A triste história do Sr. Cadeira
1 Capítulo Único
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— Olá, sr. Cadeira – cumprimentou o menino, sentando-se à mesa defronte ao assento onde o blazer do pai pendia do encosto alto. – O senhor está muito bonito hoje – observou ele. Ele sabia que aquele, com aquelas listras fininhas, era seu melhor blazer. Sua mãe sempre falava isso. – Deve ter tido uma reunião importante.
O garoto imediatamente imaginou uma sala grande, com aquelas mesas ovais que sempre via em filmes, e várias cadeiras, cada uma com sua cor e tamanho, com blazers de diferentes cores pendendo de seus encostos. E o Sr. Cadeira com certeza estava lá na ponta, presidindo a reunião.
— Ah, foi uma reunião de negócios então? – perguntou ele frente à resposta que o Sr. Cadeira [não] dera. – Puxa, o senhor deve ser mesmo importante para a empresa.
Nesse momento, a mãe, que estivera deslizando o dedo distraidamente sobre a tela do celular por algumas horas agora, resmungou algo com o marido na sala. O pequeno, na sala de jantar do apartamento grande, ficou em silêncio por um instante, temendo que estivesse fazendo barulho demais. Eles nunca gostavam quando ele fazia barulho.
Mas então, o pai concordou qualquer coisa, e o silêncio voltou a ser quebrado apenas pelo locutor do jogo de futebol na televisão.
— Sim, Sr. Cadeira, eu estou ouvindo – respondeu o menino, falando baixinho, desviando o olhar da sala para a cadeira outra vez. – O senhor estava dizendo que a proposta que a Sra. Banqueta fez ao senhor era inaceitável. – continuou ele.
E o Sr. Cadeira continuou falando de sua reunião por alguns instantes.
— Ah, agora eu entendo por que o senhor está tão cansado. – disse o garoto, muito certo. – Está todo mundo pondo coisas em cima do senhor.
Ao mesmo tempo que ria, o menino imaginou como a Srta. Bicicleta Ergométrica, que ficava no escritório, devia se sentir com todas aquelas coisas penduradas nela.
— Tudo bem, eu conto uma história para o senhor antes de dormir. – decidiu ele. – Não, não vai envolver piratas como a última, eu sei que o senhor não gostou daquela, porque que eles jogaram um monte de coisa de madeira no mar.
E ele riu de novo.
Nesse momento, como se tivesse se teleportado como naqueles filmes de magia da TV, o pai apareceu do lado dele, com a mão em seu ombro.
— Filho, vamos dormir? – convidou ele, a camisa com vários botões abertos e os sapatos pendendo da outra mão. – Já está tarde, e o Sr. Cadeira também precisa descansar – disse ele, sorrindo ao costume do filho de conversar com a mobília da sala de jantar.
— Mas ele pediu que eu contasse uma história para ele dormir, papai – disse o menino, levantando bem a cabeça para olhar o homem no alto. – Eu prometo que vai ser rapidinho – disse ele.
O pai sorriu outra vez, empurrando levemente o filho pelas costas, e este entendeu que deveria se levantar e acompanhar o pai para o quarto.
— Não se preocupe, eu conto uma história para o Sr. Cadeira assim que sair do banho – prometeu ele, sem ver que o garoto baixara os olhos, meio decepcionado. Já ouvira aquela promessa vezes demais para ainda acreditar nela. – Agora troque-se, eu já venho te dar um beijo de boa noite. – disse ele, acendendo a luz do quarto decorado e abarrotado de brinquedos.
O menino trocou-se o mais rápido que podia, ouvindo o pai guardar o blazer no armário do quarto ao lado, e deitou-se antes que ele pudesse abrir a porta da suíte.
— Papai, já estou deitado! – anunciou ele, e depois de um instante apenas, o pai apareceu sorrindo na porta do quarto.
— Você está cada dia mais rápido – observou ele, e o peito do garoto se inflou de orgulho. O homem inclinou-se sobre ele, dando um beijo em sua testa. – Boa noite, campeão. Durma com os anjos.
— Boa noite, papai – respondeu ele.
O homem lhe sorriu outra vez e levantou-se, caminhando para a saída do quarto.
— Papai – chamou o menino, antes que o homem alcançasse o interruptor da luminária do teto.
— Sim? – respondeu o homem, virando-se para o filho.
— Não esqueça do Sr. Cadeira – pediu ele. – Ele não dorme bem sem ouvir histórias – completou.
Naquele momento, talvez o homem tenha entendido a indireta que o filho lhe dera sem ao menos perceber. Ele já tinha se acostumado a dormir sem histórias. Mas apenas sorriu pequeno antes de responder:
— Tudo bem, filho. Não vou esquecer. – garantiu. – Boa noite.
— Boa noite, papai – desejou o menino mais uma vez antes que o pai apagasse a luz e sumisse no corredor iluminado.
O menino encarou o teto decorado com aquelas estrelas fluorescentes que tinha ganhado da madrinha ainda por um tempo. E então lembrou-se que o pai tinha guardado o blazer do Sr. Cadeira, e que agora ele não parecia mais que uma cadeira qualquer. Mas talvez ele estivesse melhor, pensou o menino. E então, imaginou o Sr. Cadeira espreguiçando-se, livre daquela capa, e podendo finalmente descansar. Talvez tudo ficasse melhor seu os blazers, pensou o menino, bocejando. É, podia perguntar isso para o Sr. Cadeira no dia seguinte, quando ele chegasse do serviço.
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Notas finais
Eu não sei o que dizer sobre essa fic. Me surgiu a ideia hoje de manhã, quando vi uma camisa social do meu pai pendurada no encosto de uma das cadeiras da sala de jantar. Mas me doeu um pouquinho escrevê-la porque... Sei lá. Parece verossímil demais.
Eu espero que vocês tenham gostado. Beijos!
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