Notas iniciais
Oioioi gente, como estão? Obrigado pelos comentários, já respondi todos, e realmente to muito feliz que vocês estejam gostando. E espero que gostem desse capitulo, pelo nome já dá pra gostar um pouquinho né? Hoje teremos mais participação da Regina, agora ela já está bem mais introduzida , ebaaa ... enjoy

A jovem moça ficou me encarando pelo que pareciam horas, mas só tinha passado alguns segundos, tive que engolir seco porque aqueles olhos duros estavam me queimando.

– Você pode bisbilhotar mais depois.- Ela disse rispidamente, me deixando indignada.

– O que disse?

Ela balançou a cabeça, arqueou uma das sobrancelhas e me pegou pelo braço me guiando pelo palácio. Poderia jurar que ela estava odiando a função de me levar até meu pai.

– Ei, eu posso andar sozinha.- Protestei.

Ela soltou meu braço sem pensar duas vezes, como se eu estivesse pegando fogo ou fosse a contaminar com alguma doença.

Caminhamos em silêncio por mais um corredor e descemos um longo lance de escadas — eu tinha que guardar esse caminho — até chegar a uma sala decorada por uma mesa enorme, onde David e Irina conversavam de pé perto de uma das cabeceiras. Eles abriram um sorriso ao me verem e acho que meu pai respirou aliviado. Deve ter pensado que eu havia fugido.

– Emma. Você sumiu! — Disse ele, aparentemente feliz com a minha aparição. Chegou perto e beijou meu rosto.

– Desculpa. — Disse envergonha. — Primeiro me perdi, depois encontrei uma biblioteca e quase desmaiei com tantos livros.

David e Irina soltaram uma gargalhada contagiante, mas minha "salvadora" continuou séria e rígida como os Dragões da Independência.

– Tudo bem filha, fique a vontade para explorar tudo no palácio. Tem minha permissão.

– Menos o jardim da ala norte. — Disse a jovem, me encarando como um gavião.

– Regina, querida, me desculpe não comentar sua presença.- Disse meu pai enquanto se aproximava da jovem.- Emma, essa é Regina Mills, minha quase filha.

Meus olhos, mais que depressa, voaram até a jovem emburrada, que levantou uma das sobrancelhas , numa atitude meio blasé¹

– Maravilhoso, cheguei bem no meio da reunião familiar.- Uma voz surgiu na sala, e logo um jovem alto dos olhos esverdeados se juntou conosco, todos sorriram, inclusive Regina.

– Agora me sinto completo.- Disse meu pai, com um sorriso iluminado.- Pensei que você não chegaria hoje Killian.

– E perder uma reunião familiar, da qual conta com a presença da minha querida e rabugenta irmã?. — Ele sorriu e abraçou Regina, em seguida abraçou meu pai, depois Irina, e então parou em minha frente, fez uma reverência e disse:
– Vossa Majestade, é uma honra conhecê-la. — Eu sorri, ele pegou minha mão. — Prazer, Killian Jones Mills a vossa disposição.

Killian era o gêmeo de Regina, mas eles não eram nada parecidos. Regina tinha um porte menor que Killian, era séria, fria e esbanjava confiança e confesso, um pouco sedutora. Killian era carismático, tinha um sorriso rico, era alto, olhos claros e vivos.

– O prazer é meu. — Disse, ainda observando Regina, que desviava o olhar toda vez que se cruzava com o meu.

– Killian, você não muda, não pode ver um rabo de saia que se abre como um flor. — Regina disse, como se quisesse interromper de propósito o momento descontraído que Killian criou.

– Ah Gina minha amada irmã, não fique com ciumes, você sabe que você é a mulher que tem a maior parte do meu coração. — Ele disse e a abraçou, um abraço apertado, como se eles estivessem a anos sem se ver.

Regina sorriu sinceramente, a primeira vez desde que nos esbarramos na biblioteca, e todos observaram a cena. Um sorriso parecido com o de seu irmão, mas estranhamente, o dela fez disparar meu coração.

– Já que estão todos aqui, posso mandar servir o jantar? — Irina perguntou, me tirando do desvaneio.

– Por favor Irina, estou com fome e tenho certeza que Emma também. — Disse meu pai, adivinhando meus pensamentos.

– Irina, você poderia por gentileza mandar servir no jardim de minha mãe? — Regina disse, me causando um estranho desapontamento.

– Claro Senhorita Mills.

– Ótimo, caso precisem de mim, estou no jardim, e por gentileza, não precisem. — Ela disse piscando para Killian e dando um leve tapa nas costas de meu pai. E saiu da sala, sem ao menos me olhar.

– Não se preocupe princesa, Regina demora um tempo pra se abrir, trata todos com indiferença, menos a Irina, eu e David. — Killian disse, enlaçando meus braços e de meu pai e nos guiando até a sala de jantar.

Eu e meu pai sorrimos. Estava me sentindo confortável com eles, o contrário do que pensei que me sentiria. Dei uma leve olhada pra trás, e senti um leve cheiro de maçã. Dela.

***

O dias seguintes a minha chegada, foram de reconhecimento de terreno. Ou seja, fui levada de um lado para o outro por Irina, meio clandestinamente. Meu pai ainda não tinha divulgado minha existência, estava preocupado com a minha segurança. E minha mãe preocupada no Brasil, para que eu não sofresse o assédio antecipado da imprensa. Sendo assim, para que as coisas acontecessem do jeito certo, David estava planejando um evento de apresentação de sua filha — ou seja, euzinha — ao povo da Krósvia. Em poucos dias, ele faria um comunicado oficial e divulgaria ao mundo que tinha uma herdeira legítima. Quando ele me contou tudo isso, comecei a rir. Fiquei me lembrando de um filme que vi sobre uma princesa americana recém-descoberta. Eu estava vivendo algo bem parecido, com a exceção dos cabelos indomáveis. Isso eu não tenho, graças a Deus.

Passei dias andando com Irina, ouvindo sobre a história de Krósvia, e conhecendo Perla. Era um lugar sensacional, a natureza ali era maravilhosa, e tudo, absolutamente tudo me encantava. E quando eu achei que não tinha mais o que conhecer e nem roteiros para fazer, Irina me aparece com mais coisas.

– Hoje, vamos seguir a trilha da moda e do consumismo.

Eu cheguei na Krósvia com uma pequena reserva financeira, que juntei durante o estágio e com a mesada que ganhava da minha mãe, para não quer que ficar pedindo dinheiro toda hora. Mas não demorou muito, para que David chegasse com um cartão de crédito e um sorriso nos lábios. Não adiantou argumentar, dizer que não precisava, coisa e tal. Ele colocou o cartão no meu bolso e ordenou: Use sem moderação.

Então Irina insistiu que eu precisava de roupas, sapatos, maquiagem. Então eu fui, fazer o que?

Sem que eu me desse conta disso, já estava enfiada num megashopping, gastando feito louca, comprando coisas que eu nem sonhava ter. Por sorte, as atendentes das lojas falavam inglês (o país estava bem preparado para o turismo) e não houve o menor problema de comunicação. Elas ficavam empolgadas quando Irina contava que eu era brasileira e faziam um monte de perguntas, a maioria do tipo: Você usa biquíni fio-dental? Ninguém merece.

No mesmo dia fomos a manicure, e ao salão. Irina insistiu para que eu fizesse algo radical no cabelo, mas estava satisfeita com meus cabelos louros e médios e não ia mudar de jeito algum.

Chegamos no palácio e eu estava exausta, mais faminta do que exausta na verdade, com tantas sacolas nas mãos, entrei encurvada na cozinha e avistei Cora, a cozinheira oficial do rei, e até então, minha primeira amiga na Krósvia.

Cora fazia o máximo que podia, e acreditem, o máximo dela era realmente o MÁXIMO. Ela aprendeu todos os meus gostos, e nessas duas semanas que eu estava lá, vinha me surpreendendo sempre com uma receita nova.

–Cora. — A chamei de um jeito carinhoso. — Estou faminta, preciso de energia.
Cora sorriu e rapidamente já foi preparando algo.

– Estou vendo que participou de uma orgia consumista.

A voz profunda me atingiu em cheio. Desde a minha chegada eu não vinha a dona daquela voz, o que eu não sabia ao certo se era ou não um alivio. Passei duas semanas sem vê-lá, apenas conversando com meu pai, Killian e os empregados, e conhecendo o país com Irina. E agora chega Regina, com essa frase carinhosa.

Respirei fundo, para responder a altura, mas foi só olhar pra ela que esqueci o que pretendia dizer.

Regina era estava extremamente elegante. Um vestido que realçava as curvas do seu corpo e um sapato que a deixava maior do que era, seu cabelo estava impecável, como se tivesse passado o dia no salão de beleza. Nos lábios, um batom vinho, e estava de óculos, o que a deixava completamente sexy. Mas pera ai, porque eu estou a definindo dessa forma? Afastei esses pensamentos e disse a unica coisa que consegui:

– É. — Minha boca estava seca. — Não resisti a tentação.

Epa! Frase ambígua. Droga, droga, droga! O sorrisinho safado que Regina esboçou era a prova de que tinha captado o duplo sentido.

– Fico feliz que esteja aproveitando seu tempo aqui da melhor maneira possivel. Afinal, de alguma forma tem que valer a pena né?

Franzi a testa. Não tinha a menor ideia do que exatamente ela estava falando. Estaria tirando uma da minha cara? Provavelmente. O santo dela definitivamente não tinha batido com o meu.

Cora nos interrompeu, colocando sanduíches na mesa e suco.

– Também preciso de energia.- Disse Regina.- Não pelo mesmo motivo, mas também estou um bagaço.

De repente perdi a fome, e só queria fugir pro meu quarto, pra longe daquele olhar pesado e provocador. Mas resisti e me sentei, Regina fez o mesmo, mas de uma forma muito mais elegante, cruzou as pernas fazendo seu vestido subir um pouco. Não sei o que diabos me deu, mas acompanhei com os olhos aquele movimento. Quando subi o olhar, ela estava me encarando com uma sobrancelha arqueada, fiz o mesmo.

No entanto, tudo o que eu consegui encarar foi a cicatriz no lábio superior. Era sexy. Muito. Engoli com dificuldade enquanto desviava o olhar para o armário das louças, para minha própria segurança.

– Estava reparando aqui. — Disse ela, começando uma conversa mansa, aparentemente despretensiosa, mas que eu sabia que era pura fachada. — Seu olhos são bonitos.

Oi?

– Muito sensuais. E a cor, esverdeados, lembra os olhos de Killian. — Ela continuou me estudando, como um rato de laboratório.

Uma gargalhada surgiu, e com ela Killian apareceu.

– Gina, está de bom humor hoje?

Regina sorriu de modo irritante, senti que seu cérebro estava trabalhando a mil, provavelmente para me envergonhar mais.

— Sabe de uma coisa? — perguntou ela. — Embora eu não acredite muito nessa história de filha perdida no mundo, até que você se parece com o David. Nem precisa fazer o exame de DNA, eu acho.- Disse, pegando um sanduíche e o copo de suco e se levantando.- E você sabe Killian, nunca estou de bom humor. — E saiu da cozinha, me deixando aliviada.

– Ela realmente nunca está de bom humor, mas raramente elogia alguém também. — Killian disse sorindo, e fazendo uma reverência. Ele sempre fazia isso quando me encontrava no castelo, era um palhaço.

– Ela acha que sou uma fraude? Uma golpista? — Perguntei, com nó no estomago.

– Eu raramente sei as coisas que minha irmã pensa, princesa.

***

EU: Minha vontade foi de jogar o copo na cara dela.

Já fazia meia hora que estava ao telefone com Ruby. Já que David me deu carta branca para gastar a vontade, que mal fazia umas ligações internacionais?

EU: Até agora estou sem acreditar que a idiota insinuou que eu sou uma fraude. Vê se pode Ruby, a um mês eu nem sabia onde Krósvia ficava no mapa.

RUBY: Emma, eu...

EU: Desde o primeiro dia ela me encara de um jeito irônico, com uma das sobrancelhas repuxada pra cima, me avaliando como se eu fosse uma biscateira.

RUBY: Sinceramente ...

EU: Você acredita que ela disse que nem vou precisar de DNA, já que me pareço "um pouco" com David? É muita cara de pau.

RUBY: Bom, talvez...

EU: Ela é muito elegante, e sexy. Parece ser inteligente, e tem pose de rainha, mas isso não adianta nada, já que quando abre a boca, perde todo o charme, ou parte dele já que tem uma voz sexy também.

RUBY: Bom ...

EU: Vou falar com David, pedir pra que ele evite qualquer encontro entre nós duas.

RUBY: Puxa...

EU: Ela nem parece ser irmã do Killian, ele é gentil, alegre, sorridente, conversa sobre tudo e me faz se sentir em casa. Totalmente o oposto da bruxa da Regina, ou seria a rainha má? Sinto que a qualquer momento ela pode aparecer com uma maçã envenenada. E ainda tem a cara de pau de elogiar meus olhos, ela não é louca?

RUBY: ...

EU: Ruby? Você está ai?

RUBY: Ah! Agora você percebeu, né? Não notou que eu não consegui formular uma única frase desde que você me ligou? Emma, está tão nervosa que ficou falando sozinha, de um jeito totalmente alucinado. Parece que a cópia da rainha má mexeu mesmo com seus nervos.

EU: Desculpa, Ruby. Mil vezes desculpa. Realmente não estou nos meus melhores dias, tudo por causa dessa, dessa... Aaaai! Nem consigo dizer o nome dela sem ficar brava! E era para eu estar no céu, já que comprei quase o shopping inteiro hoje.

RUBY: O que deu em você? Comprando feito louca, se zangando com uma desconhecida...

EU: Duas coisas: Um pai muito rico, e generoso. E uma enteada arrogante.

RUBY: Segura a onda ai. E sinceramente? Acho que a enteada arrogante está na sua...

EU (indignada): VOCÊ ESTÁ LOUCA? RUBY, MEU DEUS QUE ABSURDO.

RUBY: Não tem nada de absurdo Emma, conheço bem esse tipo, tenho certeza que ela está na sua.

EU: Ok Ruby, você pirou de vez ou não prestou atenção no que estou dizendo? É A ENTEADA do meu pai e não o ENTEADO.

RUBY: Não sou burra, mas pelo jeito você é. Acha que na Krósvia não tem mulheres que gostam de mulheres?

Engasguei.

EU: Ruby tenho que desligar, prometo que te ligo amanhã.

RUBY: Você adora fugir quando o assunto fica sério né Emma. Até amanhã.

Sai do meu quarto disposta a relatar tudo pro meu pai sobre sua enteada, se ela estava cismada comigo é porque tinha duvida das minhas intenções ali, cheguei até a pensar que quem estava com intenções duvidosas era ela, quem me garante que essa cisma não é porque ela acha que tem direito ao trono ou a herança do David? Já que ele a criou como filha... É agora eu entendia tudo.

Achei meu pai no seu escritório, uma sala bem aconchegante, com todo aparato do mundo para que ela pudesse ficar conectado ao mundo mesmo estando em casa. Percebi que ser rei é muito mais do que representar um país com roupas de príncipes de contos de fadas. David trabalhava o tempo inteiro, no castelo ou em qualquer lugar do planeta. Nunca desligava seus três telefones particulares, jamais saía sem seus assessores e vivia rodeado de políticos, que tinham uma ligação verdadeira com a Krósvia. Estavam sempre planejando coisas e tomando decisões importantes. Parecia até que eu estava no meio de um filme americano, daqueles que mostram o presidente deles — sempre muito altruísta — e sua filha em busca de liberdade. A única discrepância era a ausência da esposa forte e compreensiva.
Estava prestes a interromper fosse lá quem fosse quando escutei a já familiar voz expondo seu ponto de vista. Obriguei-me a ficar onde estava, bem imóvel para que eles não notassem minha presença. Sei que escutar a conversa dos outros é muito feio, mas não resisti à tentação assim que ouvi:

– David, sei que a Irina tem feito um trabalho excelente com a Emma e feito de tudo para ambientar ela, mas tem muito mais pra ela conhecer e aprender, e eu acho que posso ajudar.

Oi?

– Acho uma ótima ideia Regina. — Concordou David. — E fico feliz em saber que está disposta a ajudar. Não tenho conseguido conciliar o trabalho com os deveres de pai, apesar da Emma estar sendo compreensiva, sei que não de estar fácil.

Está sim. Facílimo.

– Então — Regina prosseguiu —, deixe a Irina cuidar dos preparativos para o evento de apresentação da Emma e eu fico responsável por ela, quero dizer, responsável por sua aculturação. O que acha?

Acho péssimo, terrível, detestável. O fim da picada.

– Perfeito. Você é jovem como ela e tem mais experiência, será muito bom pra ela.

– O que vai ser muito bom para quem?. — Resolvi interromper a conversa.

Os dois olharam pra mim na mesma hora, tentando descobrir de onde eu sai, fixei o olhar em meu pai que respondeu cheio de entusiasmo:

– Emma! Tenho ótimas noticias. Regina está se oferecendo para acompanhar você nos passeios pela cidade. Ela quer ajuda-lá a se ambientar, a conhecer nossa cultura e quem sabe até a língua?

Torci o nariz. David interrompeu meu gesto de forma errada.

– Ei não se assuste. O krosvi não é tão difícil assim.

– Não vai ser ótimo Emma? Quero levar você aos lugares mais incríveis, inclusive fora de Perla. — Regina disse, e era só sorrisos. Se eu não fosse um pouco esperta, ia achar que era a personificação da ingenuidade.

– Olha David, Irina tem sido maravilhosa. Não quero incomodar a Regina, sendo assim, posso me virar sozinha.

Meu pai caminhou até mim e passou um braço sobre meus ombros e começou a falar como se estivesse se dirigindo a uma garotinha que usa fitas rosas no cabelo.

– Filha, tudo bem. A Regina não se importa. E ela terá mais tempo para ficar com você. Está passando da hora de fazermos sua apresentação ao país e a Irina estará cem por cento envolvida nos preparativos. Faz mais sentido deixar a Regina fazer as honras da casa, já que eu não posso, infelizmente.

— É claro — concordou Regina, entusiasmado como um cachorrinho solto. — Além do mais, as pessoas podem começar a desconfiar da sua relação com o Daid. E se elas começarem a invadir seu espaço, bom, acho que a Irina não vai conseguir ser muito persuasiva.

Resolvi concordar, queria fazer de tudo para deixar meu pai feliz, ele merecia isso. Mas minha antipatia ainda reinava.

O celular do meu pai tocou enquanto ainda estava abraçado comigo, fazendo ele se afastar cedo demais, e me deixando sozinha com Regina. Eu deveria ter me mandado dali o mais rápido possível, porém, antes que eu me desse conta, ela segurou meu braço me tirando do escritório do rei.

No corredor, Regina aproximou o rosto de meu ouvido, sem me soltar, e sussurrou com uma voz deliberadamente sedutora.

– Esteja pronta amanhã bem cedo.

Minhas pernas instantaneamente ficaram moles. Quem ela pensava que era para fazer isso comigo?

— Venho te pegar às oito. — Disse se afastando e me olhando profundamente. — Vista algo confortável. Nem pense em colocar as lingeries novinhas da sua orgia consumista de hoje.

E foi embora, me deixando completamente confusa. O que foi isso?

***

Eu nunca me interessei por mulheres, nunca pensei sobre isso, só uma vez na época da escola quando ia as festas/baladas e abusava da bebida alcoólica, que acabei beijando uma garota, mas foi só isso. Vovó e mamãe sempre perguntavam sobre minha sexualidade, já que nunca apresentei um namorado, mas sempre achava engraçado já que jamais havia pensado sobre isso. Não gosto de rótulos, me sentiria confortável se eu me apaixonasse por alguém do mesmo sexo que eu, se fosse realmente o que eu queria. Calma ai, porque diabos estou pensando isso? Ah sim, por causa do maldito sonho que eu tive com a maldita enteada do meu pai.

EU: Porque está me olhando dessa forma?

REGINA: Qual forma?

EU: Como se quisesse me devorar.

REGINA: Talvez eu queira, princesa.

***

PAM!

Pulei da cama com o coração disparado. Estava no meio de meu sonho quando ouvi o barulho. Por um instante, pensei que estivesse em meu velho quarto em São Paulo e a faxineira, com toda a sua delicadeza, estivesse dando uma geral no apartamento. Mas não era nada disso. Foi só abrir os olhos para dar de cara com uma realidade muito mais assustadora. De pé, diante de mim, Regina exibia toda a sua sensualidade.

Estava vermelha por causa do sonho e por ela estar ali me vendo acordar, eu não era muito bonita quando acordava. Quis perguntar rapidamente o que ela estava fazendo ali, mas ela como sempre, foi mais rápida:

– Disse que te pegaria ás oito. Não tem responsabilidade com seus compromissos?

Encarei-a com os olhos pesados de sono. Gente, estava pra nascer alguém mais autoconfiante e sem noção. Como ela tinha coragem de invadir meu quarto? E se eu dormisse pelada ou estivesse toda aconchegada num ursinho de pelúcia? Não que eu tenha um. Quero dizer, tenho, mas não durmo com ele. Não mais.

Puxei meu celular da mesinha de cabeceira e constatei que passava das nove da manhã.

Regina saiu andando pelo quarto, puxando as cortinas e abrindo as janelas, como se fosse a dona do pedaço. Quanto a mim, não tinha conseguido recuperar minha voz ainda e só ficava olhando para ela, esperando acordar do que parecia ser um pesadelo.

– Vou estar na sacada. Você tem cinco minutos.

O pior foi que eu obedeci. Corri até o banheiro só para quase desmaiar assim que vi minha imagem no espelho. SOCORRO! Ajeitei-me como pude e, no closet, coloquei a primeira roupa que vi. Acho que cumpri o tempo que Regina me dera, pois, quando a encontrei na sacada, ela abriu um sorriso desconhecido até então.

Parecia verdadeiro.

– Agora você pode me dizer porque entrou no meu quarto desse jeito? No meu país isso se chama invasão de privacidade. — Disse de repente.

Ainda sorrindo, porém com um tom mais crítico, ela retrucou:

– Aqui, chama-se cobrar uma promessa.

– Eu não prometi nada a você. — Disse, cruzando os braços.

– Não conhece o ditado "quem cala consente" ?

Nossos olhares se cruzaram, e deixamos assim por um momento, como se estivéssemos disputando um jogo, quem desvia primeiro? Claro que eu perdi.

Apoiei-me na mureta da sacada e deixei a beleza da paisagem acalmar meus nervos. Eu tinha, de meu quarto, a vista mais esplêndida do mundo: o oceano azul, a areia branca e fina, as ondas em seu vaivém ritmado, montanhas ao fundo e pássaros marinhos sobrevoando tudo. Quando eles se cansavam da luta pela conquista de um peixe, pousavam nas rochas que contornavam o lado esquerdo da praia. Magnífico.

Acho que Regina percebeu meu encantamento, pois também se recostou na mureta, bem a meu lado, observamos a vista por alguns minutos, e eu podia sentir seu perfume, um leve aroma doce de maçã, leve mas embriagante.

– Deve ter sido maravilhoso crescer em um lugar assim. — Disse, tirando toda simpatia que existia em mim. — Eu cresci numa selva de concreto. Muitos prédios, pouquíssimas áreas verdes, muita poluição. Raramente via o mar.

– Fazia muito tempo que não vinha aqui no palácio. — Regina disse com o olhar ainda no mar.

– Por que?. — Eu sou curiosa, isso não é novidade alguma, me virei pra ela e fiquei esperando que me repreendesse, mas não foi que aconteceu.

– Eu não estava presente quando minha mãe adoeceu, estava viajando, curtindo, fazendo o que os jovens fazem, não imaginei que era algo tão grave. Então ela faleceu e ... — Regina parou de falar, como se tivesse perdido o fôlego. — Vamos, temos muita coisa para fazer hoje.

Ela virou as costas e saiu andando, e eu a segui. No caminho até a entrada do palácio ela ficou resmungando algumas coisas em krosvi, aposto que no meio disso, vários palavrões.

Minha primeira reação ao ver uma foto foi de desconfiança, depois fiquei com medo. Odeio motos, ficar sentada a dez palmos do chão em um veículo em movimento não é uma coisa agradável.

Regina riu e disse que eu não precisava me preocupar, pois a BMW S1000RR não deixava ninguém na mão. Palavras dela. Só que o pior não é deixar alguém na mão, mas sim estatelado no chão.

Delicada como um trator, ela me mandou sentar logo na garupa e nem se deu ao trabalho de me contar onde iríamos. Assim que me excaixei atrás dela, toda a minha insegurança foi embora. Eu estava completamente abobada com seu perfume, e a essa altura, já não estava mais preocupada com o sonho estranho que tive com ela.

Se Regina percebeu a situação, preferiu não comentar. Então, voamos do castelo direto para uma estrada de terra que cortava uma campina muito verde, salpicada de flores selvagens.

Embora o capacete me sufocasse um pouco, consegui sentir o perfume da natureza e fiquei absorvendo os aromas, quase em transe. Mas os aromas se misturavam com o perfume dela, eu conseguiria me lembrar desse perfume mesmo se estivesse em um local em chamas. Dizer que meu coração perdeu umas duas batidas seria mentir descaradamente. Ele deixou de bater por uns cinco segundos mesmo. E depois, quando voltou, espalhou uma onda de eletricidade por todo o meu corpo.

Cara, eu devo estar muito carente, pensei, bem a perigo mesmo, para ter uma reação dessas. Afinal, eu nem gostava dela. Não tinha a menor simpatia por ela.

Regina desacelerou e estacionou. Quando me dei conta do lugar que estávamos, quase perdi o fôlego. A praia paradisíaca.

– Este lugar é maravilhoso. — Saltei da moto suspirando.

– Você ainda não viu nada. — Disse Regina, pegando minha mão e me puxando consigo.

Procurei não dar atenção ao encontro de nossas mãos, unidas pelo único propósito de me guiar até onde Regina pretendia me levar. Mas que aquele contato inesperado mexeu com meus nervos, ah, mexeu. Ela podia ser a pessoa mais irritante do mundo, mas ainda assim sabia ser linda, e sexy.

Enquanto me puxava, reparei no movimento de suas pernas, e também no decote, que realçava seus peitos... Bom, melhor não dizer nada.

– Chegamos.

A voz de dela me tirou daquele transe perigoso e só então eu percebi que tínhamos caminhado por um bom pedaço da praia e estávamos sobre rochas, bem acima do mar.

– Quero que você conheça a caverna do pirata. — Exclamou ela, com um sorriso genuíno nos lábios.

– Caverna do pirata?

– Sim, nunca ouviu lendas sobre isso?

Neguei com a cabeça.

– Seu pai sempre trazia eu e Killian aqui, era nosso lugar favorito na infância.
– Por falar nisso, por onde ele anda?

– Quando saímos do palácio ele estava no escritório resolvendo algumas burocracias.

– Não meu pai. — Disse rindo, não sei porque. — Seu irmão, Killian.

– Ah claro. Ele está em Londres, foi visitar Henry, seu filho.

– Filho? — Perguntei espantada. — Não sabia que ele tinha um filho.

– Sim. Um descuido com sua namorada. Um descuido que nos trouxe uma alegria maravilhosa. — Ela tinha brilho nos olhos. — Henry tem três anos, é uma criança maravilhosa.

– E por que ele não mora no palácio com o Killian?

– Porque a namorada do Killian, Tinker, está em Londres estudando, seu curso deve estar no fim, então eles devem voltar para Krósvia logo.

– Preciso confessar que não tinha ideia que você era do tipo que além de gostar de motos, também gostava de crianças. — Disse num tom sarcástico, mas divertido.

Ela sorriu. E eu também, não pelo comentário, mas sim porque ela havia sorrido.

Sem dizer mais nada, entramos finalmente na Caverna do Pirata. E minha perplexidade só aumentou. Como o interior de uma rocha poderia ser ainda mais belo do que a praia de onde viéramos? Havia um lago transparente e as frestas entre as pedras faziam a luz do sol penetrar e ser refletida pela água cristalina. Um espetáculo! Meu corpo se arrepiou todo.
– Incrível. — Murmurei

– Não é? — disse ela, quebrando meu encantamento. — Esse lugar virou um dos meus refúgios. É para cá que corro quando as coisas não estão muito boas. É tão calma, solitária...

Gente, essa mulher era a mesma que tinha me arrastado outro dia da biblioteca e dito um monte de asneiras na minha cara no dia anterior? Porque não parecia. Não quando ela dizia aquelas coisas, não falando exatamente comigo, mas mais consigo mesmo.

– Entendo.

– Jura? — De repente, seu tom voltou a ser ácido. — Pois parece que você mergulha suas frustrações numa boa ida ao shopping.

Isso foi um tapa na cara. Depois de ser praticamente sequestrada e arrancada da cama, sem falar da viagem na garupa de uma moto a jato, e ser apresentada a uma paisagem de tirar o fôlego, eu esperava que as defesas dela contra mim tivessem desaparecido. Concluí que ela deveria ser bipolar. Só podia!

Afastei-me um pouco, procurando me concentrar nos detalhes da gruta, por exemplo, no arco-íris que se formava sobre o lago e no brilho das pequenas pedras em torno dele.

— Desculpe — Regina disse momentos depois, e eu a vi passar uma mão freneticamente nos cabelos escuros. Quando interrompeu o gesto, uma mecha caiu sobre um dos olhos e els retirou-a instintivamente. — Me expressei mal. Não quero implicar com você, pelo menos não agora, não aqui.

– E quer fazer isso depois? Posso saber o por que?

– Tenho meus motivos.

– Baseados em conceitos pré-concebidos, imagino.

Nossos olhares ficaram duelando e, pela primeira vez, notei um brilho diferente em seus olhos castanhos.

— A gente precisa voltar — disse ele. — Se quiser, depois posso trazer você para mergulhar.

Bipolar. Com certeza.

— Vamos ver — respondi, passando por ela e saindo da Caverna do Pirata, sem olhar para trás nem uma vez.

Voltamos para o castelo no meio da tarde. Eu estava exausta, suada e até meio molhada. Regina me deixou na entrada e foi embora, montada em sua moto de rebelde sem causa. Nisso ela me surpreendeu. Imaginava que tivesse um daqueles carros esportes, conversíveis e potentes. Não que a moto não fosse veloz — e garanto que era —, mas pensei que uma mulher como ela ficaria bem longe de uma máquina daquelas, para não estragar a unha ou o penteado. Bom, mas me enganei. Ela adorava emoções fortes e era bem chegada em esportes radicais.

Sentindo um nojo tremendo de minhas roupas e de meu corpo melado de sal e areia, corri para debaixo do chuveiro e deixei que a água lavasse os vestígios de nossa aventura — a primeira da minha vida, até onde me recordo. Tinha a intenção de falar com minha mãe e talvez com Ruby, mas deixaria isso para mais tarde, assim que me sentisse mais revigorada.

Notas finais
1) Blasé: Que exprime completa indiferença pela novidade, pelo que deve comover, chocar etc. E então? O que acharam? Desculpem se contém algum erro, revisei meio por cima ... Enfim, comentem o que acharam ta? Volto com o próximo capitulo rapidinho, ainda mais agora que a Regina ficou encarregada de mostrar tudo pra Emma no lugar da Irina õ//