Notas iniciais
Demoro, mas volto! Pq tem uma amorinha muito especial que acompanha a fic e por isso, jamais vou abandonar ^^

Os dias pareciam se arrastar desde que Nando fora embora. A situação ficava ainda pior pelo pouco contato que conseguiam manter: ambos ocupados com seus afazeres e questões, e ainda limitados pela infraestrutura precária do local do estágio.

Mesmo assim, Gina procurava manter o foco: já tinha entregue os documentos para um advogado de confiança.

E naquela manhã cinza, ele ligou anunciando que o processo estava encaminhado e a família Napoleão havia sido notificada.

Isso preocupou a ruiva. Sabia que por mais que o namorado fosse ético, doeria ver a família no centro de uma polêmica desta magnitude.

Temia que quando estivesse no olho do furacão, a culpasse por ter investigado a história e finalmente percebesse o que para ela sempre foi muito óbvio: eles não tinham nada em comum, por mais que o sentimento recíproco e crescente teimasse em afirmar o contrário.

Suspirou e terminou de se trocar para ir para a roça do pai. Era algo que lhe fazia bem, ajudava a esquecer os problemas. O corpo cansado, a cabeça em paz; era o que precisava.

Estava absorta pensando em seus problemas quando ouviu uma voz familiar.

— Fia? Vem qui que quero proseiá c'ocê.

Gelou. Seu pai nunca fazia cerimônia para falar com ela; se estava chamando para a conversa alguma coisa séria devia ser.

Tirou o chapéu de palha e foi para baixo da árvore em que o pai estava, sentando num toco de madeira ao lado dele.

— Pois fale.

O senhor a olhou profundamente, lendo suas expressões. A ruiva nunca conseguiu esconder nada dele. Era a pessoa que mais a conhecia no mundo, e sabia que agora ela guardava um segredo.

— Quem tem que falar é ocê. Desembucha! Tá escondendo o que fia?

— Nada!

— Como nada, fia? Faz dias que anda assim tristonha, suspirando pelos cantos. Tua mãe tá achando que é namoradinho seu.

— Bestagem da mãe, sô! Tem nada de errado não.

— Nada?

— Nada, uai!

Um sorriso brotou no rosto curtido do homem. Ela podia se achar grande e sabida, e também que o estudo a mudara; ilusão. Ainda era a menininha do pai, e ele a conhecia melhor que ela mesma. E o sotaque tão forte, que ela deixava vir à tona sempre que estava nervosa, fora sua confissão de culpa.

— Pois eu digo que é mentira, uai!

Enfatizou o uai para mostrar que a pegou no pulo, e Gina entendeu. Contudo, iria evitar falar de Nando tanto quanto fosse possível.

— Consegui as provas contra os Napoleão. O senhor Alves entrou com o processo.

— Porque não falou antes?

— Queria ter certeza que ia dar certo primeiro.

Pedro alisou a longa barba, pensando na situação. Ficava feliz com a notícia, é claro. Mas queria saber onde é que a filha tinha aprendido a mentir, e pior: por qual motivo estava mentindo.

Algo o deixava inquieto. Era um comportamento atípico na moça, sempre disposta a comprar qualquer briga.

Tinha certeza que algo mais a preocupava, e que ainda ocultava alguma coisa. Só que sabia também que teimar com a filha só iria resultar em briga, então resolver deixar o assunto para lá por enquanto.

— Que bom fia! Vamo acabá com eles!

A jovem riu do entusiasmo do pai, e suspirou aliviada por ele ter comprado a ideia. Comemoraram mais um pouco, até que ele levantou.

— Fia, o pai vai cuidar de uns afazeres na cidade agora e deixá ocê trabaiá mais um pouco. Qué alguma coisa de lá?

Agradeceu e recusou; queria voltar para lida o quanto antes e espairecer. Assim que o homem virou, se levantou e pegou novamente o cabo da enxada, preparada para voltar ao trabalho.

Porém, ouviu mais uma vez a voz grave do pai.

— E quando eu vortá, quero saber a verdade, viu fia?

Nem teve tempo de virar e responder: o pai já andava a passos largos em direção a casa.

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Ferdinando estava nervoso. Tinha saído como um raio pela porta logo após receber a ligação do pai, sequer dando ouvidos para as baboseiras que Ana dizia na tentativa de acalmá-lo.

Precisava colocar a cabeça no lugar, pensar em tudo o que estava acontecendo. Seu pai recebera uma intimação judicial; o caso da manipulação dos resultados de pesquisa e da continuidade de uso de um produto responsável por provocar doenças tinha vindo à tona, e as primeiras manchetes em jornais começavam a aparecer.

Seu destino era a casa de Zelão; queria chegar antes da notícia, explicar que ele estava ao lado das vítimas, mesmo que isso significasse estar contra a própria família.

Não suportaria que o amigo pensasse que fazia parte daquela sujeira toda, que era também responsável pela doença de Mãe Benta.

Chegou na porta da casa e bateu. Quando Zelão abriu, percebeu pelo aspecto taciturno que o gigante já sabia. Mesmo assim, foi recebido e convidado a entrar.

Sentou no velho sofá puído e mais uma vez, o peso da diferença social entre eles o esmagou. Tinha mesmo o que falar para o amigo? Independentemente do que fizesse ou falasse, a mãe do outro morreria devido aos produtos que a empresa de sua família vendia.

Todo o seu dinheiro, tudo o que herdaria, era sujo. Era fruto do suor e sangue de outros.

Ergueu os olhos e os azuis encontraram os negros; percebeu que não tinha absolutamente nada que pudesse falar, a não ser pedir perdão por tudo, mesmo após o amigo dizer que entendia que ele não tivera culpa.

Saiu de lá determinado a não permitir que a empresa da família fosse responsável por mais alguma desgraça como essa.

Mais: estava decidido a jamais permitir novamente que o fruto do trabalho de pessoas como Zelão fosse roubado e transformado em luxo e joias para sua família.

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O engenheiro saiu com tanta pressa que deixou o celular desbloqueado sobre o balcão, assim que terminou a acalorada discussão com o pai.

Tão logo o rapaz saiu pela porta, Ana pegou o aparelho. E viu o que não queria: um extenso histórico de conversas com a ruiva que detestava. Estavam juntos.

Antes descobrisse apenas isso.

Mas agora sabia pela mensagem que Gina tinha acabado de mandar, que ela era responsável pelo furacão que atingia a família de Nando. Ignorava se o rapaz sabia disso.

Ficou boquiaberta.

E extremamente feliz. A rival tinha traído a todos ali, violado regras do contrato de estágio e exposto informações confidenciais obtidas provavelmente de forma legal.

Iria usar isso contra ela no momento propício. Só que antes, tinha algo mais urgente a fazer. Responder a mensagem da acobreada.

"Você destruiu minha família. Suma da minha vida!".

A rival era cabeça quente, sabia que provavelmente brigaria antes de compreender direito o que estava acontecendo. Torcia por isso.

Tão logo a mensagem foi enviada, apagou ambas e bloqueou o contato da ruiva. Para garantir, excluiu o número dos contatos.

Até saberem o que aconteceu, se é que um dia saberiam, ela estaria ali para dar todo o apoio que ele precisava. E tinha certeza que o faria esquecer a maldita ruiva.

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Juliana estava preocupada com os amigos. Ferdinando ainda não tinha voltado, e achava que devia estar em algum canto escondido da fazenda, lidando com a terra. Sabia que era o que costumava fazer quando precisava esfriar a cabeça.

E pelo que tinha visto nos jornais, o amigo devia estar passando por momentos difíceis.

Conhecia o caráter do engenheiro e duvidava que ele estivesse envolvido de alguma forma com toda aquela sujeira.

Ligou para Gina, querendo saber o que estava acontecendo.

Mas ao tocar no nome de Nando, a chuva de impropérios que ouviu foi tão grande, que desligou o celular assustada.

Algo de muito estranho estava acontecendo. Precisava saber o que era.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.