A seleção
19 Retorno
Notas iniciais
Juliana ficou até tarde no quarto pensando no que o capataz lhe escrevera. Uma bela passagem de Caminha, sem dúvida. Como ele conhecera o poema?
A percepção do motivo da escolha fez seu coração se apertar. Essa frase também estava presente na música de uma banda muito famosa, e devia ser daí que ele a conhecia, já que a literatura lhe tinha sido negada por tanto tempo.
Decidiu dar um de seus livros para que ele pudesse praticar a leitura. Correu até o quarto e abriu a caixa em que guardava seus preferidos, aqueles dos quais nunca quisera se separar. No entanto, não sentia nenhuma tristeza ao pensar em dar um deles ao capataz. Em seu íntimo, queria que ele tivesse algo dela.
Existia algo de doce nesse encontro de dois mundos, singelamente unidos por uma frase que nada mais era do que a verdade: o essencial é mesmo invisível aos olhos.
No monte de livros, viu um dos que mais lera na adolescência: A dama da ilha, de Meg Cabot. Corou ao pensar no que o capataz pensaria dela ao ver tal livro. Afastou e continuou procurando.
Sempre gostara de romances, e quase todos os livros em sua coleção eram desse gênero.
Pegou um de Jane Austin. Considerou que a linguagem era muito complexa para quem estava começando a ler. A tarefa parecia mais difícil do que imaginara.
Descartou um livro atrás do outro, até se deparar com "Ou isto ou aquilo", de Cecília Meireles. Não era um livro de difícil compreensão... As poesias eram curtas e bonitas. Decidiu: lhe daria o livro.
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Zelão se preparava para tomar banho e dormir quando ouviu batidas à porta. Ficou surpreso ao abrir a porta, e levemente confuso.
— Professora? Hoje a gente tinha aula?
Juliana não pôde deixar de rir do atrapalhamento do rapaz.
— Não... Eu vim lhe trazer um presente.
— Um presente?
— Sim... Se me deixar entrar posso entregar.
— A senhora desculpa... Eu... Vem, entra, entra.
O capataz se afastou e deu passagem. Ainda não tinha processado o que estava acontecendo, mas se sentia feliz com a visita.
— Então Zelão, eu fiquei pensando em como você iria praticar a leitura... E resolvi te dar um dos meus livros!
Ele pegou o livro entre as mãos e não pode deixar de se emocionar. Passou os dedos pela capa dura, decifrando as palavras formadas pelas letras bem desenhadas: "Ou isto ou aquilo". Abriu a capa e folheou rapidamente a publicação, emocionado. Era a primeira vez que tinha em suas mãos um livro seu. E agora, sabia lê-lo.
A alegria no rosto de Juliana era evidente. Não pôde deixar de se emocionar com a cena. Um novo mundo estava sendo descortinado ao capataz através de seu presente.
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Exceto o casal que os hospedavam, ninguém mais sabia da volta de Ferdinando.
Ele estava cansado tanto pelos acontecimentos no Rio, quanto pela viagem, e queria ter pelo menos uma noite toda de descanso sem ser incomodado por ninguém.
Deitado no escuro e em silêncio, sua cabeça fervilhava: temia as consequências das denúncias contra a empresa da família, não conseguia pensar em uma forma de corrigir a injustiça que cometera com Gina e ainda por cima, temia que a distância esfriasse o recém iniciado namoro.
Tentava pensar em uma forma de conseguir se concentrar no estágio com tudo o que estava acontecendo a sua volta, quando ouviu umas vozes familiares sussurrando próximas a porta do quarto.
— O quarto está fechado, certeza que ele voltou Bia!
— Finalmente! Não aguentava mais ouvir você falando dele o dia inteiro.
— Para de ser chata! Nem falo tanto...
— Você que acha. É o dia inteiro falando dele e quando para, é pra lembrar de falar mal da Gina.
— Essa aí é passado.
— Será? Ele parecia bem interessado.
— E a Gina tem cacife pra atrair um homem desses Bia? Era fogo de palha.
— Meninas, hora de dormir. Vamos, vamos!
Era Marina. As vozes foram ficando distantes, até que cessaram.
Ferdinando sabia — aliás, todos na casa — que a moça tinha um interesse nele. Só não imaginava que era tão forte. Pressentia que essa história ainda lhe traria algum problema.
— E mais essa agora!
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Gina acordou com surpreendente bom humor, apesar da briga com os pais na tarde anterior pelo 'sumiço' de dois dias.
Tomou o café da manhã e saiu apressada de casa. Tinha os documentos de que precisava em mãos e queria conversar com o advogado da família sobre as provas que conseguiu, antes de contar tudo para o pai.
Nunca teve segredos com ele, mas ainda não tinha sequer explicado direito o que estava fazendo em casa – dissera que era uma espécie de 'férias', e não sabia como apresentar as provas sem contar como as obtivera.
Deu um tchau apressado para os pais e saiu porta afora antes que eles tivessem tempo de lhe fazer perguntas.
— Essa menina tá muito estranha desde que voltou... Primeiro, toda amuada, depois some dois dias e volta feliz da vida... O que tá acontecendo pai?
— É, ela nunca que foi disso. Muito estranho.
— Será que tem algum namoradinho nessa história?
— Tá louca mulher? Claro que não.
Encostou na porta e entre uma pitada e outra, pensava: 'Ou será que tem?!’.
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Juliana terminou de almoçar e foi pra varanda. Teria a tarde livre e pretendia ler um pouco, talvez escrever em seu diário. Isto sempre ajudava a colocar as coisas em perspectiva.
Apoiou o diário em seus joelhos e começou a colocar em palavras seus sentimentos e pensamentos mais escondidos.
Seu coração palpitava ao lembrar de Zelão, e o traço de sua escrita ficava incerto. Será que aquilo era uma paixão?
Ouviu passos no alpendre e em seguida uma voz que a fez sorrir.
— Boa tarde professora! Posso me sentar com você?
— Claro que sim Ferdinando! Você tem muito o que me contar... E pela carinha, são boas notícias!
O engenheiro se sentou ao seu lado. Estava radiante, feliz. A professora já tinha falado com a amiga e sabia de tudo, mas não queria estragar a alegria de Ferdinando.
— Me conta... E a Gina, conseguiu se acertar com ela?
— Consegui... Deu um trabalho, mas finalmente deu certo. Sabe professora, vocês podem até não acreditar mas eu gosto muito daquela maluquinha... Gosto do jeitinho dela.
Ambos riram.
— Quem diria não é meu amigo? O amor tem razões que a própria razão desconhece.
— E você, professora?
— Eu?
— É. Quando vai se render?
Juliana ficou sem graça. Recolheu suas coisas e se levantou. Antes de sair, sussurrou para Ferdinando.
— Acho que já me rendi...
Ferdinando sorriu enquanto via a professora se distanciar com a delicadeza que lhe era peculiar. Ao que parecia, tudo estava dando certo para a amiga também.
Esperava que continuasse assim para ambos.
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