Juliana terminava de guardar seus últimos materiais sentou na escadinha da escola, vendo as crianças irem embora. Gostava de vê-las comentando felizes sobre o que aprenderam.

E aproveitava também para pensar no que Gina tinha lhe dito alguns dias atrás, sobre o capataz. Na verdade, vinha pensando nisso desde então. Já tinha reparado no belo e misterioso rapaz. Mais ainda: reparara que todos os dias de manhã, ele ficava discretamente atrás de umas árvores, observando-a pela janela.

Ensaiara vários dias falar com ele, tentar começar um assunto. Ele a assustava um pouco, mas ao mesmo tempo a sua enigmática figura a prendia.

Decidiu voltar para casa e tentar tirar mais alguma informação da colega de quarto, tão enigmática quanto ele. Era inútil tentar fazê-la falar, mas aos poucos a colega se abria e se tornavam amigas.

Ela se sentia curiosa sobre como ela conseguira a informação, sendo assim tão fechada. E a moça não blefava, pelo que ela pôde perceber.

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Os dias avançavam e os estagiários se acostumavam com a lida, e o entrosamento entre eles era cada vez maior. Montaram uma escala de trabalho: dois trabalhavam de manhã, dois a tarde, enquanto um descansava, em esquema de rodízio. Assim, cada um deles tinha um dia de descanso na semana.

Neste dia, Ferdinando fazia o trabalho com Marcos, e Gina deveria fazer o trabalho com Ana, enquanto Caio descansava.

— Esse chapéu não me é estranho...

— E não é mesmo não Nando. A Gina me emprestou porque eu perdi o meu.

— Ah... Vocês são bem amigos, não são? É o único pra quem ela dá trela aqui.

— Somos bem amigos sim. Admiro muito ela... E nem acho que seja difícil, é só questão de saber lidar.

— E parece que eu não sei. O rapaz deu um sorriso tímido.

— Pode ser. A gente não tem que se dar bem com todo mundo. Vamos voltar pra casa? Deixa um pouco pra elas também.

— Tá certo, vamos sim, que eu preciso descansar Marcos. O engenheiro gostava dele, e não era difícil fazê-lo. Era um rapaz franco, alegre, amigo.

— Está esquecendo a professorinha amigo? o rapaz fitava o engenheiro, curioso. Todos os dias depois da lida, ele corria para casa com o objetivo de encontrar a moça, mas de uns dias para cá a ansiedade parecia diminuída.

Ferdinando não sabia o que dizer. De fato, não havia lembrado dela a manhã inteira, e mesmo nos últimos dias, lembrava bem pouco. O mais estranho é que eles se aproximaram bastante nos últimos dias, e tinham longas conversas. No mais, parecia que o sentimento tinha mudado e amadurecido para uma amizade.

— Parece que sim... A constatação o deixava confuso. — Muito trabalho, não tenho tempo de pensar nessas coisas.

— Pode ser, pode ser. É no trabalho que sua atenção está mesmo?

— E onde mais estaria?

— E eu que vou saber Nando? Marcos havia tirado o chapéu e o fitava, pensativo.

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Os jantares na pensão costumavam ser animados. Uma parte ajudava a preparar a comida, os demais ajudavam a arrumar a cozinha, num arranjo que apenas Gina escapava: ela preferia pegar os ovos e o leite, e caçar com seu Antônio.

Geralmente, assim que terminava de comer subia apressadamente as escadas em direção ao quarto.

— Nossa hoje vai dar trabalho arrumar tudo isso! Acho que todos deviam ajudar. Ana olhava para a ruiva, que não tomava conhecimento da indireta.

— Eu concordo! Bianca não se conformava com a distância de Gina dos afazeres domésticos. — Você podia nos ajudar hoje, Gina.

A ruiva parou imediatamente de comer.

— E você pode amanhã acordar cedo e ir trazer a comida. Quer trocar? Ela falou calma, mas a calma não resistiria a uma tréplica.

— E precisa falar assim? Ana não se dava bem com a ruiva, sequer gostava dela. — Podia pelo menos lavar os próprios pratos então.

— E você, precisa se meter no que já está combinado?

—Eu só não entendo porque essa mania de querer se fazer de macho. O que custa ajudar com as tarefas domésticas?

— Se ela que ajuda seu Antônio, acho justo que ela não precise trabalhar aqui também. Ferdinando ponderou, mais por uma questão de justiça, e porque viu que a ruiva ficou ofendida.

— Vai defender agora? Ana parecia disposta a procurar encrenca.

— Eu não preciso que me defendam. Gina se levantou da mesa e rumou com seu prato para a cozinha.

— Dessa vez você que começou, e acho que Ferdinando está certo. Marcos também se adiantou para defender a ruiva.

— E se o seu problema é lavar o prato dela, deixa que eu faço quando for lavar minha parte, não me custa nada! O engenheiro se levantou e rumou também para a cozinha, deixando atrás de si os colegas ainda discutindo e Marcos ainda mais pensativo do que estava de manhã.

— Gina? O rapaz sentou-se a seu lado na mesa. — Não precisa jantar sozinha.

— Não me custa nada jantar sozinha.

— Se fosse o Marcos não falaria isso.

— Não falaria mesmo.

— Mas não é ele que está aqui, oras!

— Isso não me interessa porque não pedi que você viesse.

Ferdinando respirou fundo apara manter a calma. Não entendia o dom que ela tinha de ser irritante.

— Mas posso me sentar contigo? Tentou ser conciliatório.

Ela fez um sinal desinteressado que sim. Não tinham o que conversar, e ele não queria se expor a mais uma explosão da ruiva, portanto permaneceu calado, observando.

Se atentou a suas mãos, estranhamente delicadas pelo tanto de trabalho na terra que ela fazia, e ainda outras atividades. Decerto que tinham calos, mas já incrustados na pele, e não as bolhas vermelhas que apareciam na mãos de todos os outros, inclusive nas dele.

— Eu gostaria de caçar com vocês um dia.

— E por quê?

— Porque eu queria te ajudar também, só você e seu Antônio fazem isso.

— Não precisa, que a gente já dá conta.

— Eu admiro sua disposição. Mas não precisa querer se isolar Gina. Sem saber porque, levou sua mão até a mão dela que estava apoiada sobre a mesa. Não soube porque fez aquilo, mas percebeu que tinha errado, pois ela retirou a mão rapidamente.

— Perdi a fome. Largou o prato como estava e saiu pela porta.

O engenheiro continuava sem entender o motivo de tanta raiva. Resignado, terminou seu jantar sozinho.

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Todos tinham ido dormir, exceto Ferdinando. Vira a moça sair, e não contou a ninguém.

No entanto, ela ainda não voltara e ficava preocupado. Não sabia se a fazenda era segura para uma moça a essa hora. Pensou em procurá-la, mas daria bandeira para os outros. Então os esperou subir e saiu pelos arredores, mas não a encontrou em canto algum nos limites da casa.

Resolveu ficar na varanda, esperando que ela voltasse. Chegava a ser uma irresponsabilidade sair assim sozinha, mas se sentia culpado ao pensar que sua atitude tinha motivado isso.

Não que visse qualquer coisa essencialmente errada no que tinha feito, mas a moça parecia ter uma visão diferente.

Depois de uns 40 minutos, ouviu ao longe um trote, e depois um farfalhar de botas se aproximando. Achou estranho, eles não tinham estábulo ali.

A moça se aproximava cada vez mais, mas não o veria atrás da coluna. Ele a viu passar, com o rosto avermelhado do esforço na noite fria, os cabelos revoltosos e um ar satisfeito. Estava bonita, muito bonita.

Mas o que estaria fazendo a essa hora? Certamente não foi só pelo que ele fez. Parecia algo premeditado.

Ela era rodeada de vários pequenos mistérios, e ele se sentia cada vez mais inclinado a querer decifrá-los.

Esperou ter certeza que ela já havia entrado no quarto para subir para o seu. Antes de dormir, ajustou o despertador do celular mais cedo que de costume.

—--

Gina, como sempre, se arrumava para fazer as primeiras atividades matinais.

Desceu as escadas para encontrar seu Antônio, quando ouviu uma voz conhecida.

— Bom dia Gina...

Olhou para o batente e viu Ferdinando encostado na porta ao lado do dono da casa, e portando um rifle de caça.

— O fia, ele pediu pra ir junto hoje, é bom porque a gente não demora tanto né? Disse que já caçou...

— Então vamos. Gina duvidava que Ferdinando soubesse caçar alguma coisa, e confiava que ele iria mais atrapalhar do que ajudar, mas não seria estraga prazeres. Acreditava que o empirismo ensinava mais que qualquer teoria.

Ferdinando seguiu os dois, que já pareciam bem entrosados.

Foram de jipe até uma região distante, e depois disso ainda caminharam bastante, até chegar numa área de mato alto. Eles seguiam em silêncio, e a moça e o velho de vez em quando fazendo um sinal de olhos ou mãos um para o outro. Quis quebrar o gelo.

— O que vamos caçar?

— Shiu! Ao pito de Gina, seguiu-se um sorriso divertido de Antônio. Percebia claramente que o rapaz nunca tinha caçado, agora.

— Mas como vou caçar se não sei o que?

— Shiu! Gina fez novamente sinal para que se calasse, colocando o dedo indicador sobre os lábios, fazendo um biquinho adorável, que o fez rir.

Assim que ele riu, ouviram uma pesada movimentação atrás das moitas e um porco selvagem correndo.

Ferdinando achou que seria um bom momento de tentar provar alguma habilidade, e atirou. O tiro acertou de raspão o lombo do animal, que caiu ganindo no chão. Era um som horrível, e Ferdinando não entendia o prazer que os outros dois viam na caça.

— Tem que atirar no ombro! Pra matar! O rosto de Gina estava furioso. Saiu correndo para onde o animal estava, dando um tiro certeiro com seu próprio rifle.

— Menino, caça não é esporte. Caça é pra comer. Um tiro, uma morte, entendeu? Seu Antônio explicou e saiu em direção a moça, para ver se ainda sobrava algo a ser aproveitado no animal.

Ferdinando permaneceu estupefato e envergonhado. Tinha estragado a caça, e mais que isso, os gritos do animal não saiam de sua cabeça.

Viu Antônio e Gina passarem por ele com a carcaça e jogando num suporte acima do veículo, e mecanicamente se retraiu.

— Larga de ser covarde, que o bicho já tá morto.

Ele poderia ter respondido qualquer coisa, pois jamais ouvira tamanha ofensa em sua vida, mas seu Antônio cortou sua fala.

— O fio, não liga pra ela não. Ela é bruta, acostumada com essas coisas. Ocê vai aprender inda. A gente daqui não caça por gosto, não, caça por necessidade. Caça porque se for esperar ir na cidade pra comprar carne, só vê carne uma vez por mês, e nem isso pra quem não tem carro aqui nos arredores.

— Isso eu entendi...

— E isso a gente só aprende fazendo. Aprende a não falar, que espanta a caça... Aprende a olhar no olho do companheiro de caça e saber o que ele tá falano. Aprende a não se entristecê quando erra o tiro.

— Obrigado seu Antônio. O engenheiro já tinha se convencido que aquilo não era pra ele.

Terminaram a viagem em silêncio, chegando ainda antes do café da manhã.

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Aquele era o dia de folga de Gina, e o engenheiro não queria ter que cruzar com ela. Por isso, se ofereceu para trocar o turno com Bianca, e assim ficou dois períodos trabalhando.

A moça percebeu o que ele fez, e aprovou. Também era assim: esquecia das coisas trabalhando.

Ao cair da tarde, todos voltaram e subiram para se banhar. No entanto, o engenheiro não descia.

— Ele disse que estava muito cansado, também o dia inteiro na roça. Falou que janta depois. Marcos respondeu o questionamento de Marisa.

Gina, que ouviu a explicação ainda no alto da escada, desistiu de descer. Não era também o monstro sem coração que julgavam que era, e não gostaria que seu comentário na caçada ajudasse a deixar o engenheiro deprimido.

Se posicionou na frente do quarto dele e deu três batidinhas. Diante do silêncio, deu mais 3 batidinhas.

— Eu janto depois.

— Não vim te chamar pra jantar.

Ferdinando estava deitado, quase dormindo já, e esquecendo o que o aborrecia. Mas ela tinha que lembrar! No entanto, a voz dela não era de quem brigava.

Se levantou, vestiu uma calça e abriu a porta.

— O que você quer?

Na verdade, Gina não sabia muito bem o que dizer, e ver o rapaz vestido de forma tão simples, quase dormindo, a desconcertou ainda mais.

— Nada não, esquece, era bobagem.

— Você veio aqui, bateu na porta, me acordou pra falar bobagem? Pois então fale. Percebeu que ela estava desconcertada, mas não conseguia adivinhar porque.

— Eu só queria dizer que o aconteceu hoje com você acontece mesmo.

— Estava quase me esquecendo disso. O rapaz abaixou a cabeça, triste.

— Ué Nando, isso acontece, não precisa ficar assim. A intenção dela era boa, mas não tinha paciência para o que chamava de "mimimi".

— Se já terminou pode ir embora. O engenheiro não estava com a mínima vontade de ser educado. Estava cansado, e se sentia fragilizado ainda.

— Ara! Que eu vim me oferecer pra te ensinar, mas pelo visto prefere ficar aí chorando! Com ela conseguia falar com tanto desdém? Ele não entendia, mas também não deixaria por menos.

— Agradeço mas não tem a menor necessidade. Agora com licença que eu preciso dormir.

— Mas é um frangote mesmo!

Ferdinando bateu a porta na cara da moça. Podia até ser grosseria, mas era muito melhor do que ele estava pensando em lhe dizer agora.

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Gina pensava no que tinha acontecido, e chegava a conclusão que era melhor assim. Não tinha paciência com aquele um.

Estava absorta quando Juliana entrou.

— Gina? Aconteceu alguma coisa entre você e o Ferdinando?

— E o que poderia ter acontecido?

— Bem, vi que ele passou o dia te evitando, nem desceu pra jantar. E vi que você também ficou aqui em cima...

— Ora Juliana, eu já tinha jantado. E ele devia era estar cansado, foi caçar com a gente hoje e a ainda fez dois turnos na lida hoje.

— Então o que a senhorita estava fazendo na porta do quarto dele? Eu a vi ali minha amiga, pouco antes de ver você saindo com cara de poucos amigos...

— Fui perguntar se ele ia caçar com a gente na próxima vez ué, não tem mistério. Não deixava de ser verdade. — Mas o frangote parece que não aguentou o tranco.

— Não fale assim Gina, parece que ele está mesmo se dedicando, querendo aprender o máximo possível. Parece ser bom no que faz.

A ruiva já havia percebido que ele era excelente no que fazia: analisar e propor soluções para a lavoura. Ainda era cedo para ter certeza, mas sentia que o solo que ele havia preparado traria cultivos mais ricos que os que ela estava cuidando. O problema era a que custo – ela era contra uso de determinados componentes que, sendo filho de quem era, certamente ele usava.

— É sim Juliana. Tem lá suas qualidades no trato com a roça.

— Olha só... Admitindo qualidades no Ferdinando?

— E as qualidade do capataz, Juliana? Não é melhor se preocupar com elas?

— Ora Gina, não sou eu que saio batendo no quarto dos moços.

— Larga de bestagem Juliana. E vamos dormir que amanhã acordo cedo.

Se enfiou debaixo das cobertas e deu o assunto por encerrado. Na verdade, só estava esperando a companheira de quarto dormir, para sair sorrateiramente.

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Juliana se preparava para ir embora e decidiu que aquele dia, abordaria o capataz que a observada dia após dia.

O rapaz levou uma surpresa ao vê-la desviando do caminho normal e se aproximando da onde ele estava. Olhou para os lados, achando que ela poderia estar indo em direção a mais alguém, mas só havia ele ali.

— É com o senhor mesmo que quero falar. Zelão, não é?

— É sim... Como a senhora sabe meu nome? O peito do rapaz se encheu de felicidade de saber que fora objeto de curiosidade da moça que ele tanto admirava.

— Ora, perguntei pra um dos meus alunos! Zelão, posso lhe fazer uma pergunta?

— Pode perguntar qualquer coisa professora.

— Você está esperando alguém aqui? Sempre lhe vejo ficar aqui no término das minhas aulas.

— Eu só fico descansando aqui após o almoço professora...

— Ah... Entendi. A moça não estava preparada para aquela resposta. Se sentiu uma boba de ter acredita na companheira de quarto. Como se ela entendesse alguma coisa de homens! — Bem, se precisar de alguma coisa estou às ordens seu Zelão! E agora vou embora. Tenha uma boa tarde.

— Boa tarde professorinha, bom retorno. O capataz não sabia o que dizer.

— Até amanhã.

Essas duas singelas palavras quase fizeram com que seu coração parasse de bater. Soaram como uma promessa: ela falaria com ele novamente no dia seguinte.

—--

Ao contrário do que Gina esperava, Ferdinando estava de pé, a esperando junto com seu Antônio, para caçarem novamente. Ela não disse nada, mas admirou sua persistência.

A cada dia que tentavam, ele aprendia mais, e o trio se entrosava melhor. Ferdinando aprendera a ler as expressões da ruiva, que também aprendia a decifrar o rapaz – pelo menos quando estavam caçando.

Fora daquele território, continuavam tão distantes quanto sempre foram, embora sem a animosidade costumeira. Ele continuava passando boa parte de seu tempo livre estudando ou com o grupo, e a moça continuava isolada em seu quarto, da onde raramente saía.

Aquele dia, a escala matinal de trabalhos no campo, era deles também. Fazia tempo que não iam pra lida juntos.

Estavam quase terminando o trabalho – o entrosamento na caça se estendia ao trabalho no campo também.

Ferdinando percebia isso. Nunca havia dito para ninguém, muito menos para ela, mas ansiava por uma escala de trabalho que os colocasse juntos. Se sentia bem trabalhando com a moça.

— Sabe Gina, que a melhor parte do meu dia é quando estou com você trabalhando. Foi uma frase direta, que não queria dizer nada mais do que dizia, mas que desconcertou a moça.

— Larga de bestagem.

— É verdade. Fico impressionado em ver sua destreza lidando com a terra.

A moça ficou completamente corada, e Ferdinando não pode deixar de observar. Era bonito, era como uma rachadura na armadura que ela vestia.

— Ué, foi o que a gente veio fazer aqui não foi? A frase deveria ter saído grosseira, mas saiu apenas cansada.

Era estranho. Ele tinha notado também que nos últimos dias ela andava sempre muito cansada, e até com algumas olheiras de quem não dormia regularmente há algum tempo.

— Você está cansada, pode descansar que eu termino aqui. Falta pouco.

Para sua surpresa, ela aquiesceu e se sentou.

— Obrigada Ferdinando. Um meio sorriso, apenas. O suficiente para ele desvendar mais um traço de sua beleza.

— O que anda deixando a senhorita tão cansada? Ele tentou brincar, mas novamente se arrependeu de imediato.

— Não é da sua conta. Eu vou entrar.

Ele não retrucou. Sabia que era inútil — ela já corria em direção à casa.

—--

Quando Ferdinando retornou, todos já jantavam. Aliás, quase todos: não pode deixar de reparar na ausência da ruiva.

— Ué, a Gina não jantou de novo?

— E porque a preocupação? Aquela nunca que fez questão de ficar com a gente. Ana não engolia a ruiva, e engolia menos ainda o interesse do engenheiro com relação a ela.

Todos os olhos se voltaram para Ferdinando, principalmente o de Marcos, que observava com curiosidade o comportamento do engenheiro.

— Ora, só me preocupo porque hoje ela estava tão cansada que até voltou mais cedo, e ela não é disso.

— Pois é meu filho, tenho reparado também. Seu Antônio interveio. — Vou falar com essa menina depois. Mas vamos comer agora?

Ferdinando sentou-se com eles e jantou, não conseguindo afastar o pensamento da ruiva. O que motivava tamanha aversão ao convívio? Ou teria mais alguma coisa ali?

Sua vontade era falar com a moça imediatamente mas certamente iriam comentar. Esperou todos se retirarem e foi até dona Marisa.

— A senhora podia me ajudar a fazer um pratinho pra Gina? Ela passou meio mal hoje, acho que é até melhor chamarmos um médico.

— O fio, a comida mesmo acabou, mas vou colocar aqui umas maçãs, umas uvas que ela gosta... Ah, tenho certeza que isso ela não vai recusar! A senhora foi até um pote no armário e tirou pedaços de chocolate branco. — Tenho que esconder aqui senão quando ela vem deixar o leite, come tudo!

— Ah é? Olha só, não sabia dessas travessuras não! Foi engraçado pensar em Gina como uma menininha roubando um pedaço de chocolate do pote.

— Pode ir dormir fio, eu levo lá.

— Imagina dona Marisa, vou subir pro meu quarto, aproveito e deixo lá pra elas, certamente Juliana vai se aproveitar do chocolate também! O engenheiro pegou o prato das mãos da mulher e subiu as escadas.

Quando chegou na frente da porta, bateu discretamente para que mais ninguém ouvisse, mas não surtiu efeito. Bateu o mais discretamente que conseguiu, e nada de alguém atender. Resolveu ligar para Juliana, que veio abrir a porta.

— Então Juliana, dona Marisa me pediu pra trazer esse pratinho pra Gina quando eu subisse, faz tempo que parece que não come direito.

— Está certo, muito obrigada. Pode deixar aqui que assim que ela acordar aviso.

— Não é melhor acordá-la agora? Não sabia porque, mas queria ver a reação da ruiva quando visse sua gentileza.

— Se você faz questão... A moça dos cabelos rosas parece ter percebido a intenção do rapaz, que agora dizia não precisar, tentando disfarçar a indiscrição.

Porém, quando Juliana foi tocar nos ombros de Gina, percebeu que havia algo estranho. Quando tirou a coberta, viram que o que ali estava era um amontoado de travesseiros.

— Mas ora essa, onde essa menina se meteu?

— E eu que sei Ferdinando?

— Pior que não é a primeira vez que ela faz isso... Pelo cansaço, deve ser toda noite! O rapaz se lembrava da noite em que a viu chegar no meio da madrugada.

— Uhm como assim senhor Ferdinando? Parece que está sabendo mais dela do que todos nós aqui.

— Nada Ju... Ela tem mania de ficar estudando lá fora até tarde, depois falamos com ela sobre isso. O engenheiro se embananava nas explicações. — Pode deixar que eu levo o prato lá embaixo. E boa noite, desculpe o incomodo.

Juliana fingiu que acreditou. Se tinha alguma coisa entre eles, ela que não iria atrapalhar. O melhor que tinha a fazer era voltar a dormir, e ver se conseguia voltar a sonhar com um certo rapaz de cabelos muitos pretos que lhe esperava todo dia ao sair da escola.

—--

Ferdinando resolveu voltar para seu quarto para não correr o risco de ser visto. Com certeza ouviria a ruiva subindo as escadas, e a interpelaria.

Sentou-se perto do peitoral da janela e se pôs a observar a paisagem escura lá fora. Não sabia o que pretendia saber da ruiva. Só queria saber. A moça era um mistério completo, e totalmente arredia.

Não ousava ainda admitir seu crescente interesse na ruiva – sequer sabia a natureza de tal interesse.

Já havia percebido que queria bem à moça, mais do que aos outros colegas. Mas era apenas a convivência. E sua atitude era natural, apenas preocupação por vê-la colocar a própria saúde em risco.

Repetia para si mesmo essas enganosas afirmações, quando viu ao longe um vulto de cavalo se aproximar da cerca da propriedade, e uma silhueta delicada apear. Tão logo isso aconteceu, a silhueta começou a correr em direção a casa, e o cavalo voltou por onde veio.

Ela não está sozinha... A informação o atingiu em cheio, como a um soco. Seria essa a razão pela qual saía todas as noites? Um motivo tão vulgar? A aura de encantamento que começava a construir em torno do mistério se dissipava rapidamente, mas ainda assim iria confrontá-la. Seu coração estava a mil quando a ouviu subir as escadas, e se posicionou atrás da porta entreaberta.

Quando ela passou, rapidamente a puxou para dentro de seu quarto, fechou e trancou a porta, deixando-a atônita.

— O que você acha que está fazendo? O sussurro saiu quase tão alto quanto sua voz normal.

— Eu que lhe pergunto, Gina Falcão. Já não é a primeira vez que a vejo voltar pra casa de madrugada, nesse estado, e desconfio que faça isso toda noite. Não gostaria de ter que te entregar pra Dona Marisa e pro seu Antônio, mas pra isso preciso que você colabore e me conte o que está te tirando o sono e a fome.

Ele ainda segurava seu braço e seu corpo estava quase colado ao dela, para que ela lhe ouvisse, mesmo falando baixo. Gina ainda arfava pelo susto e pela caminhada, e suas respirações entrecortadas quase se cruzavam.

Era já a segunda vez que ele se achava no direito de segurá-la assim, e Gina teria facilmente se desvencilhado e partido pra briga se seu corpo não estivesse preso — não tanto pelas mãos do rapaz ou sequer pela porta trancada, mas pela sua presença.

Seus rostos estavam próximos e podia sentir a respiração quente dele batendo em sua pele ainda tomada pelo frio da madrugada. Não conseguiu controlar um arrepio. Era melhor explicar parcialmente a história e sair daquela situação que parecia tão incômoda pra ele, quanto pra ela.

— Me solta. Ela puxou o braço e se afastou alguns passos dele. — Eu conto. Senta. Passou as mãos pelo rosto para afastar os cabelos e se preparou para iniciar o relato.

Ferdinando agradeceu o afastamento. Estava cada vez mais confuso sobre as sensações que tinha, mas as últimas, em específico, estavam muito claras. O que mais passaria pela sua cabeça, tendo uma mulher tão bonita em seu quarto, tão próxima?

Precisava de um tempo para abandonar tais pensamentos. Foi para a escrivaninha pegar o prato e o trouxe de volta, colocando-o entre os dois na cama, estabelecendo um perímetro seguro entre eles.

— Você mal comeu hoje. Toma, peguei pra você.

A moça olhou o prato desconfiada, mas profundamente agradecida. Estava com muita fome. Seu olhar parou nos pedaços de chocolate branco.

— Onde você achou? Sua voz foi leve e alegre. Tal qual uma menininha, ele tornou a lembrar.

— Dona Marisa que me disse que você roubava chocolate dela, de tanto que gostava. Resolvi trazer. Sua voz era terna e até cúmplice, e isso deu certa confiança à moça. — Mas não pense que vai poder escapar de me responder o que anda fazendo.

Gina, que já tinha comido metade de um chocolate, suspirou e contou, tão direta quanto sempre.

— Estou alfabetizando o capataz da fazenda. Ele tem vergonha de frequentar a turma de adultos, e pediu minha ajuda e também meu silêncio. Por isso não conto pra ninguém. Espero que você também não conte.

O engenheiro ficou boquiaberto. O motivo era bem plausível, de tão absurdo. E se fosse mesmo verdade, seria mais um motivo para admirá-la. Mais um? Se deu conta de que sim, já a admirava por vários motivos.

— E então, me promete que não conta pra ninguém?

— Pode contar com minha discrição. É bem legal isso que você está fazendo, Gina.

Bem legal. Legal mesmo, e suspeito. Porque o capataz pedira ajuda pra ela? Que relação íntima é essa que eles tinham, a ponto da moça se prontificar dessa forma? A suspeita o aborrecia.

— Não sabia que você tinha tanta amizade com alguém daqui. Tentou ser sutil. Conseguiu.

— Ficamos amigos lá na festa de recebida. Não gosto de festa, ele também não, conversamos um pouco. Aí de vez em quando vou buscar a Juliana lá na escola e conversamos também.

— Não sabia que se encontravam fora daqui. O tom dele foi um tanto ríspido demais. O dela, mais ainda.

— E porque isso te importa?

— Não é isso Gina, é que lembro que você disse que ele estava de olho na Juliana, e ela pareceu interessada... A memória veio em boa hora. Ela acreditou que o motivo era esse.

— Ah sim, ele está louquinho por ela. Por isso tem vergonha de frequentar a escola. Acha que se aprender a ler, ela gostará dele. Eu não boto fé, mas como vou dizer isso pra ele? Ademais, é uma chance de ajudá-lo. Não se perde nada aprendendo.

— Posso ir com você amanhã? Os olhos dele brilhavam de admiração. Começava a perceber a mulher estupenda que existia atrás daquele jeito tão bruto.

— Mas porque isso agora?

— Porque achei lindo isso que você está fazendo, quero ajudar. E além disso, podemos nos revezar, assim você descansa mais e se alimenta melhor.

A referencia a alimentação o fez perceber que ela não parara de comer desde que chegara. As uvas já tinham ido, e metade de uma maçã. Quase todos os chocolates também já tinham sido comidos, e inclusive restavam pedaços derretidos em seus dedos e na lateral de sua boca.

Instintivamente, Ferdinando levou o polegar até o rosto dela, limpando o chocolate que estava ali delicadamente. A moça foi pra trás.

— Desculpa... Eu... o rapaz temia ter feito alguma besteira que a fizesse reassumir a armadura.

— Calma, tudo bem. A moça não queria parecer abalada pelo contato, como de fato estava.

O rapaz sorriu contente por ela não ter respondido com a grosseria costumeira. Levou o dedo à boca e o chupou, gesto que não passou despercebido por ela. Uma troca de olhares intensa se seguiu. Gina foi a primeira a levantar.

— Pronto. Agora você sabe o que acontece. Posso ir? A voz dela transparecia uma irritação que não existia pouco tempo atrás. O ambiente, a presença dele, o cheiro impregnado em cada canto, tudo a irritava.

— Promete que posso ir com você amanhã?

— Se não te outro jeito.

— Vai ser um incomodo se não me deixar sair. Posso?

— Claro! Desculpa Gina, é que todos ficamos preocupados com você, e eu só podia acobertar tendo certeza que você não estava fazendo nada de errado. Me entende? Inclusive, leve o prato com você, não queremos que questionem porque estava no meu quarto, e não no seu.

Tentou ser convincente na desculpa. A noite lhe estava favorável — ela não contestou.

Ela se dirigiu a porta e ficou parada, esperando. Ele ficou fitando-a, ainda impressionado.

— Abre pra mim? Apontou para a fechadura. Ele tinha se esquecido que tinha trancado. Não lembrava nada que não fosse ela.

Se dirigiu até a porta ficando de frente pra ela e encarando-a. Esticou o braço e destrancou a porta, empurrando-a levemente. — Se quer sair, saia.

"Se quer sair". Gina ponderou meio segundo na opção sutil que ele lhe deu. Não queria sair. Não queria deixar de fitar os olhos azuis que a encaravam com tanta intensidade. E foi justamente por isso que virou e saiu bruscamente, sem sequer se despedir.

Ferdinando a viu sumir no corredor e voltou para seu quarto, jogando-se na cama. Sabia que queria que ela ficasse, embora não soubesse da onde tinha saído a insinuação. "O que diabos acaba de acontecer aqui?". Tentou não responder, mas seu corpo inteiro gritava a resposta.

—--

Gina entrou discretamente no quarto, mas não escapou dos olhos curiosos e insinuantes de Juliana, que se alternavam entre o prato em suas mãos e seu rosto agora rubro.

— Vejo que pegou o prato com o Ferdinando... E não só isso, porque desde que ouvi seus passos na escada até agora, deu tempo de pegar vários pratos! A moça ria mais a cada tom de vermelho que o rosto da colega adquiria.

— Juliana, não me faça explicar agora...

O tom da moça foi tão sério que ela não insistiu.

Quando Gina se deitou fechou os olhos, jurava que podia sentir a respiração de Ferdinando lhe aquecendo a pele novamente.

"Não me faça explicar, que eu não sei explicar nem pra mim".