A represa

4 Amigos e um pouco de morte


Não, eu não estava apaixonado por ela. Talvez estivesse. Eu não sei. Eu acho que não causei nenhum efeito nela. Espero. Bom, mais um dia de aula se passou e mais um dia de trabalho também. Fui até a represa a noite me encontrar com Amy. Ela estava sentada com sua touca de sempre olhando para a represa. Quando eu sentei ao lado dela, ela disse:

— Hoje é meu dia de falar.

Olhei para a represa e ela começou:

— Eu nasci em uma cidade perto daqui. Meus pais me mandaram para cá morar com a minha vó porque eles não tinham dinheiro para me sustentar. Um ano atrás minha vó faleceu mas meus pais disseram que se eu quiser continuar a morar aqui, tudo bem. Eles ja resolveram os problemas bancários deles, mas eu prefiro ficar aqui.

— Você continua aqui por causa...

— Exatamente, por causa da represa. É como se ela me atraísse. Eu vejo meu irmão nela. Sinto tanto a falta dele. Ele é 6 anos mais novo que eu. Eu tenho 16, ele tem 10.

— Porque ele não volta?

— A pergunta deveria ser "como?". Ele foi morar com meu vô, em Londres. Meus pais resolveram os problemas bancários mas não podem comprar uma passagem de avião para cá.

— Eu também, quando olho para a represa vejo meus pais.

Ela deu um suspiro tentando disfarçar aquele ar tenso e pegou uma bebida em sua bolsa.

— Eu bebo e você fuma. Fazemos um belo par você não acha?

Nós dois rimos. Ficamos a noite toda lá deitados olhando as estrelas. Perto da meia-noite, ambos fomos para nossas devidas casas.

Passaram-se dias, semanas, meses. Todos os dias eu me encontrava com Amy na represa. Aos sábados, eu, Spencer e Justin íamos jogar golfe com Kaitlin, pois o pai dela era dono de um clube do lado da cidade. Quase todos os dias da semana eu saía com Justin e Spencer para rodear a cidade ou jogar video game. E aos domingos, nós cinco, Kaitlin, Spencer, Justin, Amy e eu íamos em cidades vizinhas comprar qualquer tipo de porcaria, tipo salgadinhos, chocolate, sorvete, refrigerante, bebidas, cigarros, etc para no final da tarde comermos tudo na casa de alguém. Éramos melhores amigos, passamos o ano todo fazendo loucuras.

Justin e Spencer não eram apenas melhores amigos, era na verdade, namorados. Achei muito ótimo que eles eram tão próximos e continuam sendo meus melhores amigos. No meio do ano entrou uma menina chamada Sasha Vilmer, uma menina loira de olhos claros. As vezes nos encontrávamos para fazer lição de casa juntos e tomar um café. Mas em todos os dia, o que eu mais esperava era a noite, para eu me encontrar com Amy. Eu não estava apaixonado por ela, ela era apenas uma grande amiga que eu gostava de passar o meu tempo em um lugar bom.

Eu fui até a represa e la estava ela, sentada segurado os joelhos com sua touca na cabeça. Quando eu cheguei ela não se virou então falei alguma coisa:

— Oi Amy. Ei, ei, ta tudo bem?

Ela realmente não parecia bem. Sentei ao lado dela e ela estava chorando. Quando eu me sentei ela se debruçou em cima de mim, me abraçando. Ela chorava muito, eu tentei acalmá-la porém ela estava soluçando muito.

— Meus pais me ligaram, Marty.

Quase não entendia oque ela falava.

— Calma Amy, estou aqui com você, acalme-se.

Ela suspirou e conseguiu falar um pouco, ainda chorando.

— A um tempo atrás, meu irmão, Travis, estava doente. Meu vô não achou que era nada de mais, bom, mas era.

— Sinto muito Amy.

Ela olhou para frente da represa, ainda com a cabeça deitada em meu ombro. Seus olhos estavam fechados procurando silêncio. Olhei para a água e me lembrei de quando meus pais morreram a um ano atrás. Quando eu saí do carro e estava andando para ir ao hospital, olhei para trás e vi os dois, sem vida. Fechei meus olhos durante pelo menos 5 minutos e depois fui. Aquela foi a última vez que eu os vi.

—----------------------------------------------------------------------

Amy faltou nos últimos dias de aula e depois férias. Ela não saía mais de casa. Nem para ir a represa. Ela de vez em quanto saía de carro e ia até outra cidade comprar comida para a semana inteira, mas só.

Bom, eu não deixava de ir à represa. Amy não era minha vida. Acho que ela precisava de um tempo sozinha em vez de pessoas amolando ela. Eu a respeitava.

Passou-se o ano novo e lá estávamos em Janeiro novamente. Hoje era dia 29, eu estava sentado olhando o reflexos das estrelas quando uma sombra aparece atrás de mim. Amy. Eu comecei a chorar desesperadamente, ela era a única que entendia minhas lágrimas. Era meu aniversário e aniversário de um ano que meus pais morreram. Ela sabia. Eu vim para cá dia 30, é claro que ela sabia. Eu deitei minha cabeça no colo dela e ali fiquei a madrugada inteira. Não falamos uma única palavra. Eu levantei minha cabeça e olhei para os olhos dela. Eu via meu reflexo nos olhos dela. Ela estava preocupada, estava atenta. Estava esperando um beijo. Eu me levantei, era 6:30 da manhã. Passei a madrugada inteira dormindo em seu colo e ela sentada olhando o nascer do sol. Eu me levantei e fui embora. Como no primeiro dia em que a conheci, parei na entrada, abaixei minha cabeça e disse:

— Obrigado.

Sim, ela estava brava, muito brava. Mas ela não expressava isso. Eu a respeitava e ela me respeitava. Ela não poderia me obrigar a beijá-la. Ela estava sempre ali para me ajudar. E eu sempre estava ali para ajudá-la.