A seleção
3 A chegada
O tempo passou rápido. Parecia ontem que havia ligado para seus pais para contar as novidades do primeiro dia de aula e o aborrecimento de conhecer aquele um. No entanto, fazia uma semana.
Agora, estava entrando no avião que os levaria para uma fazenda no centro-oeste brasileiro, onde teriam suas primeiras aulas práticas.
Tentava colocar a bagagem no local apropriado, mas não conseguia: o bagageiro estava tomado por malas gigantes.
Ferdinando já estava sentado e observava a dificuldade da moça dividido entre o natural sentimento cavalheiresco de oferecer ajuda à dama, e a vontade de apenas assistir de camarote a jovem tão turrona, tendo que pedir sua ajuda.
_Posso ajudá-la? Marcos, um dos estagiários de sua turma, se adiantou e a ajudou a acomodar a mala, para seu dissabor acabava de perder a cena altamente recreativa.
_Obrigada Marcos! Você está sentado no 13C? Meu assento é o 13D, iremos juntos!
Marcos sorriu e abriu espaço para que ela se acomodasse, e logo iniciaram uma animada conversa, observada com interesse pelo rapaz de dreads.
Ele nunca a tinha visto conversar tão animadamente com ninguém, pelo menos não enquanto estudavam. Muito menos havia percebido sua risada tão franca e se fosse sincero consigo mesmo, tão gostosa de ouvir.
Se esforçava para escutar a conversa mais seu colega de poltrona não permitia, contando histórias que nem de longe lhe interessavam. O rapaz já contava com a clara antipatia de Ferdinando, que tentava disfarçar o melhor que podia sua total má vontade de manter a conversação.
Pegou um fone de ouvido, conectou ao celular e informou ao companheiro de poltrona que ia dormir, numa estratégia escancarada para se livrar do falatório e de quebra, tentar desviar a própria atenção da conversa animada que ocorria a sua frente.
Mas quem disse que conseguiu dormir? A conversa dos dois prosseguia cada vez mais animada. Ferdinando se virou, aumentou o volume, fechou e abriu os olhos, e decidiu que não conseguiria cochilar com aquelas duas matracas falando sem parar.
_Tem gente querendo dormir aqui atrás! A fala saiu mais grosseira do que gostaria, e o resultado bem pior do que imaginara.
_Ui, ele ficou nervosinho Marcos! A moça deu um tapa cúmplice no ombro do amigo e riu.
_Ele deve estar cansado... Vamos falar mais baixo... Parceiro, fica tranquilo aí, que vamos dar uma maneirada no barulho!
A simpatia do rapaz exasperou ainda mais Ferdinando, que no fundo preferia uma discussão que acabasse com o papo que se desenrolava. Mas o resultado é que para não fazer barulho, os dois se aproximaram e começaram a praticamente cochichar no ouvido um do outro.
Gina acabara de ouvir Marcos contando suas travessuras de infância no sítio de seus tios, e agora contava suas próprias maluquices nas terras de seu pai, em tom baixo e confidente.
_Não acredito! Você não pode ser tão maluca! Marcos tentava abafar a risada ao ouvir como a moça tinha dado um tiro na direção do adversário político de seu pai.
_Mas foi só para assustar!
O mal humor de Ferdinando só aumentava, junto com a curiosidade de saber o que a moça confidenciara ao colega, que o fez rir tanto. Já tinha desistido de dormir, e há muito tinha deixado de prestar atenção nas músicas de sua playlist.
A viagem durou uma eternidade, mas essa parecia ser uma impressão apenas dele, já que a ruiva comentava como a viagem havia sido curta.
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Juliana terminava de arrumar as letras coloridas que formavam as palavras Bem vindos!. Lembrava-se bem que sua recepção não havia sido nada calorosa, e não desejava que os novos estagiários passassem pelo que ela passou.
Tinha chegado ali há poucos meses para alfabetizar as crianças das fazendas próximas, e agora estava com um projeto de educação de adultos. No entanto, apesar de ter muitos e dedicados alunos, sentia-se sozinha.
A realidade daquelas pessoas era muito diferente da sua. Suas peles e sua fala eram endurecidas pelo sol, pelo trabalho, pela ignorância. Havia aprendido muito com eles, assim como tinha lhes ensinado muito também, mas não havia encontrado ainda algum amigo com quem pudesse se abrir ou alguém que a entendesse.
Sentia orgulho a cada frase que eles escreviam, a cada palavra nova que eles decifravam. Agora, alguns podiam até mesmo contar o dinheiro necessário para as compras, iniciando um simplório, mas extremamente importante, planejamento financeiro para a família.
Isso a fazia extremamente feliz, e esperava que a vinda de novos estudantes pudesse melhorar ainda mais a vida daquelas pessoas.
A moça começou a cantarolar uma música suave enquanto andava a passos leves pela quadra da escola, arrumando balões, faixas e outros mimos.
E a uma certa distância, um capataz escondido nas sombras observava cada movimento da professora.
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Depois de desembarcar foram ainda mais três horas de carro por uma estrada de terra enlameada até chegarem no alojamento em que ficariam.
O local em questão se tratava de uma pensão gerida por um casal tão simpático quanto atrapalhado, porém muito acolhedor.
Era hora do almoço e puderam se apresentam e conversar sobre as regras da casa enquanto comiam.
Os quartos eram duplos, e dona Marisa tentou dividi-los da melhor maneira: Clara e Sabrina em um, Caio e Marcos em outro, e Gina, que ela percebeu ser bem difícil de lidar, ficou no quarto de Juliana, uma diplomata nata.
Ferdinando teve sorte na divisão dos quartos e ficou sozinho. O quarto era pequeno, porém aconchegante, e a ideia de manter sua privacidade o agradou muito.
Foram notificados que a noite teriam que ir a uma festa feita em sua homenagem.
_Mas que bobagem, eu quero é já subir e tirar um bom cochilo! A ruiva estava impaciente, cansada, e não via a hora de dormir. _Depois a gente vai conhecer todo mundo de qualquer jeito.
_Não liga não Dona Marisa, essa aí é assim mesmo, grosseira. Ferdinando pensava que o que vira no avião realmente havia sido uma exceção. A moça já vestira seu personagem turrão novamente.
_Grosseira, eu? Você que é muito sensível. A fala arrancou risadas de todos na mesa, menos do alvo da frase debochada.
_Mas Gina, ainda são 13h00, a festa vai começar as 19h00, dá tempo de descansar o suficiente antes. Não faça essa desfeita. O pedido viera de Marcos. O engenheiro não esperava menos do que uma resposta completamente atravessada, mas se surpreendeu com o que ouviu.
_Tá bom Marquinho, tá bom. Não vou ser eu a estraga prazeres da turma.
Marquinho? E desde quando surgiu essa intimidade toda? Realmente o problema deve ser comigo... Essa implicância idiota por causa do meu pai. Imatura, preconceituosa. A fila de ofensas era dita mentalmente com um certo prazer sádico pelo jovem.
Os outros estagiários, acompanhados do casal, bateram palmas pra decisão dela. Ele deu um sorriso amarelo. O almoço prosseguiu cordial.
_Vocês me dão licença que eu vou descansar. Gina se levantou e foi para seu quarto, se sequer levar o prato pra cozinha, recebendo olhares reprovadores de Dona Marisa.
_Eu disse que era uma grosseira. Ferdinando disse a frase já se levantando da mesa e encerrando qualquer possibilidade de questionamento, e levando consigo seu prato e o da moça para a cozinha.
_É impressão minha ou esses dois não se gostam muito? Seu Antônio fez a pergunta que todos ali queriam saber.
Marcos se adiantou para explicar.
_Eles tem uma implicância boba um com o outro... Alguma coisa de família. Mas uma coisa lhes garanto seu Antônio: são ótimas pessoas, cada um no canto...
Todos estavam cansados e desejosos de um bom descanso e logo rumaram para seus novos aposentos para organizar suas coisas e tomar um bom banho.
Subiram a escada em direção a seus quartos conversando animadamente: Clara e Sabrina sobre que roupa usariam na festinha. Caio e Marcos imaginando se haveriam quitutes interioranos — eram do time dos que apreciavam os prazeres da mesa.
Já Ferdinando, se preocupava com a difícil convivência que teria com a ruiva durante o período de estágio. Não seria nada fácil, mas ele era educado, calmo, maduro, e esse havia sido o último dia que a moça o abalara, prometeu.
E Gina? Bem, a ruiva já não pensava em mais nada: já dormia tranquilamente espalhada em uma das camas do pequeno quarto que antes só abrigava Juliana.
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