Tudo o que Juliana queria era que o capataz colocasse as cartas na mesa, como Ferdinando fazia com a amiga. Se sentia intimidada de tentar algo, mas era nítido que o rapaz gostava dela. E ela... Bem, não sabia exatamente o que sentia, se era apenas uma grande atração, ou algo mais.

Não queria brincar com ele, mas se não tentassem nada, como poderiam saber o que sentiam e definir a situação?

Era uma mulher decidida. Ia resolver a situação ainda essa semana. Ao sair da escola, se dirigiu como ao local em que ele sempre a esperava.

— Boa tarde Zelão. Como vai?

— Melhor agora, professora, vendo sua beleza...

Ela não entendia como alguém que dizia essas coisas não tomava uma iniciativa. Ignorou e seguiu com seu objetivo.

— Zelão... Percebo que você não frequenta as aulas dos adultos aqui a noite. Não gostaria de frequentar?

Se a pergunta fosse feita semanas atrás, sentiria vergonha. Mas tinha avançado muito no aprendizado com a ajuda dos novos amigos.

— Eu já sei ler e escrever professora. E além disso, chego muito tarde em casa.

Era exatamente o que a professora queria ouvir.

— Nesse caso, eu posso te dar aulas particulares, Zelão. Assim você pode aprender ainda mais, sem precisar atrapalhar sua rotina.

O capataz piscou os olhos, perplexo.

— Mas professora, isso ia ser muito cansativo pra senhora...

— Claro que não, ensinar é um prazer pra mim. É a minha vocação. Se você quiser, é só me passar seu endereço e o horário que posso dar minha aula, e o assunto está resolvido. Agora, tenho que ir. Aguardo sua resposta amanhã.

A professora foi embora, deixando o rapaz com o coração acelerado a acompanhando com o olhar.

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Era o dia de folga de Ferdinando, e depois de tomar eu café enrolar um pouco na conversa com seu Antônio, lembrou que tinha o papel arrancado do caderno de Gina para ler. Correu para o quarto.

Conforme avançava a leitura, não entendia o que de tão grave poderia ter no caderno que justificasse o temor da moça em deixar que alguém lesse.

No entanto, quando virou a folha, no último parágrafo, se surpreendeu ao ler "são provas irrefutáveis da manipulação das indústrias Napoleão no processo que atesta a segurança dos componentes ".

Apenas isso. O restante continuava na próxima página. Precisava recuperar o livro e entender o porquê o nome de sua família estar anotado junto a uma frase tão comprometedora.

O que será que a moça escondia? Ela estava na roça, seria um bom momento de entrar no quarto e pegar o caderno. Sabia que a ruiva sempre trancava a porta ao sair, mas hoje o turno dela era de manhã, Juliana saíra depois dela, e esta última não tinha esse hábito.

Se esgueirou pelo corredor e entrou sorrateiramente no quarto das moças. Trancou a porta por dentro, para evitar ser surpreendido.

Revirou com cuidado guarda-roupa, cômoda, cada gaveta, embaixo do colchão, e nada. Será que ela levava o danado com ela? Não era possível. Ele era relativamente grande.

Começou a pensar onde ela poderia escondê-lo. E aí se deu conta: ela não escondia. Juliana não tinha interesse algum em agronomia, pra que olharia os materiais de Gina? Além disso, pra que a moça levantaria suspeitas?

Voltou os olhos para a escrivaninha e o caderno estava junto com o restante da pilha de livros de estudos dela. Tão singelo. Como toda ela.

Ainda tinha tempo para ler boa parte do conteúdo antes que eles voltassem. Juliana, inclusive, só voltaria tarde da noite, pois era dia de aula dos adultos.

Sentou-se na cama dela e foi invadido pelo seu cheiro em todos os lugares: no travesseiro, no pequeno short que ela tinha deixado sobre a cama, e que lhe anuviou os pensamentos.

Abriu o caderno. As primeiras folhas eram uma descrição genérica da terra, das culturas ali praticadas, e demais detalhes técnicos. Nada que lhe interessasse de forma específica, até porque era um conhecimento que ele tinha também.

Procurou o local do qual retirou a folha que guardara. Releu o trecho, e prosseguiu "... utilizados nas lavouras. Indícios de contaminação do solo e lençóis freáticos na região. Além das amostras enviadas anteriormente, temos também o relato de pessoas que desenvolveram doenças após o início da utilização dos produtos Napoleão, anos atrás. Podemos iniciar o processo".

Não entendia. A moça não era apenas uma estagiária, como todos ali? Outra página respondeu seus questionamentos. "Como estagiária, não tenho acesso a todos os locais aqui. O capataz tem. Fazer amizade".

Outro trecho revelou quem recebia as informações "enviar primeiro lote de análises para o pai".

O rapaz ficou boquiaberto. Se sentia traído pela moça, que investigava de forma secreta sua família. Se sentia um idiota por acreditar em sua bondade, admirar seu idealismo. Era só interesse. O que mais nela era falso? Demorara tanto a se apaixonar de verdade, e quando isso aconteceu foi por uma embusteira?

Mas se sentia ainda mais traído pela família, se esta realmente usasse o expediente que acabara de ler.

Ligou para seu pai. Relatou o acontecido, questionou. Percebeu o nervosismo e a tentativa de desviar o assunto. Suas dúvidas se tornaram certeza quando o pai lhe mandou pegar o caderno, se aproximar da ruiva e anular qualquer prova que ela tivesse a esse respeito.

Prometeu ajudar o pai. Era sua família, e fora traído pela ruiva. Desligado o telefone, repensou. Sempre estivera ao lado da justiça. Poderia mentir para si mesmo agora, apenas por um coração partido?

Decidiu conversar com a ruiva. Faltava pouco tempo para que ela chegasse, a leitura tomara muito de seu tempo.

Destrancou a porta e esperou. Viu a maçaneta da porta girar. Simplesmente não conseguia conter os olhos marejados. Realmente estava envolvido, droga.

A moça levou um choque quando o viu sentado na cama, ainda mais quando viu sua expressão de mágoa. A compreensão chegou quando viu o caderno nas mãos dele. Fúria pela invasão, desespero por ter sido descoberta, tristeza por ter magoado o rapaz.

Sua primeira reação teria sido uma explosão violenta, não fossem aqueles olhos azuis, em que a decepção estava tão claramente estampada.

— Eu li tudo. Ele estendeu o caderno novamente para ela. Pode ficar.

— Eu posso explicar tudo o que está aí.

— Posso confiar em você, por acaso?

— Olha como você fala comigo! Você invade meu quarto, lê um documento que não é público e vem falar bobagem?

— Sabe Gina? Eu achei que você estivesse dando aulas pro Zelão porque é uma pessoa boa. Lhe admirei tanto aquele dia.

Ela gelou. Porque estava tão afetada com a avaliação dele sobre ela? Por isso não queria se envolver com ninguém. Muito menos com ele.

— Eu sou amiga do Zelão.

— É mesmo? Usando ele? Da sua amizade, quero distância. Aliás, quero distância de você inteira.

Aquelas palavras doeram ao serem pronunciadas, e quando foram ouvidas.

— Só por isso que eu te esperei aqui Gina. É a última vez que nos encontramos, tenha certeza disso.

— Como você quiser. Agora sai daqui, por favor. Quem faz parte de uma indústria que adoece as pessoas é você, não eu. Estava magoada pela desconfiança dele, mesmo que fundamentada. Estava ferida mais ainda, por perceber tardiamente, que gostava do rapaz. Por saber que apesar disso, ele fazia parte daquilo que ela tanto desprezava.

— Ainda não. Eu não ajo pelas costas. Aquelas palavras a atingiram como um tapa. — Eu liguei hoje para o meu pai. Queria saber se era verdade. Eu não sabia de nada disso. Juro. Não sabia porque se justificar para ela ainda. Não lhe devia nada.

— Não vejo porque acreditar em você. Não sei nem o que está fazendo aqui ainda.

Endurecia conforme tentava conter as emoções que a rasgavam, confusas e intensas.

— Estou aqui ainda porque não ajo pelas costas, já falei. Prometi a meu pai que lhe entregaria o caderno, mas não o farei. Acho que deve levar a denúncia adiante. Da mesma forma, não aceitei me aproximar de você para saber quais poderiam ser as testemunhas ou eliminar outras provas.

Será que deveria lhe agradecer? Será que isso era uma prova da sinceridade do rapaz, ou apenas um ardil? Bem, se ele quisesse poderia simplesmente ter se mantido quieto.

— Obrigada. Só conseguiu dizer isso, a voz já trêmula.

— Mas Gina... Eu não aceitei tão somente por uma questão de ética, de justiça. Isso não tem a ver com você. E como lhe disse, não quero mais vê-la.

— Isso é simples. Não fossem suas artimanhas, já não estaríamos nos vendo há um tempo.

Aquilo soou como uma sequência de golpes sobre Ferdinando. Cruel. Cínica. Eram as formas que conseguia descrevê-la.

— Você não me entendeu Gina. Eu quero que você vá embora daqui. Abandone o programa de estágio. Eu falo sério. Não quero te ver nunca mais.

A ruiva abaixou a cabeça, perplexa. Não podia lidar com tanta frieza, tanto ódio. Não podia. Se fosse ser assim, era melhor ir embora mesmo.

— Vou embora no fim da semana.

Ele se deu por satisfeito com a resposta. De qualquer forma, não podia permanecer mais tempo ali. Levantou e se dirigiu a porta. Antes de abri-la, porém, retornou. Deu um beijo nos cachos revoltos.

— Você quase me ganhou menininha.

Saiu apressado, para que ela não visse as lágrimas que já lhe escorriam na face. Para ela, foi um alivio. Também ela já chorava quando ele saiu.

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Foi uma surpresa para todos quando Gina anunciou que sairia do programa de estágio. A desculpa era que o pai estava doente e precisava de sua ajuda na fazenda.

Foi doído se despedir de tudo. De Zelão, dos campos que ajudou a cultivar, dos outros trabalhadores. Dos estagiários. Principalmente, de Juliana. Se sentia oprimida em não poder contar para ninguém o que acontecia.

Seu abatimento era esperado, visto que o pai estava doente, de acordo com o que contara. Mas o abatimento de Ferdinando, não.

O rapaz era uma sombra do que sempre fora, e era nítido que a razão era a saída da moça. Os colegas pouco comentavam, e entendiam muito pouco o que acontecia entre os dois.

No dia seguinte já iria embora. Já tinha arrumado todas as malas, se despedido de todos. Precisava acordar cedo, mas o sono não vinha.

Tinha percebido de forma extremamente tardia o quanto gostava do rapaz, o quanto a implicância que tinha era ciúme, e nada mais. E principalmente, tinha percebido tarde demais que era correspondida.

Tomou uma decisão. Não era pessoa de ter medo ou arrependimentos. Todos na casa já dormiam. Talvez, até ele. Mas tentaria.

O medo da rejeição a agitava por dentro, em uma agonia lenta e devastadora. Mas o medo de ir embora sem nada dele na memória, a aterrorizava mais.

Levantou da cama silenciosamente, e foi até o quarto de Ferdinando.