A seleção
20 Processo
Notas iniciais
Os dias pareciam se arrastar desde que Nando fora embora. A situação ficava ainda pior pelo pouco contato que conseguiam manter: ambos ocupados com seus afazeres e questões, e ainda limitados pela infraestrutura precária do local do estágio.
Mesmo assim, Gina procurava manter o foco: já tinha entregue os documentos para um advogado de confiança.
E naquela manhã cinza, ele ligou anunciando que o processo estava encaminhado e a família Napoleão havia sido notificada.
Isso preocupou a ruiva. Sabia que por mais que o namorado fosse ético, doeria ver a família no centro de uma polêmica desta magnitude.
Temia que quando estivesse no olho do furacão, a culpasse por ter investigado a história e finalmente percebesse o que para ela sempre foi muito óbvio: eles não tinham nada em comum, por mais que o sentimento recíproco e crescente teimasse em afirmar o contrário.
Suspirou e terminou de se trocar para ir para a roça do pai. Era algo que lhe fazia bem, ajudava a esquecer os problemas. O corpo cansado, a cabeça em paz; era o que precisava.
Estava absorta pensando em seus problemas quando ouviu uma voz familiar.
— Fia? Vem qui que quero proseiá c'ocê.
Gelou. Seu pai nunca fazia cerimônia para falar com ela; se estava chamando para a conversa alguma coisa séria devia ser.
Tirou o chapéu de palha e foi para baixo da árvore em que o pai estava, sentando num toco de madeira ao lado dele.
— Pois fale.
O senhor a olhou profundamente, lendo suas expressões. A ruiva nunca conseguiu esconder nada dele. Era a pessoa que mais a conhecia no mundo, e sabia que agora ela guardava um segredo.
— Quem tem que falar é ocê. Desembucha! Tá escondendo o que fia?
— Nada!
— Como nada, fia? Faz dias que anda assim tristonha, suspirando pelos cantos. Tua mãe tá achando que é namoradinho seu.
— Bestagem da mãe, sô! Tem nada de errado não.
— Nada?
— Nada, uai!
Um sorriso brotou no rosto curtido do homem. Ela podia se achar grande e sabida, e também que o estudo a mudara; ilusão. Ainda era a menininha do pai, e ele a conhecia melhor que ela mesma. E o sotaque tão forte, que ela deixava vir à tona sempre que estava nervosa, fora sua confissão de culpa.
— Pois eu digo que é mentira, uai!
Enfatizou o uai para mostrar que a pegou no pulo, e Gina entendeu. Contudo, iria evitar falar de Nando tanto quanto fosse possível.
— Consegui as provas contra os Napoleão. O senhor Alves entrou com o processo.
— Porque não falou antes?
— Queria ter certeza que ia dar certo primeiro.
Pedro alisou a longa barba, pensando na situação. Ficava feliz com a notícia, é claro. Mas queria saber onde é que a filha tinha aprendido a mentir, e pior: por qual motivo estava mentindo.
Algo o deixava inquieto. Era um comportamento atípico na moça, sempre disposta a comprar qualquer briga.
Tinha certeza que algo mais a preocupava, e que ainda ocultava alguma coisa. Só que sabia também que teimar com a filha só iria resultar em briga, então resolver deixar o assunto para lá por enquanto.
— Que bom fia! Vamo acabá com eles!
A jovem riu do entusiasmo do pai, e suspirou aliviada por ele ter comprado a ideia. Comemoraram mais um pouco, até que ele levantou.
— Fia, o pai vai cuidar de uns afazeres na cidade agora e deixá ocê trabaiá mais um pouco. Qué alguma coisa de lá?
Agradeceu e recusou; queria voltar para lida o quanto antes e espairecer. Assim que o homem virou, se levantou e pegou novamente o cabo da enxada, preparada para voltar ao trabalho.
Porém, ouviu mais uma vez a voz grave do pai.
— E quando eu vortá, quero saber a verdade, viu fia?
Nem teve tempo de virar e responder: o pai já andava a passos largos em direção a casa.
—--
Ferdinando estava nervoso. Tinha saído como um raio pela porta logo após receber a ligação do pai, sequer dando ouvidos para as baboseiras que Ana dizia na tentativa de acalmá-lo.
Precisava colocar a cabeça no lugar, pensar em tudo o que estava acontecendo. Seu pai recebera uma intimação judicial; o caso da manipulação dos resultados de pesquisa e da continuidade de uso de um produto responsável por provocar doenças tinha vindo à tona, e as primeiras manchetes em jornais começavam a aparecer.
Seu destino era a casa de Zelão; queria chegar antes da notícia, explicar que ele estava ao lado das vítimas, mesmo que isso significasse estar contra a própria família.
Não suportaria que o amigo pensasse que fazia parte daquela sujeira toda, que era também responsável pela doença de Mãe Benta.
Chegou na porta da casa e bateu. Quando Zelão abriu, percebeu pelo aspecto taciturno que o gigante já sabia. Mesmo assim, foi recebido e convidado a entrar.
Sentou no velho sofá puído e mais uma vez, o peso da diferença social entre eles o esmagou. Tinha mesmo o que falar para o amigo? Independentemente do que fizesse ou falasse, a mãe do outro morreria devido aos produtos que a empresa de sua família vendia.
Todo o seu dinheiro, tudo o que herdaria, era sujo. Era fruto do suor e sangue de outros.
Ergueu os olhos e os azuis encontraram os negros; percebeu que não tinha absolutamente nada que pudesse falar, a não ser pedir perdão por tudo, mesmo após o amigo dizer que entendia que ele não tivera culpa.
Saiu de lá determinado a não permitir que a empresa da família fosse responsável por mais alguma desgraça como essa.
Mais: estava decidido a jamais permitir novamente que o fruto do trabalho de pessoas como Zelão fosse roubado e transformado em luxo e joias para sua família.
—--
O engenheiro saiu com tanta pressa que deixou o celular desbloqueado sobre o balcão, assim que terminou a acalorada discussão com o pai.
Tão logo o rapaz saiu pela porta, Ana pegou o aparelho. E viu o que não queria: um extenso histórico de conversas com a ruiva que detestava. Estavam juntos.
Antes descobrisse apenas isso.
Mas agora sabia pela mensagem que Gina tinha acabado de mandar, que ela era responsável pelo furacão que atingia a família de Nando. Ignorava se o rapaz sabia disso.
Ficou boquiaberta.
E extremamente feliz. A rival tinha traído a todos ali, violado regras do contrato de estágio e exposto informações confidenciais obtidas provavelmente de forma legal.
Iria usar isso contra ela no momento propício. Só que antes, tinha algo mais urgente a fazer. Responder a mensagem da acobreada.
"Você destruiu minha família. Suma da minha vida!".
A rival era cabeça quente, sabia que provavelmente brigaria antes de compreender direito o que estava acontecendo. Torcia por isso.
Tão logo a mensagem foi enviada, apagou ambas e bloqueou o contato da ruiva. Para garantir, excluiu o número dos contatos.
Até saberem o que aconteceu, se é que um dia saberiam, ela estaria ali para dar todo o apoio que ele precisava. E tinha certeza que o faria esquecer a maldita ruiva.
—--
Juliana estava preocupada com os amigos. Ferdinando ainda não tinha voltado, e achava que devia estar em algum canto escondido da fazenda, lidando com a terra. Sabia que era o que costumava fazer quando precisava esfriar a cabeça.
E pelo que tinha visto nos jornais, o amigo devia estar passando por momentos difíceis.
Conhecia o caráter do engenheiro e duvidava que ele estivesse envolvido de alguma forma com toda aquela sujeira.
Ligou para Gina, querendo saber o que estava acontecendo.
Mas ao tocar no nome de Nando, a chuva de impropérios que ouviu foi tão grande, que desligou o celular assustada.
Algo de muito estranho estava acontecendo. Precisava saber o que era.
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