Ferdinando analisava no quarto do hotel os documentos que tinha pegado com a irmã. Ela não fazia a ideia da importância deles.

Entre os papéis, ele encontrou comprovantes de pagamento não vinculados a nenhum contrato formal, justamente para os laboratórios que haviam testado positivamente os produtos com glifosato.

Havia também pagamentos a pessoas físicas, não atreladas a notas fiscais ou atreladas a notas fiscais que pareciam "frias".

Pesquisando sobre essas pessoas, descobriu que quase todas trabalhavam ou estavam relacionadas de alguma forma com tais laboratórios.

Juntamente com as provas que a ruiva detinha e os relatos das testemunhas, teriam um caso consistente.

Tirou outra cópia de todos, colocou-os em uma pasta e se preparou para a noite. Não tinha o nome do local, apenas o endereço, mas o amigo garantiu que não teria dificuldade em encontrar.

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Gina ficou feliz em marcar o encontro com o amigo. Estava entediada, e não era o tipo de pessoa que tinha várias amizades. Seria uma ótima oportunidade de espairecer.

A saudade da fazenda e dos afazeres a consumia, e principalmente, a saudade daquele um. Várias vezes pensou em ligar para ele e tentar conversar, ou pelo menos perguntar como ele estava para os amigos, mas se obrigava a não fazer isso.

Será que era medo de ouvir que ele estava bem, talvez já em outra? Provavelmente. Já até imaginava com quem.

E quanto mais o tempo passava e a saudade se acentuava, mais um pensamento sombrio lhe rondava: que aquela noite, que para ela fora tão especial, para ele havia sido só mais uma, entre tantas. Que talvez, outra ocupasse a cama dele na noite mesmo em que ela se fora.

O engenheiro era um galanteador, sempre fora. Pensava que aquela noite havia sido especial, uma reconciliação. Mas se sentia agora uma estúpida por acreditar nisso. Ele podia estar com raiva, mas ela havia se metido no quarto dele, e ele não recusaria. Não ele, habituado a saídas casuais e inconsequentes.

Não ele, que já teria virado a página no dia em que foram juntos dar aula a Zelão.

Se sentia nervosa por ter baixado a guarda e se apaixonado justo por ele, se sentia com mais raiva por ainda estar apaixonada.

Limpou as lágrimas teimosas e indesejadas do rosto e foi ver o amigo.

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Quando Ferdinando chegou, não pôde acreditar que era o endereço correto. Como Marcos tinha tido a desfaçatez de marcar um encontro de tal importância num carrinho de lanche? Só podia estar de brincadeira!

Ele, enfiado em calças sociais e camisa, já começaria o encontro posando de ridículo. O que o fez desistir de ir embora foi ver a moça já sentada, de costas, seu cabelo ineditamente preso, deixando a mostra uma das tatuagens que ele gravara na memória, na última vez a que a viu.

Ao contrário dele, que destoava do local com sua roupa inadequada, ela estava leve, como ele nunca vira. Uma calça jeans, uma blusinha. Casual.

Parecia absorta, e nem percebeu sua aproximação. Parou e tomou coragem. Colocou a mão em seu ombro.

— Finalmente você chegou! Quando ela se virou para encontrar o amigo, tomou um choque. Não esperava vê-lo. — O que você está fazendo aqui? A máscara de gelo cobriu seu rosto.

— Eu preciso muito falar com você, assunto muito sério. Pedi pro Marcos marcar esse encontro porque achava que você não queria me ver. Por favor, me escuta. Disse tudo a um só fôlego, temendo as reações sempre imprevisíveis dela.

Gina o olhou de cima a baixo, ponderando se devia escutá-lo. Ele tinha uma pasta nas mãos, do que se tratava? Decidiu aceitar por pura curiosidade e sentou-se no banquinho novamente.

— É a primeira vez que como um lanche com alguém vestido assim. Não conseguiu não rir.

— Eu nunca imaginei que ele fosse marcar aqui. O rapaz sorriu de volta. Percebeu o quanto precisava daquele riso em sua vida.

— Não é bom o suficiente pra você? A rispidez de sempre.

— Só não esperava. Posso falar? Precisava iniciar logo o assunto, antes que começassem a brigar.

— Pois fale. A moça cruzou os braços e se inclinou para trás na cadeira.

Ele colocou o envelope na mesa e o empurrou em direção a ela.

— Eu vim aqui pra te trazer isso.

A moça olhou o envelope e o puxou para si. Tirou os documentos e percorreu rapidamente cada um deles. Percebia que tinham alguma importância, mas não sabia exatamente qual. Era uma linguagem pouco conhecida para ela.

— Por que você está me dando isso?

— Porque é o certo.

Gina o olhou fixamente, tentando entender aquilo. Ainda não tinha caído a ficha completamente. Ele tinha viajado, fraudado um encontro, pra lhe entregar documentos da empresa do pai?

— Eu não sei se entendi muito bem o que tem aqui.

—Esses documentos comprovam pagamentos irregulares para os laboratórios que testaram positivamente os produtos com glifosato, Gina. Tem também documentos que sugerem pagamento de propina para entidades reguladoras.

— Mas Nando, você entende que isso vai prejudicar seu pai, a empresa, a sua família inteira? A ruiva não conseguia acreditar ainda.

— Eu sei disso Gina. Mas o certo a fazer, não é? O rapaz abaixou a cabeça, triste. Ainda não conseguiria nem imaginar a reação do seu pai.

— É o certo sim. Nem sei como lhe agradecer. Muita gente vai se beneficiar com isso.

Era um misto de satisfação e raiva ter provas do caráter do engenheiro.

— Não precisa agradecer. Eu fiz porque é o certo, é minha obrigação concertar. Além disso, eu fui injusto, fiz você desistir do estágio. Nunca vou poder me desculpar com você por isso.

— Deixa isso quieto. O que está feito, está feito. Não era de se lamentar pelo leite derramado.

O rapaz não entendia porque ainda se surpreendia com cada pequena mostra de força que via nela. Era tão óbvio, como tudo nela era maravilhoso.

— E também Gina... Porque eu queria te ver.

As últimas palavras custaram a sair, mas ela não abria nenhuma brecha, não baixava a guarda. Precisava tentar entrar no assunto. Pegou uma das mãos dela entre as suas. A moça tirou.

— Está meio tarde, preciso ir. A menção ao estágio ainda a feria, e ele a estava confundindo. Não queria ficar suscetível.

— Você não precisa ir não! Tinha marcado aqui com ele pra comer, a gente nem pediu nada ainda. Chamou o rapaz que ajudava no carrinho. — Você pode começar me agradecendo não me fazendo essa desfeita.

— Chantagista.

O rapaz riu da acusação, que não deixava de ser verdade. Pediram os respectivos lanches e engataram uma conversa leve. Ela perguntou sobre a fazenda, e ele se sentiu feliz em responder. A terra: era sempre onde se encontravam.

Terminaram de comer o lanche, e o assunto havia acabado. Ferdinando atacou.

— Gina... Eu quero muito falar sobre o que aconteceu aquele dia.

— Ferdinando, acho melhor a gente não falar disso.

— E eu acho melhor falarmos! Não se passa a noite junto e depois finge que nada aconteceu oras.

A moça ruborizou.

— Por favor, eu não quero falar disso Nando. A voz dela era suave, sentida. Aquilo a machucava.

E o machucou também.

— Você se arrependeu do que fizemos? Uma alternativa pior passou por sua cabeça. — Você se arrependeu do que disse?

— Porque insistir nisso Nando? Passou.

— Gina. Olha pra mim. Olha.

Ela atendeu ao pedido e encontrou os olhos dele marejados, sinceros.

— Pra mim não passou.

— Para de bobagem, daqui a pouco você vai embora. Que importância tem?

— Qual a importância, é o que eu estou tentando descobrir. Mas eu estou aqui agora, não estou? E eu estou aqui por você. Esses documentos, eu podia ter pedido pra te entregarem. Na verdade, eu vim apenas pra lhe ver.

— Nossa. E o que você quer que eu lhe diga? Tinha sido completamente inesperada a resposta dele, não sabia lidar.

—Gina, eu não acho que seja assunto pra gente discutir aqui. Porque não vamos para o hotel conversar melhor?

— Ahh agora eu te entendi. . A ruiva levantou, pegou o envelope.

Antes que pudesse se afastar da mesa, Ferdinando pegou seu pulso, confuso. Qual era o problema dela afinal?

— Caramba Gina, você não consegue manter uma conversa até o fim! Qual é o seu problema?

— O meu problema é você ter vindo até aqui só pra isso.

— Só pra isso o que?

— Só pra me levar pra cama!

Ferdinando ficou estupefato. Não lhe passara pela cabeça isso, e não vira maldade no que dissera.

— Você tem realmente uma ideia bem ruim a meu respeito. Soltou o pulso dela. — Se a nossa relação aquela noite se resumiu a isso pra você, acho melhor ir embora mesmo.

Todos ao redor já observavam a discussão. Ainda por cima, ele a tinha exposto. Saiu correndo em direção ao carro, precisava ir embora o mais rápido possível.

Ferdinando sentou novamente, tentando colocar os pensamentos no lugar. Que tipo de pessoa ela achava que ele era? Pagou a conta e voltou para o hotel. Já sabia que poderia dar errado, só não achou que ia doer tanto.