A princesa de Krósvia

5 Lacey é nome de gente?


Notas iniciais
Oioi gente, como estão? Olha, to sendo bem legal viu, atualizando a fic dias seguidos, vocês estão ficando mal acostumados rsrs, já respondi todos os comentários, e queria agradecer os comentários de vocês, me deixa muito feliz e com mais vontade de escrever. Então, continuem comentando que eu continuo sendo boazinha rsrs ... Espero que gostem desse capitulo tanto quanto eu e por favor não me matem :p Ps: Quero deixar um beijo especial pra Clara, Milla e Fernanda, minhas amigas lindas do grupo, amo vcs suas chatas rsrs , então bora lá, aproveitem ai !!!

Na manhã seguinte, Regina não apareceu. Deixou um recado com Irina dizendo que não poderia sair comigo aquele dia. Fiquei desapontada porque havia acordado cedo , mas também porque seria um dia a menos convivendo com aquela implicância dela, um dia a menos sem sentir seu perfume.

De qualquer forma, como já estava de pé, aproveitei para dar uma volta, fazer uma caminhada pela beira da praia particular do palácio. Prendi meus cabelos num rabo de cavalo, e depois de tomar café sozinha mesmo, sai rumo ao sol.

Dei dois passos do lado de fora e fui "atacada" pelo Pongo, um dalmata enorme, que chegou todo assanhado, mexendo o rabo freneticamente. Ele enfiou o focinho na palma da minha mão, exigindo carinho.

Pongo é um dos cachorros do palácio, sapeca, adorava saltitar pela propriedade. Fuçava o jardim e deixava os empregados loucos. Por isso, quase sempre ficava de castigo, preso no canil. Acariciei atrás das orelhas dele e fiz sinal para que me seguisse. Pongo era moleque e partiu na minha frente, chafurdando na areia molhada.

Atrás dele, caminhei fazendo um balanço de minha vida nos últimos tempos.

Tanta coisa havia mudado, mas eu me sentia a mesma. Eu tinha um pai que, apesar de ser um doce e querer o melhor para mim, era muito ausente. Por outro lado, a saudade que sentia de minha mãe fortaleceu ainda mais meus laços com ela. Falávamos-nos quase todos os dias, por telefone, skype ou qualquer outro meio. Na noite anterior, ficamos cerca de uma hora conectadas. Ela me contou que o buffet estava a mil por hora e que vovó ia participar de uma maratona. Não sei por que isso não me surpreendeu. Minha avó tinha mais energia e disposição do que eu.

Também falei com Ruby, e gostaria muito que ela viesse para cá. A gente se divertiria horrores. Sugeri isso e ela quase desmaiou — pelo menos, foi o que demonstrou. Combinamos de arranjar a vinda dela para minha cerimônia de apresentação ao povo da Krósvia, mesmo eu não tendo ideia de quando isso aconteceria. Irina dizia que seria em breve, mas ainda não tinha uma data marcada nem nada. Eu queria só ver. Esperava que ninguém me obrigasse a vestir um traje de princesa, todo repolhudo, cafona e tal.

Agora, depois de meia hora de caminhada na areia, eu já estava suando. Então decidi mergulhar no mar, gesto imediatamente copiado por Pongo. A água estava fria, mas nem liguei. Achei a sensação deliciosa e fiquei nadando e furando ondas durante um tempão. Assim que cansei daquilo, estendi uma saída de praia na areia e deitei sobre ela, tendo o cuidado de não encostar o corpo molhado nos grãos para não virar um filé empanado. Pongo se deitou a meu lado, todo fiel, e nós dois curtimos uma boa manhã na praia.

Não demorou muito e meu estômago deu sinal de vida. Que inferno, eu vivia para comer naquele lugar! Tinha mais é que caminhar mesmo.

Corri até a cozinha, farejando o aroma de coisas gostosas. Como previ, Cora preparava um molho para rechear a torta que serviria no almoço. Cheguei por trás dela e a agarrei pela cintura. Ela deu um pulo, segurando o peito.

— Menina, assim você me mata! Que susto! — exclamou, toda esbaforida, para me dar um sorriso supercarinhoso em seguida.

— Puxa, Cora, estou com uma fome...

— Senta aí que eu te sirvo. O que quer? Uma saladinha de frutas? Suco?

— O que eu queria mesmo não existe aqui na Krósvia. Chama-se pão de queijo. Conhece?

Ela olhou para o alto, refletindo.

— Pão de queijo? Acho que não. Como é?

De repente, tive uma ideia.

— Cora, eu sei fazer pão de queijo! Aprendi com minha mãe um tempo atrás e me lembro da receita. Posso te ensinar?

— A se-senhorita? — gaguejou. — Me-mexer na cozinha? Seu pai me mata.

— Ah, deixa disso! Eu sou boa de cozinha. Lá no Brasil, quando estou com fome, quase sempre me viro sozinha. Não faz diferença estar lá ou aqui. E então? Quer ou não quer aprender? Garanto que não vai se arrepender...

— Tem certeza? — Ela ainda estava insegura. — Ai, meu Deus, se seu pai descobre...

— Ele não vai fazer nada. — garanti. — Aliás, ele vai adorar poder comer os pãezinhos depois. Vamos! Me ajude a juntar os ingredientes.

E foi o que Cora fez. Ainda bem que tínhamos tudo, afinal, a receita do pão de queijo até que é simples. Então, depois de limpar a areia das mãos, comecei a dar a primeira aula de culinária de minha vida — o que jamais imaginei que fosse fazer um dia. E minha aluna não era qualquer uma, não. Era simplesmente a cozinheira chefe do castelo da família real da Krósvia. Se minha mãe me visse agora...

— O único problema, Cora, é que não temos queijo Minas. Vamos ter que improvisar com este aqui — avisei.

Ela me olhava atenta, encantada por estar aprendendo uma nova receita, que depois poderia ser servida nas mais variadas ocasiões.

— Quando um chefe de Estado vier se reunir aqui com o David, você pode servir pão de queijo, que fica bom com vários acompanhamentos. O ilustre visitante vai te elogiar e até querer levá-la para o país dele. Já pensou?

Rapidamente o cheiro do pão de queijo invadiu a cozinha. A essa altura, várias ajudantes de Cora nos rodeavam, aguardando ansiosas o resultado de nosso projeto. Não revelei isso, mas eu também estava na expectativa. Se ficasse ruim, acho que morreria de vergonha.

Enquanto o tempo passava, sentei-me na bancada da pia e fiquei mordiscando uma maçã. Cora voltou para o molho dela e ambas esperamos num silêncio confortável, só interrompido por uma voz que começava a assaltar com certa regularidade meus pensamentos.

– Hummmm... Que cheiro é esse?

Regina. Ela nunca aparecia sem fazer uma entrada triunfal. Parecia que ficava esperando o momento certo.

Pulei da bancada e dei as costas para ela. Achei melhor ir checar os pãezinhos em vez de olhar para seu rosto tão rapidamente. Sabe-se lá o que Regina poderia ler em meus olhos.

— Oi, minha filha! Chegou na hora certa — Cora saudou-o com entusiasmo, indo até ela para dar-lhe um abraço. Não deixei de observar que Regina retribuiu da mesma maneira. — A Emma acabou de preparar uma receita nova, típica lá do Brasil, sabe? Pão de queijo.

Endireitei o corpo e olhei para ela. Não posso afirmar se o que vi foi real ou se minha imaginação hiperativa me levou a enxergar aquilo, mas tenho quase certeza de que os batimentos cardíacos de Regina passaram por uma ligeira alterada. Não sou paranormal, não leio pensamentos nem tenho pressentimentos, mas parece que a veia da testa dela ficou mais alta. Só isso, e só talvez; não estou afirmando.

Outro detalhe: Regina estava de roupa social. Era a primeira vez que eu a via assim. Como defini-la? Maravilhosamente sexy, talvez.

Então ela se aproximou devagar e estendeu o braço em minha direção. Ela vai me tocar! Pensei, excitada demais para meu gosto. E foi exatamente isso que Regina fez, mas não para um carinho nem nada. Com o polegar, ela limpou algo que estava sobre meu nariz, bem na ponta.

– Farinha. — Disse ela, sorrindo com apenas um dos cantos da boca.

Afastei-me depressa, levando automaticamente uma das mãos ao nariz. Roxa de vergonha — e com o coração aos pulos —, agradeci, meio sem jeito, voltando a olhar para o forno. Eu não queria tentar explicar o frio na barriga que senti quando ela encostou o dedo em mim.

— O pão de queijo está pronto — anunciei. — Espero que esteja bom.

Cora me ajudou a retirar o tabuleiro do forno. Pela cara, os pãezinhos só poderiam estar ótimos. Regina, posicionada estrategicamente atrás de mim, perguntou:

— Desde quando você sabe cozinhar?

Ainda sem encará-la, fui retirando os pãezinhos, um a um, e ajeitando-os numa cesta de palha, delicadamente forrada com um pano bordado à mão.

— Para seu governo — respondi —, aprendi com minha mãe, há muito tempo. — Estendi a cesta para Cora primeiro e depois para Regina. Enquanto as duas provavam o famoso pão de queijo mineiro, continuei tagarelando: — Caso você não tenha percebido, não nasci em berço de ouro e sei me virar sozinha desde pequena. Na minha casa não fico esperando minha mãe me dar tudo de mão beijada, como se eu fosse uma princesa afetada.

Tive vontade de engolir o restante daquela frase absurda. Mas nem Regina nem Cora prestaram atenção a nada que eu disse. Elas estavam se deleitando com o pão de queijo, comendo um atrás do outro, como se fosse um manjar dos deuses.Fiquei toda orgulhosa.

Fingi que não notei e perguntei, sendo humilde:

— E aí? Ficou aceitável?

Cora me olhou com os olhos esbugalhados e só soltou um huuuummmm bastante significativo. Regina grudou o olhar em minha saída de praia meio transparente e disparou uma de suas já famosas pérolas:

— Já vi que você é cheia de surpresas, né?

Não consegui identificar a real intenção daquele comentário, mas, de certa forma, aquilo me animou. Um pouco.

Juntei-me a elas na mesa e procurei manter um clima superficial, como se aquela cena fosse comum no meu dia a dia, se é que se pode chamar de normal estar sentada à mesa da cozinha de um castelo verdadeiro, de frente para uma cópia de rainha má danada de charmosa, comendo pão de queijo.

— Você deu um jeito de se divertir sozinha hoje, pelo visto — observou Regina, voltando a encarar meus trajes sumários. — Tive uns contratempos...

Ela foi interrompida pelo toque de um celular: o dela. Sua expressão adquiriu um tom sério assim que leu o nome no visor do aparelho. Fiquei doida para saber quem era, mas fingi não ter prestado atenção. Porém, para minha decepção, toda a conversa ocorreu em krosvi e a única palavra que consegui identificar mais ou menos foi “Lacey¹”. Ela poderia estar falando sobre um cachorro, uma marca de carro ou sobre qualquer outro assunto. A meus ouvidos analfabetos na língua daquele país, nada daquilo fazia o menor sentido.

Sem parar de falar, Regina se levantou e começou a andar pela cozinha, indo para lá e para cá de forma inconsciente. Cora se aproximou de mim e cochichou:

– Aposto que é a Lacey.

Hein?

– Quem é a Lacey? a cadelinha dela?. — Não consegui deixar de ser irônica.

Sem perceber o tom, Cora riu.

– Não, Emma. É a namorada dela.

***
Primeiro: Lacey, no meu país, é nome de cachorro, sim.

Segundo: namorada? Como eu não ficara sabendo, depois de todo esse tempo? Não que eu tivesse direito a algum tipo de explicação e tal, mas esse é o tipo de informação que não se deixa de fora. Não é?

Bom, está certo que eu nunca perguntei — nem jamais perguntaria, que isso fique bem claro — e o assunto nunca surgiu de fato. Seria meio esquisito se Regina tivesse dito: “Olha, aquela é a Caverna do Pirata. Ah! E eu tenho namorada”. Ou: “Você se parece muito com o David. Nem precisa fazer exame de DNA. E, a propósito, eu tenho namorada”.

Mas agora eu não me permitiria nem mais um pensamento incensurável. Nunca mais olharia para aquela cicatriz sexy. Nem sequer andaria na garupa da BMW sei lá das quantas. Ou melhor, poderia até andar, mas seguraria na própria moto. Nada de agarrar a cintura dela e ficar sentindo o cheiro que vinha do pescoço dela.

Oh, céus!

Ainda bem que sou uma pessoa lúcida, madura e sei lidar muito bem com esse tipo de situação. De qualquer forma, assumo que senti um prazer gigante quando Cora contou que a tal Lacey era uma patricinha e que ninguém ia muito com a cara dela. Quando ela disse ninguém, referiu-se, na verdade, a ela mesma, Irina e os outros empregados do castelo. Porque aparentemente a moça era bem esnobe.

Segundo Irina, Lacey era filha de um antigo adversário político de meu pai. Rumple, e agora, o cara era senador e tinha muita influência no Congresso. Ela fizera faculdade de Administração na Inglaterra e trabalhava na empresa da família: uma fábrica de peças de avião. Moça poderosa!

Regina e Lacey estavam juntas havia dois anos, de acordo com a boca miúda de Cora, e a garota estava doida para enfiar uma argola dourada no dedo anelar da mão esquerda. Mas Regina ainda não se decidira, embora o tal senador estivesse fazendo uma certa pressão, do tipo “ou casa ou cai fora”.

Eu nem sabia que a Krósvia era permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Aliás, nem sabia — eu só desconfiava — que Regina realmente era lésbica.

Assim que Regina desligou o telefone, olhou para mim meio sem graça e deu uma desculpa qualquer para sair às pressas, não antes de confirmar uma nova excursão no dia seguinte. Eu deveria ter recusado, devido à reviravolta no contexto, mas fiquei bem quietinha e concordei com a cabeça.

Com a deixa, fugi da cozinha, pronta para me enfiar no chuveiro e tirar a mistura de sal e areia do corpo. No entanto, fui obrigada a adiar meu compromisso com a sessão de limpeza corporal, pois trombei com Irina nas escadarias e ela acabou me puxando para uma conversa em seu escritório.

— Está vendo esta papelada aqui? — indagou, segurando um bolo de papéis e sacudindo-os na minha frente. — Está tudo planejado, Emma.

— Planejado? — Não consegui captar seu raciocínio.

— Sim. Sua apresentação à população da Krósvia como filha do rei David Markov! — anunciou, como se estivesse fazendo uma tremenda revelação. — Tudo resolvido. Ah, seu pai vai ficar tão feliz! Finalmente ele vai poder contar ao mundo que tem uma filha e mostrar a todos como você é linda e adorável.

Sorri, meio sem jeito. Irina podia ser como um canarinho amarelo saltitando sobre o alpiste, mas era também uma pessoa incrível.

Então, lembrei-me de algo que vinha me perturbando ocasionalmente:

— David tem uma irmã e sobrinhos. Por que ainda não os conheci? Eles não sabem de nada também?

— Não. Seu pai quer contar pessoalmente e não teve tempo para fazer isso. Mas vai fazer antes da apresentação oficial. Parece que na semana que vem.

Assenti. Como seriam essas pessoas? Meus parentes de sangue, mas sujeitos completamente estranhos e sem significado para mim. Será que me aceitariam? Que me entenderiam?

— E quando vai ser o evento? — quis saber. — Demora?

— Daqui a 20 dias, se seu pai confirmar a data para mim.

De repente, tive uma ideia brilhante:

— Irina, será que posso convidar minha mãe e meus avós? E também minha amiga Ruby? Seria tão maravilhoso poder contar com eles aqui nesse dia! Minha avó ficaria maluca, tenho certeza.

— Claro que pode. Regina já havia comentado isso com seu pai e ele concordou.

— Regina?

— Sim. E não comentamos nada porque queríamos fazer uma surpresa.

Dei a Irina meu sorriso mais genuíno, além de um abraço apertado. Se todos topassem, tudo ficaria mais que perfeito.

Fiquei surpresa que Regina tinha tido essa ideia primeiro que eu, mas ainda com a história da namorada Lacey na cabeça, aproveitei a presença de Irina para fazer mais perguntas, de uma forma bem sutil, é claro. Afastei-me da secretária de meu pai e fingi estar compenetrada na paisagem do lado de fora da janela. Então, mandei:

— A Lacey ainda não apareceu desde que cheguei — comentei com uma inocência tão fingida quanto o amor dos políticos brasileiros pelas criancinhas pobres. — Ela não costuma vir aqui com a Regina?

Sem tirar os olhos de sua papelada, Irina respondeu, muito pouco interessada no assunto:

— Regina vinha aqui muito pouco, Lacey quase nunca.

— Por quê? Ela trabalha muito? — Precisei aumentar meu poder de persuasão.

Não sei por quê, mas eu estava empenhada em saber tudo sobre o namoro até então desconhecido de Regina com a Nome de Cachorro.

Irina suspirou e foi a primeira vez que demonstrou uma ligeira irritação na voz.

— Sim, ela é ocupada demais e não gosta muito do clima bucólico do castelo.

Entendi. Melhor mudar de assunto. Lacey não era o tema preferido de Irina para uma conversa amistosa. Despedi-me dela, mais uma vez agradecendo pelo carinho que tivera comigo.

***

Os dias seguintes foram bastante agitados e diferentes. Caí numa rotina com Regina, mas uma rotina boa. Não tomei mais nenhum bolo dela, que me levava para conhecer os lugares mais legais do mundo. Eu levantava cedo, tomava café na cozinha e às nove horas já estávamos de saída.

Admito que uns dias eram melhores do que outros. Algumas vezes, Regina chegava para me pegar com um humor tão obscuro que era melhor ficar na minha, deixando a poeira se assentar sozinha. E, quando eu menos esperava, estava ela toda alegre, falando besteira, deixando o clima leve e agradável.

Ela nunca mencionou o nome da namorada. Por alguma razão, esse era um assunto que não fazia a menor questão de dividir comigo. Aliás, jamais falávamos sobre nós mesmos, nem de nada profundo. Só amenidades entravam em nosso repertório. Melhor assim. Sem tentações, sem riscos.

Naquela sexta-feira, estávamos tomando sorvete na praça de uma cidadezinha rural ao norte de Perla. Não era a primeira vez que saíamos da capital. Já haviam se tornado comuns os passeios pelo país afora, que não é tão grande assim. Para dar uma ideia da coisa, a Krósvia é do tamanho do Rio Grande do Sul. E tudo dentro de seus limites é lindo, seja na região urbana, seja no campo.

Escolhi um sabor diferente, meio picante. Enquanto degustava meu sorvete, concentrada nas crianças que corriam entre os bancos, Regina perguntou de supetão:

— Você tem namorado?

Engasguei na mesma hora. Dei uma abocanhada tão enorme no sorvete que ele desceu rasgando minha garganta, fazendo minhas narinas arderem e meus olhos se encherem de lágrimas.

— Não — gemi.

– Hum.

– E você com sua namorada, por que nunca disse nada?

Ai, minha mãe, foi só eu dizer isso que quis engolir tudo de novo. Para todos os defeitos, Regina não sabia que eu sabia sobre Nome de Cachorro.

Ela franziu a testa. Senti que o clima ia azedar.

– Como sabe sobre a Lacey?

Eu quis mentir, juro. Inventar uma desculpa qualquer, dizer que joguei verde. Mas a palavra Lacey, proferida de forma tão séria por aquela boca linda, me fez ter uma crise de risos. Daquelas bem demoradas, que fazem a gente perder o fôlego e o nariz escorrer.

Regina ficou me olhando como quem olha para uma louca de pedra.

— Desculpa — disse, enxugando as lágrimas e tentando me recompor.

— O que é tão engraçado?

— Nada.

— E então? Vai dizer como ficou sabendo sobre o meu namoro?

Suspirei. Eu não podia entregar Cora.

— Bom, eu só fiquei sabendo, nem lembro bem como.

— Sei. Como se ninguém tivesse feito uma fofoca sobre isso, certo?

Fofoca?

— Fofoca? — Eu me fingi de indignada. — Nada disso. Foi só um comentário que escutei, nada de mais. E por que está tão nervosinha? Por acaso namora escondida? Eu, hein! Se namora, assume!

E saí toda enfezadinha, marchando feito um soldado norte-coreano bem treinado. Na verdade, eu estava mesmo era com raiva. Por que Regina sempre conseguia me tirar do sério?

Mas ela me alcançou logo e segurou meu braço, obrigando-me a ficar de frente para ela.

— Ei, calminha. Não precisa ficar brava. Eu só achei que você não soubesse. Mas tudo bem. Não é segredo.

Fiz que sim com a cabeça. No entanto, eu preferiria que Regina tivesse dito que era tudo mentira. Só não me peça para explicar por quê.

— Vou conhecer uns parentes amanhã. — eu disse. A mudança brusca de assunto foi intencional. — Moram lá em Craiev. Conhece?

— Claro. A tia Ariel, o marido e os filhos. São ótimas pessoas, você vai ver.

Uma vez perdido, o clima ameno não se restabeleceu entre nós. Voltamos para casa sem falar muito e, pela primeira, vez agradeci por estar na garupa da moto, cujo barulho não permitia conversas.

Eu já estava praticamente dentro do castelo quando Regina me chamou e disse algo que nunca vou esquecer:

— Eu não queria estragar nossos momentos com um assunto tão complicado.

E aí ela partiu, deixando um rastro de poeira atrás de si e infinitos grilos em minha cabeça.

Notas finais
1) Lacey é a Belle, ia colocar o nome de Belle mesmo mas escolhi de Lacey porque é meio que nome de cachorro e achei engraçado hahahaha pra quem assiste ouat lembra da Belle como Lacey né? Enfim... O que acharam? eu gostei muito de escrever esse cap, espero que vocês gostem também, comentem ai o que acharam, sejam legais comigo que eu volto rapidinho #chantagem ... beijosss