Juliana estava deitada na cama enrolando no dedo um dos cachos rosas que lhe caía sobre a testa.

Os momentos que passara com Zelão quando lhe deu aula assolavam seus pensamentos.

O olhar de admiração que ele dirigia a ela tinha uma pureza que nunca vira em nenhum dos rapazes com quem já havia se relacionado. A fazia se sentir especial, única.

Lembrou-se da firmeza das mãos dele em sua cintura quando a ajudou a descer do cavalo, e não pôde evitar um arrepio, que a fez imaginar por um breve momento tais mãos dele acariciando sua pele. Fechou os olhos e sorriu.

Existia uma ponta de melancolia no jovem, desde tão cedo obrigado a uma vida de trabalho que lhe roubou a oportunidade de se educar, de conhecer outros modos de vida, mas que também lhe forjou um espírito forte e resoluto.

A determinação férrea do capataz em aprender a ler e escrever a faziam admirá-lo, e ao mesmo tempo, a fragilidade que ele demonstrava ao ter vergonha de frequentar as aulas com os outros alunos a surpreendia, vindo de alguém que parecia não ter fraquezas.

E justamente isso lhe dava provas de que havia bem mais naquele homem do que era possível conhecer à primeira vista, e era uma tentação, um convite.

Sentia tanta falta de conversar com a colega de quarto, contar sobre suas experiências, o que estava sentindo. Até mesmo das broncas ou da cara de descaso da ruiva ao falar sobre esses assuntos, ela sentia falta.

Pegou o telefone e ligou para a amiga.

—--

Gina ficou um longo tempo sentada ali, pensando no que fizera, a certeza de outrora cada vez mais rarefeita.

Seria tão ruim assim aceitar a proposta dele? O que ela tinha a perder? Ele. A ideia de se entregar a um relacionamento a apavorava, mas já não tinha certeza de que tinha agido corretamente.

— Gina, você tá arrepiando carreira mulher! Uma voz interior a alertava, chamava pra realidade.

O envolvia em diversas características ruins, ocultando o Ferdinando que ela sabia, gostava. Lembrava repetidamente dos galanteios dele para a professora, para a balconista, e sofria com o pensamento dele com outra.

Seu celular começou a tocar, e ela agradeceu poder tirar a atenção do assunto que a atormentava.

— Oi Juliana!

— Oi Gina! Tudo bem? Sua voz está tão estranha...

— Não é nada. Mas como estão as coisas por aí? Estava determinada a fugir do assunto de qualquer forma. Sua sorte, é que a amiga estava bem mais disposta a falar do que a ouvir.

— Estão muito bem. Eu fui dar a aula pro Zelão no domingo Gina... A moça de cabelos rosas rolou na cama, e passou a brincar com o fio do telefone.

— E como foi?

— Ahhh Gina... Com a aula correu tudo bem. Mas ele... Nossa... Ele me diz umas coisas... Suspirou ao lembrar do que ouviu do capataz.

— E eu acho que você está é gostando do Zelão. Sem querer, a ruiva acabou sendo rude. Nunca gostara de falar desses assuntos, e ainda mais agora, que lhe fazia tanto mal.

— Isso eu não sei ainda! Mas se eu tiver, qual é o problema? Eu não vou arrepiar carreira, como dizem por aqui, e bem ao contrário do que certa pessoa fez...

O gênio da ruiva já era difícil por natureza, e Juliana ainda fazia questão de provocar. Em parte, porque não gostou do tom da amiga, e também porque achava uma barbaridade ela dispensar um moço tão bom quanto Ferdinando, sem mais nem menos, e lhe doía ver o sofrimento do amigo.

— Vem cá, você ligou pra me encher o saco foi?

— Não minha querida, liguei porque estava com saudade, conhece, saudade? Você é chata mas é minha amiga, e muito querida por sinal!

— Assim você me deixa sem graça! Apesar de tudo, a moça aprendera a gostar muito da colega de quarto, e ouvir Juliana dizer isso lhe fez bem.

— Sem graça? Ahh Gina, sem graça eu fico quando o Zelão me diz aquelas coisas. Como eu podia imaginar que embaixo daquele jeito rude tinha alguém tão sensível? A voz dela estava completamente derretida.

— Qualquer um podia imaginar ué, se visse um pouco além das aparências né Juliana!

— Olha quem fala! Quem é que tem birra com o Ferdinando só porque ele é Napoleão?

— Eu não quero falar dele Juliana.

— Pois devia. Quando você foi embora ele ficou arrasado sabia? Acho que ele estava gostando de verdade de você.

— Estava nada, só queria se aproveitar!

— Gina, você está vendo as coisas de uma forma bem infantil. Você é adulta, ele é adulto, ele gosta de você, sentir atração é a coisa mais natural desse mundo!

A jovem de cabelos rosas bem que gostaria que Zelão tivesse com ela as iniciativas que o amigo tinha com a ruiva.

— Disso você entende bem... A ruiva foi propositalmente irônica.

— Quer saber de uma coisa? Vou desligar e dormir que eu ganho mais. Você está insuportável hoje!

— Então tchau!

Assim que desligou, se sentiu mal por não ter dado mais atenção à amiga, que ligara para contar novidades e matar as saudades. No dia seguinte ligaria e aguentaria toda a fofura da professora, mas no momento só queria ficar na dela.

Se sentia aliviada de poder interromper a conversa, quando o celular tocou de novo.

— Oi Marcos!

— Oi Gina... Posso saber o motivo dessa voz desanimada? Não foi pra ouvir isso que liguei não.

— E posso saber pra ouvir o quê você ligou?

— Ué, ouvir você me contar as novidades com o Ferdinando! Tô aqui esperando e ninguém dá sinal de vida, quando eu ligo ouço essa voz de quem morreu.

— É verdade... Você ajudou aquele um a me enganar. Você tem muita coisa pra me explicar viu!

Aquela conversa de novo? Parecia que o mundo estava envolvido em um complô para não deixar ela tirar o rapaz da cabeça.

— Explico sim, com muito prazer! Ajudei mesmo o Ferdinando, porque você é turrona e estava estragando tudo.

— Você não sabe o que está falando... Estava indignada com a intromissão do amigo.

— Então me conta, liguei foi pra te ouvir mesmo.

A moça contou a história toda, para o amigo que ouvia estupefato do outro lado da linha.

— Gina, mas você é muito burra!

— Você tá mais é besta de falar assim comigo é? Aquele um só queria se aproveitar e você ajudando!

— Se ele quisesse se aproveitar ia ter passado a madrugada inteira com você num cinema boqueta? Ia ter ido pro Rio de Janeiro só pra te ver?

— Ele bem que tentou dar outro destino pra noite!

— Mas se você gosta dele, e ele de você, não é óbvio? Você queria o quê, que ele te chamasse pra jogar xadrez? Olha, você não querer é natural e ele respeitou, como tinha que respeitar. Agora, você ver má intenção já é demais.

— Marcos...

A fala ficou incompleta. Começava a pensar se tinha exagerado na reação, só que não conseguia ver com tanta naturalidade como os amigos viam. Do lugar onde veio, namoro era uma coisa séria, e qualquer intimidade era uma prova de amor, era algo muito importante para ser feito assim, do nada.

— Gina, mulher, para de ser burra! Não, não interrompe não, é burra sim! Deixa eu te falar uma coisa! Você é de ouro menina? Porque olha, pra um cara ter ido pro Rio de Janeiro pra só e somente só usufruir do seu corpinho, você tem que ser forte no babado hein?

— Marcos! A ruiva ficou de tantos tons diferentes, que agradeceu ninguém estar ali para ver a vergonha claramente estampada em seu rosto.

— Pois é, já percebeu o absurdo da sua suposição né? Agora me escuta. Esse cara te ama. Ele passou os últimos dias acabado. E ele não estava só triste não, estava magoado também, pelo jeito que você foi embora.

— Verdade?

O coração deu um pulo ao ouvir a informação ser confirmada.

— Verdade sim. Aí ele veio falar comigo. Tinha arrumado uma boa desculpa pra te ver, e queria minha ajuda nisso. E eu ajudei. Sabe por que?

— Porque é um atrevido e intrometido!

— Eu ajudei porque sabia que você gostava dele! E vi na cara dele o quanto ele gostava de você. Até fiz ciúmes nele! O rapaz começou a rir. — Ai Gina, você precisava ver como ele ficou furioso comigo. Ferdinando Napoleão desceu do salto.

A moça sorriu timidamente. Nunca tinha ouvido de outra boca a afirmação do que sentia, e parecia tão concreto agora. A ideia dele com ciúme também era estranhamente gostosa. Será que ele sentia o estômago embrulhando, o coração descompassado, e tudo o que ela sentia quando estava com ele?

— Gina?

— Oi... Ainda estava encantada com tudo o que ouvira.

— Para de ser covarde. Vai atrás dele.

— Covarde? Ara! Não pense que porque é meu amigo pode falar de qualquer jeito comigo! Realmente, parecia que tinham tirado o dia para aborrecê-la e testar sua paciência.

— Covarde sim, tá se escondendo faz tempo. E você ainda vai me agradecer pelo sacode que te dei. Agora vou desligar, que você tem mais o que fazer. Beijo!

Logo depois, uma mensagem com o endereço do hotel e quarto em que Ferdinando estava hospedado.

Ele estava certo, ela tinha medo. Estava agindo como uma covarde – e não era a primeira vez. Tinha sido covarde ao recusar o primeiro beijo dele, ao ir embora sem dizer o que sentia. E estava sendo novamente agora.

Não seria mais.

—--

Zelão levava ao rosto novamente a almofada em que a professora tinha se apoiado, e deixado seu cheiro. Era inebriante. Ainda não acreditava que a moça estivera em sua casa.

Se preocupou com o que ela tinha achado de seu lar, tão simples. Principalmente para uma princesa como ela. Se entristecia ao pensar que não era um homem que se esperasse ver ao lado de uma mulher assim: estudada, delicada, formosa. Alguém como o doutor Ferdinando seria mais apropriado.

Mas se enchia de esperanças ao lembrar que se o doutor estava tão caído pela diaba da Gina, tão oposta, talvez a professora pudesse também nutrir algum sentimento por ele algum dia.

Pegou um papel e um lápis e se pôs a escrever. Desde que aprendera, a escrita tinha sido sua companheira para tentar organizar seus pensamentos e extravasar todos os sentimentos mais profundos. As letras, sílabas e palavras tomaram forma no papel.

Sentia muito orgulho de saber ler. Se sentia mais livre, mais confiante. Entender o rótulo dos produtos que comprava, as notícias do jornal, fazer uma lista de compras — todos gestos que poderiam parecer banais para a maioria das pessoas, mas que tinham um gosto único e empoderador para quem fora privado a vida inteira desse conhecimento.

Leu em voz alta: Ju-li-a-na. Até o nome dela parecia certo em sua boca, e mais certo ainda quando meu as palavras que tinha escrito ao lado: meu amor.

Fechou o caderno para guardá-lo, quando um papelzinho rosado caiu. Apanhou e chorou de emoção quando viu o singelo presente e sinal de respeito que ela lhe deixara, expressas em delicadas linhas: "Zelão, nunca esqueça: não há saber maior ou saber menor. Há saberes diferentes".

—--

No bar do hotel, Ferdinando observava o celular tocar sobre o balcão, sem a mínima vontade de atender ou sequer de saber quem era.

— A dor de amor deve ser forte pra não querer atender uma belezura dessas.

O garçom, que acabara de ouvir a história dele e conhecia também a de outros milhares de desiludidos, jogou um guardanapo sobre o ombro e foi preparar uma bebida para outro hóspede.

A frase atiçou a curiosidade. Pegou o celular para ver quem chamava, e se decepcionou ao ver que não era quem esperava. Ignorou a ligação de Ana e tomou outro gole.

O celular tocou de novo. Não conseguiu evitar checar. Era ela. Respirou fundo e ignorou. Tinha sido claro.

O garçom voltou e encontrou Ferdinando com um semblante totalmente perdido.

— Elas sempre nos deixando loucos, hein amigo? Sabia que sua função, muito além de servir bebida, era ouvir o que tinha levado aquelas pessoas ali para beber.

— Eu não sei o que ela quer de mim, sério.

— Acho que ninguém aqui sabe... O rapaz indicou outros dois hóspedes debruçados sobre o balcão, bebendo tudo o que tinham e o que não tinham direito. — Retorna a ligação e pergunta. O garçom sabia também que grande parte das bebedeiras se dava por brigas bobas ou mal-entendidos.

Ferdinando refletiu sobre a proposta. Parecia razoável. Digitou uma mensagem. Apagou. Digitou de novo. O texto nunca parecia bom. Enviou sem nem pensar direito.

"O que você quer?".

A ruiva, que se preparava para ir para o hotel, se surpreendeu com a mensagem. Respondeu de forma sucinta.

"Conversar".

"A gente já conversou".

Se arrependeu assim que enviou a mensagem. Minutos passavam e nada de chegar resposta da ruiva. Começou a bater o punho na testa, pensando no que havia feito: desperdiçado a chance que tinha vindo buscar.

Tentou de novo: "Me diz o que você quer".

Não aguentava de ansiedade de saber qual era a resposta. Viu os dois risquinhos azuis que indicavam a leitura da mensagem.

Simplesmente nada. Nenhuma mensagem, nenhuma resposta. Não era possível que ela estivesse brincando novamente com ele. Mas a resposta veio. Impulsiva, impensada. A ruiva apenas não queria interromper o contato, antes de encontrar Ferdinando e tentar acertar a situação.

"Eu quero você".

Nem de longe era o que ele esperava ler. Olhava para o celular sem reação, sem nem ouvir os questionamentos do garçom sobre se estava bem.

Não sabia o que responder. Será que ela o queria, ele, Ferdinando, ou queria apenas ter uma nova "despedida"? Seu coração acelerou ao pensar. Um misto de ansiedade e revolta se agitava em seu ser.

Era o que mais queria — se viesse com o aceite dela em namorar, o que ela já tinha negado. Ou seja, era apenas uma prova inequívoca de que era apenas um passatempo.

Pensou em várias coisas rudes pra responder. Várias ofensas, que poderiam temporariamente aliviar seu espírito.

Pediu outra dose pra tomar coragem. Tinha avisado que não voltaria atrás, e não voltaria mesmo.

Quem ela achava que era? Se soubesse que não fora essa a intenção da moça, poderia reconsiderar, mas tomava seu próprio desejo como métrica para imaginar as intenções dela.

Encostou a cabeça no balcão tentando não imaginar as consequências de responder positivamente a ruiva, mas seu pensamento já estava tomado.

Não queria dar vexame, e se continuasse ali ia beber além da conta. Voltou para o seu quarto.

Olhou a mensagem novamente. Seria tão ruim permitir tal contato? Sim, seria. Se machucaria de novo. Era mesmo muito fraco. Jogou o celular na parede, com força. Sabia que era questão de tempo até voltar atrás.

Resolveu tomar banho. Começou a tirar a roupa, seus olhos avermelhados umedecendo mais uma vez. Entrou no banheiro, ligou o chuveiro e deixou a água cair, relaxando seu corpo, sua mente.

Não era o fim que tinha planejado para a noite, tampouco o desfecho que tinha imaginado para a viagem, mas todos os seus planos haviam virado pó desde que ela entrara em sua vida.

Ouviu o telefone do hotel tocando na mesinha de cabeceira e foi atender, imaginando ter esquecido alguma coisa no bar.

— Senhor? Tem uma moça aqui querendo subir. O nome dela é Gina.

Ficou estático. Seus sentimentos eram incognoscíveis. Um turbilhão de emoções passava pela sua cabeça, o desejo de deixá-la subir, o medo do dia seguinte e do sentimento intensificado. A revolta pela pretensão dela, de achar que como aquela noite, era só entrar em seu quarto e tudo se resolveria. E a raiva de si, ao saber que ela estava certa.

Foi tirado de seus devaneios.

— Senhor? Pode?

Gina percebia a hesitação do homem, e pior, imaginava a hesitação do engenheiro. Saiu correndo e entrou no elevador.

— Senhor? Chamou de novo, dessa vez preocupado.

O hóspede do outro lado da linha respondeu positivamente, para alívio do atendente.

—--

Mal desligara o telefone, e Gina bateu na porta do apartamento. A iminência de vê-lo fazia sua racionalidade ir pelos ares e simplesmente não lembrava o que tinha planejado falar ou fazer.

Ferdinando ouviu a batida e se levantou prontamente, atendendo sem nem pensar que tinha acabado de sair do banho — e bem, não se toma banho vestido.

— Ferdinando! A moça que já estava perdida ficou atarantada quando viu o jeito que o rapaz abriu a porta.

Demorou meio segundo para que ele entendesse o porquê da expressão dela e fechasse a porta apressado. Os olhos da ruiva fitavam arregalados a porta, e não conseguia acredita que ele a tinha batido na sua cara.