A princesa de Krósvia
6 Almoço vs Jantar
Notas iniciais
Sabe quando o professor marca prova oral e você fica esperando sua vez de ser chamada? As mãos ficam geladas, o coração bate acelerado, a garganta se fecha. Não é assim?
Pois eu estava me sentindo desse jeito a caminho de Craiev. Tudo bem que David estava a meu lado — ou melhor, no banco da frente — e, pela primeira vez desde que cheguei à Krósvia, éramos só nós dois. Exceto pelo motorista, Daniel.
Para não chamar a atenção, David abrira mão de visitar a irmã num dos carros da família real. Fomos num veículo alugado por Daniel, como dois meros mortais. Aparentemente, a viagem seguia tranquila. Sem o celular na orelha e o notebook no colo, meu pai e eu estávamos conseguindo desenvolver uma conversa com mais de cinco frases. Falamos do tempo, de meus passeios com Regina, de minha adaptação, da festa de apresentação da filha do rei para o povo... Assuntos não faltavam.
David é um sujeito interessante. Ele sabe escutar quando alguém fala com ele e raramente julga as atitudes das pessoas. Quando revelei que estava com medo de aparecer na frente de todo mundo, ele concordou com a cabeça e se virou para apertar meu joelho. Em momento nenhum disse que seria fácil. Não mentiu. Isso, de certa forma, era reconfortante, pois eu soube que podia confiar nele.
Apesar disso, nada tirava de mim a aflição por estar indo conhecer meus parentes. Agora a tal da tia Ariel já sabia sobre mim. David não quisera chegar à casa dela de supetão e dizer: Eis aqui minha filha Emma. Preferira prepará-la primeiro. Melhor assim, eu acho.
E até que a reação dela fora bem tranquila. De acordo com meu pai, minha nova tia recebera a notícia com euforia. Eu queria só ver.
Mas não era só isso que estava me atormentando. Desde o dia anterior, eu sentia meu coração perder um ou dois compassos sempre que pensava em Regina e naquela despedida esquisita. Duas coisas ficavam martelando minha cabeça: ela ter dito “nossos momentos” e “assuntos complicados”. Por que, como assim? O pronome nosso é tão íntimo, não é? Eu acho. Nosso é meu e seu, é compartilhamento. Se os momentos eram nossos, é porque deviam ser especiais. Será que eu estava viajando nas ideias?
E se os assuntos eram complicados, significava que o relacionamento delas não estava bom? Por mais que eu não fosse “a melhor amiga” de Regina, era muito esquisito eu nunca ter sido apresentada a tal Lacey. Namorados(as) não vivem sempre juntos(as)? Pelo menos, é isso que se espera deles(as), ora.
O que eu precisava mesmo era deixar aquela maldita frase de lado e esquecer tudo. Estava só de passagem na Krósvia e, em breve, tudo voltaria ao normal. Ou seja, eu, no Brasil, sendo simplesmente Emma Swan, sem Markov.
Por falar nisso, David queria porque queria mexer em minha certidão de nascimento. Ele fazia questão de preencher o campo PAI em meu documento, vazio desde que nasci. Tudo bem. Eu aceitei acrescentar o sobrenome Markov a meu nome. Tá, tá... Fiquei feliz. Muito. Pronto, falei.
– Olhe ali a casa da sua tia, Emma.
De repente, a viagem acabou. Meu pai interrompeu meus pensamentos e meu nervosismo subiu à quinta potência.
Enquanto Daniel manobrava o carro, fiquei olhando para o lugar. Craiev era uma cidade do interior, mas nem por isso parada no tempo. O bairro de Marieva era bem moderno e cheio de construções novas — e caras.
– Dê uma olhada pra lá.
Ao virar o rosto na direção apontada por David, dei de cara com três crianças paradas na varanda. Atrás delas, uma mulher mais velha do que eu acenava para nós com um imenso sorriso nos lábios. Respirei fundo para adquirir confiança.
Desci do carro com as pernas bambas. E, antes de dar dois passos, fui atingida por três cabeças loiras e seis braços branquíssimos. Meus primos.
— Crianças, deem espaço para a Emma. — Ariel também se aproximou. — Ela deve estar cansada. — Então ela me viu de perto. E abriu a boca num “o” chocado.
— É a sua cara, David!
A constatação foi imediata, assim como o abraço que recebi em seguida. Afinal, a tia Ariel parecia ser tão simpática quanto o irmão. Ufa!
– Oi. — Disse completamente sem graça.
As crianças continuaram me rodeando, como se eu fosse um duende do Papai Noel. E eram tão fofas! Duas meninas e um menino, o menorzinho de todos. A euforia deles era tanta que me abaixei para igualar nossos tamanhos. Falei:
– Oi, eu sou a Emma! Tudo bem?
A garotinha do meio, desde já mostrando-se a mais articulada, respondeu em inglês, que é definitivamente a segunda língua do país:
— Sim! Eu sou a Lexie, minha irmã é a Grace e o pequeno aqui é o Neal. É verdade que somos primos?
Uns fofos mesmo. Aquele pedacinho de gente não poderia ter mais do que 6 anos.
— Sim — disse Ariel, puxando-me pela mão e mais uma vez me encarando. — Estávamos ansiosos para conhecer você, Emma. Quando seu pai contou a história sobre vocês, fiquei muito contente. Só achei um absurdo ele ter demorado tanto para me contar. Eu teria ido a Perla para recebê-la.
Sorri e completei.
— Também estava ansiosa. Até com medo — confessei. — Não sabia como seria recebida.
— Que bobagem! — Ela passou o braço sobre meus ombros, um gesto tão casual, mas ao mesmo tempo carinhoso. — David merecia esse prazer na vida.
Vi meu pai revirar os olhos. Estava constrangido, sim, mas também orgulhoso, como pude constatar pelo brilho no olhar.
Fomos caminhando em direção à casa, tão chique como as que vemos nas revistas de decoração. Meus três priminhos saltitavam atrás de nós e volta e meia tentavam chamar minha atenção. Tão lindos! Todos loirinhos. Mas, enquanto as meninas tinham cabelos lisinhos e cortados à altura das costas, Neal parecia um anjo. Era cheio de cachinhos que desciam pela testa, orelhas e nuca. Os olhos dos três eram tão azuis que lembravam o mar num dia bem ensolarado.
Ariel era assim: ruiva, muito branca, de olhos esverdeados. Somente o formato do rosto lembrava um pouco o de David. Mas ela também era bem bonita e jovem. Calculei que devia estar na casa dos 37 anos.
— O Eric está lá nos fundos — anunciou minha nova tia. — Insistiu em preparar um churrasco, porque leu não sei onde que os brasileiros adoram. Verdade, Emma?
— Sim. Adoramos. Nós, brasileiros, amamos comer e eu, particularmente, sou fã de uma boa carne.
David deu uma gargalhada forte e comentou:
— É verdade, Ari. A Emma é uma comilona e também sabe cozinhar muito bem. Outro dia ela ensinou a Cora a fazer pão de queijo. Você acredita nisso?
Agora foi a vez de Ariel gargalhar.
— Como foi que conseguiu essa mágica? Aquela lá não deixa ninguém entrar na cozinha dela.
Dei de ombros. Não era nada de mais, de qualquer forma.
Fui conduzida pelo andar de baixo da casa, sempre escoltada pelos três irmãos. Não pude reparar em muita coisa, pois poderia parecer bisbilhotice, mas notei a decoração de excelente bom gosto e o estilo moderno do lugar. Bem diferente do Palácio Sorvinski, com certeza.
David me contou que minha tia era uma mulher muito engajada em causas sociais, embora tivesse dinheiro para comprar uma ilha. Era formada em antropologia, trabalhava como pesquisadora numa universidade de renome na Krósvia e ainda era voluntária numa entidade assistencial que cuidava de crianças órfãs. Além de ser mãe e esposa. Que jornada, hein!
Já o marido dela, o tal Eric, era empresário. Nascera na Itália e se mudara para a Krósvia para expandir os negócios do pai, que consistiam em nada mais, nada menos do que uma vinícola superfamosa. Com a mudança, ele levara a marca para o país vizinho e simplesmente multiplicara o faturamento da empresa. David disse que Eric exportava vinho para o mundo inteiro, inclusive para o Brasil. E passava mais tempo na fazenda — em Craiev mesmo — do que em casa. Agora, não me pergunte quando é que esses dois pais atarefados tinham tempo para aquelas três crianças. Vai saber.
Depois de percorrer uma sala ampla e clara e atravessar uma cozinha cheia de aço inoxidável, chegamos ao que só podia ser o jardim de tia Ariel. Ou terreiro, sei lá. Na verdade, era uma área enorme, toda gramada, com uma piscina no centro, contornada por um caramanchão ornamentado por trepadeiras floridas, muito parecidas com as nossas conhecidas buganvílias.
Para um dia frio como aquele, nadar era uma opção descartada. Mas as crianças estavam mais interessadas em mim do que em diversão. Ou será que eu era a diversão do dia?
Eric largou a churrasqueira para vir nos receber. Ele tinha o porte de um homem bemsucedido, sem sombra de dúvida. Caminhou até nós com altivez e elegância, sem deixar de sorrir por um segundo sequer. Mas não um sorriso simplesmente simpático ou amistoso. Isso também, mas muito mais de sondagem misturada com poder, se é que eu tenho feeling para perceber esses pormenores.
Feitas as apresentações, iniciamos nossa jornada em busca do clima perfeito, ou seja, todo mundo tentando me deixar relaxada, apesar de quererem me encher de perguntas. Mas ficaram nas amenidades, tipo:
— Está gostando da Krósvia?
— Já se acostumou com o clima?
— Tem tido tempo de passear?
E por ai vai.
Claro que eu respondia tudo na maior boa vontade, até porque preferia falar sobre essas coisas a entrar num terreno mais constrangedor. Por exemplo, não seria nada confortável contar a história de como David e eu nos conhecemos. Ou por que minha mãe nunca dissera nada sobre mim a meu pai.
Mas captei toda a curiosidade saindo pelos poros de Eric, que estava se segurando para não ultrapassar a barreira do constrangimento. Mais em respeito a meu pai, óbvio. Não sei, não, mas o cara ficava me olhando de um jeito desconfiado, mais até do que Regina nos primeiros dias. Ah, não! Mais um para achar que sou biscateira. Fala sério.
— É verdade que as brasileiras usam biquíni fio-dental?
De repente, passamos a escutar o canto dos pássaros. E o zunir dos mosquitos. Dá para acreditar que a pequena Lexie tinha acabado de me fazer essa pergunta? Parecia brincadeira.
Tia Ariel, vermelha feito a bandeira da China, tossiu, mas logo recuperou o ar e disparou:
— O que é isso, menina? De onde tirou essa ideia?
— Ué, meu p...
— Ninguém disse nada, não é, meu bem? — Lexie foi interrompida por um Eric encabulado. — Ela deve ter ouvido isso na televisão.
— Mas como é um biquíni fio-dental? — insistiu ela, com a carinha mais inocente do mundo.
Não sei por que, mas é incrível como brasileiro tem fama ruim. Vira e mexe alguém dá a entender que somos todos depravados, liberais e sem censura. Em parte eu sei o porquê. Basta assistir a um desfile de escola de samba no carnaval e ao festival de nudez promovido principalmente por artistas — ou aspirantes a artistas — desesperados por atenção. Mas, puxa! Nós nem fazemos topless com tanta frequência quanto as europeias, que são bem mais liberais do que nós em muitos aspectos. Dá tanta raiva!
— Filhinha — começou tia Ariel. — Você não quer mostrar seu caderno de desenhos para a Emma? Aposto que ela vai achar tudo lindo.
Bela saída. No mesmo instante, a pequena Lexie disparou para dentro de casa para pegar o tal caderno. Os outros dois, Grace e Neal, mantiveram-se por perto, tentando entrar na conversa, cada um querendo se exibir mais que o outro para mim. Hilário.
Depois do incidente do fio-dental, os ânimos deram uma acalmada. As crianças me puxaram para um passeio pelo jardim da casa, mas só fui após analisar cada desenho feito pela espontânea Lexie.
— Você é nossa prima? — indagou Neal.
— Sim. Filha do tio David — respondi, igual a uma professora do maternal. Deu certo, já que eles continuaram.
— Quem é sua mãe? — agora foi Grace.
— Ela se chama Mary Margareth e mora no Brasil.
— Por que não é a tia Zelena? — perguntou Grace, novamente.
— Bom, porque... — engasguei. Como contar para uma menina de 8 anos que as pessoas não precisam ser casadas para terem filhos?
— Ela morreu. — Laxie, no auge de seus 5 anos, livrou-me da saia-justa. — A mamãe ficou triste. E o tio David também. Eu vi ele chorar.
— É normal as pessoas chorarem quando alguém de quem gostam muito morre. Até os adultos. Eu mesma choro o tempo todo. Sou a maior chorona.
— O Killian e a Regina também chora. — A declaração da Lexie me pegou de surpresa. — Eu já vi.
– É mesmo?. — Perguntei, devagar.
– Hum-hum.
– Vocês gostam muito deles? . — Tentei não demonstrar tanto interesse, mas tudo bem, são só crianças.
– Eles são legais, mas a Gina é a melhor de todas, ela conta história pra dormirmos quando ela vem aqui. — Lexie disse tão animada, que fiquei encantada e imaginando a Regina contando histórias pra esses três pequenos.
Queria saber mais, mas tia Ariel nos chamou para almoçar. Ela foi simpática o tempo todo. E natural também. Não ficou tentando me agradar em excesso nem agiu com formalidade.
— Você precisa mostrar seus dotes culinários para nós, Emma. Fiquei curiosa — pediu ela.
— Prometo cozinhar para vocês quando forem ao castelo. Mas meu repertório não é muito grande, não — avisei. — Se quiserem experimentar uma comida típica do Brasil, sugiro feijoada.
***
Um pouco mais tarde, David recebeu um telefonema da Irina para avisar que Regina e sua digníssima namorada — vulgo Nome de Cachorro — jantariam no castelo conosco naquela noite mesmo. Posso até ter ficado um pouco irritada com a notícia, mas a curiosidade de conhecer a tal Lacey superou meu mau humor. Estava torcendo para ela ser um dragão de dentes tortos e cabelo embaraçado.
Como eu não queria parecer um dragão, passei mais tempo me arrumando para o encontro do que normalmente ficaria. Fiz faxina completa: tomei um banho de banheira e depois lavei os cabelos no chuveiro. Sequei-os com secador na temperatura morna — para ressaltar o brilho — e me enfiei num dos vestidos novos que comprei com a Irina no shopping. Por dispensar a impressão de brasileira assanhada, optei por um pretinho básico, de um ombro só. Discreto, mas lindo. Calcei saltos e me maquiei — só um pouquinho. Como toque final, espalhei um pouquinho de perfume nos pulsos e atrás das orelhas. Nos lábios, gloss.
Mal tinha terminado de esfregar um lábio no outro para espalhar o brilho quando ouvi um barulho de porta sendo aberta e fechada. Levando em consideração que a acústica do castelo é perfeita, esse barulho só poderia ser da minha porta. Saí do banheiro apressada, pensando que encontraria Irina. Estava prestes a fazer uma piada qualquer no momento em que dei de cara com Regina, parada de braços cruzados bem no meio de meu quarto. De novo.
De vestido roxo e salto alto, ela era a personificação do diabo. Passeou os olhos demoradamente por meu corpo, fazendo uma avaliação mental do que via diante de si. O processo todo demorou uns três segundos, mas eu posso garantir que durou até demais, o suficiente para eu perder o fôlego.
— Decididamente, você não sabe bater — acusei, com medo de que minha voz tivesse saído pouco natural e ela percebesse meu nervosismo. — E se eu não estivesse vestida?
Desejei não ter dito isso.
— Então eu teria muita sorte — respondeu, erguendo levemente a sobrancelha esquerda.
— Posso saber o que você quer? — questionei, toda armada. — Já estou pronta e no horário combinado. Não precisava ter se dado ao trabalho de vir me buscar.
— Não foi um trabalho — ela disse. — E eu não vim te buscar.
Regina caminho até minha cama, passos sensuais, e sem querer acabei olhando a forma como rebolava. Ela se sentou e fingiu estar avaliando o colchão.
Pode isso?
Tudo o que eu fiz foi ficar encarando a cena, incapaz de mover um músculo para impedir aquilo. Afinal, era Regina na minha cama. Sagrada face do Pai Eterno!
— Você é muito folgada! — soltei. — E sem noção. Por sua culpa, vou ter que começar a trancar minha porta.
— Ei, eu só vim ver como você estava. Por causa da visita de hoje, lembra? Como foi?
Suspirei.
— Não dava para perguntar na hora do jantar? — continuei, relutante. — Precisava invadir meu quarto? Eu poderia estar...
— Sem roupa — completou. — Eu sei. Você já disse isso.
Bufei, furiosa. Claro que eu poderia ter deixado Regina sozinha e saído do quarto, magnânima, altiva, por cima. Mas não sei o que dava em mim sempre que ficava perto dela.
— E então? Não vai contar como foi com os tios?
– Tudo bem. — Respondi, secamente.
— Tudo bem que vai contar, ou lá foi tudo bem? — Dá para alguém ser mais chata que essa mulher, meu Deus? — Não precisa ficar economizando palavras. Temos um tempinho.
Revirei os olhos com o máximo de desdém que consegui demonstrar e mandei um comentário muito criativo — e maduro, diga-se de passagem:
— Você é ridícula, Regina.
Nesse instante, Regina se levantou de um pulo só e parou a centímetros de distância de mim. Dava até para sentir seu coração acelerado.
— Repita o que disse — ordenou ela, com os olhos faiscando.
— O quê? — eu disse, como se meus nervos estivessem no melhor dos estados. — Que você é ridícula?
Regina se aproximou ainda mais, a ponto de nossa respiração se misturar. Ela exalava creme dental de menta. E eu? Será que meu hálito estava pelo menos agradável?
— Não. Regina.
Hein? Fiquei olhando para ela com a maior cara de boba, porque eu realmente não tinha entendido nada. Então, Regina esclareceu:
— Diga meu nome de novo.
Então era isso. Mas o que isso representava, afinal? Um caso esquisito de narcisismo, ou seja, um amor enorme pelo próprio nome que o fazia querer ouvi-lo pronunciado pelas pessoas?
— Co-como? — gaguejei.
Regina tocou uma mecha de meu cabelo tão lentamente que fiquei em estado de choque, sentindo o trajeto dos dedos dela desde a altura da orelha até as pontas dos cabelos.
— Gosto da maneira como você pronuncia meu nome — justificou-se, concentrada no ato de sentir a textura de meu cabelo.
— Hum-hum. — fiz. Mas, se ela tivesse me dito que a Terra é quadrada, eu teria concordado da mesma forma.
— Soa diferente na sua voz — continuou. — Deve ser porque você não fala krosvi.
— Pode ser — respondi, meio que no piloto automático.
— Ou é só por causa dessa sua boca mesmo. — Dito isso, Regina traçou o contorno de meus lábios com o polegar e eu fechei os olhos para sentir melhor o toque.
O que estava acontecendo ali? Regina estava me paquerando? Mas não podia! A namorada dela deveria estar a caminho do castelo, se é que já não havia chegado e esperava por ela na sala de jantar!
Apesar disso, pensei que ela fosse me beijar. A forma como encarava minha boca não deixava margem para dúvidas. Os olhos dela ainda faiscavam, mas não era de raiva nem de impaciência. Era algo muito mais poderoso e forte, que a puxava para perto de mim como se fosse uma espécie de hipnose. E a veia em sua testa, estava exaltada, algo que a deixava mais sexy, se é que era possível.
No entanto, como isso era possível? Nós nem gostávamos uma da outra. Vivíamos implicando e jogando indiretas, mal nos tolerávamos. Eu não suportava aquela mulher, mesmo quando ela fazia meu coração dar piruetas só de vê-la ou me levava para conhecer os lugares mais lindos.
Ela também não morria de amores por mim. Sempre que podia, deixava claro o que pensava a meu respeito e não se policiava em me tirar do sério.
Então, por que agora tudo me levava a crer que Regina estava prestes a colar seus lábios nos meus? E pior: por que eu ansiava desesperadamente por isso?
Porém, no momento em que meus ombros relaxaram e eu pensei que as coisas iam progredir entre nós, Regina se afastou. E o encanto se desfez. Só aí escutei o toque de um telefone. Meu celular!
Corri para pegá-lo na mesa de cabeceira e chequei o visor. Ruby!
Tentei o máximo que pude controlar minha respiração. Mas, se eu pensava que Regina estava prestes a deixar meu quarto, me enganei redondamente. Tudo o que ela fez foi esperar que eu atendesse à chamada.
No entanto, eu tinha um grande trunfo para o caso de Regina querer ouvir minha conversa. Falaria em português. Bem feito!
– Emma!. — Ruby praticamente gritou quando eu disse Alô.
– Oi Ruby. Que surpresa. — Disse, meio sem saber o que falar.
Regina usou sua marca registrada ao me encarar: levantou uma das sobrancelhas. Demonstrou estar indignada com minha recusa em deixá-la entender o diálogo. Curti demais esse momento, soberana.
– Emma tudo bem? Você está estranha.
– Tudo bem Ruby, eu tenho tanta coisa pra te contar, mas agora não dá.
– Por que não? E porque você parece estar cochichando?
– A enteada do meu pai está aqui. No meu quarto.
– O QUE?. — Krósvia inteira deve ter ouvido. — Emma você está tendo um caso com a enteadA do seu pai? Ela não te odeia? E vice e versa?
– Não estou tendo um caso. É complicado. Tenho um jantar agora, te ligo assim que acabar, prometo.
– Um jantar com ela? Em...
Não deixei ela continuar e desliguei o telefone, sabendo que Regina estava prestes a fazer uma observação. Levantei os olhos para ela, que apenas comentou, em inglês, claro:
— Essa língua portuguesa é muito confusa.
Sorri. Ela completou:
— Vem. Vamos jantar.
***
Dizer que a tal da Lacey era bonita é ser econômica. A danada da garota era maravilhosa, aquele tipo de mulher que faz com que qualquer outra se sinta o cocô do cavalo do bandido, se é que me entendem.
Na hora que bati o olho nela, fiquei sem reação: 1,60 no máximo, magra, branca dos cabelos castanho claros, fatal. Se eu tivera a ridícula sensação de que Regina vinha flertando comigo, acabei de constatar que tudo não passava de invenção de minha cabeça. Eu devia ter interpretado aquele lance do quase-beijo de forma totalmente errada.
De cima de um salto agulha de uns dez centímetros, Lacey me analisou minuciosamente assim que pus os pés na sala de jantar. Instantaneamente, fiquei constrangida, sentindo-me feia e... bem, básica. Ao contrário de mim, Lacey não se importou em parecer extravagante. Vestia um short curto, branco, meio solto, e uma camiseta de seda coral, cujo decote deixava muito pouco para a imaginação alheia. Totalmente diferente do estilo de Regina. As já mencionadas sandálias tinham um tom neutro e faziam a dona delas mais alta. Os cabelos abaixo ombros e foram cortados de um jeito despojado, num estilo que só as mulheres muito confiantes têm coragem de assumir.
Mas resolvi manter o apelido secreto Nome de Cachorro. De que outra forma eu poderia desdenhar daquela que em poucos minutos se tornara alvo de minha inveja? Bonita, bem-vestida, fashion e ainda namorada de Regina. Dava para ser pior?
Regina se adiantou a mim assim que viu a namorada. Por alguma razão, elas não chegaram juntas e o fato de nós duas termos aparecido no mesmo momento não passou despercebido a Lacey. Antes de mais nada, ela a beijou. Na boca. Na frente de todos nós, ou seja, David, Irina e eu. Nem consigo descrever a fincada que senti quando presenciei aquela cena, bem no meio do peito. Ainda bem que a cara de Irina também não era das melhores. Já meu pai parecia indiferente a qualquer tipo de animosidade.
Depois, Nome de Cachorro resolveu me dar atenção e esticou uma mão branca, fina e cheia de anéis para me cumprimentar. O aperto que trocamos foi mole, fraco, como se ambas tivéssemos medo de tocar na mão uma da outra.
— Kosov — ela disse.
Quê? Não acredito que ela usou krosvi para falar comigo. Se me cumprimentou ou me chamou de vaca, eu não tinha como saber. Meu pai sorriu e explicou:
— Não, Lacey, a Emma não fala nossa língua. Todos nós nos comunicamos com ela em inglês. — Então, ele se dirigiu a mim. — E a Lacey disse “muito prazer”, Emma.
Juro por Deus que tentei ser simpática e tal, mas, só de olhar para a cara daquela garota, mal conseguia disfarçar minha antipatia. Tive que me segurar para não fazer uma piadinha com o nome ridículo dela ou chamá-la de patricinha afetada na frente de todo mundo. O que estava acontecendo comigo, hein?
— Finalmente, Emma! Demoramos a nos conhecer, mas só outro dia fiquei sabendo sobre você. Engraçado a Regina nunca ter mencionado nada. Ou melhor, ela falou, sim, mas só muito recentemente.
Com certeza essa foi uma tentativa de deixar bem claro que Regina não dava a mínima para mim. Lancei os olhos na direção dela e, pela primeira vez na vida, Regina pareceu desconcertada.
Resolvi entrar no jogo.
— Ainda bem. Estamos procurando manter segredo por enquanto, sabe? Manter as coisas só entre a família mesmo. — Em seguida, dirigi-me a meu pai. — Viu, David? A Regina é uma mulher de palavra.
Sabe aqueles personagens de desenhos infantis que soltam fumacinha pela cabeça quando estão com raiva? Pois é. Se a Lacey fosse um desses, estaríamos presenciando uma cena assim.
David indicou o lugar para cada um de nós à mesa de jantar, mas foi o último a se sentar. Antes, puxou a cadeira para Irina e para mim. Regina se sentou ao lado da namorada, que lutava para parecer descontraída. Mas o que a postura dela demonstrava era justamente o contrário. Não sei por que cargas d’água a bela filha de senador/executiva/namorada de Regina estava muito incomodada com minha presença. Então, o sentimento era recíproco.
— Que bom estarmos todos aqui hoje! — exclamou David, enquanto Cora e uma outra moça, Pietra, serviam o jantar. — Temos muitas novidades, não é mesmo, Irina?
Com o peito estufado de prazer, Irina assumiu a responsabilidade pela atualização das últimas notícias.
— Bom, já temos uma data para a apresentação da Emma — anunciou, olhando diretamente para mim. Limitei-me a sorrir para não interrompê-la. — Será no dia 10 de outubro.
— Puxa, que notícia maravilhosa! — Minha adrenalina ficou a mil. — É uma data ótima para o pessoal do Brasil, porque o dia 12 é feriado lá. Ai, Irina, que maravilha! Talvez fique mais fácil para eles agora.
— Você ainda não os convidou? — perguntou David, tocando de leve em minha mão.
— Comentei por alto com a Ruby, minha melhor amiga, mas ainda não combinei nada, nem com minha mãe. — De repente, uma sombra nublou minha euforia. — Peraí! Eu não vou ter que usar nenhum vestido repolhudo, né?
Todos ficaram me olhando com uma expressão de dúvida, como se não tivessem entendido meu questionamento. Apenas Lacey escondeu um sorrisinho malicioso atrás de uma das mãos.
— Vestido repolhudo? — indagou David.
— É, tipo cheio de babados e todo rodado, ou, pior, cem por cento rosa-bebê. Porque eu não uso rosa-bebê. De jeito nenhum.
Meu pai riu, enquanto Irina parecia processar o que eu havia acabado de dizer, anotando mentalmente minhas recusas.
— Não vai precisar — assegurou-me ele, respirando com prazer em cima de seu prato recém-servido.
— Ah, majes... digo, David, mas é claro que a Emma vai ter que vestir um traje bonito, condizente com a posição de princesa da Krósvia — Irina replicou. — Não dá para aparecer na frente do mundo inteiro vestindo calça jeans e camiseta.
— E como seria um traje condizente, Irina? — eu quis saber.
— Sugiro um longo, claro — interveio Lacey. — Mas nada de vermelho ou nude. Não combinam com sua pele.
Ui! Magoei. Eu amo vermelho!
— Emma, vamos ter que sair para escolher o vestido ideal para a ocasião. E deve ser o mais rápido possível. — Às vezes, a eficiência de Irina beirava o fanatismo.
— Outra orgia consumista?! — Regina se manifestou. — Cuidado, David. Essas duas soltas pelos shoppings são um perigo para sua conta bancária.
Fuzilei-a com os olhos. Era a primeira vez que a olhava abertamente desde que nos reunimos para o jantar. Mas não encontrei crítica nem desprezo naqueles olhos castanhos que vinham assombrando meus pensamentos há dias. O que eu vi foi diferente, porém, reconfortante. Quase sorri para ela, mas tive medo do outro par de olhos que também me encarava.
— Não faz mal — replicou meu pai. — Já deixei claro para a Emma que ela tem carta branca para gastar quanto quiser. E ela é bem consciente, não é, filha?
— Se você está dizendo — respondi. — Minha mãe não acharia o mesmo.
O cheiro da sopa servida como entrada fez minha boca se encher de água. Mergulhei uma fatia de pão no caldo e suspirei enquanto degustava toda aquela delícia. Irina me olhou, perplexa.
— Não vai querer saber o que vai acontecer nesse dia, Emma? Como vai ser a cerimônia?
Com a boca cheia, tive que responder balançando a cabeça. A verdade é que eu nem tinha pensado nisso. Acreditava que era só aparecer em público, de preferência através da TV, e dar um oi para a galera.
— Bom — continuou ela. — Primeiro, seu pai vai reunir a imprensa e fazer o comunicado oficial. Em seguida, ele vai chamar você. Nessa hora, a população vai estar reunida em frente ao Palácio de Perla. Você vai surgir na sacada principal.
— Quê?! — engasguei. O pedaço de pão ficou entalado em minha garganta e foi preciso um generoso gole de água para soltá-lo de lá. — Vou ter de aparecer em público?
Olhei para David, suplicando por apoio, mas ele apenas devolveu uma expressão condescendente.
— Ora, Emma — disse Lacey, nada simpática. — Você queria o quê? Um tchauzinho diante das telas e pronto? O povo merece sua consideração.
Por quê? Eu não significava nada para aquele país e ninguém nem ao menos sabia de minha existência. E, por mais que eu estivesse curtindo de verdade meus dias na Krósvia, ainda não me sentia pertencente àquele lugar.
De repente, perdi a fome.
— E depois? — murmurei.
Irina se animou novamente:
— Bom, daí você e seu pai saem numa volta em carro aberto pelas ruas de Perla. Regina e Killian também vão, claro.
— Quê?! — repeti, mas agora em coro com Regina.
— Gente, eu não sou a Kate Middleton — argumentei.
— David, não acho que minha presença e de meu irmão seja necessária — disse Regina.
Irina olhou de mim para ela, desaprovando nossa postura com um gesto de cabeça. Pela primeira vez na vida, vi meu pai falar de um modo que não permitia questionamentos:
— Você, Emma, precisa entender que as coisas por aqui são assim.
Envergonhada, murchei na cadeira.
— E você, Regina, é tão parte desta família como seu irmão e Emma. Portanto, não estamos lhe fazendo um convite. Entendido?
Regina e eu nos entreolhamos. Se a situação não fosse dramática, seria cômica. E Regina parece ter pensado a mesma coisa. Dissimulamos um sorrisinho antes de concordamos em uníssono:
— Sim.
Quem não gostou nada dessa cumplicidade foi Lacey, que cruzou os braços, emburrada. Se dependesse de mim, ela não teria a menor participação nesse circo chamado Cerimônia de Apresentação da Princesa Emma.
***
EU: — Diga que vem!
Mal terminei o jantar e corri para falar com minha mãe. Estava desesperada para ouvir a voz dela e contar as novidades, inclusive sobre o convite de meu pai para que ela, meus avós e Ruby viessem à Krósvia para a cerimônia, bláblá-blá. Já não suportava mais falar nisso. Não foi um jantar totalmente desagradável, tampouco divertido. Depois do papo sobre o qual eu não queria falar, o assunto simplesmente não fluiu.
Conversamos um pouco sobre tia Ariel e eu aproveitei para elogiar meus priminhos. Mas meu cérebro insistia em me levar a um terreno perigoso, ou seja, ao que havia acontecido — ou quase — com Regina e eu em meu quarto, um pouco antes.
Eu ainda podia sentir minha pele formigando com a expectativa do contato e tenho certeza de que Regina não ficara indiferente. Por mais que Lacey estivesse ali, atracada com o pescoço dela, tinha havido um momento de atração entre nós. Aliás, passava da hora de eu admitir, pelo menos para mim, que essa atração não era nova coisa nenhuma. Desde que eu pusera os olhos nela pela primeira vez, fora atraída como por um ímã.
Numa situação diferente, eu provavelmente estaria de olho em Regina. Por exemplo: se estivéssemos no Brasil e eu fosse simplesmente Emma Swan e ela, uma mulher bonita que desse encima de mim. Sem nenhum parentesco com a nobreza, a chance de haver uma paquera entre nós seria bem grande. Não estou falando de namoro nem nada, mas de um xavequinho inocente.
Mas ali isso era impossível porque:
1o: Ela tinha namorada (e isso, por si só, já era empecilho mais que suficiente).
2º: Regina era enteada de meu pai. Ou seja, para todos os efeitos, éramos quasa irmãs (eu ainda não tinha refletido por esse lado).
3º: Ela era uma mulher. E por mais que eu não dê a minima para isso, acho que o povo de Krósvia ficaria chocados com essa noticia sobre a Princesa deles. Ou talvez não, a filha do senador namorava um mulher. Namorava Regina. Droga.
4º: Eu não ficaria na Krósvia para sempre.
Ainda bem que eu não chegara a me apaixonar por Regina. Ufa! Seria complicado... Nada de paixão. Nadinha. Zero... Voltando à conversa com minha mãe:
MÃE: — Filha, eu gostaria muito, mas não sei se consigo deixar o buffet. É um período complicado.
EU (suplicando): — Mãe, por favor. São poucos dias. Você não pode deixar outra pessoa responsável pelos negócios?
MÃE: — Você sabe como são meus clientes. Gostam de me ver por perto. Mas vou dar um jeito, é claro.
EU: — Você acha que a vovó e o vovô viriam?
MÃE: — Não sei. Sua avó, talvez. Mas o papai não gosta de fazer longas viagens de avião. E também não fala inglês.
EU: — Puxa... Estou tão ansiosa, mãe. Precisando de um colinho. Já estou vendo minha vida de pernas para o ar. Quanto tempo você acha que a imprensa brasileira vai demorar para cair matando?
MÃE: — De verdade? Tempo nenhum. Assim que seu pai fizer o anúncio, aposto que os jornalistas vão fazer fila na porta do palácio. Sabe como é, né? Notícia nova, diferente, até meio romântica, se quer saber.
EU (suspirando): — E se eu estiver arrependida?
MÃE: — Não, você não está. Pode estar com medo da repercussão, mas não arrependida. De todo modo, quando a notícia ficar velha, todo mundo vai acabar esquecendo.
EU: — Espero que sim.
MÃE: — E quanto ao resto? Como andam os passeios com a Regina? É esse o nome dela?
EU (sentindo o rosto corar): —Sim, Regina. Estão legais.
MÃE: — Só isso? Legais?
EU: — Legais, diferentes, excitantes...
MÃE: — Excitantes? Como assim?
EU: — Ora, excitantes, emocionantes. Ah, mãe, você sabe que sempre vamos de moto. Isso é excitante. E também os lugares aonde a gente vai.
MÃE: — Sei.
EU: — É sério, tá? E não estou a fim de falar mais nisso.
MÃE: — Tudo bem. Só quero que você esteja feliz aí, aproveitando bastante.
EU (suspirando de novo): — Eu estou, mãe. De verdade. Só queria ter vocês perto de mim no dia da minha apresentação. Acho que vou suportar melhor.
MÃE: — Tá bom. Pode contar comigo. Dou um jeito por aqui, mas não vou te deixar na mão quando mais precisa de mim. Que tipo de mãe eu sou, afinal?
EU (exultante): — A mãe mais maravilhosa do mundo!
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