A seleção

4 Professorinha


A escola estava linda. O pequeno povoado estava reunido na quadra, aguardando ansiosos os recém chegados.

Os olhos de Ferdinando se fixaram na pequenina moça que se aproximava delicadamente.

— Boa noite! Eu sou a professora Juliana e em nome de todos aqui da cidade eu gostaria de lhes desejar as boas vindas!

O engenheiro ficou encantado com sua delicadeza, sua voz, sua afetividade. Se sentia enfeitiçado, e não fazia questão nenhuma de disfarçar — não tinha visto nenhum sinal de compromisso na mão da moça.

Gina por sua vez tinha sentimentos dúbios com relação a professora. Sentia que era uma boa pessoa, mas algo nela a irritava — não sabia se era a cor de algodão doce que seus cabelos possuíam, ou o jeito comedido e "fresco". Percebeu o interesse de Ferdinando e isso a irritou mais: dividiria o quarto com a moça, e se ela se engraçasse com aquele um, seria um grande inconveniente.

Passou os olhos pelo restante do ambiente e viu que os seus colegas já se entrosavam com os moradores locais, e a professora dos cabelos róseos dava uma atenção demasiada para o seu desafeto. Pelo visto não escaparia de conviver com os dois chatos.

Se dirigiu à mesa, pegou um pratinho de comida e o usou para construir um intrincado montinho de doces. Procurou um lugar relativamente isolado, e se sentou para comer.


— Nem parece que ocê veio com eles, parece gente cá da roça.

A voz áspera e o jeito bruto do rapaz alto que se sentou nas sombras ao seu lado a agradou, e seu jeito direto mais ainda.

— Você tá certo, cresci na roça.

Seguiu-se um silêncio, mas não incômodo, antes, cúmplice. Ambos não se sentiam a vontade nessas ocasiões.

Ele olhava para o ponto em que a professorinha estava. Seria possível que também estivesse interessado nela? Não conseguia imaginar duas figuras tão diferentes juntas.

— Também está de asa caída pela professora? O jeito direto que ele a interpelou lhe deu confiança para fazer o mesmo.

— Olha o jeito que ocê fala dela, que ela é uma flor!

O jeito que ele falou foi bruto, mas era perceptível a grande admiração que sentia pela moça, que parecia ser para ele um objetivo inalcançável, a mais bela das quimeras.

A ruiva sentiu pena dele. Não sabia como era se apaixonar, mas percebia a profundidade dos sentimentos do rapaz, e não tinha nenhuma palavra de esperança para lhe dar — parecia certo que ele não despertaria a atenção da amada.

— Parece uma boa pessoa.

— Claro que é, uai! A melhor desse mundo... Abaixou a cabeça, com um suspiro.

Outro silêncio incômodo se seguiu, quebrado por Marcos, que se aproximava com o rosto até vermelho de tanto dançar.

— Gina? O Gina, vem dançar com a gente! Vai ficar aí sozinha?

— Sozinha? O jovem taciturno ergueu levemente a cabeça, com os olhos ainda ocultos pela aba do largo chapéu que usava.

— Desculpa, não o vi aí! Marcos levou um susto ao ver o companheiro de Gina se levantando e saindo do canto escuro que ocupava. — Prazer, sou Marcos!

— Sou Zelão, capataz aqui da fazenda. Às ordens! O aperto de mão foi firme e desconfiado, mas amistoso. Não estava acostumado a lidar com essas pessoas da cidade grande. — Cês me dão licença que vô cuidar de uns afazeres.

Observaram o rapaz se afastar, com suas botas tilintando e um jeito duro de andar que só quem é acostumado ao trabalho bruto possui.

— Vamos dançar? Marcos resolveu não comentar sobre o estranho homem.

— Não sei dançar não. Vou é pra mesa pegar mais comida!

— Larga disso, qualquer um sabe dançar!

— Mas eu não sou qualquer uma, oras!

— Mas isso não é mesmo! Podemos pelo menos ir dançando até a mesa?

— Chegando na comida, pra mim está de bom tamanho! O rapaz riu e a puxou pela mão, a fazendo rodopiar pelo salão e arrancando risos da moça.

Em outro canto do salão Ferdinando ainda tentava manter uma conversa com a professora, que lhe dava apenas a devida atenção para não ser mal educada. Além de não estar interessada nos galanteios, estava pensando em abordar Gina, que tinha sido a única com quem não tinha falado e que dividiria o quarto com ela.

— Ferdinando, vou conversar um pouco com a Gina. Quer vir junto? Levar um colega da moça parecia uma ótima forma de aproximação.

A contragosto, ele a acompanhou. Tinha certeza que o jeito rude de Gina a irritaria e ela desistiria da ideia logo, e ele voltaria a ter a atenção dela só para si.

— Está gostando da festa, Gina? Eu fiz tudo com bastante carinho para recebê-los!

— Até que estou. A ruiva respondeu a moça e virou-se para continuar conversando com Marcos, deixando Juliana estupefata.

— Essa moça é uma grosseirona Juliana, não ligue!

— O problema é que pra você, grosseirona é qualquer um que não lhê dê trela.

— Como se eu tivesse lhe dado tal atenção! Ferdinando já estava injuriado com o tom que ela usava. Para ela, ser rude parecia tão natural quanto respirar.

— Pra mim não, que eu nem faço questão, mas pra moça do balcão, pra professora, e pra sei lá mais quantas, você é bastante atencioso.

— Gente, a professora vai achar que somos um bando de arruaceiros! Marcos interveio.

— Pode deixar, que na minha sala lido com bastante criança briguenta! A moça riu, lançou um olhar de reprovação para Ferdinando, a essa altura vermelho de vergonha e de raiva, e se retirou para conversar com outras pessoas.

A ruiva simplesmente continuou comendo, como se nada tivesse acontecido. Era muita cara de pau, principalmente estragar suas chances com Juliana lembrando de um episódio que nem tinha frutificado, um flerte qualquer. Mas ele não daria mais vexame, visto que a professora ainda estava no local, e se retirou silencioso.

— Precisava tudo isso? Marcos a repreendeu.

— Ué, falei alguma mentira?

—--

O dia anterior havia sido cheio. Mal chegaram em casa e se dirigiram a seus quartos para dormirem, totalmente esgotados.

Acostumada com o trabalho na roça, Gina já estava de pé. Com cuidado para não acordar a nova companheira de quarto – mais por preguiça de conversar do que por medo de lhe atrapalhar o sono — se levantou, tomou seu banho e se dirigiu para a cozinha, onde dona Marisa já se preparava para fazer o café.

— Quer ajuda Dona Marisa?

— Oi fia, como ocê acorda cedo... Ia ser de grande ajuda... Sabe preparar café?

— Eu tinha pensado mais em pegar os ovos na granja, ou o leite da vaca... Com coisa de cozinha não me dou bem não...

Dona Marisa olhou a moça de cima a baixo: ela estava vestida com calças de montaria, uma blusa confortável com um colete por cima, uma bota e portava um cinto em que estavam presas várias utilidades.

Sem dúvida, a moça sabia o que estava falando.

— Tá bom fia... Vai lá pegar o leite da Mimosa então. Ela é mansinha, só chegar com cuidado.

A moça sorriu e foi cumprir a tarefa. Não gostava de não fazer nada, e já sentia falta da lida. Seria um bom começo.

Voltou com o leite e alguns ovos para que a dona da casa preparasse o café da manhã e tornou a sair, encostando na coluna da varanda. Ficou ali admirando os verdes campos que se estendiam por quilômetros, e onde em breve ela estaria trabalhando.

Ferdinando foi o próximo a descer, e viu a mesa já posta. Olhou pela janela e viu a moça encostada de perfil na coluna da varanda, seus cabelos acobreados brilhando sob a luz do sol matinal, os traços delicados também iluminados.

Bonita, a diaba é... O engenheiro sacudiu a cabeça. Mas grosseira, muito grosseira. E bem mal vestida. Quem a vê assim, acha que está indo pra guerra. Cheia de apetrechos no cinto, chapéu pendurado ao pescoço, cantil.

— Fio, vai lá chamar a Gina pro café! Vou chamar o pessoal no quarto. Foi tirado de suas divagações por Marisa.

Ele adoraria que fosse o contrário o arranjo sugerido, até mesmo para poder acordar a professora e ter alguns minutos a sós com ela. Mas não queria dar bandeira da antipatia que sentia pela ruiva, então obedeceu.

Talvez fosse o momento de tentar uma trégua. Ela dormia com Juliana, seria bom ser amigo dela também. Pegou um copo de leite e saiu.

A moça, com olhos fechados, ouvia o farfalhar das folhas ao vento, e o barulho de pés pisando a grama orvalhada se aproximando. Como ela gostava de tudo isso!

— Gina? Dona Marisa já colocou a mesa do café. Lhe ofereceu o copo que segurava.

Ela abriu os olhos e o encarou de maneira dura, mas não rude, recusando a oferta.

— Já tomei leite quando fui ordenhar, obrigada.

— Olha só, devo o café de hoje a você?

— Deve à vaca ué.

Ele não pode deixar de rir. Quando queria, ela era bem engraçada.

Gina achava o sorriso galanteador de Ferdinando bem irritante. Um sorriso perfeito, calculado, feito meticulosamente medido para impressionar, para o bem ou para o mal. Mas não esse, sincero. E lindo.

Nunca tinha reparado também em como seu olhar se iluminava quando ria, bem diferente do olhar escurecido e irritado que ela se lembrava.

A intensa troca de olhares foi interrompida pela suave voz que dava bom dia.

— Estão todos à mesa, venham também.

Gina rapidamente aproveitou a oportunidade para sair da situação desconfortável. Ferdinando a acompanhou brevemente com o olhar, voltando seus esforços para a professora, lhe estendendo a mão para quem entrassem juntos.

—--

Finalmente chegaram no campo em que trabalhariam. A propriedade era grande, e uma boa parte do terreno era usada para cultivos experimentais.

O objetivo era que os estagiários conhecessem as características das culturas da empresa, solos, rotina de trabalho, para que adquirissem vivência de campo, além da teoria aprendida na academia.

A primeira atividade era simples: roçar e preparar o terreno. Seria uma atividade para ser feita pelos 5 estagiários.

Gina observou os demais vestidos como se estivessem indo a um piquenique: roupas curtas, que mal protegiam do sol; sequer haviam levado um cantil! Em pouco tempo, começaram a apresentar dificuldades com as ferramentas. Academia nenhuma substituía a prática em determinados assuntos.

Com desenvoltura, a ruiva avançava rapidamente no trabalho. O fato não passou desapercebido por Ferdinando, que estava impressionado com a desenvoltura dela. Mais do que isso, estava encantando com o prazer que ela dedicava a tarefa. Nitidamente, ela não só era habituada a isso, como ainda gostava.

Ele, ao contrário, não era tão habituado, embora não por opção sua: sempre quis cuidar das terras do pai, mas este nunca permitiu. Achava besteira saber cuidar da terra, com a crescente tecnologia para correção de solo, sementes modificadas, agrotóxicos potentes. Fazer o curso fora uma guerra – ser contra a mecanização e aplicação química excessiva do campo, seria outra, mas tudo a seu tempo.

O sol se tornava insuportável, e estava difícil aguentar o calor. Todos portavam chapéu, mas à exceção de Gina, que usava um chapéu largo com proteção para os ombros, os demais usavam modelos pequenos, que só cobriam o rosto.

A blusinha de alça das demais meninas e até a camisa cavada que Caio usava devido ao calor, cobravam o preço: estavam completamente vermelhos, queimados.

Não tardou para que os primeiros sinais de insolação começassem a aparecer em Ana e Caio, e não demoraria para que os outros passassem mal. Por sorte, a casa estava próxima.

— Acho que é melhor levar eles de volta. Amanhã eles vem, dessa vez vestidos pra trabalhar. Apesar das palavras rudes, ela não falava com má intenção. Pensou em adverti-los antes, mas algumas lições deviam ser sentidas, literalmente, na pele.

— Concordo com ela. Eu também estou cansado, vou levá-los e fico com eles. Acho que todos podemos voltar, foi bastante por hoje. Caio preferia admitir a falta de preparo.

Gina não pode deixar de rir. Bastante, por um dia de roçado? Não sabiam nada da lida. Sequer era hora do almoço.

— Eu fico. Tô acostumada com isso, podem ir tranquilos.

— Eu fico também. Ferdinando, que estava propenso a acompanhar o grupo, parou de repente. Não permitiria que logo no primeiro dia, ela se mostrasse mais preparada que ele.

A moça pareceu não tomar conhecimento de seu gesto, já se punha a trabalhar novamente. Ele a seguiu prontamente, apesar do cansaço e da sede imensa que sentia. Não conseguia acreditar que não tinha lhe ocorrido trazer água.

Via agora sua tolice em julgar a moça mal pelas roupas. Não era vontade de parecer masculina ou rude, era apenas preparo diante da lida, que pelo jeito conhecia melhor que ele.

Já havia passado um pouco do meio dia. Viu que Gina havia sentado sobre um montinho de feno próximo do campo, na sombra. Agradeceu mentalmente ela ter tomado a iniciativa antes, pois teimoso do jeito que era, desmaiaria sem ceder.

Foi para a mesma direção e deitou-se ao lado do montinho de feno.

— Quer água? Gina estava impressionada pela determinação do rapaz. Claramente aquilo era uma novidade para ele, mas havia permanecido firme.

Ele nem respondeu, apenas estendeu a mão para pegar a garrafa. Em outra situação não aceitaria, mas não estava em condições de ser teimoso agora. Matou a sede e lhe devolveu o cantil, que ela prendeu ao cinto.

Observou a moça. Estava cansada, sem dúvidas. Mas não descomposta, como os amigos haviam saído e ele mesmo devia estar. Sequer vermelha estava. Viu claramente que a moça realmente tinha competências para estar ali, e provavelmente aprenderia muito com ela, se colocasse o seu ego de lado. O diabo era fazer isso.

— O trabalho na roça parece não lhe meter medo.

— E não mete mesmo. Desde que eu me conheço por gente é a vida que eu levo.

Tentou imaginar a riqueza da infância da moça. Será que desde pequena era tão enigmática e arisca?

— Mais que isso Gina, parece lhe fazer bem.

Pela primeira vez, viu a moça se desarmar e abrir um lindo sorriso.

— É uma coisa que me faz feliz... Ela se inclinou sobre o feno, satisfeita. O cansaço de uma lida bem feita era um prazer para poucos.

— Percebe-se. O tom de voz dele não era debochado.

— Achei que você era um frangotinho, mas me enganei. Hoje você ganhou meu respeito. Não era de falar muito, e ainda nem simpatizava com o rapaz, mas reconhecia seu esforço.

— Frangotinho? mas que ousadia! O primeiro termo o fez rir com a espontaneidade da ruiva, e não soube exatamente porque, ficou feliz por saber que ganhara o respeito dela. — Quer saber o que eu achava de você? Lhe pareceu conveniente a pergunta, embora não soubesse exatamente o que lhe responder.

— Pouco me importa. Ela disse a frase e começou a arrumar as ferramentas para ir embora. Ele não entendeu a mudança brusca de comportamento.

— Por que você tem que ser tão difícil menina? Ele estava em paz, satisfeito com seu desempenho, mas ela tinha que o tirar do sério.

— Não sou difícil, só não gosto de conversinha.

Virou-se e rumou para casa a passos largos. Ferdinando a observou se afastar e pouco depois juntou as próprias ferramentas para voltar para casa. Qualquer diálogo com ela era um tempo perdido.

—--

Após o almoço, todos dormiam, exceto Gina e Ferdinando. Ela, por questão de disciplina – dormir agora atrapalharia seu sono, e não conseguiria acordar cedo como precisava. Ele, porque esperava ver a professora Juliana.

Fitava aborrecido a ruiva brincando com uma mecha do cabelo. Não sabia como lê-la. Horas atrás, estava conversando tranquilamente com ela, e agora, ela nem lhe olhava.

— Boa tarde! A professora parecia iluminar a sala só por entrar nela.

— Tarde. Gina nem se virou para olhar a moça. Já o engenheiro enchia a recém chegada de gentilezas.

— Boa tarde professora Juliana, estava lhe esperando.

A ruiva nunca foi o tipo de pessoa que gostava desse tipo de cena. Se levantou abruptamente e se dirigiu à escada.

— Espere Gina, vou subir com você. Desculpe Ferdinando, mas estou bem cansada... A jovem não estava com paciência para galanteios.

— Não professora, esse aí ficou até agora lhe esperando, não faça essa desfeita!

— Gina, não diga bobagens! A professora ficou vermelha, mais ainda que Ferdinando.

— Mas nesse caso ela não disse nenhuma bobagem professora. O que tinha de tímido, tinha de cara de pau.

— Só toma cuidado com a concorrência Ferdinando, que o capataz da fazenda está de asa caída pra cima dela também! A moça soltou a bomba e seguiu para seu quarto. Nem sabia decerto porque tinha dito aquilo.

Juliana nem se preocupou com Ferdinando, e subiu correndo atrás de Gina, cobrando explicações sobre o capataz. Se lembrava bem dele. Nunca tinham conversado direito, que história era essa?

O jovem de dreads ficou na sala, pensativo. Quem seria esse rival? Pela reação da moça, a suspeita de um interesse por parte do tal capataz era mais importante que a certeza do interesse dele. Será que suas intenções já estavam frustradas?