A seleção

8 Morder é bom?


Depois da festa, todos se recolheram, inclusive ele. Passado algum tempo, voltou silenciosamente para a cozinha, levando o pedaço de bolo que havia guardado, e esperou a moça vir. Se sentia idiota fazendo isso, mas que opção ela lhe dava?

A moça demorava, estava quase desistindo. Não era possível, ela adorava doce. Uma hora ela viria. Passou-se quase uma hora antes que ouvisse os passos na escada e começou a ficar ansioso. Como abordá-la?

Quando ela acendeu a luz e abriu a geladeira para comer, saiu de onde estava e falou tão calmo quanto possível.

— Eu já guardei um pedaço para você.

A voz lhe arrepiou inteira. Não estava preparada ainda para ouvi-la, muito menos para confirmar que sentiu tanta saudade.

— Não precisava. Sequer se virou para olhá-lo.

— Gina, a gente precisa conversar...

— Não tenho nada a falar com você.

— Mas eu tenho muito a lhe falar, fique sabendo.

Era fácil se perder no azul dos olhos dele. Fácil demais. Já estava perdida.

— Diga logo.

— Eu queria lhe pedir desculpas pelo beijo. Foi uma besteira de minha parte.

Besteira? Só podia ser mesmo. Já estava flertando com outra. Realmente, ele não valia muita coisa e ela tinha feito muito bem em não dar corda.

— Já nem me lembrava disso. Até já te desculpei.

Nem lembrava? Ela realmente tinha o dom de irritá-lo. Como não lembrava? Pensava naquele beijo todos os dias, e a maluca já tinha esquecido? Será que ele teria que lembrá-la? O pensamento aplacou sua raiva e abriu um leque de possibilidades em sua mente.

— Tudo bem... Então se você já esqueceu, já me desculpou, podemos voltar as boas?

— Nunca nem estive de mal de você.

— Mas bem que andou me evitando... Deu a volta nela, vendo-a ficar ligeiramente afetada. Gostou disso. Mas ela se recuperou rápido.

— Só estou estudando ué. Você também deveria estudar mais, ao invés de ficar dando em cima de todas as suas colegas. Se bem que pra mim, é até um favor que me faz. Diminui a concorrência.

— Todas? Que eu saiba eu só dou em cima de você minha cara. O sorriso sacana que tanto a irritava.

— A Ana que o diga. Ela encarou seu olhar e ele viu ali ciúmes. Seria possível?

— Está com ciúmes Gina?

— Bem que você queria, não é?

Ele adorava esse jeito provocante dela. Adorava o desafio, a briga. Mas ela portava um livro, era possível que ela realmente não pensasse nele, apenas estivesse de fato estudando?

Num gesto rápido, o apanhou e viu que era o mesmo que ela lia quando se enfrentaram a primeira vez.

— Ferdinando, me devolve isso agora!

O nervosismo na voz dela só o fez confirmar o que sentira no primeiro encontro: ela escondia o livro.

Não queria invadir sua privacidade, mas podia usar isso a seu favor, não podia?

— Bem Gina, eu posso devolver esse livro pra você, em sinal de boa vontade em voltarmos a conviver pacificamente. Estendeu o livro para ela, puxando-o assim que ela levou as mãos ávidas para apanhá-lo. — Mas você também tem que me dar um sinal de boa vontade.

— O que você quer?

A moça bufafa de ódio. Ele era muito cara de pau.

— Ahh Gina... Só um beijo. Um só, e eu devolvo, e tenho certeza que estamos bem.

— Mas é muito cara de pau! Vai pedir um beijo pra Ana, aposto que ela lhe dá de bom grado! Precisava se manter furiosa, para não ceder a tentação da voz dele, de seu olhar.

— Eu bem que podia Gina, acho até que ela daria mesmo. Mas acontece que eu não quero.

— E não quer porquê?

Ele não sabia se ela era apenas ruim de flerte, ou era tão boa que usava esse artifício para tê-lo nas mãos, fazer confessar, deixar ainda mais claro.

— Porque eu só quero beijar você oras!

O silêncio que se seguiu era denso. Se encaravam de forma selvagem, feroz. Porque ele tinha que insistir tanto? Podia se divertir com outra pessoa. Porque ela tinha que resistir tanto?

Não queria perder a vantagem que obtivera. Calmamente, abriu uma página do que parecia ser um livro, mas na verdade era um caderno, e começou a ler em voz alta.

— "As culturas aqui são divididas entre as orgânicas, isto é, sem aditivos, e as tratadas com produtos agrícolas tais quais fertilizantes, sementes transgênicas".

A moça se encostou na mesa, precisava de uma estratégia. Viu que ele parou a leitura para esperar que ela pensasse na proposta, e imediatamente se lançou sobre ele tentando recuperar o objeto.

Ele era mais alto e mais forte, e apenas ergueu o braço enquanto com o outro, a segurou. Agradecia mentalmente o ataque dela, a proximidade que compartilhavam agora. Ria, e isso irritava ainda mais a moça.

— “O objetivo aqui não é apenas servir de espaço para estágio, mas também o de servir de laboratório para o teste de alguns produtos". Continuo a leitura Gina? Ou você vai pensar na minha proposta? Com esse barulho todo que você está fazendo, daqui a pouco alguém acorda e nos vê aqui, não vai pegar bem...

A ruiva parou de se debater, esperando que ele a soltasse, mas não foi o que ele fez. Na verdade, estavam até que achando muito bom o arranjo. Ela tinha que pensar rápido. Ele já estava chegando naquela parte... Se virasse a página, descobriria o que ela viera fazer ali.

— Tá bom Nando. Eu te dou um beijo, você me dá o caderno.

Tinha sido relativamente fácil, e o moço ficou até desconfiado. Mas caramba, queria muito provar seu beijo de novo.

Ele a soltou, escondendo o livro atrás de si com as duas mãos. Discretamente, arrancou a página que lia e a guardou no bolso traseiro.

— Estou esperando.

Ela levou a mão até a dele que segurava o caderno, fechou os olhos e lhe ofereceu os lábios. Ele não hesitou. Os lábios dela eram ainda mais macios do que lembrava. O beijo, melhor.

Se envolveu. Abriu a mão, soltando o caderno na mão da ruiva. Queria acariciar sua pele, aproveitar o momento. Os dois aproveitavam. Mas assim que recuperou o caderno, Gina prendeu o lábio inferior dele, fazendo-o gemer. E mordeu. Não foi uma mordida provocante.

— Doeu sua louca! O rapaz deu um grito abafado e levou a mão à boca. — Está sangrando!

— Isso é pra você aprender a não ser um abusado, um chantagista!

A moça correu para as escadas antes que ele tivesse tempo de reação e sumiu pelo corredor escuro, deixando o engenheiro abalado mas extremamente deliciado com a atitude dela.

A dor em seus lábios pulsava ainda e ele teria vários problemas para explicar o ferimento no dia seguinte, mas o que importava? Estava preso, definitivamente, em seus mistérios e caprichos. Como poderia prendê-la também? A página em seu bolso podia ser uma resposta.

—--

No dia seguinte Gina estava com um humor incrível. Pela primeira vez em dias, desceu para tomar café com os outros. Provavelmente Ferdinando não desceria machucado, para não ter que explicar o ferimento. Ele não podia contar como as coisas tinham acontecido, afinal.

Já estava sentada, passando manteiga no pão, quando Marcos desceu. Começaram a travar uma agradável conversa, enquanto um a um, os outros estagiários desciam.

O último a descer foi Ferdinando. Relutou um pouco, mas o que tinham a ver com sua vida? Ademais, poderiam desconfiar e isso lhe dava uma vantagem.

Quando entrou na cozinha, a primeira pessoa que viu foi a ruiva, que ficou estupefata. Como era descarado!

— Mas que foi isso na sua boca menino? Não tardou para que Marisa comentasse o que todos já tinham reparado.

— Isso é o que acontece quando se brinca com uma fera Dona Marisa. A dona de casa fez cara de reprovação e foi cuidar de seus afazeres.

— Beijou uma onça? Marcos soltou a deixa e olhou para os amigos esperando que caíssem. Gina se concentrava em passar manteiga no pão, fingindo desinteresse no assunto.

— Nada. Só sonhei que estava beijando uma certa moça que vem me tirando o sono e, bem, a empolgação foi tanta, que mordi minha boca.

— Mas que explicação idiota! Gina não se conteve.

— Tenho que concordar com ela amigo. Caio sabia muito bem quem era a tal fera, pelo que tinha ouvido do amigo, e resolveu colocar lenha na fogueira.

— Prefere a explicação verdadeira, Gina?

— Isso pouco me interessa. Prefiro terminar de comer em paz!

O rapaz abriu um largo sorriso ao ver o embaraço da moça. Achava que ele se escondia, como ela? Não. Estava no jogo e iria até o fim.

— Eu prefiro. Ana olhava enciumada ao perceber o tom do assunto. Tinha suspeitas que o rapaz estava interessado em alguém, mas agora tinha certeza.

— Isso Ana, é coisa de quem brincou com fogo, e se queimou.

Gina levantou e foi em direção a porta. Não podia aguentar mais aquela conversa. Mas antes que saísse, ouviu seu nome.

— Gina?

Voltou o rosto, petrificada. Depois disso, se alguém tinha dúvidas de quem era a onça, ele tratou de eliminar. Já tinha se dado por vencido. Gostava dela, não tinha problemas em admitir mais.

— Saiba que eu adorei me queimar.

Quando ela saiu, ainda ouvia os comentários de surpresa e as brincadeiras na mesa.