A traição de Alana

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Enquanto meus olhos fitavam o chalé de Hermes, eu tive certa inveja dos filhos de Afrodite. Por mais que o chalé deles fosse uma casa de bonecas, era muito mais conservado e “bonito” que o barraco onde os filhos do deus mensageiro moravam.

Will olhou seu relógio de pulso.

— Então... – Ele disse –, Eu tenho um compromisso urgente agora, mas só posso ir se você me liberar. O Quirón deixou bem claro isso. Precisa de mais alguma coisa de mim, Alana?

— Há menos que você tenha um chalé menos destruído para eu morar, creio que não precisarei mais de você.

— Infelizmente eu não tenho ordens para te colocar em outro lugar. – Will disse. – O chalé de Hermes tem esse aspecto um tanto peculiar devido aos anos que ele serviu como moradia para semideuses não reclamados por seus pais. Quase todos os moradores do acampamento já viveram um tempo dentro dele. O chalé de Hermes é especial e querido por todos nós semideuses Gregos.

— Vocês gostam tanto desse chalé e nunca pensaram em fazer uma reforma nele? – Perguntei.

— Temos planos para arruma-lo, mas no momento estamos priorizando a criação de novos chalés para os filhos de outros deuses que residem por aqui.

— Espero que o chalé do meu pai esteja incluído dentro desses planos. – Eu disse.

— Na verdade eu acho que não esteja. – Will disse. – Não sabíamos sobre a existência de filhos dos deuses da montanha então acredito que não tenha sido colocado na planilha à criação de um chalé para esses semideuses. Sem falar que você é a primeira semideusa filha de Rex que conhecemos.

— É Pugnis Rex. – Corrigi o semideus. – Não chame meu pai apenas de Rex. Ele não gosta.

— Ok... Pugnis Rex. – Will respondeu. – É engraçado esse nome.

— Engraçado é essa tua cara feia. – Respondi.

— Ei, acalme-se. – Will falou. – Eu só estava brincando.

— Não acho que brincar com nome dos deuses seja legal. Você como semideus deveria saber muito bem disso.

— Tem razão. – Will disse bufando. – Eu estava brincando, mas você não é uma garota que gosta de rir não é mesmo?

— Gosto de rir quando existe graça em um fato. O nome de meu pai não é engraçado para mim. – Eu disse. – O nome do seu pai é engraçado para você, Will?

Will fitou o céu a procura do grande disco dourado que iluminava a todos nós. O sol, símbolo do deus Apolo, se encontrava parcialmente coberto por uma densa nuvem, o que deixava seus raios menos radiantes.

— Apolo está mais preocupado com sua punição do que com insultos em seu nome. – Will respondeu após alguns segundos. O semideus voltou sua atenção para mim e então acrescentou: — Após a guerra as coisas mudaram. É perceptível para nós filhos de Apolo a mudança. Somos mais sensoriais que uma boa parte dos semideuses.

— Sei muito bem como é isso. – Acabei dizendo.

Will me olhou confuso.

— Sabe muito bem o que? – Ele perguntou.

— Sei muito bem essa coisa de ser mais sensorial do que os demais semideuses. – Respondi. – Os filhos da montanha são semelhantes nesse quesito aos filhos de Apolo.

— Nossa, então além de baixinha, marrenta, e sem humor, você também é sensorial? – Will questionou em voz irônica. – O que mais Alana Montechio sabe fazer?

Sei amassar sua cabeça com apenas um golpe, Eu pensei em dizer para ele, mas por fim apenas disse:

— Faço inúmeras coisas. Sou expert em várias áreas. Posso falar sobre isso com você em outra hora. No momento eu necessito urgentemente de um banho.

— De fato você precisa mesmo.

— Cale a boca.

Will sorriu.

— Então façamos assim: Você toma seu banho, descansa e depois nos encontramos na hora da fogueira, o que acha? Ai você me conta mais sobre você, tudo bem?

— Pode ser. – Respondi.

— Então está fechado. – Will disse dando mais uma olhada em seu relógio. – Eu vou indo agora, mas venho te buscar para irmos até a fogueira mais tarde. Divirta-se com o pessoal do chalé, e hum... Se eu fosse você guardava muito bem os teus pertences. Os filhos de Hermes tem certa mania de pegar objetos que não são deles. Caso isso aconteça, sugiro que procure na loja de lembranças que os irmãos Stolls gerenciam no acampamento. É provável que eles tentem vender o que encontrarem por lá.

— Se eles tentarem pegar algo que é meu vão ter uma das mãos decepadas.

— Duvido muito que você consiga decepar a mão de um deles, mas enfim, até mais tarde senhorita Rabugenta. Espero que tenha uma ótima estádia dentro desse chalé.

— Não gostei desse apelido, Will.

— Pois vá se acostumando já irei te chamar assim de agora em diante. – Will respondeu enquanto fazia o caminho de volta pelos chalés.

Eu não sei muito bem o que pensar do Will. Aquele momento em que ele me disse sobre a punição de Apolo me deixou curiosa. O que será que deveria ter acontecido? Era uma das coisas que eu iria descobrir futuramente. Mas por agora, eu tinha que entrar no imenso barraco à minha frente. O vento soprava uma brisa leve à medida que eu caminhava até a entrada do chalé. O caduceu voltou a pender, mas para minha sorte não caiu em minha cabeça.

— Pelo menos algo bom ao meu favor. – Eu murmurei para mim mesma e entrei no chalé dos ladrões.