sobre minha pele nua e mais nada.

— Com licença, vou levar Julia para rodar um pouco. Conhecer outras pessoas. Até logo – Alex saiu, me puxando para longe dos seus pais, só pude sorrir, me despedindo. Quando nos afastamos vi um homem forte e baixo, dando a ele uma forma meia quadrada, com um cavanhaque, se aproximar de Ruy e cochichar algo no ouvido dele. O ouvinte pareceu não gostar muito da notícia, pois rugas profundas de preocupação, apareceram na sua testa.

— Hierro? Mas seu nome não é Ryan? – observei, curiosa.

— Também, Ryan é o nome da minha mãe. Eu o uso para passar despercebido. Hierro, é um nome muito conhecido.

— É verdade que seu pai quer se candidatar a presidente?

— Ele foi sondando pelo partido, mas não está certo ainda – Alex não parecia à vontade com aquele assunto, mas, antes que continuássemos, algumas pessoas se aproximaram de nós e começaram uma conversa com ele, tentei participar, até que em um certo momento, um dos assessores do pai dele se aproximou.

— Alex, querem fazer algumas fotos com a família agora. Pediram para você ir até o escritório — ele concordou com a cabeça, depois, virou-se para mim.

— Volto já, Julia – E se afastou, me deixando ali, parada, sozinha, no meio de uma multidão de desconhecidos.

— Se encontra todo mundo nessa festa! – alguém falou atrás de mim, reconheci a voz, não podia acreditar.

— Darius, o que faz aqui? –Voltei-me, não disfarçando minha impaciência, para encontrá-lo sorridente e confiante como sempre, só a visão daquele homem me irritava, porém não podia negar que ele tinha um belo sorriso.

— Minha família e a família Hierro são amigas, há muito tempo. E você, o que faz aqui?

— Alex me convidou – resumi, não queria muita conversa com ele, apesar de ser a única pessoa que eu conhecia naquele lugar.

— Alex? Vocês estão saindo? – Aquela perguntou, casualmente, enquanto tirava taças de espumantes da bandeja de um garçom, me entregando uma e ficando com outra e eu fui pega desprevenida

— Não sei – respondi, sem pensar, ele me deu um sorriso sarcástico, tomando um grande gole da bebida.

— Darius! – Um homem bem idoso se aproximou de nós, mas apesar da idade, tinha um bom porte, podia-se notar seu passado militar por sua postura ereta. – Estava procurando por você – o recém-chegado declarou, parecendo um pouco desnorteado — Onde se meteu?

— Eu estou bem aqui, vovô! – Darius falou, com um jeito brincalhão, mas carinhoso. – Este é meu avô, Julia. Ele está muito idoso, fica perdido e desorientado quando o deixamos sozinho, por algum tempo – sussurrou no meu ouvido, para ter certeza que seu avô não ouviria, e um arrepio subiu pelas minhas costas, me assustando.

— Vovô! – ele falou alto, segurando o braço do ancião, trazendo-o para mais perto de mim – Esta é uma amiga.

— Eu conheço você? – O velho senhor olhou intrigado, tentando vasculhar sua débil memória em busca de uma resposta – Heloisa? – Ele sussurrou, assombrado, arregalando os olhos, como tivesse visto um fantasma, ao ouvir isso, fiquei chocada.