A nova vida de uma alma sem lembranças

82 Capítulo 82 - Varinha de Condão e Pó de Pirlimpimpim.


Notas iniciais
Postagem: 2021/12/19 16:08 Revisão: 2025/12/11 16:04 Se ficou curioso sobre algo que eu não disse mas você gostaria de saber, mande sua pergunta, eu juro que responderei à todos.

Hoje é o primeiro dia do segundo mês.

Também é o primeiro dia da semana de dez dias.

Logo... Hoje é dia de treino.

Além das aulas da academia, dia sim dia não eu terei treino de espada com Necifran.

Contei para o meu mestre que hoje havia sido minha primeira aula na academia.

Ele pareceu não se importar muito, mesmo assim me deu os parabéns e perguntou se eu tinha gostado.

Não prolonguei a conversa pois percebi que ele estava apenas sendo educado e respondi apenas com um "gostei sim".


A aula de hoje foi com a espada como de costume.

Embora ainda fosse possível vê-los, os machucados na minha mão já estavam cicatrizados, então eu podia manejar normalmente a espada.

Mesmo assim Necifran aplicou mais um pouco da pomada após o treino.


— Acredito que você está com problemas para melhorar além do seu nível atual. Eu sinto que você precisa de uma abordagem diferente em suas técnicas. — Necifran estava falando seriamente logo após a aula, enquanto eu me arrumava para ir para casa. — Eu estava planejando algumas coisas, mas agora que você se inscreveu na agência de serviços, eu recomendo que você passe a completar serviços de caçada de monstros. Use sua magia apenas no último caso e se force a utilizar apenas suas técnicas de espada. Quando caçar monstros mais fortes, forme grupos com pessoas mais experientes e assista-os, analisando suas técnicas e imaginando como faria para se defender e contra-atacá-los.

— Mas agora eu não consigo arrumar tempo para completar serviços desse tipo. A maioria é muito longe da cidade e precisaria de pelo menos 2 dias para completar. — Eu respondi com a mesma seriedade que ele estava falando, pois Necifran já não me tratava como uma criança há muito tempo.

— Você deve ter os dias de descanso na academia normalmente, tente fazer nesses dias. — Ele respondeu prontamente sem pensar muito.

— E os treinos?

— Realizar esses serviços será parte do seu treino agora, você não precisará vir nos dias de descanso quando estiver fazendo serviços da agência. — Necifran ajustou os horários para que eu pudesse realizar missões para a Guilda.

— Entendido! Eu vou fazer assim, mestre.

— A maioria dos monstros dos serviços do seu nível são muito fracos para você, então tente estudar cada movimento o máximo possível, cace a maior quantidade possível. Eu sei das suas capacidades mágicas, mas nunca abaixe a guarda, não faça nenhuma loucura e tente voltar inteiro.


Sinto que ele estava falando sobre a minha orelha naquele momento.

Meu cabelo já estava se transformando em uma moitinha.

Eu tinha o mesmo tamanho de cabelo que um homem normalmente teria na terra.

Já era possível até penteá-lo, mesmo assim eu me mantinha usando a boina.

O cabelo eventualmente cresceria, era só ter paciência, mas o pedaço da minha orelha nunca cresceria novamente.

Imagino o que aconteceria se tivesse sido um braço ou uma perna.

Fora isso, percebi o quanto Necifran se preocupava comigo, por mais que ele não transparecesse.


Khonar já estava dormindo quando eu cheguei de volta no dormitório.

Ele tem o costume de dormir cedo como um pássaro.

Na terra nós diríamos que ele foi dormir com as galinhas.

Pelo menos dessa expressão eu ainda me lembro.

Falando em me lembrar, eu sempre me lembro de alguma coisa ou outra da terra, mesmo assim eu nunca me lembrei nada relacionado a quem eu fui ou o que eu fiz.

Meu nome ou idade. Até meu sexo. Eu fui um homem ou uma mulher?

Quando eu nasci aqui em Oriohn como Dinus, eu sabia o idioma da minha vida anterior, mas agora eu estou tão acostumado a falar, ouvir, pensar, ler e escrever com o idioma daqui que eu não me lembro tão bem do idioma anterior.

Se eu me esforçar e pensar sobre eu consigo lembrar do idioma português e suas regras, mas se eu tentasse falar em português hoje não sairia tão natural, eu acho, afinal, faz 10 anos que eu não uso.

Acho que vou começar a escrever algumas coisas com as letras latinas no idioma português para que isso não se perca totalmente da minha memória.

Mesmo que eu não vá usar nesse mundo é uma coisa que eu gostaria de não esquecer, pois eu ainda quero tentar descobrir algo sobre minha vida anterior.

Seria incrível se eu encontrasse o planeta terra entre as estrelas que nós vemos no céu, se é que isso é possível.


Peguei uma folha de papel e comecei a anotar algumas frases em português.

Com certa dificuldade eu consegui escrever alguns provérbios.

"Quem tem boca vaia Roma" foi uma das frases que eu lembrei e anotei.

Essa em particular era engraçada, pois as pessoas da terra confundiam o verbo "Vaiar" com "Vai à" trocando o significado do provérbio de algo parecido com "quem está insatisfeito reclama" para algo como "quem consegue se comunicar chega em qualquer lugar".

Por algum motivo eu sabia o significado real, mesmo que fosse comum uma pessoa saber apenas o errado.

Depois de escrever algumas frases o sono me convidou a deitar e eu fui dormir.


— Hei... Vamos, acorde. Você vai se atrasar. — Dessa vez eu fui acordado por Khonar, que falava baixinho para tentar não me assustar, enquanto mexia de leve meu ombro.


Eu estava tendo um sono gostoso e não despertei cedo como de costume.

Apenas me levantei, me arrumei com pressa e fui tomar café com Khonar.

O sino bateu e nós fomos para a aula.


— Bom dia, turma! Meu nome é Larienize e eu serei a professora de magias ofensivas. — A professora que entrou na sala era uma Elfa da Planície. Seu curto cabelo era prateado e seus olhos cinza metálicos como um aço. — Antes de começarmos a disparar magias em alvos, nós vamos preparar nossas varinhas. Varinhas são ferramentas mágicas sem Círculos que nos auxiliam a canalizar e até potencializar as magias de efeito externo.


A professora tirou de sua cintura um graveto e mostrou para a turma.

Depois de uma breve explicação, ela nos pediu para pegar alguns materiais que estavam em caixas que ela trouxe para a sala.


— Uma varinha é geralmente dividida em 4 partes, o galho, o miolo, a base e a ponta. — A professora continuou enquanto pegávamos um por um os materiais para montar uma varinha. — O galho precisa ter uma faixa de tamanho específica, 20 centos de San'o deve ser o suficiente, mas vai variar dependendo dos outros materiais utilizados. A madeira mais comum é teixo e dependendo da utilização da varinha a madeira também muda.


Nós pegamos um pedaço de madeira como um graveto com um furo em seu interior, como se fosse um canudo, porém com o furo era bem fininho, algo como 1 milímetro de diâmetro.

Essa madeira era bem mais alaranjada do que a normalmente utilizada na construção de móveis.


— O miolo é feito com tinta mágica, a mesma que utilizamos em Círculos Mágicos, então nós devemos perfurar o galho para passar a tinta por dentro. Como isso é um processo complicado, os galhos que temos hoje já estão perfurados.


Na caixa havia um monte de pequenos frascos de tinta preta.

A aparência da tinta era como se fosse cola branca líquida, daquelas que usamos para colar papel, misturada com algum pó preto que dava a cor à tinta, sendo possível ver alguma parte do pó ainda não completamente dissolvido.


— A base é a que fica em contato com a palma na nossa mão, ela deve ser de um material de condução mágica, geralmente algum metal. Para varinhas de alta qualidade, geralmente ouro ou platina é utilizado, mas vocês farão a primeira varinha de vocês com uma base de cobre.


Cada um pegou um pedaço de cobre em forma de meia esfera, o tamanho desses pedaços correspondia à grossura da ponta mais grossa do galho.


— E por último a ponta. Ela faz a maior parte do serviço de canalização, sendo a parte mais importante. Ela deve ser alguma joia, como rubi, safira, esmeralda, onde cada uma das joias potencializarão um elemento, o rubi por exemplo potencializa magia de fogo. Hoje nós vamos utilizar cristais simples não elementais, que apenas canalizam o poder mágico do encantamento, mas vocês poderão substituir a ponta mais tarde por algum material de maior qualidade.


Havia várias pedrinhas preciosas em uma pequena caixa.

As pedras tinham menos de 1 centímetro de diâmetro e eram todas incolores e translúcidas, não completamente translúcidas, havia certa opacidade esbranquiçada.


— Agora vocês pegarão essa ferramenta e vão preparar a parte da base para prender e grudar o cobre. — A professora pegou os materiais também e começou a demonstrar o manuseio. — De maneira que você consiga encaixá-lo sem folgas, faremos o mesmo com a outra extremidade e o cristal. A colagem será feita com a tinta mágica, que secará e prenderá a base ao galho. Para colocar a tinta você usará a tampa desse frasco que serve como funil para aplicar lentamente a tinta na outra extremidade da furação do galho. Aplique lentamente até ver que a tinta não esteja mais descendo e o galho esteja cheio. Então aplique uma gota de tinta no cristal e cole-o na outra extremidade do galho, mas cuidado para não sujar muito o cristal com tinta, a tinta não pode ficar exposta.


A professora nos mostrou e cada um de nós tentou fazer sua própria varinha.


— Se não ficar completamente bem-feito não terá problema, ela ainda funcionará, apenas com desempenho reduzido. — Continuou Larienize enquanto assistia os alunos fazer os procedimentos. — A única coisa que fará a varinha não funcionar é se o miolo ficar incompleto, por isso prestem bastante atenção nessa parte.


Pela explicação da professora, a varinha mágica tem o objetivo de focar a energia gerada pelo encantamento em um ponto específico, deixando a magia mais concentrada.

A base de metal funcionava como um receptor, recebendo a magia da palma da sua mão e conduzindo para o cristal pela tinta mágica do miolo, enquanto o galho espremia a energia que passava pelo miolo, tornando mais fina sem diminuir a quantidade.

O cristal na ponta servia para expelir a energia que foi compactada pelo miolo no formato da magia encantada.


— Professora, como é feita a tinta mágica? — Eu levantei a mão e esperei a autorização da professora antes de perguntar.

— A tinta mágica é uma mistura com tinta comum, um material de solidificação e pó de cristal. A tinta pode ser preta ou branca e a cor resultante da tinta mágica depende do cristal utilizado junto com a tinta branca. A tinta preta até fica com coloração, só que é tão escuro que quase não dá para notar.


Então é por isso que existiam círculos mágicos coloridos no estande ontem.

No fim todos nós conseguimos fazer nossas varinhas.

Não era um processo tão difícil assim afinal, era só colocar a base em uma ponta do galho, encher o "canudo" de tinta e colocar o cristal na outra ponta.

A professora usou uma magia de iluminação para testar cada uma das nossas varinhas, e foi nesse momento que a professora pediu para nos apresentar para ela.

No restante da aula foi posicionado um alvo para que nós comparássemos uma magia sem a varinha e com a varinha.

Quando um aluno usou a magia "Jato d'água" foi que realmente essa magia se tornou uma magia ofensiva, pois ela de fato dava algum dano com a varinha.

Eu precisava diminuir muito a quantidade de energia usada nas magias para não sair algo muito forte, então quanto eu usei a varinha a potência da magia que estava reduzia aumentou bastante, quase dobrando o resultado.

Imagino o que aconteceria se eu usasse minha energia sem reduzir.


Além disso, a sensação de usar um encantamento pela varinha era diferente.

Eu sentia a energia sendo sugada da palma da minha mão para dentro da varinha pelo pedaço de cobre.

Se eu simplesmente tentasse usar uma magia sem encantamento ela não daria certo, eu teria que reaprender a usar as magias usando a varinha para fazê-las sem encantar.


A melhor varinha da sala foi a de Tweng Var, com quase 100% de efetividade.

A minha ficou em torno de 80%, que foi também a média da sala.

Eu prestei atenção em Khoba e vi que ele conseguiu mais de 90% de efetividade.

Querendo ou não ele era muito inteligente e habilidoso, ainda mais quando se tratava de "construir algo".

A professora elogiou o fato de Tweng Var se sair tão bem, pois era muito raro alguém conseguir essa efetividade na primeira tentativa, mas o garoto réptil respondeu que já havia feito varinhas antes enquanto ficava envergonhado pelo elogio.


— Cuidem bem dessa varinha, pois vocês não poderão trocar ela até o próximo semestre, e se preparem para a próxima aula, porque será uma aula prática. — A professora concluiu antes de encerrar a aula.

Notas finais
Caso encontre algum erro gramatical ou de digitação, fique à vontade para me enviar a correção. Deixe-me saber o que você achou desse capítulo. Agradeço profundamente qualquer apoio. Aproveite e siga a página no Facebook em https://www.facebook.com/MukiokuTensei