A nova vida de uma alma sem lembranças
81 Capítulo 81 - Grupo de Estudos.
Notas iniciais
O segundo pátio da escola, que ficava nos fundos do campus, estava maravilhoso.
Parecia uma festa junina, cheia de barraquinhas armadas de maneira para chamar a nossa atenção.
Era como uma disputa com o objetivo de conseguir o maior número de novos membros.
Se desse bobeira você seria puxado por algum veterano querendo te mostrar "as vantagens" de fazer parte do grupo dele.
Além da turma da minha sala, havia vários outros alunos novatos, mas a maioria era humano ou Elfo da Planície, e eu não sabia quantos, pois eles já estavam espalhados.
Khonar, Karios e o pessoal que estava perto de mim enquanto andávamos até o pátio acabou se separando.
Cada um se interessou em um estande diferente e nos dispersamos.
Eu preferi tentar olhar todos os estandes antes de escolher um grupo em específico.
Quase todos me chamavam a atenção, pois todos pareciam interessante.
Era muito difícil eu não ficar maravilhado com o que era apresentado nos estandes.
No estande de Artefatos Mágicos estavam disponíveis pequenos objetos mágicos desenvolvidos pelos próprios alunos para você testar e vê-los funcionando.
O estande de Combate Magico e Combate Corporal apresentavam disputas demonstrativas entre os veteranos utilizando as técnicas estudadas por eles.
Vários papeis com formas coloridas desenhadas estavam expostas no estande de Círculos Mágicos.
Cada uma das "barracas" tinha algum diferencial, algumas eram extremamente coloridas, outras eram muito chiques, outras ficavam lançando chamas ou emitindo luzes, até música era usada como diferencial.
Então finalmente eu me deparei com uma barraca que me prendeu.
Quando eu vi o estande eu tive certeza de que era aquele que eu queria entrar.
Até dei uma chance e continuei olhando as outras opções, mas assim que terminei de ver todos eu voltei naquele.
Era um estande simples, sem nada chamativo e nem muitos alunos.
Apenas algumas anotações estavam expostas em seu balcão e não havia nenhum novato olhando.
Mesmo assim eu fiquei extremamente interessado.
O nome do grupo era "Monstros e criaturas mágicas".
Apenas duas alunas veteranas tomavam conta do estande.
Ambas eram Elfas, uma da Planície com um curto cabelo ruivo e a outra tinha compridos cabelos lisos dourados e assim como a cor de seus olhos.
Eu comecei a ler os papéis disponíveis antes de falar com elas.
Não sei se elas estavam admiradas pelo fato de eu ser um Elfo Negro na academia ou se eu era o único aluno olhando o material delas, mas elas ficavam me encarando sem dizer nada.
Nos papéis estavam descritas informações importantes sobre alguns monstros, como o Lobo de Chifre por exemplo, dizendo seus comportamentos e costumes, dimensões, fraquezas e melhor forma de lidar com eles, além de vários outros comentários e dados.
Basicamente, eles faziam um "tudo sobre" de cada monstros.
Mas havia pouco material.
Por algum motivo essa área não atraía a atenção dos alunos.
Para mim aquilo era maravilhoso, pois como caçador eu estudava o comportamento dos monstros e poderia oferecer muito para o grupo, além de aprender muito com eles, e de aprender a lidar com monstros que eu lutaria contra durante as missões da Guilda.
— Vocês estão aceitando novatos? — Eu perguntei depois de devolver os papeis ao balcão.
— Ah! Sim! Estamos sim. — A garota com os olhos dourados se levantou rapidamente de onde estava sentada para falar comigo, um sorriso apareceu no rosto das duas. — Você tem interesse?
— Tenho interesse sim. — Eu sorri de volta. — Muito prazer, me chamo Dinus. Como eu faço para entrar nesse Foco?
— Muito prazer, eu sou Afariel, mas pode me chamar apenas de Fari, e essa é Mitraelis. — Então a Elfa de cabelos curtos sorriu e acenou para mim, ainda sentada em seu lugar. — Mas eu a chamo de Lis. Aqui, preencha essa folha para fazer parte do nosso Foco de Estudo.
Eu comecei a preencher o papel de inscrição enquanto Fari voltou a se sentar.
— Ei, estamos com sorte esse semestre, hein? — Comentou baixinho Lis para Fari. — Ele passou aqui antes e voltou!
— Shhhh! — Fari parecia querer que Lis apenas ficasse quieta.
— Será que mais alguém virá? Você sabe, faz mais de 2 anos que não entra ninguém no nosso Foco. — Lis falou ainda mais baixinho e mais perto da companheira de grupo, provavelmente para que eu não escutasse.
— Fica quieta! Você vai assustar o menino. — Fari respondeu baixinho, porém nervosa, mas voltou a olhar para mim com um sorriso.
— Aqui. Terminei de preencher. — Eu coloquei a ficha e pena no balcão.
— Certo! — Fari levantou-se rapidamente e pegou o papel para conferir. — Agora nós entregaremos na diretoria, mas a partir de amanhã você já pode participar do Foco, nossa sala é a 254.
Enquanto Fari me falava algumas informações do grupo outro aluno se aproximou de nós.
Ele era aquele aluno da minha sala que não tinha interesse nenhum na aula.
Um Elfo da Planície com uma expressão de total desinteresse de estar lá.
Mas dessa vez ele estava normal, parecia estar interessado no grupo também.
Ele ficou lá por algum tempo, apenas encarando os papéis no balcão.
Lis levantou e se aproximou dele.
— Olá! Muito prazer, eu sou a Lis, você tem interesse no nosso Foco? — Ela estava bem simpática.
— Eer... Prazer, eu sou Khoba. — Ele pareceu ficar meio sem jeito e soltou um pequeno sorrisinho. — Eu tenho sim, posso preencher o formulário?
— Que bom! Eu vou pegar para você, só um instante.
Khoba parecia um pouco feliz de alguma maneira.
Pelo que ele deixava transparecer durante a aula, não achei que ele teria interesse em algum grupo.
Ele parecia diferentemente entusiasmado.
Conversamos nós quatro por um tempo.
As meninas contaram o que elas faziam no grupo e sobre os outros membros que já se formaram.
Não havia mais nenhum outro aluno naquele grupo, apenas aquelas duas, enquanto outros grupos contavam com dezenas de alunos.
Também falaram sobre algumas criaturas e monstros que elas estavam estudando, mas ainda não tinham material pronto.
Eu perguntei várias coisas para elas, enquanto Khoba ficou apenas escutando e prestando bastante atenção.
Logo o sino tocou e havia acabado as aulas daquele dia.
Enquanto voltávamos para a sala para pegar nossas coisas, eu tentei puxar uma conversa com Khoba.
— Que bom que tem alguém da sala comigo no Foco. Você... — Eu comecei a falar, mas fui interrompido por Khoba.
— Não se preocupe comigo garoto, eu não tenho interesse no Foco também, eu apenas entrei naquele que tinha menos alunos para não ser incomodado. — Khoba já estava com aquela expressão de desinteresse total novamente em seu rosto.
— Entendi. Desculpe. — Eu não sabia o que dizer, então só me desculpei.
O que foi isso?
Que cara chato!
Eu fiquei tão feliz por ter ele comigo no grupo!
Parece que ele não fará nada conosco.
Bom...
Não posso fazer nada sobre isso, então eu não vou esquentar a cabeça pensando sobre.
— Você é Dinus, certo? O Herói? — Ele voltou a falar depois de um silêncio.
— Sim... Como você sabe?
— Não precisava se desculpar, nem se preocupe comigo. Meu pai me obrigou a estudar aqui na academia. Na verdade, eu não queria, mas não tive escolha.
— Seu pai? — Ele pareceu um pouco mais simpático agora, parece que ele ficou com pena de mim por ter falado daquela maneira.
— Você não percebeu ainda? Eu sou filho do diretor Yunis. Sou Khoba Daral. Só estou aqui porque meu pai disse que eu poderia fazer o que quisesse se eu me formasse na academia.
— E o que você quer fazer? — Parece que ele está se soltando um pouco, então eu tentei continuar com a conversa.
— O que eu quero? — Khoba olhou para o nada por um tempo antes de responder. — Eu não sei direito ainda... Eu gosto de construir coisas. Acho que eu quero ser artesão.
— Legal. Mas então você deveria ter entrado no Foco de Artefatos Mágicos. Não seria melhor?
— Acho que sim. Mas você viu quanta gente tinha lá? Ia ser um saco! Os outros alunos iriam ficar me incomodando.
— Entendi. — Embora eu não tivesse entendido o que passava na cabeça dele de fato. — Mas tenta participar dos Foco conosco, talvez nós consigamos fazer algo que te deixe interessado.
— Os trabalhos do Foco são obrigatórios para se formar, de qualquer maneira eu terei que... — Enquanto ele dizia algo eu fiquei pensando e tive uma ideia, então eu o interrompi sem perceber o que estava fazendo.
— Já sei! E se você construir armadilhas para capturamos os monstros? — Eu falei um pouco empolgado.
Khoba me encarou espantado.
Um pequeno silencio tomou conta de nós enquanto andávamos pelo corredor em direção à sala de aula.
Será que eu fui rude?
Ou eu falei algo estranho?
Então Khoba começou a gargalhar.
— Você... Você é engraçado, sabia? — O filho do diretor procurava tentar respirar para falar entre as risadas. — É. Vamos ver no que vai dar.
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