A seleção
6 Pegada
— Zelão, hoje uma pessoa vai comigo na nossa aula. A ruiva avisou com cuidado, checando a reação do rapaz.
— Como assim? Num credito que ocê contou pra arguém!
— Não... O Ferdinando me viu chegar de madrugada, questionou e eu tive que contar. Mas ele se dispôs a ajudar e a guardar segredo.
— Se ocê diz. Mas esse um não é aquele que andava de asa caída pro lado da Juliana? O olhar do capataz era feroz.
— Não mais Zelão.
Algo no tom dela o fez ficar intrigado. Mas já era hora da professorinha sair e alegrar seu dia com alguns minutos de conversa.
— Leve então Gina. Te devo uma.
— Deve nada meu amigo. E bem, agora vou pra venda ali esperar a Juliana. Aproveite o tempo!
— Vou aproveita... Pode deixar que vô aproveita.
—--
Os dois tinham combinado se encontrar no começo da madrugada, na cerca da propriedade.
Ela o viu se aproximando e um certo nervoso tomou conta dela. Teria cedido a tentação de usar a costumeira grosseria de escudo, para que ele desistisse de ir e ela se livrasse dos sentimentos que se apossavam dela, mas ele já chegou estendendo um embrulho nas mãos e anunciando:
— Toma, peguei mais chocolate pra você.
— Ara, obrigada... Ela não conseguiu disfarçar a alegria não apenas com o doce, mas principalmente, com o gesto dele. A delicadeza que ele demonstrava a desarmava.
— Vamos?
— Calma, temos que esperar ele chegar com o cavalo. Sabe montar? Se não souber pode ir com o Zelão.
— E se eu souber? Ela tinha falado "o cavalo", de qualquer forma um deles teria que ir com alguém, e ele queria saber com quem ela estava predisposta a ir.
— A gente vê. Ele não gostou da resposta. Tanto pela indiferença, quanto pelo fato dela não perceber as intenções dele. Teria que ser mais claro? Como fazer isso sem ser indelicado?
Zelão chegou montando o Quarta-Feira, seu cavalo e também melhor amigo, e trazendo pelas rédeas outro belo animal, já todo selado.
Antes que a moça pudesse chegar perto dele, o engenheiro tratou de rapidamente de se adiantar, montar e estender a mão para que Gina subisse.
— Vem Gina. Ele propositadamente sentou um pouco pra trás na sela, estendendo a mão a frente de seu corpo, pra que ela tivesse que ir montada a sua frente, e não em sua garupa.
A moça subiu. Estava acostumada a ir sozinha ou ir atrás, mas não iria discutir sobre isso. Assim que se acomodou, os braços de Ferdinando a cercaram e logo ele pôs o animal em movimento. Percebeu que ele era um ótimo cavaleiro, e embora tentasse se manter firme e um tanto distante do corpo dele, o movimento do animal a fazia ir para frente e para trás, roçando o tronco no peito dele de forma cadenciada.
A movimentação não passava despercebida por ele. Mais: seus braços roçavam o corpo dela, e ele fez questão de mantê-los o mais unidos que pôde. O vento estava contra eles, fazendo-o ser invadido pelo cheiro dos cabelos dela.
A ruiva tentou iniciar uma conversa, que desviasse seus pensamentos do doce e perturbador embalo.
— Você cavalga bem. Onde aprendeu?
— Com meu pai. Era a mais pura verdade. Quando mais novo cavalgara muito ao lado do pai dele, antes de começarem as brigas, a pressão.
— Meu pai também me ensinou. Sempre gostei de sentir o vento no rosto, a sensação de liberdade! Tenho um cavalo no sítio dele, o Tornado.
Ferdinando ficou fascinado com o que ouviu. Com o tom doce que ela adquiria quando falava de sua casa ou seus pais, contrastando com o nome do cavalo, que ele até já imaginava porque fora batizado assim. E riu ao pensar no nome do próprio cavalo: Brisa.
— Tá rindo do quê? A moça perguntou ofendida.
— Do nome do cavalo. O meu chama Brisa. Opostos.
Aliás, como os dois. Opostos. O pensamento também ocorreu a ela, assim como o nome pareceu apropriado. Ele era suave, calmo. Uma brisa de verão. Já ela...
Infelizmente — ou felizmente, o destino estava mais próximo do que esperavam.
Na pobre casa em que apearam, o engenheiro ouviu a história de Zelão, e um laço de amizade instantâneo os uniu. Combinaram que se alternariam para dar as aulas, em segredo.
Zelão se retirou para pegar um copo de água, a pedido do novo amigo. O rapaz deu uma longa olhada no ambiente. As paredes nuas, e caiadas, como era ainda comum em alguns rincões. A luz amarelada das lâmpadas incidindo sobre os poucos e pobres móveis do rapaz.
Pensou se as fazendas do pai contavam com tais casas, tão pobres, enquanto sua própria casa era cheia de luxos. Observou Gina tão confortável no sofá puído. Ela estava acostumada com isso, percebeu. Apesar de ser filha dos proprietários, convivia com os trabalhadores.
Se deixou ficar observando a moça, que havia sacado um canivete e distraidamente tirava um pouco de terra de sob as unhas. Cada vez mais a admirava. Ela era linda.
A moça ergueu o olhar, para encontrar o dele, fixo nela. Franziu o cenho e espetou o canivete na mesinha de madeira em frente ao sofá.
— O que foi?
— Nada, nada... Estava pensando que você deve estar acostumada... Fez um gesto, indicando o ambiente.
— Ué, mas claro que estou. Me criei em fazenda, cresci trabalhando com essa gente. Mas você também, não foi?
— Foi... Mas não podia trabalhar. Meu pai me criou pra ser advogado, não pra trabalhar na roça. Aquele tom triste que ela percebia quando ele falava do pai.
O capataz voltou, interrompendo a breve conversa e se desculpando por poder oferecer apenas água.
— E tem bebida melhor? Se tem, eu não conheço! O rapaz foi gentil ao aceitar o copo.
A moça se impressionava com o jeito do engenheiro, e também com sua simplicidade. Ali, com Zelão, ele demonstrava uma humildade genuína, que ela nunca havia percebido. Talvez tivesse sido injusta com ele em sua primeira avaliação.
Conversaram mais um pouco, sobre a rotina na fazenda e outras amenidades. Aquele dia não teve aula para o capataz, que ainda se sentia meio sem graça com o novo "professor". Na verdade, era o jovem engenheiro que mais aprendia ali.
Na hora de voltar, ela se adiantou para o cavalo. Não queria repetir a experiência perturbadora da vinda.
— Vem. Esticou a mão da mesma forma que ele havia feito, à sua frente.
Ele olhou para ela e percebeu que ela não queria ir na frente novamente. Ficou imaginando se o motivo era justamente o que fazia com que ele quisesse repetir o arranjo da vinda.
Resolveu descobrir. Tomou sua mão e a beijou, olhando seus olhos luminosos, refletindo a luz do lampião que Zelão trouxera para iluminar o caminho. Montou atrás dela, antes que ela pudesse se recuperar do feitiço do seu olhar. Enlaçou sua cintura com mãos firmes.
— A hora que quiser ir, estou pronto.
A moça ficou desconcertada com o contato, com o beijo, com a respiração quente que ela já conhecia, e ainda mais com a pressão das mãos em sua cintura. Não sabia como agir.
O rapaz percebia que a proximidade tinha algum efeito sobre ela, assim como tinha pleno conhecimento sobre os efeitos em si. Zelão assistia a cena, lembrando o que Gina lhe disse: "Ele não está mais interessado em Juliana". Pra ele, era bem claro o motivo.
— Vamos? O rapaz se inclinou e lhe falou ao ouvido. Ele poderia ficar mais tempo ali parado, com ela, mas o olhar de Zelão o deixava encabulado e assim, ainda tinha a chance de se divertir com o arrepio que sabia, iria provocar à ruiva.
Ela resolveu ir embora o mais rápido possível, quanto antes apeassem, melhor.
Gina fez um aceno de cabeça em direção à Zelão, como despedida.
— Vamos então. Se segura!
Ela fez a montaria ir rápido, obrigando Ferdinando a segurar ainda mais firmemente sua cintura. Se arrependeu da estratégia. Gostava da situação, o suficiente para se sentir assustada.
O rapaz se controlava para manter as mãos de forma respeitosa na cintura da moça. Se esforçava para parecer sereno, para não transparecer o quão perturbado estava. Percebia agora claramente que desejava a moça.
Dessa vez, a viagem foi ainda mais curta. Logo chegaram e ele foi o primeiro a descer, seguido por Gina. A égua foi embora pelo caminho que veio.
— Se a égua volta sozinha, porque você veio na garupa do Zelão aquela noite? Ele sabia que o capataz não sentia nada por ela, mas ainda não tinha certeza sobre o que ela sentia pelo amigo.
— Porque ele não me deixa voltar sozinha, agora com você aqui ele não precisou vir. Mas isso é uma bestagem, que eu sei muito bem me proteger sozinha. O engenheiro ficou aliviado com a resposta. Era plausível. Aproveitou a deixa.
— Bestagem nada, ele está certo. Se quiser, posso te levar todos os dias.
— Se me levar todos os dias não tem sentido cada um vir num dia, você vem todos ué.
Outro balde de água fria nas intenções dele. Ela só estava sendo prática.
— Que diaba difícil! Ele não conseguiu evitar. Ela dificultava qualquer tipo de aproximação.
— Como é que é? Ela colocou as mãos na cintura e o encarou, brava.
Pra ele, ela o encarou deliciosamente. Provocantemente. A noite clara o permitia olhar a boca cujos contornos ele via agora, eram perfeitos. O queixo erguido em desafio, o corpo tenso, que ele adoraria sentir relaxando em seus braços.
Ele pegou as mãos dela. Porque não tentar?
— Gina, vamos abrir o jogo? Falou de forma calculada, tentando não transparecer o medo da reação dela. Eram adultos, não tinha problema curtirem uma noite casual, não? E ele sentia que ela também correspondia aos estímulos dele.
— Não tem jogo nenhum Ferdinando. Vamos voltar pra casa. Ela não queria se envolver. Principalmente, ela não queria se envolver com ele. Intuía que era justamente sobre isso que ele queria falar.
Ela temia que ele falasse algo que tornasse a convivência dos dois difícil no dia seguinte. Ele também tinha esse medo, tanto de ser rejeitado ou de se envolverem e acabarem dificultando as coisas. Mas diabos! Ele queria muito a moça.
— Tem sim e você sabe. Vamos continuar fingindo que não? A noite enluarada permitia o mínimo de visão — o suficiente para ver o sorriso de canto, aquele calculado e galanteador, que ela tanto odiava. Odiava?
— Você faz o que você quiser, pra mim não tem e vai continuar não tendo. Ela abaixou a cabeça, em uma negativa, fazendo seus cachos revoltos balançarem.
— O que eu quiser? Gina... Lhe lançou um sorriso maldoso. Se ela soubesse dos pensamentos dele, não diria algo assim. — Zero a zero não beneficia ninguém, menininha.
— Oi? O que você tá falando aí? Ela não reconheceu a expressão, e pensou que talvez pudesse tê-lo interpretado mal. Além disso, a palavra menininha era um tratamento novo, íntimo. Como assim, ele se achava no direito de chamá-la dessa forma? Não era nenhuma menina.
Seu ar de confusão foi a deixa que o engenheiro precisava.
— Eu estou falando disso.
Puxou a moça em sua direção e colou seus lábios aos dela. A prendeu com seus braços, levando uma mão até suas costas e a outra ao pescoço.
Gina foi tomada pelo susto e também, pela vontade, e correspondeu um segundo – tempo suficiente para que o engenheiro percebesse e invadisse sua boca com uma língua deliciosamente atrevida.
A voracidade do engenheiro fez com que ela se desequilibrasse e instintivamente agarrasse seus dreads para não cair. Para ele, foi uma demonstração de vontade. Gemeu abertamente, o som envolvendo Gina. A moça não conseguiu negar seu desejo quando ele lhe mordeu o lábio inferior, e o beijou de volta, suas mãos espalmadas em seu peito, prontas para empurrar – mas traidoras do seu ímpeto, acariciavam o rapaz e subiam pelo seu pescoço, sua mandíbula, circundavam seus ombros fortes, apertando.
Ferdinando pensou que iria ser bom, mas não tanto. Era gostoso, pegada, encaixe. Foi a última coisa que pensou, antes de se tornar apenas sentido.
Suas mãos alternavam entre o pescoço da ruiva, suas costas, braços. Pegou os cabelos ruivos firmemente pela nuca e apertou sua cintura, fazendo com que ela deixasse escapar um gemido. O engenheiro tomou o som como aprovação, uma permissão para ousar mais. Desceu a mão pela sua bunda, apalpando sem pudor algum.
Foi o suficiente para ela retomar a consciência, perceber suas intenções e ser tomada pela raiva. O empurrou longe e lhe deu um forte tapa.
— O que diabos você pensa que está fazendo?! Nunca mais chegue perto de mim! Ela saiu em disparada, deixando-o atônito.
— Gina, calma aí! Correu atrás dela e lhe puxou pelo braço. Já era característico. Assim como o novo tapa que ela lhe deu. Ele permaneceu com o rosto virado meio segundo, com a outra mão no local atingido.
— Me solta! Ela puxou o braço, sem conseguir se desvencilhar.
— Calma diacho! O tom dele se sobrepôs ao dela. — Desculpa se te ofendi, não tive a intenção. Achei que você estava correspondendo. Resolveu ignorar o tapa. Talvez merecesse.
— Achou o quê? Mas você não tem que achar nada, pensar nada, muito menos encostar em mim! Me solta!
Achou melhor soltar. A fúria era nítida na expressão dela. Se sentia mal, jamais teria prosseguido se tivesse sequer desconfiado que ela não queria.
— Gina, me desculpa, eu não sei o que deu em mim!
Mas tão logo sentiu seu braço livre, ela virou e se pôs a correr de volta para casa, sem lhe dar ouvidos.
Levou alguns segundos para processar tudo o que tinha ocorrido. Pensou em ir atrás dela novamente.
Ela já tinha sumido. Torcia pra que ela não contasse nada a ninguém. Não queria ter que explicar um possível escândalo na casa, nem comprometer o estágio.
— Burro, burro! O que você estava pensando?!
—--
A moça se enfiou sob as cobertas o mais rápido que pode. Como iria encará-lo no dia seguinte? A lembrança a agitou. Tentou se focar em seu objetivo ali. Era apenas no que devia pensar.
Será que estava exagerando? Talvez não fosse assim tão ruim.
Definitivamente era. O que ele queria era claro, assim como o que queria com a professora, com a moça do balcão. Não sabia como não tinha se jogado em Ana e Bianca ainda. Aliás, será que não?
O melhor era simplesmente cortar qualquer relação próxima. Sabia que estava abalada. Que podia ser dobrada. Passou as mãos nos lábios, recordando o contato. O sabor. O encaixe, perfeito. O beijo dele, definitivamente, tinha esse poder de dobrá-la.
Deixou os pensamentos fluírem. Eram uma forma de despedida.
—--
Ferdinando chegou consternado em seu quarto. Tinha feito uma grande besteira. Como consertar?
Não sabia se tentava falar com ela novamente, se deixava o tempo passar, ou se esquecia o assunto de vez. Talvez fosse o melhor a fazer.
Seu tato ainda guardava a sensação de tê-la em seus braços, sua boca ainda sentia a maciez dos lábios da ruiva, seu cheiro ainda o confundia. Duvidava que fosse capaz de esquecer.
Decidiu aguardar e checar a reação dela no dia seguinte. Talvez não fosse tão ruim. Também duvidava disso.
Aliás, tudo que ela fazia era plantar dúvidas em sua cabeça.
Onde havia parado o encantamento que sentiu com a professorinha? Agora só lhe devotava uma profunda e sincera amizade. Todos os outros seus pensamentos iam para a dona dos revoltos cabelos ruivos.
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