A seleção
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— Pituca?
— Oi mano, como estão as coisas aí?
— Estão muito bem. Pituca, estou te ligando porque preciso de um imenso favor.
— Só não vai me colocar em encrenca...
— Prometo. Mas você precisa manter segredo, não deixar ninguém saber até eu contar, tudo bem? Muito menos nosso pai.
Explicou para a irmã o que queria, mas sem falar nada da história. Pituca cuidava da administração dos contratos e documentos da companhia. Sendo assim, seria fácil ter acesso ao que ele precisava.
Era o que ele esperava.
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Juliana se preparava para o primeiro dia de aula particular para Zelão. Como também dava aula para a turma de adultos, combinaram que ela daria a aula aos domingos apenas.
Era nítido e declarado que o rapaz gostava dela, e ela mesma percebia um sentimento crescendo com relação a ele. Mesmo assim, não sabia muito bem o que esperar.
Ele havia combinado vir buscá-la de cavalo, e essa também seria uma experiência nova, por mais que morasse ali há alguns meses já.
Finalmente, o rapaz chegou, e ofereceu a mão para ajudá-la a subir. Teve um pouco de dificuldade, mas conseguiu.
Quase não falaram durante o percurso, e o rapaz conduzia o cavalo com suavidade. Assim que chegaram, Zelão apeou, a pegou pela cintura e a colocou no chão.
— A senhora desculpa eu ter vindo de cavalo, mas por cá é assim que a gente anda...
— Ora Zelão, primeiro, que não precisa me chamar de senhora, me chame de Juliana. Depois, que se todo mundo anda de cavalo aqui, eu também posso.
Se sentiu ligeiramente ofendida com uma sugestão de fragilidade de sua parte.
— Não é isso dona Juliana...
— É o que, então?
— É que a senhora é delicada como uma flor do campo...
A moça ficou boquiaberta. O rapaz, aparentemente tão bruto, era sempre coberto de gentilezas e delicadezas com ela. Mas isso? Nunca havia ouvido algo tão singelo.
— Assim eu fico sem graça.
— Desculpa eu de novo dona Juliana, mas quando eu olho pra senhora, eu só penso essas coisas bonitas.
O rapaz abaixou a cabeça, encabulado. A professora não estava menos tímida. As falas dele em nada se pareciam com qualquer coisa que já tinha ouvido, e isso a envolvia. Resolveu cortar o silêncio constrangedor.
— Vamos estudar Zelão? Preciso ver o quanto você já sabe, para planejar as próximas aulas.
O rapaz assentiu, agradecido por ter a atenção desviada.
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Passaram alguns dias até que Pituca retornasse a ligação de Ferdinando. O rapaz estava ansioso para saber o que ela tinha conseguido.
— Mano, consegui vários documentos aqui. Achei estranho que tem algumas ordens de pagamentos arquivadas que não tem contratos atrelados, o pessoal deve ter feito alguma confusão, depois vou verificar com a contabilidade.
Ferdinando intuía qual a "confusão", mas nada disse a respeito.
— E o que mais você conseguiu? Os resultados dos exames do período que eu solicitei?
— Consegui sim. Peguei todos, os positivos e os negativos.
— Ótimo Pituca! Nem sei como lhe agradecer. Pego o primeiro avião pra apanhar esses documentos.
— Não se preocupe em agradecer, deixo anotadinho pra quando precisar de você!
— Pode deixar, está anotado aqui também! Tchau Pituca, até mais.
O rapaz desligou o telefone e já correu para comprar a passagem área. Quanto mais rápido pudesse agir, melhor.
Não sabia se a moça reagiria bem a uma tentativa de aproximação, e não tinha seu endereço nem nada que pudesse guiá-lo. Desconfiava que ninguém lhe daria o endereço.
Resolveu arriscar. Bateu na porta de Marcos, e explicou a história da investigação e da briga, desde o início, mas omitiu qualquer informação a respeito da relação dos dois. Teve sorte, o colega topou ajudar.
O plano era simples: marcar um jantar com Gina, mas quem iria seria o engenheiro. Ela podia até ficar brava, mas a motivação era nobre.
— Gina? Oi, é o Marcos! Tudo bem?
— Oii, tudo bem e por aí?
— Tudo ótimo. Gina, vou precisar ir para o Rio de Janeiro essa semana, pensei que a gente podia se trombar qualquer dia, o que acha?
— Claro que sim! Que legal, estava com saudade mesmo. E vai vir fazer o que aqui? Se quiser, pode ficar aqui em casa.
— O mesmo que você: visitar um familiar doente. Mas volto logo. E o seu pai, como está?
— Já está bem melhor!
— Então você já pode voltar, não é? O rapaz fez de propósito, só pra checar o estado de espírito da ruiva. Ouviu a voz dela ficar imediatamente triste.
— Não posso ainda... Abandonei o programa Marcos. Mas tenho muita saudade de todos aí.
Marcos não pode deixar de lançar um olhar de reprovação para Ferdinando, que recebeu a crítica em silêncio.
— Mas vamos falar de coisa boa. E os rapazes Gina, encontrou alguém aí no Rio?
Os dois continuaram a conversa por um tempo ainda, e o grau de intimidade e confiança que demonstravam um com o outro deixava uma pulga atrás da orelha de Ferdinando. O fato de não conseguir ouvir as respostas dela o deixava desesperado, e o colega prosseguia com a tortura.
— Imagino que sim querida. Assim que eu chegar vamos resolver isso.
Ferdinando se mostrava impaciente, tendo que ficar quieto enquanto insinuações perturbadoras eram desfiadas. Finalmente, desligaram o telefone, e a primeira reação de Marcos ao ver a expressão de desagrado do colega foi começar a rir.
— Não vejo o motivo da graça.
— Seu ciúme ué! Não consegue disfarçar mesmo, impressionante. Acha que engana quem? Mas vem cá, seu ciúme é do que eu falei, ou é de mim?
— Qual é a tua? O engenheiro não aguentou a provocação, arrancando ainda mais gargalhadas do outro.
— Ferdinando, já saquei faz tempo o lance de vocês dois. Você é que não sacou o meu ainda.
— Como assim?
— Eu sou gay querido! Não tenho nada com ela não. E nem quero ter com você, que passa longe do meu tipo.
O engenheiro olhou incrédulo. Tanta preocupação por nada? Caiu na risada também.
— Se eu soubesse disso já tinha te transformado no meu cúmplice antes!
Conversaram mais um pouco. Marcos passou as informações do local do encontro para Ferdinando. Seria dali a 3 dias. Seu estômago revirava de ansiedade, temia sequer conseguir dormir.
Apenas 3 dias o separava de tão esperado reencontro.
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