— Não, vovô. O senhor não a conhece. O nome dela é Julia. – Dario se apressou em explicar, em voz alta para o avô, e eu me esforcei em disfarçar o meu espanto. – Julia, esse é meu avô Harom – Dario nos apresentou e continuou para mim: — Ele insistiu em vir a essa festa, mas acho que é um pouco demais para a idade dele, quase 90 anos, ele fica um pouco desorientado com todo esse tumulto. – Logo em seguida, uma mulher de meia idade alta e magra com um ar sisudo, surgiu ao nosso lado.

— Julia, minha tia Thereza. Tia, essa é Julia – Dario nos apresentou, trocamos furtivos cumprimentos com a cabeça, sem muito interesse.

— Heloisa! – Repetiu o velho, paralisado, ainda sem tirar os olhos de mim, com ar assombrado, para o desconforto de todos a sua volta.

— Pode deixar que eu cuido dele, Dario – rapidamente, Thereza se ofereceu, segurando o braço do velho senhor, o arrastou para outro lugar. — Vamos, pai!

— Meu avô conhece muita gente aqui, mas acaba confundindo nomes e rostos devido à idade – ele me esclareceu, erguendo um dos cantos dos lábios, em um cínico sorriso torto, que não podia negar, era muito sensual.

— Foi ele quem adotou seu pai? – perguntei, curiosa, tomando mais um gole do meu espumante, tentando parecer casual.

— Sim. Ele era chefe da polícia na época em que o pai de meu pai desapareceu – Eu fiquei espantada ao ouvir isso, pois sabia que tinha sido o chefe da polícia, que entregou os seus informantes para Tony, que mandou matá-los. Perplexa com a notícia, me engasguei com a minha bebida, não conseguia parar de tossir, quase não conseguia respirar. Dario me olhava, atônito, sem saber o que fazer.

— Você está bem? – Finalmente, ele deu alguns tapinhas nas minhas costas, o contato da mão dele na minha pele foi como fogo, me afastei assustada.

— Foram as bolhas! – Respirei fundo e inventei uma desculpa, quando Alex voltou, sorrindo animado ao encontrar Dario ali comigo, estendendo a mão para cumprimentá-lo.

— Dario, que agradável surpresa em revê-lo, não sabia que você viria!

— Estou fazendo companhia ao meu avô, ele fez questão de vir a essa festa – Dario explicou.

— Vocês já se conhecem há muito tempo? – indaguei a eles, curiosa, pois já notara certa intimidade entre os dois, lá na livraria, depois da minha sessão de autógrafos.

— Nós nos conhecemos desde crianças. Nossos avós eram muito amigos, tinham negócios juntos – Alex foi quem respondeu.

— Mas, depois seguimos caminho opostos, ele se tornou um campeão olímpico e eu um mero escritor de romances policiais – Dario completou.

— Não seja modesto, Dario! – Alex se manifestou, em um tom de camaradagem. – Seus romances são ótimos. Você sempre quis ser escritor de histórias policiais, ficava olhando o jornal, lendo aquelas notícias sobre crimes, pesquisando e imaginando como teria acontecido. Ele contava história para os outros garotos e nos matava de medo – Alex pela primeira vez se dirigiu e olhou para mim, desde que regressara.

— Muito interessante – falei, sem muita animação.

Nesse momento, foi anunciado o jantar, que seria servido no jardim, onde haviam mesas lindamente decoradas com flores e velas, em volta da piscina. Os lugares eram marcados, felizmente, fiquei perto de Alex e longe de Dario. Após o sofisticado jantar, regado por excelentes vinhos, seguiu-se um pequeno baile com uma orquestra, tocando músicas antigas e românticos, para os casais dançarem. Fiquei sentada ali, sozinha, tamborilando na mesa, observando, os movimentos ritmados dos dançarinos, pois Alex saiu para falar com alguns convidados.

— Julia, aceita dançar comigo? – Uma mão se estendeu na minha frente, segui o braço, para encontrar o rosto do seu dono, era o pai de Alex, Ruy.

— Desculpe, mas não sei dançar muito bem – Tentei me esquivar, entretanto, Ruy deu um sorriso sedutor.

— Mas, eu sei. Basta me seguir, Julia. – Ele foi convincente e encantador, assim estendi minha mão para ele, que me guiou até a pista de dança.

— É fácil, Julia. Basta me acompanhar, vamos começar bem devagar para você pegar o ritmo. – Realmente, Ruy era um bom dançarino, rapidamente, peguei o jeito, para acompanhá-lo.

— Muito bem, Julia! Você pegou o jeito! Agora, vamos tentar alguns passos um pouco mais complexos. – Eu estava me divertindo, dançando com ele. – Então, você está namorando meu filho?

— Não – respondi, sem graça.

— Uma pena! Você é uma mulher muito bonita, inclusive, lembra muito uma modelo. Aquela que está nos outdoors por toda cidade – Sabia que ele falava da minha irmã Aline, mas não revelei isso.

— Sei quem é. Já me falaram isso, algumas vezes.

— E vocês duas, me lembram muito, uma outra mulher que conhecia ainda muito jovem, quando começava a despertar para os encantos femininos. Ela era linda, um verdadeiro anjo, com hipnotizantes olhos verdes, que preencheram minhas fantasias juvenis por muito tempo.

— E o que aconteceu com essa mulher? Por acaso, se lembra do nome dela? – Perguntei desconfiada que poderia ser a minha avó.

— Não me lembro. Ela era esposa ou namorada de um amigo do meu pai, não me lembro bem, e a vi só poucas vezes. Acho que ela morreu. Mas não quero saber, pois pretendo preservar a memória dela, na minha imaginação da maneira como eu a conheci e me recordo – ele respondeu, sorrindo para mim, depois continuou: — Acho que meu filho seria um idiota, se deixar uma moça como você escapar. – Outra vez, de um sorriso, sem jeito.

— Pai, posso roubar minha acompanhante? – Alex surgiu junto a nós.

— Claro, Alex fique à vontade. Julia, foi um prazer dançar com você — Ruy se afastou, me deixando com Alex, que começou a dançar comigo. Ele não era tão bom quanto o pai.

— Espero que ele não tenha aborrecido você?

— Não, na verdade, ele foi muito simpático.

— Ele sempre é, por isso, tem tanto prestígio na política, conseguindo quase tudo que quer.

— E ele quer que você entre na política?

— Quer.

— E você?

— Ainda não sei. Quer ir embora? – ele sugeriu, com um ar melancólico.

— Se você quiser. Mas, não vai esperar cortarem o bolo – Já tinha visto um enorme bolo, em destaque, em frente da piscina.

— Não, eles não sentirão minha falta.