A princesa de Krósvia
7 A princesa Emma, da Krósvia.
Notas iniciais
Os dias passaram voando. Sei que essa frase é um clichê barato, mas não inventaram nada melhor para traduzir a sensação de ver o tempo passar sem a gente perceber. Apesar de todos os novos passeios com Regina — que ficaram escassos depois de meu encontro com Lacey —, da busca desenfreada pelo vestido perfeito — que acabou se convertendo em dois (mas isso é assunto para depois) — e dos preparativos sem-fim, tudo aconteceu muito depressa.
Contudo, foi mais fácil suportar o estresse pré-apresentação depois de saber que minha mãe, vovó e Ruby estariam presentes. Como isso era uma coisa boa, esperar pelo grande dia não foi algo tão traumático.
Assim que convidei Ruby, a menina só faltou pirar. Primeiro, teve medo de não poder ir por falta de grana. Foi então que David anunciou que fazia questão de bancar a vinda de minhas convidadas. Mamãe recusou na mesma hora. Ela disse que jamais aceitaria viajar com o dinheiro de David, nem que essa decisão lhe custasse a viagem.
Vovó Nanci fez coro a ela e também não aceitou a oferta de meu pai. Mas tenho a impressão de que, no fundo, ela não se importaria de aceitar. Mesmo assim, optou por dar apoio moral à filha.
Por outro lado, Ruby não pensou duas vezes. E a justificativa dela era muito válida.
— Como eu não tenho dinheiro e meu pai disse que não pode abrir mão dessa quantia para uma viagem que ele considera supérflua¹, o jeito é aceitar a caridade do seu pai.
Nem era uma caridade. David queria que eu ficasse feliz e acabou dando o jeito dele. Só quero esclarecer que o dinheiro das passagens de Ruby não saiu dos cofres públicos. Sei que não mencionei isso antes, mas meu pai possui outras rendas, como imóveis alugados, ações na bolsa, essas coisas.
Apenas Ruby ficaria hospedada no castelo. Minha mãe queria manter distância para que ninguém pensasse que ela estava a fim de reviver os velhos tempos. Quando digo “ninguém”, refirome principalmente à imprensa. O último desejo dela seria as pessoas murmurando que a mãe da princesa estava de olho no trono do lado direito do rei. Mais uma vez, vovó a acompanhou.
Mas Ruby era aguardada com as pompas e honras de uma personalidade. Dias antes de sua chegada, Irina mandou preparar um quarto especial para minha melhor amiga, com direito a lareira, closet e sacada. Pedi a Cora que fizesse pão de queijo e também sua especialidade: rolinhos de farinha com recheio de carne, vegetais e queijo, uma iguaria típica da Eslovênia, país vizinho da Krósvia, no lado direito do mapa.
Mamãe e vovó fizeram reserva num hotel em Perla. Depois, fiquei sabendo que ficava próximo ao prédio de Lacey, onde, aliás, Regina também estava. E todas as três estavam prestes a chegar.
Queria ter ido buscá-las no aeroporto, mas David achou melhor me manter em segurança durante o dia. A população não tinha noção do que seria anunciado mais tarde, mas já havia sido avisada sobre o pronunciamento do rei, que revelaria algo bombástico às 4h da tarde.
Sendo assim, de acordo com meu pai, quanto mais guardadinha dentro de casa eu ficasse, menores seriam as chances de algum curioso descobrir a verdade antes da hora.
Daniel acabou indo ao aeroporto sozinho, outra vez num carro alugado, para não levantar suspeitas. Escolhi como companhias, enquanto elas não chegavam, um livro, um roupão e meu travesseiro. Ou seja, fiquei quietinha em minha cama, aconchegada sob o edredom, lendo uma história bem light para jovens adultos, que me deixou concentrada e, ao mesmo tempo, relaxada.
As pessoas mais íntimas chegariam ao castelo por volta do meio-dia. Desse grupo, faziam parte meus tios e primos de Craiev, Regina e Killian, o primeiro-ministro da Krósvia — que era um grande amigo de David —, Hans Andersen, com sua esposa, Elsa. Ah, e, claro, minha mãe, vovó Nanci e Ruby.
Almoçaríamos juntos à 1h30 da tarde, depois teríamos um tempo para nos trocar e então seguir em comboio para o Palácio de Perla.
Propositalmente, Lacey não pertencia ao grupo de íntimos. Acredito que Irina teve grande influência nessa decisão e eu não pude — nem quis — fazer nada para mudar. Tampouco Regina pareceu chateada.
Sobre os dois vestidos, agora já posso explicar. É que à noite haveria um baile para convidados especiais, e Irina insistiu que eu não poderia usar a mesma roupa da cerimônia de apresentação. Por isso, fomos à caça de dois, o que se converteu numa jornada dificílima e estressante, pois nada do que eu gostava agradava Irina e vice-versa. Por fim, ela sugeriu que contratássemos um estilista, mas recusei. Gosto de comprar minhas roupas, de experimentá-las nas lojas, e não ficar esperando alguém confeccionálas para mim. Dá muito trabalho.
Quando quase não havia mais esperanças, acabei encontrando na mesma butique os dois vestidos de uma só vez. Para a cerimônia, eu usaria um tubinho azul-marinho, justo — mas comportado —, tomara que caia, com um bolero de renda da mesma cor por cima. Irina sugeriu que eu prendesse apenas um dos lados do cabelo, mas que deixasse o restante solto, para “exibir minha beleza e exuberância”. Ah, tá!
Porém, à noite, o estilo mudaria totalmente. De tanto folhear as revistas de celebridades e visitar as lojas mais descoladas do país, concluí que os longos estavam com tudo, especialmente os com fendas até o meio de uma das coxas, sensação da temporada. Seguindo o conceito elegante-mas-sexy, meu coração quase parou assim que bati os olhos no vestido de meus sonhos: um longo vermelho — contrariando a dispensável opinião de Lacey de que minha pele não combinava com essa cor — de uma seda puríssima, quase diáfana, com decote profundo na frente, ajustado na cintura por uma faixa do mesmo tecido, presa por um broche de um pequeno cisnei de com cristal. A saia era reta, mas se abria gradualmente por causa da fenda na lateral esquerda. MA-RA VI-LHO-SO! Minha mãe amaria, já que ela se ligava muito mais nessas coisas de moda do que eu. E ai de quem o achasse feio. Socorro! Eu não via a hora de colocá-lo novamente no corpo e desfilar com ele pelo salão. Epa! Será que eu estava me tornando uma garota fútil? Foco, Emma.
O livro que eu lia já tinha passado da metade quando o telefone do quarto fez um barulho estridente. Pelo toque, não era uma chamada externa. Alguém de dentro do castelo queria falar comigo.
— Oi?
—Emma! Depressa! — exclamou Irina. — Elas chegaram!
Desci feito uma louca as escadas até o hall de entrada, esquecendo-me completamente de meus trajes — ou da falta deles. Mas, naquele momento, não importava se eu estivesse de biquíni ou enrolada numa toalha. Tudo o que eu mais desejava era ver as mulheres mais importantes de minha vida: minha mãe, minha avó e minha melhor amiga.
E Regina? PARE EMMA.
Quando aterrissei no andar térreo do castelo, avistei as três, de boca aberta e olhos esbugalhados, mal segurando o choque por estarem diante de um lugar tão magnífico. Sorri, ao mesmo tempo em que as lágrimas embaçavam minha visão.
— Mãe! — berrei, saltando feito um cabrito para os braços dela.
As três, ao notarem minha presença, aproximaram-se de mim e nos unimos num abraço único e emocionado. Nem reparei em quem estava na sala. Pouco me importava ser pega naquelas condições, desde que os braços de minhas queridas continuassem a meu redor. Como elas fizeram falta!
— Oh, meu amor! — disse vovó. — Que saudade!
Mamãe se afastou um pouco para analisar minha aparência. Pareceu gostar do que viu.
– Você está ótima. Reluzente.
— É claro! — interrompeu Ruby, cujas malas — mais de uma — estavam nas mãos de um Daniel aturdido. — Quem ficaria mal num lugar como este? Isso tudo parece um sonho, Emma!
— Vocês ainda não viram nada. Espero que dê tempo de mostrar todas as coisas lindas que encontrei por aqui — desejei. E então alguém tossiu.
Era meu pai, parado a certa distância, contemplando a cena do reencontro. A seu lado, a sempre fiel Irina.
— Espero que tenham feito uma boa viagem — disse ele, formal, mas em inglês, imaginando que todas eram fluentes naquele idioma. Mas depois relaxou. — E gostaria muito que ficassem à vontade para conhecer o que quiserem, dentro e fora do castelo.
Minha mãe balançou a cabeça, mas foi vovó quem respondeu, também em inglês (vovó Nanci não vive na idade da pedra, não, senhor!):
— Obrigada, Sua Majestade. O senhor é muito gentil. E estou feliz porque vejo que tem cuidado muito bem da minha neta.
— Poderia estar fazendo melhor — David retrucou. — Se tivesse um pouco mais de tempo. A Emma fica praticamente por conta da Irina e da minha enteada, a Regina.
Ruby fez uma cara safada ao escutar o nome de Regina.
— E, por falar em Irina, esta é a responsável por tudo isso aqui hoje. — David empurrou-a de leve em nossa direção, fazendo-a corar de prazer.
Se havia uma pessoa que adorava ser reconhecida como eficiente, essa pessoa se chamava Irina.
— Ela é meu braço direito em assuntos domésticos — continuou ele. — E também uma fã de carteirinha da nossa Emma.
Corei com o emprego do pronome “nossa”. Soou tão afetuoso.
— E minha grande amiga — concluí, segurando as mãos dela, de forma a retribuir tudo o que vinha fazendo por mim.
Houve um instante de cumprimentos e trocas de beijinhos no rosto, gesto que nós, brasileiros, não titubeamos em utilizar. Notei que Irina ficou toda vermelha com tanta demonstração de afeto, coisa com a qual ela não estava acostumada. Outro dia, eu perguntara a ela sobre sua vida amorosa e ganhara uma resposta sucinta, sem direito a réplicas:
— Não tenho tempo para isso.
Mas, não sei, não. Ficara a impressão de que Irina tinha uma quedinha por meu pai. E ele, por viver atolado em trabalho até o pescoço, nunca se permitira perceber os sentimentos da moça. Tadinha... Até que os dois fariam um casal bonito.
David levou as visitantes para o salão de recepção, onde Cora lhes serviu um lanche de primeira. Havia estrelas nos olhos de cada uma e essa aprovação delas de “minha vida lado B” me fez muito bem.
— Daqui a pouco chegam os demais convidados para o almoço — anunciou David. — Mary Margareth, acho que você vai gostar de rever minha irmã, Ariel. Lembra dela?
— É claro. Como não? Parece que nos encontramos só uma vez, mas gostei dela.
Graças a Deus não foi estranho para os dois iniciar uma conversa despretensiosa. Depois dessa, todo mundo no ambiente deu uma relaxada legal.
Até que Regina apareceu, de supetão como sempre, e nos presenteou com sua presença marcante. Fiquei uns cinco segundos sem respirar, cada vez mais ligada à existência dela.
— Olá para todos — cumprimentou despojadamente, mas aprumou o corpo assim que viu minhas convidadas do Brasil. — Oi. Desculpem. — Ficou desconcertada. Uma gracinha.
— Regina, que bom que chegou! — disse David. — Estas são Mary, dona Nanci e Ruby, mãe, avó e melhor amiga da Emma.
— Só Nanci, por favor — retrucou vovó.
Logo depois entrou Killian, com toda a sua alegria de sempre.
— Se eu soubesse que no Brasil havia tantas mulheres bonitas, eu não teria me apaixonado por uma Inglesa. — Disse sorrindo ao cumprimentar mamãe, vovó e Ruby.
— Como sempre digo: Killian não pode ver um rabo de saia. — Disse Regina, sorrindo lindamente e fazendo todos sorrir, inclusive eu, porém eu estava sorrindo de uma forma idiota, talvez... apaixonada? Não Emma. PARE.
— Chegaram agora? — Killian perguntou.
— Sim, faz pouco tempo. — Respondeu Ruby, fazendo Killian cravar o olhos nela.
Ruby era linda. Magra, um pouco alta, cabelos longos e pretos, lábios preenchidos e olhos esverdeados. Ainda não conheço a namorada do Killian, mas ela odiaria ver o jeito que ele encarou Ruby.
— Pegaram a Emma de surpresa, né? Já que ela nem teve tempo de vestir uma roupa. — Regina comentou, me fazendo quase desmaiar de vergonha.
Olhei para mim devagar. Já tinha até me esquecido de que usava meu roupão verde-água com bolinhas lilás. Macio e confortável, mas ridículo. Ai, que vergonha!
Todos riram, menos eu, é claro, que estava prestes a correr dali. Disparei a gaguejar:
— A-cho que vo-ou sub-bir para me tr-trocar.
— Vou com você! — E tinha jeito de Ruby não se prontificar a me acompanhar? Eu já podia até escutar as engrenagens do cérebro dela fazendo barulho.
Acabei ajudando-a com as malas. Pelo jeito, ela pretendia passar mais do que um feriado prolongado na Krósvia.
Fomos direto para meu quarto e prometi levála ao dela mais tarde.
— Nossa, Emma! Que lugar é este?! Você tem vivido bem, hein, garota?
— Não é? Às vezes, eu penso: pra que tudo isso? Mas acho que vida de gente importante é assim mesmo — justifiquei-me de dentro do closet, onde aproveitei para escolher a roupa que usaria no almoço.
Ruby pôs-se a passear pelo quarto, absorvendo os detalhes.
— Nunca imaginei que um dia fosse entrar num castelo como este — observou ela. — Muito menos que seria a melhor amiga da princesa.
— É inacreditável mesmo. — Concordei por concordar, porque a essa altura minha ficha já havia caído havia muito tempo.
— Você é uma sortuda com S maiúsculo — continuou Ruby. — Além de tudo isto — ela fez um movimento com os braços, como se estivesse abrangendo tudo ao redor —, ainda tem o David, que te olha como se você fosse um tesouro.
Tinha que concordar, David me olhava com tanta admiração. Parecia que eu era o maior orgulho da vida dele.
— E a Regina. Por que nunca descreveu ela direito para mim?
– Como assim descrevê-la? Pelo que me consta, eu mencionei todos os detalhes importantes.
— Por acaso você me informou que ela era extremamente linda e tinha os olhos mais penetrantes do mundo? . — Ok. Até a Ruby acha a Regina maravilhosa. — E sem contar que você nunca mencionou que ela tinha um irmão tão maravilhoso quanto ela.
– Killian tem namorada e um filho. E fui bem sincera ao falar sobre o mais importante: a implicância dela comigo e sobre como os tais olhos penetrantes só sabiam me fuzilar no princípio. Sem mencionar a desconfiança, lembra?
Consegui subir o zíper e ajeitar a saia sobre a blusa de seda. Voltei para o closet atrás dos sapatos.
— Emma, eu queria detalhes que você deixou de lado, acho que de propósito. Pode confessar que tentou guardar esse tesouro só para si. Eu não ligo. Não gosto de mulheres.
E desde quando eu gostava? "Desde quando a Regina apareceu" uma voz gritou lá no fundo.
— Fala sério, Ruby! — Dei meia-volta, com os dois sapatos nas mãos. — Você enlouqueceu. Se eu não te descrevi a Regina é porque não era importante, tá legal? Nem reparei direito, se quer saber.
Levei o maior susto com a gargalhada sinistra que Ruby soltou.
— Ah, claro, a senhorita não reparou! Então, deve ter sido outra Emma que não tirava os olhos dela lá embaixo e estava com o olhar de um cachorro olhando um pedaço de frango.
— Tudo bem, Ruby. Eu me rendo. Admito que a Regina é maravilhosa, que mexe com meus nervos de um jeito inédito pra mim.
Ela levantou as sobrancelhas, como se dissesse “não falei?”.
— Mas nada disso importa. A Regina é uma mulher comprometida. E enteada do meu pai — acrescentei depressa. — Ou seja, é quase minha irmã.
Agora, sim, a gargalhada me deu medo. Foi igual à de uma bruxa desvairada
— Conta outra, Emma Swan! Quase irmãs...
É sempre assim. Quando Ruby está a fim de me enfezar, ela me chama de Emma Swan. Todo mundo sabe que não gosto de ser chamada pelo nome inteiro.
— Olha Ruby, não vai adiantar nada esconder de você então ouve e cale-se. — Disse o mais séria que consegui. — Eu não sei o que está acontecendo, ela me irrita, me deixa com os nervos a flor da pele, mas quando está longe de mim parece que falta algo. Eu ando sonhando com ela. Sentindo o cheiro dela em todos os lugares e procurando o rosto dela em todas as pessoas. E quando vi a Lacey beijando ela? Meu Deus, tenho quase certeza que havia uma faca no meu peito. Mas eu vou controlar isso. Daqui uns meses volto pro Brasil e fim.
— Se você está dizendo. — Ruby deu de ombros. — Mas eu particularmente penso...
— Pensa coisa nenhuma — cortei-a. — Vamos, venha me ajudar com a maquiagem. Daqui a pouco precisamos descer e não quero aparecer de cara limpa.
— Uau! E depois você diz que é indiferente a senhorita sensual de olhos penetrantes. — Ruby fez sinal de aspas no ar.
— Rainha má.
— Como? . — Questionou Ruby.
— Regina, eu a chamo de rainha má.
Acabei ganhando mais uma sessão de gargalhas, até que ela disse:
— Você está apaixonada pela rainha má.
Meu coração disparou.
***
Eu deveria estar histérica. Mas, estranhamente, me sentia bem. Como tudo transcorreu na santa paz durante o almoço, presumi que os demais momentos daquele dia interminável também seriam tranquilos.
Ruby não falou mais sobre Regina. De vez em quando, ela desviava a atenção para ela e ficava encarando como uma tiete diante do ídolo. Não fiquei com raiva nem nada, só achei meio ridículo.
Mamãe e vovó engataram uma conversa animada com tia Ariel e Killian com Ruby, enquanto as crianças me rodearam para contar as novidades. A mais impressionante de todas foi que Grace perdera seu primeiro dente de leite. Ela esticou os lábios para me mostrar a janelinha com um orgulho muito pouco disfarçado.
Hans e Elsa Andersen demonstraram ser um casal simpático. Participaram das conversas como se fossem gente de casa, ignorando o assunto política. Achei essa atitude excelente, e contou pontos para os dois.
Regina tentou chamar minha atenção o tempo todo. Mas decidi ignorá-la — 1, por causa da história do roupão, e, 2, devido às minhas reações nada naturais diante dela. E olhe que ela utilizou várias abordagens: fez piada com meu medo de andar de moto, fofocou que eu era impressionável em se tratando de histórias antigas, contou que eu levava jeito na cozinha — o que deixou minha mãe toda orgulhosa. Por fim, deu um chute em minha canela e eu juro que quase reclamei em voz alta, bem assim:
— Paiê, a Regina me chutou!
Só que não fiz nada disso, é óbvio.
Quando o almoço terminou, despedi-me apressadamente de todos, pois Irina anunciou em alto e bom som que Virna, minha primeira e única manicure na Krósvia, estava me aguardando no quarto.
Mamãe e vovó também se despediram e foram levadas ao hotel para um descanso rápido. Elas acompanhariam a cerimônia de apresentação no Palácio de Perla e seriam levadas até lá por Daniel, que estava por conta delas. Não foi fácil separar nós três. Desejava mais um tempo de mimos e paparicos. Por outro lado, sabia que a ocasião exigia paciência. Depois da apresentação, teríamos mais liberdade.
Anna caprichou na produção. Já expert nas técnicas brasileiras de manicure e pedicure, fez um trabalho perfeito em minhas unhas. Escolhi vermelho vivo para as mãos e os pés. Quem sabe a cor desviasse a atenção de cima de mim? Quanto menos pessoas ficassem me encarando, melhor seria para meu coração descompassado.
Unhas feitas, hora do cabelo. Eis que surgiu na minha frente a figura mais exótica da face da Terra para “dar um up” em meu visual. Nome: Kristof. Gênero: duvidoso.
Simultaneamente batendo palmas e estalando os dedos, Kristof invadiu meu quarto agarrado numa maleta pink e falando pelos cotovelos. Em krosvi.
— Ei! — praticamente tive que gritar para ser ouvida. — Em inglês, por favor.
Patrick arregalou os olhos — muito bem delineados de lápis preto — e abriu a boca.
Mas de lá não saiu mais nenhuma palavra.
— Oh-oh — disse eu. Pelo jeito, ele não falava nem entendia nada daquela língua. E agora?
— Eu não falo Inglês — alegou, num inglês para lá de estranho.
Levantei as duas mãos para ele, fazendo um gesto para que esperasse. Recorri a Irina, que teria que dar uma de intérprete. Quem mandou contratar um cabeleireiro com o qual eu não conseguia me comunicar?
Resolvida a questão, deixei que ele trabalhasse em minhas madeixas. Até que a figura tinha dedos de anjo, pois fui ficando grogue de sono enquanto Kristof mexia para lá e para cá nas minhas mechas.
Por fim, tive que admitir que o resultado ficou muito bacana. Kristof fez como Irina sugeriu, prendendo só um dos lados com grampos. Em cima deles, tanto para escondê-los como para dar um charme, colocou um prendedor bonito de cristal.
Da maquiagem eu mesma cuidei. Como já estava de vestido vermelho e unhas vermelhas, decidi marcar bem o olho e só passar um gloss nos lábios.
Assim que me olhei no espelho de corpo inteiro de meu closet e constatei que não faltava mais nada, suspirei. A sorte estava lançada. Em poucos minutos, eu deixaria de ser simplesmente Emma Swan para me tornar algo próximo a uma celebridade.
Soube que a imprensa brasileira invadiu Perla em peso, mesmo sem saber absolutamente nada sobre mim. Mas, como a assessoria de imprensa do governo soltara uma nota informando que a notícia que o rei Andrej daria naquela tarde dizia respeito ao Brasil também, os jornalistas não ficaram parados, esperando para ver. Acamparam no pátio do Palácio de Perla com câmeras e microfones e lá ficaram o dia todo.
Uma leve batida na porta me provocou um sobressalto. Pensei logo em Regina, mas ela jamais batia. Entrava de uma vez, com ou sem autorização. Já vacinada contra suas invasões, preferi atender pessoalmente, em vez de mandar entrar.
— Olá! — Era meu pai. — Como está esse coração?
Abri caminho para ele e então vi seus trajes. David estava alinhadíssimo, num fraque² impecável, talvez até demais para o horário. Mas, como não entendo muito de etiqueta, nem sei se tinha ou não razão quanto a isso.
— Batendo acelerado — confessei.
Ele me olhou com aprovação.
— Você está linda. Parece uma princesa.
Sorrimos. Ele estava fazendo piada, embora de uma forma bastante sutil.
— Queria garantir a você que será rápido, que você não ficará exposta demais — disse, com uma expressão carregada de ternura. — Que as pessoas não atormentarão você...
Balancei a cabeça, compreensiva.
— Mas eu não posso... — meu pai assumiu, por fim. Deu um longo suspiro, que depois se transformou num sorriso consolador. — Só quero deixar as coisas mais confortáveis, se é que tem jeito. Não haverá coroação, não agora. Príncipes e princesas não precisam ser coroados para serem reconhecidos como herdeiros do trono. Mas, no seu caso, faço questão disso... caso você decida viver aqui para sempre.
Uma camada de ar gelado percorreu minha coluna vertebral. Achei que já tinha deixado bem claro que voltaria para o Brasil, independentemente de qualquer coisa.
Parece que David leu meus pensamentos, pois tratou de esclarecer:
— Não estou exigindo que more na Krósvia, que deixe o Brasil de vez. É só um desejo meu muito, muito forte.
Assenti. E ele voltou a pisar em terreno sólido.
— Vou ficar do seu lado o tempo todo. Você não precisa dizer nada, se preferir assim.
— Prefiro — concordei mais que depressa.
— Só lhe peço um único favor.
— Pode pedir. — Senti que era necessário abrir a guarda. Esse pai era mais do que eu merecia.
David enfiou a mão no bolso do paletó e retirou uma caixinha azul. Fiquei olhando para ela, sem entender. Ele me daria uma joia?
Ao abrir a embalagem, apareceu um colar, que eu julguei ser de ouro branco. Na verdade, era uma correntinha prateada, muito fina e delicada, com um pingente brilhante no formato de um botão de rosa.
— Este diamante pertenceu à minha mãe, sua avó Andrina. — Diamante! E eu pensando que fosse, no máximo, um cristal. — Quando me casei, ela o deu de presente para Zelena, esperando que um dia tivéssemos uma filha que herdasse a joia. Quero que a use hoje.
David ficou atrás de mim e colocou o colar em meu pescoço. Instintivamente, toquei o pingente. Tão lindo!
— Zelena morreu sem saber sobre você. Mas acredito que, se estivesse aqui, faria o que estou fazendo agora, e até melhor, Emma. Ela era uma pessoa maravilhosa e teria amado você tanto quanto eu.
Senti lágrimas formando-se em meus olhos, mas eu não choraria. Por mim, por meu pai, por tudo, ficaria firme até o fim.
— E nós concordamos. — Quando ouvi a voz de Regina, tenho a absoluta certeza que senti meu coração parar por alguns milésimos de segundo. — Você está maravilhosa, Emma.
Me virei e lá estava ela, parada ao lado de Killian. Os dois, muito elegantes. Killian usava um traje parecido com o do meu pai, e quando cravei os olhos em Regina, fiquei com medo de todos os presentes ouvirem as batidas do meu coração, que agora estava exageradamente acelerado.
Ela estava com um vestido tubinho, coral, na altura do joelho e as mangas até os cotovelos. Batom vermelho nos lábios e os cabelos desgrenhados de forma sexy. Ela estava completamente maravilhosa, e não havia palavras para explicar.
— Concordo com a minha irmã, e com David. — Killian disse sorrindo. — Você está maravilhosa, e se mamãe estivesse aqui, ela faria exatamente isso que David disse.
— Fico feliz em saber disso. E vocês três estão incríveis, e obrigado por tudo. — Dei um sorriso amigável para Killian e me virei para Regina, fiz que diria algo mas achei melhor não, mas mesmo sem dizer nada, ela me olhou como se tivesse entendido. Olhei para o meu pai e continuei. — O colar é lindo. — O abracei em seguida. — Obrigado, papai.
E essa foi a primeira vez que chamei David de pai. Deliberadamente.
O rosto dele adquiriu uma expressão de realização, como se aquela simples palavra fosse a mais bonita e importante do mundo. Naquele momento, ela era, sim. Pelo menos para nós.
***
Parecia uma novela de época. Só trocaram as carruagens por automóveis. Mulheres em seus melhores trajes, empregados por todos os lados e homens, bem, de preto.
A caravana era grande: um carro com tia Ariel e família, outro com o casal Andersen, Irina e o assessor de David, cujo nome eu não havia guardado ainda, além do nosso, digo, o que levava meu pai, Ruby, Killian, Regina e eu.
Eu estava imprensada entre Ruby e Regina. Claro que aquela posição foi minuciosamente orquestrada por minha amiga maquiavélica e fiquei me questionando por que minha “quase irmã” não saíra direto do apartamento que estava com a sua namorada.
Tudo bem que a visão era das melhores mas o que realmente estava me tirando do sério e me ajudando a não pensar na cerimônia que me aguardava a poucos quilômetros dali era a perna direita de Regina pressionando minha perna esquerda, com apenas o tecido dos vestidos servindo de barreira entre nós.
Seu perfume subiu até minhas narinas ultrassensíveis, o que foi suficiente para eu ter um flash bastante vívido do sonho que tivera na noite anterior. Como eu poderia ter esquecido?
Foi assim:
Regina e eu estávamos na Caverna do Pirata, mas dessa vez fomos até lá para mergulhar. Usávamos roupas leves — short e camiseta —, mas eu tinha consciência do biquíni por baixo de tudo.
Caminhamos caladas sobre as pedras, só que de mãos dadas. E nossos dedos estavam entrelaçados. Percebi que isso fazia uma diferença enorme.
Ao entrarmos na caverna, Regina disse que eu precisava me preparar para nossa primeira aula. Portanto, eu deveria colocar um macacão de mergulho. Por sorte, ela havia levado dois dentro da mochila que se materializou nos ombros dela. Atirou o traje para mim e começou a se despir para vestir seu próprio macacão.
Senti um perfume doce quando sua camisa voou até o chão e minha boca ficou seca de repente. Regina estava na minha frente, só de biquini. Então, ela ordenou que eu me apressasse e vestisse logo meu macacão, pois o tempo dela era curto.
Obedeci a ordem, morrendo de vergonha de ficar só de biquíni. Foi só eu tirar o short que ela me encarou. Primeiro, deu uma boa olhada em meu corpo. Depois, cravou os olhos nos meus. Fiquei roxa.
Deu um passo, depois outro, devagar, até ficar a um palmo de distância de mim. Minha respiração perdeu a regularidade e ficou pior quando Regina se inclinou. Fechei os olhos, pois sabia que o beijo era uma questão de milésimos de segundo.
De repente, eu sabia que estava sonhando. Sabe aquela sensação? Mesmo assim, eu queria aquele beijo mais do que tudo no mundo.
Mas não aconteceu. Nem no sonho. Claro que acordei na hora H e estraguei tudo. Que ódio!
Olha só a que ponto cheguei. Agora, fico desejando ser beijada por Regina, acordada ou não. Será que existe remédio para obsessão?
Senti seu olhar desviando-se de vez em quando em minha direção. Algo me dizia que minha perna roçando na dela não distraía só a mim.
Ruby também estava lutando para se conter. Eu previa sua ânsia de dizer algo. Então, adiantei me, surpreendendo todo mundo.
— Killian, por que sua namorada e seu filho não vieram? Eu queria muito conhecê-los.
— Henry já chegou, está com a babá. Tinker não pode vir, tinha prova e não podia perder.
— Você vai adorar o Henry. — Regina disse, sorrindo de uma forma que me derreteu por inteira.
— Aposto que sim.
Só consegui dizer isso, porque Regina colocou suas mãos sobre a minha, tirando logo depois. Mas o gesto fez meu corpo inteiro se eriçar.
— Chegamos! — exclamou Killian, apontando com o indicador os fundos do Palácio de Perla.
Lógico que todas as atenções foram desviadas de mim para o prédio — e foi melhor assim. Não sei se Killian ou Ruby estava sentindo o mesmo, mas o calor estava insuportável.
Assim que o carro estacionou na garagem do palácio, constatei que meus batimentos cardíacos deviam estar como os de um corredor dos cem metros rasos. Claro que era por causa da situação e zero devido a Regina. Você sabe né. Ela não me causa nada.
Estávamos prestes a seguir até o elevador quando Regina segurou meu braço e me fez parar. Ruby olhou para a cena e decidiu não interromper, nem deixar que alguém fizesse isso. Manteve o ritmo e levou David e Killian consigo. Por algum motivo, meu pai achou que não tinha nada de mais eu ficar para trás com seu enteada.
— Que foi agora? — Usei um tom carregado de impaciência, só para disfarçar o nervosismo.
— Você será oficialmente uma princesa. — Ela foi dizendo, quase num sussurro. — E logo que for conhecida pelo mundo inteiro, eu farei com que eles a coloquem em primeiro lugar da lista de mulheres mais linda do mundo, porque Emma, você está perfeita. — Ela passou os dedos sobre meus lábios.
Eu acho que vou desmaiar.
— Está atrasada — ela completou. — Venha. Todo mundo está esperando você.
Literalmente, o mundo inteiro.
***
Entramos juntos — David, Killian, Regina e eu — no gabinete do rei, enquanto os demais membros de nossa comitiva foram instalados numa sala de estar, com direito a um coquetel maravilhoso e uma televisão gigantesca, conectada no maior canal do país, de onde o pronunciamento seria transmitido.
Todo mundo decidiu que me beijar me deixaria mais calma, e minha mãe acabou batendo o recorde. Sentei-me toda dura na ponta de uma poltrona, mal ouvindo o que meu pai e Killian conversavam. Nesse meio-tempo, um homem que vestia um terno preto, com um microfone de apresentador de TV, entrou e ficou dando instruções para David, tudo em krosvi. Meu pai só concordava, mas depois traduziu tudo para mim.
— Chegou a hora, Emma. Preciso ir. Daqui a pouco a Irina vem chamar você. Vou estar na sala ao lado. Como eu disse, não vai precisar dizer nada. Por isso, tente ficar calma, certo?
Impossível. Seria impressão ou minha barriga estava começando a doer? Ah, não! Por favor, intestino, colabore!
— Killian e Regina, fiquem com ela. E, quando a Emma for chamada, quero vocês juntos de nós o tempo inteiro. Entendido?
— Sim. Vou cuidar para que nossa Emma aqui não desmaie nem saia voando pela janela — disse Killian, cheio de graça.
David sorriu. Killian tinha dito o que ele queria escutar.
Juntei uma mão na outra e esfreguei-as com força. Havia pouco mais de um mês, era uma garota normal que pensava que o auge de sua vida seria a viagem à Europa que pretendia fazer quando se formasse. Na televisão, nunca sonhara aparecer, a não ser por meio dos vídeos caseiros que fazia com sua câmera digital — e com aquelas fitas de VHS, quando era criança. Entrar num castelo de verdade? Só se ele fosse aberto à visitação pública. Bater papo com um rei? Talvez o Rei Momo no Carnaval do Rio de Janeiro. E nunca, jamais mesmo, essa garota fora chamada de princesa na vida, exceto pela mamãe. Mas isso não contava.
Senti dedos macios procurando os meus. Eu não esperava que Regina fosse se aninhar a meu lado, nem que tivesse intenção de segurar minha mão. Levei o maior susto, embora soubesse que era um gesto inocente, tranquilizador, sem segundas intenções.
Deixei que ela fosse meu apoio e não senti vergonha ao me recostar nela, minha cabeça descansando confortavelmente em seu ombro. Regina reagiu fazendo carinho em meus cabelos com a outra mão. E Killian, nem parecia ligar.
— Não tem mais raiva de mim? — indaguei, incapaz de olhar em seus olhos.
— Nunca tive raiva de você — rebateu, segurando-me nos ombros para me encarar.
— Como não? Vai dizer que eu imaginei todas as vezes que você foi rude comigo?
— Não — reagiu. — Mas não era por ter raiva de você.
— Então, era por quê?
— Emma, venha! — Irina interrompeu. Que droga! Eu estava prestes a ter uma revelação. Por que comigo e Regina as coisas sempre pareciam ficar pela metade?
Fui levada às cegas até a sala de imprensa, a tempo de ouvir meu pai anunciar em krosvi e, depois, em inglês:
— Quero que todos conheçam finalmente minha filha, Emma Swan Markov, a princesa Emma, da Krósvia.
Por pura falta de iniciativa da minha parte, Killian e Regina me puxou. Minha aparição na frente dos jornalistas provocou o caos. Todos começaram a falar ao mesmo tempo e flashes brilhantes espocaram diante de mim como se eu fosse a nova sensação de Hollywood.
Sorri timidamente, sem saber o que fazer. Sorte que David segurou meu braço e me fez ficar entre ele, Regina e Killian para que os fotógrafos pudessem nos fotografar à vontade. Então, as perguntas recomeçaram, algumas em krosvi, outras em inglês e até em português!
— Emma, como você se sentiu ao saber que era filha do rei David?
— Emma, como está sua vida depois de ter recebido essa notícia?
— Emma, de uma universitária comum a uma princesa. Fale um pouco sobre essa reviravolta.
— Emma, você pretende ficar definitivamente na Krósvia?
— Emma, Emma, Emma!
Minha cabeça deu uma rodada legal e minhas pernas perderam a rigidez.
Gente, eu ia desmaiar na frente daquele mundaréu de jornalistas, em rede nacional — e internacional também —, pagando o maior mico em minha primeira aparição pública. Mas Regina envolveu minha cintura com o braço e apoiou meu corpo no seu, mantendo-me de pé, enquanto David solicitava:
— Amigos, por favor, vamos deixar as perguntas para outra ocasião. Emma está cansada e ainda não entende o krosvi. Prometo marcar uma coletiva na semana que vem e então vocês poderão perguntar à vontade, certo?
Ouvi inúmeras reclamações, mas senti que, de certa forma, eles estavam satisfeitos. A notícia era quente e eu fiquei parada diante deles por tempo suficiente para que fizessem fotos e mais fotos.
— Só mais uma pergunta! — ouvi alguém gritar. — Emma, você e a Regina Mills são irmãs ou namoradas?
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