A seleção
17 Reconciliação
Notas iniciais
A desfaçatez dele em bater a porta em sua cara ferveu seu sangue. E depois ela que era grosseira. Mal tinha se recuperado quando a porta foi aberta novamente e o rapaz apareceu desta vez mais apresentável — pelo menos uma bermuda estava usando. Se encostou ao batente da porta, distante poucos centímetros da ruiva.
Nenhum dos dois sabia o que dizer.
Finalmente, Nando resolveu interromper o silêncio.
— Por que você veio?
A pergunta e a intenção que lhe passavam pela mente não estavam contempladas nesta pergunta, mas simplesmente falhou em elaborar algo mais complexo. Queria que ela respondesse que estava ali por ele, para aceitar o compromisso. Mas nem queria ou iria baixar a guarda novamente com ela.
Mesmo assim, nada de resposta. Porque tantas dúvidas, tanto receio? Na realidade, a dúvida só escondia o sentimento certeiro e absoluto que ela sentia. Gina igualmente esperava que ele falasse, e que só precisasse concordar. Estava decidida a arriscar o relacionamento, mas não pronta para ter que falar abertamente sobre o que sentia.
A mente perturbada do engenheiro — muito menos devido ao álcool, já que quase nada bebera, e muito mais pela presença dela ali — apenas focava na mensagem recebida: que ela o queria. Motivado pela primeira vez em que ela chegara igualmente silenciosa e pelo próprio desejo, ela "o queria".
Não teve dúvida. Enlaçou sua cintura e a prensou na parede, tomando sua boca com voracidade, saudade, vontade. E amor. Era o que — julgava — ela tinha vindo fazer ali, e não importava que fosse apenas por uma noite, que o que ela sentisse fosse apenas desejo: ele sabia o que queria, o que sentia, e apenas dessa vez, era possível conciliar os interesses.
Se amanhã doesse como o inferno, como ele sabia que doeria, não importava. Hoje poderia ir ao céu e não desperdiçaria a chance.
Não foi suave ou lento. Dessa vez, roubou não apenas um beijo, mas seu fôlego, sua alma. A moça não negou mais. Era muito mais fácil dizer assim, o quanto não queria que ele fosse embora. Confessar que também não tinha mentido.
Nem precisaria da regência das mãos fortes do engenheiro em sua cintura levando-a para dentro do quarto, seu corpo seguia os movimentos do dele como se fossem de fato um. Agradecia ao fato dele facilitar a reconciliação.
A mão do rapaz soltou sua cintura o segundo necessário pra bater a porta do quarto, e voltou já agarrando seus cachos, puxando e expondo seu pescoço para os lábios sedentos.
Notou a perna dele se encaixando entre as suas, e não pode evitar se mover pra trás conforme ele avançava. Suas pernas se chocaram na beirada da cama e antes que tivesse tempo de deitar, sentiu as mãos dele se concentrando em sua cintura e seus pés deixarem o chão, quando ele a jogou na cama. Selvagem, como ela sabia que era desde a primeira vez que se beijaram.
O tecido fino da bermuda que usava mal escondia sua excitação, e a ruiva não resistiu a morder os lábios ante a tentação que ele representava. O olhar do engenheiro era puro fogo sobre ela, mas havia mais ali. Ela via o desejo, sim, mas também amor e certo sentimento melancólico que não soube precisar, e nem entendia.
Mas ele já estava sobre ela tomando sua boca e se tornando senhor de sua vontade, e qualquer compreensão que não fosse o de seus corpos juntos numa reconciliação, ficaria para depois. Puxou seu pescoço e gemeu em seu ouvido assim que sentiu a mão forte apertando sua coxa.
Os dentes dele marcaram sua clavícula, seu colo, seu pescoço, numa tentativa insana de deixar algo seu mesmo quando ela fosse embora, enlouquecendo ainda mais com a forma como ela se oferecia aos seus arroubos. Também sua pele sentia a pressão das unhas se intensificando conforme o controle dela se perdia — como se ela já não o tivesse marcado o suficiente.
Suas mãos foram para a barra da blusinha, erguendo o tecido enquanto unia e esfregava seu torso nu nela e lhe dizia a saudade que sentira dos dois juntos, e que ela também partilhava.
Gina nem percebeu quando ou como ele lhe tirou o sutiã, apenas o toque direto da boca e dentes em seus seios, incendiando ainda mais seu desejo. Estava rápido demais, só que também quente demais, gostoso demais.
Quando os dedos dele começaram a lhe explorar, não reprimiu os gemidos que acompanhavam os arrepios que cortavam seu corpo, e que desciam conforme o rapaz percorria o caminho que levaria até sua intimidade.
— Eu te amo... O rapaz achou que falou alto o suficiente, mas foi apenas um sussurro, nem isso. Gina não retribuiu — sequer ouviu.
Interrompeu o caminho e levou uma das mãos até o rosto da dona do seu afeto e o acariciou, sendo recebido com beijos. Observou a entrega da moça. Tudo o que queria era poder dizer que a amava, e receber de volta a declaração que tanto o faria feliz. Era-lhe estranho, justo agora que entendia o significado de fazer amor, ter que se contentar com menos.
— Menininha?
Dessa vez, a ruiva ouviu, e quando abriu os olhos para vê-lo encontrou nos olhos azuis amor, ternura. Nunca havia se deixado guiar apenas por sentimentos ou intuições, mas existia algo claro e forte na ligação que possuíam, que dispensava palavras. Nando não pensava assim, e a falta delas lhe doía.
Não recebeu a resposta que esperava, mesmo no segundo chamado. Não recebeu resposta alguma na verdade, que não fosse a rubra e ardente boca em sua pele. Definitivamente era apenas isso. O que ele tratava como desejo, amor, para ela, era apenas tesão. Era o que teria dele então.
A ruiva viu os olhos dele perderam brevemente a ternura e se tornarem ferozes, duros, cheios de cobiça, quando abriu o botão de sua calça jeans e desceu o zíper. Um sorriso de pura malícia se desenhava nos lábios do engenheiro, enquanto contemplava as pernas dela sendo descobertas ao tirar sua calça.
Julgou ver a expressão dela trair algo mais do que vontade, e encerrou o contato antes que se iludisse novamente. Não podia se deixar levar. Virou a ruiva na cama, admirando o corpo escondido apenas por uma pequena calcinha.
O engenheiro deixou seu corpo pender sobre o dela, sua intimidade colidindo com uma parte cobiçada do corpo da ruiva. Enterrou o rosto no pescoço dela, dizendo por sobre os cachos o quanto a queria, fazendo-a suspirar quando pressionou mais o corpo sobre ela, forçando um atrito delicioso.
Ela se virou novamente e seus olhares se cruzaram, tempestuosos. Tanto ali para dizer. Preferiu, como sempre, demonstrar, colocando os dedos na bermuda dele e puxando para baixo. Um pedido para que tirasse. Um pedido para que a fizesse dele de novo. Pra sempre.
— Eu adoro seu jeito de se despedir. A ruiva sorriu, mas o sorriso morreu em seu rosto quanto ele completou. — Só não sei porque resistiu tanto se era só isso que você queria.
O próprio engenheiro não era capaz de entender o motivo de ter dito aquilo. Reduzi-la ao que fora reduzido, talvez? Ou a percepção, embora tardia, que não conseguiria completar tal ato sem a reciprocidade que esperava?
Como assim, "só isso"? Não entendeu a repentina grosseria, e antes que ele embaralhasse todas as suas ideias com seu beijo, o empurrou, derrubando-o da cama.
O rapaz levantou rindo, deixando-a sem entender nada. Ele também não entendia, nunca, as reações dela. Era uma brincadeira? Queria resistir mais, ser tomada? Não sabia, mas gostava de cada traço da personalidade difícil da ruiva.
Avançou para ela novamente e segurou seus braços, mordendo seu queixo, pescoço, por um minuto fazendo com que qualquer objeção morresse em seus lábios antes de tomar forma. Mas a frase a ferira.
— Nando, para. Se precisava dizer algo, devia ser agora.
— Tem certeza? Sua voz rouca e as carícias que lhe fazia quase a levaram a desistir de qualquer conversa. Quase.
— Tenho. Para, não vim aqui pra isso.
O engenheiro se apoiou no cotovelo e a fitou, um misto de surpresa e preocupação. Gina o empurrou para o lado na cama, fazendo com que ele rolasse para o lado e reacendendo a revolta que sentia horas antes.
Como assim não tinha ido ali pra isso? Era o que tinha dito na mensagem. Ou não era? Pegou um travesseiro e colocou sobre o rosto, num esforço para evitar falar todos os impropérios que lhe passavam pela cabeça no momento. Depois de tantas e diferentes rejeições, percebia claramente o quanto tinha bancado o idiota permitindo que ela subisse.
Gina não entendia o que estava acontecendo. A situação era inesperada, e também estava revoltada com a suposição que ele claramente havia feito. Se sentia desrespeitada, frágil. Começou a se vestir para ir embora, mas um sentimento de revolta se apossou dela. Como ele ousava tratá-la assim?
— Nando? Tentou ficar calma. Estava decidida a colocar tudo em pratos limpos, a não sair dali sem isso.
Exceto os vários sons ininteligíveis abafados pelo travesseiro, nenhuma resposta. Ele tentava se acalmar e principalmente, deixar secar as lágrimas que insistiam em lhe subir aos olhos. Jamais permitiria que ela visse.
— Nando? A voz dela estava fria quando insistiu, o que só aumentava sua raiva. Tentava recobrar a calma.
Sentiu as mãos dela nas suas, tentando tirá-las do travesseiro, e segurou com ainda mais força, rejeitando o contato pelo qual tanta ansiava. Seus quadris foram pressionados nas laterais pelos joelhos dela, e percebeu que ela estava subindo nele. O choque o fez esquecer o travesseiro, que foi prontamente tirado de suas mãos e jogado longe, enquanto começava a estapeá-lo dizendo várias ofensas.
Tentava segurar suas mãos, mas a moça era mais rápida e estava furiosa, sem fazer ideia de onde seu autocontrole estava. Tudo o que queria era feri-lo de alguma forma semelhante ao que ele a tinha ferido.
— Eu te odeio! Te odeio! Te odeio!
A saraivada de tapas e seus próprios olhos molhados não permitiam que visse com clareza que também ela tinha os olhos úmidos. Continua tentando segurá-la em vão.
— Para! Para sua maluca!
— Seu idiota! Eu te odeio! Se antes já estava furiosa, agora estava intratável.
Finalmente conseguiu pegar as mãos dela e as segurou no ar, fazendo-a ir para frente e quase cair sobre ele. Ela tentou se soltar, mas ele a segurava com força. A virou na cama, enquanto ela se debatia. E então, viu: o rosto dela transtornado, ferido, assim como o dele.
A soltou e levou as mãos até o próprio rosto, incapaz de processar o que estava acontecendo. Também perdeu o controle.
— Droga Gina, o que você quer de mim?
A explosão a fez parar e olhá-lo, atônita. Ele levantou da cama e começou a andar nervosamente pelo quarto. As palavras saíam sem que ele tivesse controle sobre elas.
— Você me deixa louco. Sem saber o que pensar, o que fazer!
— E você sempre escolhe pensar o pior! Ela foi direta, olhando fundo nos olhos dele. Não ia deixar barato, não ia ouvir quieta.
— O que? EU escolho pensar o pior? O rapaz voltou a se aproximar da cama, nervoso. — Você sim só pensa o pior de mim, e até agora não teve a coragem de me dizer porquê!
O olhar da ruiva escureceu. O ódio a estava cegando de uma maneira perigosa.
— Você quer saber o motivo?
— É o que eu mais quero!
Ela sequer esperou que ele terminasse de falar pra começar a lhe dizer suas verdades, com o dedo em riste, se aproximando. Nenhum dos dois sequer desviava o olhar, e era impossível prever quem sucumbiria à força do outro primeiro.
— Você me agarrou quando fomos dar aula pro Zelão e deixou bem claro o que queria! Você me chantageou pra me devolver algo que era meu! E ainda me expôs pra todo mundo na manhã seguinte! Me fez desistir do estágio!
Foi um choque. Ouvi-la falar daquela forma tão crua o que, pra ele, era apenas uma brincadeira, um jogo de conquista, o desnorteou. Se sentia mal, sujo. Percebia como fora leviano, desrespeitoso. Nunca tinha parado pra pensar o que representava pra ela. Mas embora não soubesse na época, desde o começo sempre teve amor! Ao contrário dela, que sentia apenas atração. Resolveu jogar na cara o que supunha verdade.
— E quem entrou no meu quarto, se entregou pra mim... A lembrança o deixava pior, apesar de tão doce. — Depois foi embora, sem dizer nada? Me deixou ir embora quando eu te propus namoro, e depois veio atrás de uma noite! Se é só isso que você quer, porque tem que ser comigo, porque tem que brincar assim comigo?
Era exatamente como ele se sentia, um mero brinquedo. Uma boa transa, e só. Tal como ele realmente quisera antes, e se martirizava ao pensar que talvez fosse a própria leviandade que o tivesse colocado em tal papel para a ruiva.
Na hora em que as palavras saíram de sua boca, seu coração doeu só com a maldita possibilidade da ruiva com outro. Só não ardeu mais que o forte tapa que ela lhe deu — e que sabia, merecia.
— Você nunca mais fala assim comigo! Aliás, nunca mais fala comigo! A moça começou a alinhar a roupa e tentar conter as lágrimas. Não queria sair assim desfeita, exposta.
— O que você quer então Gina, me diz! Eu não aguento mais! A voz dele saiu tão cansada, tão frágil. — Porque você veio?
Estava decidida a ir embora. Era um erro, tudo sempre era um erro. Mal entendia o que ele lhe dizia, sabia que a raiva a deixava confusa, e não fazia sentido continuar com a briga. Deu as costas e foi em direção a porta.
O gesto da ruiva despertou um crescente de revolta no engenheiro. Agarrou seu braço e a prensou na parede.
— Chega! Para de brincar comigo!
— Me solta! Você tá louco?
— Solto! Depois que a gente colocar tudo em pratos limpos! Soou autoritário, mais até do que gostaria.
Seria mais fácil dizer, até mentir. Mas Gina Falcão nunca aceitaria ser domada, submetida, como ele pensava poder fazer com sua imposição. E deixaria isso claro.
— Quero ver você me obrigar.
Provavelmente ela nunca poderia compreender o esforço que ele fez para ignorar o desdém e provocação absurda na voz dela, ou o instinto profundo que despertou nele com tal desafio. Sua racionalidade estava minada, sua confiança, tudo, ela tinha tirado com uma frase.
— Porque você veio?
Quando conseguiu repetir a pergunta em voz baixa e profundamente rouca, em um misto do desejo que ainda sentia e ela só fazia acender, e uma revolta tenuamente controlada, uma voz que era apenas sentimento, ela não conseguiu simplesmente não atender.
— Eu vim pra dizer que queria namorar com você!
Aquela revelação fez seu coração parar um minuto. A declaração preencheu um enorme vazio que sentia, mas por sua vez, a frase no passado o enchia dos piores medos de novo. Estava tão exausto de tudo... Respirou fundo.
O olhar que trocaram era cheio de raiva, mágoa, culpa. Ferdinando ofegava, tentando recuperar o costumeiro controle que sempre tivera, mas que sempre desaparecia diante dela. Sua cabeça dava voltas, completamente confuso.
O rapaz saboreava o que tinha acabado de ouvir. A verdade inegável expressa nos olhos castanhos quando ela confessou, tornava ainda mais doce. A mágoa ainda presente, tornava amargo.
Um turbilhão de emoções cortava seus pensamentos, mas não pôde evitar de lentamente, abrir um sorriso. Não era ainda o que queria, era pouco diante do que sentia, mas também um começo.
Passou os dedos no rosto dela, tentando colocar atrás da orelha uma mecha que insistia em cair sobre o rosto. A moça instintivamente foi pra trás, e ele mesmo se assustou com a força com a qual ainda a segurava.
— Gina... Por favor, me perdoa, eu falei sem pensar, fiz tudo sem pensar! Você me deixou vir embora, eu fiquei desnorteado.
O apavorava pensar que a tinha assustado. Contudo, a expressão atônita da moça se devia muito menos a ele e mais ao fato de ter dito em voz alta que queria namorá-lo, concretizando o que era apenas emoção. A soltou.
— Pode ir, se quiser... Se afastou, deixando o caminho livre. — Mas eu te peço, fica. Eu te amo.
A ruiva permaneceu em silêncio. Tudo o que fora dito, tudo o que tinha acontecido, era demais pra ela. Estava perdida. Tal silêncio machucava o engenheiro, mais do que ele julgava possível.
— Menininha... Conversa comigo. O apelido saiu sem que conseguisse evitar. — Por favor, me perdoa. Por tudo o que fiz antes, por tudo o que disse.
Quanto mais falavam, mais se machucavam. Era essa loucura que queria viver? Sua vida sempre fora pacata, sem grandes emoções. Também, sem um grande amor. Se ainda tivesse controle sobre as próprias pernas, já teria ido embora. Mas estava presa, suscetível a tudo que ele lhe dizia, para o bem ou para o mal.
Um leve desespero começava a tomar conta dele, a ansiedade de saber a decisão dela o consumia, quando ela confessou.
— Eu tô com medo.
E era verdade. Daquela intensidade toda que havia entre ambos, dos próprios sentimentos e também, do fascínio que ele exercia sobre ela.
Nando processava o que ouviu. Nunca tinha imaginado tal sentimento na ruiva, que só poderia ser motivado por um sentimento profundo, tal qual o dele era. Sentiu uma necessidade urgente de ampará-la, de ser um porto seguro. E também de ser com ela, tão sincero quanto ela fora. Se aproximou e a abraçou.
A moça encostou a cabeça em seu peito e se permitiu ser abraçada.
— Eu também. Confidenciou-lhe ao ouvido, mantendo-a agarrada ao corpo. A admissão dela explicava tudo. Lhe dava uma tranquilidade imensa que tivesse aceitado ficar ali, em seus braços, depois de tudo. — Me conta.
— Bobagem minha.
Finalmente, o engenheiro compreendia as reações dela.
— Me conta. Sentou na cama e a fez deitar-se no seu colo, acariciando as madeixas rubras.
Ela virou ligeiramente o rosto, se escondendo, e ele percebeu a dificuldade dela em lidar com as próprias emoções. Resolveu contar os próprios receios.
— Então menininha, vou te contar os meus... Respirou fundo. Era difícil também pra ele. — Eu morro de medo de não ser correspondido. De ir muito rápido. De não conseguirmos superar a distância. De te machucar. E me machucar também...
A admissão dele a impressionou. Eram, basicamente, os temores dela.
— Nossa... Parecia tão fácil pra você.
— Fácil? Gina, você transformou minha vida numa montanha russa! O engenheiro riu, quebrando pela primeira vez a tensão. — Você não faz ideia do quanto tem sido difícil desde aquele dia no seu quarto. Difícil também menininha, por saber que eu fiz você desistir...
Recordar do que tinha deixado ainda era difícil para ela. Era como uma ferida no recém iniciado relacionamento dos dois, mas ele não deixaria que fosse assim muito tempo.
— Eu te prometo menininha, que eu vou resolver isso. Prometo. Me deixa consertar tudo.
A obstinação da voz dele a fez acreditar. Na verdade, não queria falar disso agora, e estragar o momento tão sincero que estavam tendo. A primeira conversa sem defesas que se permitiam. Confessou.
— Eu tenho medo disso ser só um capricho seu... De você cansar de mim.
— E era. No comecinho. Mas você foi me ganhando... E quando eu vi, já estava apaixonado.
Os olhos azuis eram sinceros, ela tinha certeza. A paz que ele parecia sentir, também. Ela mesma estava em paz agora. Os dedos dele tocando-a de forma tão casta era algo que queria sentir a vida toda. Esse doce aconchego, um momento tão íntimo.
Ele partilhava de cada sensação. Era bom se permitir esse toque singelo, acompanhando o contorno do nariz atrevido, das bochechas macias, seu polegar tirando a umidade que ainda existia sob os olhos dela, passando pelos lábios que se curvavam em um leve sorriso. E a felicidade de saber que o motivo do sorriso, era justamente seu toque, seu amor.
— Gina... A gente tá namorando?... Ainda tinha certa duvida, que queria sanar de uma vez por todas.
— Tá bom, estamos. O tom de voz provocativo dela contrastava com a ternura com a qual enlaçou seus dedos.
— Então me conta... Qual é sua música preferida?
— Não sei se tenho alguma preferida... Mas gosto muito de "Majestade, o sabiá", conhece?
— Acho que já ouvi. Eu gosto muito de uma chamada "How it ends", já ouviu? Diante da negativa da moça, teve uma ideia. — Só um minuto, vou colocar pra gente ouvir.
Queria criar um clima agradável, recriar as memórias da noite. Levantou e procurou o celular, mas ficou sem graça ao vê-lo desmontado no chão. Remontou o aparelho e ligou rapidamente agradecendo ele ainda funcionar, e procurou sua playlist favorita.
— Posso deitar do seu lado?
— Pode... Ela se surpreendeu com a pergunta, mas agradeceu o cuidado que ele demonstrou.
Ele colocou a música pra tocar.
— O que você mais gosta de comer? Além de chocolate, que isso eu sei!
— Nossa estou me sentindo numa entrevista! A brincadeira tinha um fundo de verdade.
— Deixa eu te conhecer...
Achava mais gostoso desvendar a ruiva aos poucos, descobrir cada gosto, sabor e nuance devagar. Só que também queria fazê-la esquecer do tempo, da hora, se perder ali com ele, o máximo que conseguisse. Funcionou.
— Tá bom. Eu gosto de curau, sabe? Até sei fazer.
— Mas que bom saber disso. Achava que você mal sabia ferver água!
— Claro que não! Sei fazer algumas coisas sim. O que eu gosto de comer.
Ficaram assim, se curtindo, sem perceber, até pegarem no sono.
—--
Na verdade, foi apenas um cochilo. Ela foi a primeira a acordar, e o viu tão tranquilo ao seu lado, que não queria acordá-lo. Contudo, precisava ir embora, e não cometeria o mesmo erro duas vezes. O acordou.
— Nando, preciso ir embora... Está tarde.
— Passa a noite comigo...
A proposta dele não tinha nada de indecente, ela bem sabia. Mas já tinha dormido fora na noite anterior e estaria em maus lençóis pra explicar pra seus pais.
— Já dormi fora ontem Nando, vai ser difícil explicar pros meus pais.
— Explica que você estava com seu namorado, que ele te ama demais e quer grudar em você até a hora de ir embora.
A expressão dele era absolutamente adorável, e ela não pôde deixar de rir.
— Nando... Não posso.
Sabia que já tinha cedido. Só queria vê-lo pedir por ela.
— Gina? Eu posso falar com seus pais? Assim a gente resolve tudo.
Tentou disfarçar que a ideia a desagradava, mas não conseguiu. Como explicar que os pais dela não aceitariam o namoro? Tinha se esquecido completamente da rixa que nutriam contra a família dele. O rapaz ignorou o desconforto, cujo motivo até desconfiava — voltaria ao assunto outra hora, quando sentisse o relacionamento um pouco mais sólido.
— Tudo bem, eu durmo...
— Mas que ótimo G...
Foi interrompido com um dedo atrevido em sua boca. Se um dia tivesse que dizer a definição de tentação, narraria o que ocorreu naquele instante quando, com aquele nariz deliciosamente arrebitado e um olhar que era puro desafio, ela deixou claro com uma frase o que ele sempre desconfiou e agora mais ansiava: nunca teria paz ao lado dela.
— Mas só se você me convencer.
Era impossível não deixar a expectativa tomar conta de todo o seu ser. Deixou seus dedos passarem pelo seu rosto, contornarem sua orelha e se aprofundarem nas madeixas que ele aprendera a adorar. A segurou firmemente pelos cachos, fazendo-a olhar pra ele. Realmente queria ouvir a resposta pra pergunta que faria, e desvendar cada traço de expressão quando ela respondesse.
— Você me deixa louco quando me desafia assim, sabia?
Sua atenção alternava entre a boca aveludada, responsável por despertar instintos nada castos, e seu olhar. Um quase imperceptível sorriso irônico brotou na boca rubra, e apesar do silêncio, ele soube a resposta. Passou os dedos da outra mão pelos lábios, apertando o inferior e sentindo a maciez que em breve provaria.
— É claro que você sabe. E gosta.
Todo o desejo apenas adormecido voltava, deixando seu olhar turvo despi-la e sua imaginação passear pelo corpo que queria ter ainda mais do que antes. Repetia internamente para ter calma, temia despertar a desconfiança da ruiva de novo, mas não conseguia negar a química que tinham, o encaixe que mesmo inconscientemente desfrutavam.
Os dentes dele tomaram seu lábio inferior e puxaram levemente, pressionando mais até ela dar um gemido com a breve dor — som que ele sorveu com prazer, tanto pela excitação que lhe provocava quanto pela discreta vingança.
Tudo nela, seu cheiro, seu gosto, os sons que fazia, o jeito como sua pele se arrepiava e sua boca ficava entreaberta quando gemia, tudo era absolutamente excitante. O mantra para se manter calmo fora substituído pelo "deixa rolar" no momento exato em que a respiração dela se acelerou e ela mesma se inclinou ofertando a boca aos seus beijos.
A ruiva explorava os músculos retesados do braço do engenheiro, e tinha sob sua palma os músculos de suas costas nuas se mexendo quando ele a guiou em um beijo profundo e molhado.
Sentiu sua cintura ser apertada e seu corpo sendo pressionado pelo dele na cama. Aquele território ainda a afetava — lembrava de que não seu controle não estava em suas mãos, mas sim nas que a tocavam com tanta habilidade. A sensação lhe era estranha. Se perder, assim.
— Nando...
Ele girou na cama, puxando-a por cima de si.
— Menininha, você pode sair daqui a hora que quiser.
Como se fosse possível sair dos beijos que ele lhe dava, do calor dos seus braços e do cheiro que a envolvia. Apenas correspondeu, perdendo novamente o fôlego.
Quando ele puxou suas pernas apalpando de forma indecente, fazendo-a se mover sobre sua intimidade e perceber a vontade dele sob a bermuda, algo a impediu de continuar. Queria, mas uma parte de sua cabeça ainda tinha medo do ousado trato de namorarem a distância.
— Você me convenceu. Deu vários selinhos em seu rosto, sua boca, seu maxilar. — Eu durmo aqui com você hoje. Durmo, hein? Ela frisou com cuidado a última parte.
Saiu de cima do engenheiro e se deitou ao seu lado, imaginando com certo receio a reação dele, que não tardou a vir, na forma de vários beijos em sua face.
— Você é uma diaba deliciosa e muito, muito perversa!
A ruiva gostou do comentário, mas principalmente, da atitude dele. Ficou mais segura. Era inegável que ele estava ainda, com muita vontade — assim como ela, que apenas tinha a vantagem da discrição. Observou o rapaz ao seu lado, respirando de forma propositalmente cadenciada, tentando retomar a serenidade. O agarrou pelos dreads, fazendo o rapaz morder os lábios em antecipação pelo que ela faria.
— Eu quero muito namorar você... Não mentia. Queria, sim, mas a rapidez e o fogo dele a assustavam um pouco.
— Mas a gente tá namorando... Ele ainda não entendera onde ela queria chegar.
— Não Nando... Tô falando namorar... Mas eu não queria... Bem...
A ruiva ficou com vergonha de completar o raciocínio.
Impossível não se deixar levar. Ela o surpreendia e fascinava em cada detalhe. A mulher que se fizera inesquecível ao entrar em seu quarto de forma tão ousada, se mostrava insegura agora.
O fato é que estava adorando esse jogo, e não se importava de passar a noite em claro só namorando, curtindo a companhia dela. Estava disposto a conquistá-la de vez, a fazê-la compreender e não ter dúvidas de que ele esperaria por ela o tempo que fosse necessário.
— A gente só vai até onde você quiser. Prometo.
O problema é que quanto mais compreensivo aparentava, mais confiança a ruiva adquiria e mais se soltava, levando o engenheiro por uma trilha torturante, embora deliciosa, de prazer.
A dualidade dos estímulos só o atiçava cada vez mais, e por vezes quase perdia o controle quando a ruiva ria das desculpas que pedia quando tomava uma atitude mais ousada sem nem perceber, como tentar tirar-lhe o sutiã. Ele podia jurar que ela estava se divertindo, e não perderia se apostasse.
Agradeceu quando ela tirou a calça, principalmente quando começou a rebolar sobre ele.
Apertou a pele firme da deliciosa curva recém revelada para cadenciar o ritmo e desceu um pouco, seus dedos tocando sua virilha. Ela estava completamente molhada, sua vontade se equiparando a dele, a renda de sua calcinha completamente úmida . Era só questão de tempo que ela também perdesse qualquer receio e se entregasse.
Se inclinou para frente tendo mais acesso a ela e mergulhou em sua intimidade, tocando e explorando com tanta vontade de proporcionar prazer quanto o de ter. Queimava ao vê-la se derreter em seus braços, tirar a blusa e depois, o sutiã, revelando os seios delicados e que tanto mexiam com sua libido.
Foi atraído a tocá-los com as mãos ainda úmidas dela, apertando os bicos endurecidos e deixando-os mais saborosos. Não pôde evitar tomá-los na boca, lamber e matar a saudade do gosto dela, enquanto voltava a lhe explorar o corpo deixando uma trilha úmida por onde suas mãos ávidas passavam.
Ela tampouco estava indiferente ao limite que claramente tinham alcançado. O desejo se sobrepunha a qualquer reserva. Mesmo por cima, era complicado ter qualquer liberdade de movimento ou espaço presa em seus braços. Arrastou com dificuldade a bermuda dele para baixo, esfregando o tecido na pele já sensível provocando um incomodo logo recompensado quando ele sentiu seu corpo ser envolvido pelo dela.
A delicada calcinha já destruída nem precisou ser tirada, e quando Nando percebeu a renda raspando em sua pele com os movimentos que faziam, perdeu o juízo de vez ao constatar que o tesão da ruiva não permitira sequer quer tirasse a roupa íntima para se entregar.
O ritmo entre eles nunca era fácil — até isso estava em disputa. A noite de provocações, as preliminares extremamente envolventes e a cadência da ruiva o levavam a um crescente de prazer que ele bem sabia onde levaria e pior, sabia não poder controlar. Se passasse desse ponto, iria antes dela.
— Gina... Tocou seu rosto e assim como todo seu corpo, estava quente. — Devagar.
Recebeu de volta um sorriso que certamente um dia o deixaria louco de vez.
— Deixa vir... Ela queria vê-lo descontrolado, perdido. Seria o maior combustível para sua própria satisfação.
Era o que ele queria também, levá-la ao ápice. Como sempre, a pretensão de ambos deliciosamente irreconciliável. Era impossível negociar ou pedir, precisava tomar o que queria: o prazer dela, primeiro. A reciprocidade entre eles envolvia sempre uma conquista. Tentou virá-la na cama e como fizera na noite da primeira vez deles, controlar.
Completamente ousada, lhe deu um tapa pelo atrevimento de lhe tirar o comando. Ordenou.
— Vem, Nando.
Nunca conseguiria descrever a intensidade do que sentiu ali, ao atingir o ápice sob o olhar dela — por ela. Era a primeira vez que ele se entregava a alguém. E então, entendeu: era pra sempre.
—--
Ferdinando brincava de enrolar um dos cachinhos rubros nos dedos. Estava cansada, e não era pra menos. Ele a tinha feito pagar caro pelo atrevimento.
Estava deslumbrado com a aparência quase angelical que ela assumia descansando, se perguntando porque demorou a perceber o quanto ela era meiga. De fato, uma menininha. Sua menininha.
O sono chegava também pra ele, mas uma coisa o impedia de dormir tranquilo ainda.
— Menininha?
— Uhm...
Tinha uma vaga ideia dos dedos dele acariciando seu cabelo e sua respiração leve sobre seu pescoço, e isso só a deixava mais relaxada e com sono.
— Te convenci a dormir aqui comigo?
— Uhum...
A ruiva demonstrava aquela preguiça gostosa que só aparece quando a noite foi muito boa. Ela pagara, mas ele ainda tinha muito mais a lhe cobrar.
— Me promete uma coisa então...
Basicamente, concordaria com qualquer coisa se ele também concordasse em ficar quieto e acompanhá-la no merecido descanso.
— Aham...
— Me deixa acordar do seu lado dessa vez...
O movimento que ela fez para se aconchegar mais nos seus braços e o sorriso feliz em seus lábios, lhe deram mais certeza da resposta que qualquer palavra que ela poderia ter dito.
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