A nova vida de uma alma sem lembranças

57 Capítulo 57 - A luz no fim do túnel.


Notas iniciais
Postagem: 2021/03/14 01:10 Revisão: 2025/12/11 15:45

A luz da manhã ofuscou minha vista.

Ao colocar os pés para fora da caverna dos Renegados, eu senti o ar gelado esfriar meu pulmão.

Ao mesmo tempo que minha vista levou um tempo para se acostumar com a claridade novamente.

Eu não podia caminhar por mim mesmo ainda e estava sendo levado no colo de meu pai.

O rosto de Targo apresentava uma expressão cansada de quem não conseguia dormir a tempos, mas parece que ele estava aliviado de me ter vivo em seus braços.

Notei que Umbaku mancava enquanto andava, assim como meu pai também parecia ter dificuldades de se manter de pé.


— Umbaku, pai, vocês estão bem? — O silêncio estava me incomodando, então mesmo com dificuldades para falar eu tentei puxar assunto.

— Eu estou bem, meu filho. — Meu pai deu um sorriso forçado ao responder.

— E sua perna? — Eu perguntei olhando para Umbaku.

— Eu quebrei as duas pernas, mas elas já estão se recuperando, apenas dói um pouco. — Ele respondeu honestamente.

— Fora os quatro corpos, os caçadores estão bem? — Eu voltei a perguntar.

— Estão todos vivos e se recuperando. — Um soldado imperial respondeu dessa vez.

— Você não devia se preocupar com isso. — Meu pai falou com lágrimas escorrendo em seu rosto.

— Capitão. Quer que eu carregue Dinus para você? — Um soldado se aproximou de nós.

— Não! Eu levo meu filho. — Meu pai respondeu com rigidez e um pouco bravo.

— Sim, senhor. — O soldado abaixou a cabeça e se afastou.


Nós chegamos no acampamento imperial.

Os soldados que carregavam os corpos foram para uma direção diferente da nossa.

Enquanto caminhávamos pelo acampamento em direção à enfermaria eu escutei alguma conversa.


— Faça seu reporte. — Disse um Elfo da Planície.

— General! Nós terminamos o extermínio em nosso setor. — Uma voz de Orc comum que eu conhecia, mas não consegui identificar.

— Certo, dispensado. E quanto as baixas? — O General perguntou para outra pessoa.

— Nós tivemos 2 baixas entre os Orcs, 13 baixas entre os Elfos da Planície, 22 baixas humanas e ainda há 5 Elfos Negros desaparecidos. — Respondeu um outro soldado imperial.

— Mais do que o esperado... — Então ele ficou quieto por um tempo.

— General! Tenho reporte sobre os Elfos Negros. — Um outro soldado imperial falou, um dos que estavam conosco.

— Faça seu reporte.

— Os 5 foram encontrados, 4 baixas e um sobrevivente. — O soldado reportou.

— Muito bem. Ele está gravemente ferido? — O General Imperial perguntou de volta.

— Há marcas de tortura, mas aparentemente ele não corre risco de vida.

— Leve-o para a ala médica, quero um...


Então eu já não consegui mais escutar a conversa.

Eu fui levado pelo meu pai para a uma grande tenda onde havia camas, algumas pessoas deitadas nas camas e outras pessoas usando magia de cura, além de médicos tratando os ferimentos.

As magias de cura não faziam milagre, elas podiam agilizar o processo de cicatrização e remover doenças dos corpos, mas ainda era necessário fazer curativos, tratamentos e cirurgias para salvar a vida de alguém, então a medicina era comum em Oriohn.

Meu pai me deitou em uma cama e ficou olhando para meu corpo por um tempo.

A expressão de tristeza não saída de seu rosto enquanto ele analisava meu corpo.


— Minhas pernas e meu braço direito estão bons, mas acho que meu braço esquerdo esteja quebrado. — Eu disse, para tentar quebrar um pouco do silêncio.

— Entendo. E você sente dores no corpo? — Meu pai perguntou de volta.

— Eu sinto que está machucado em várias partes, mas não estou sentindo tanta dor. — Eu respondi.

— E na sua cabeça? — Ele perguntou.

— Eu estou sentido uma forte dor de cabeça, me lembro de ser atingido pelo Renegado antes de perder a consciência. — Eu respondi. — Depois disso eu acordei naquele beco antes de encontrá-los.

— Você se lembra da luta então? — Ele abaixou a cabeça. — Faz 4 dias.

— Então eu fiquei desacordado por 4 dias. — Eu entendi a situação. — Eu...

— Capitão! O que temos aqui? — Um médico imperial apareceu.

— Vamos falar lá fora. — Meu pai se levantou e saiu da tenda com o médico.


Eu não consegui escutar o que eles falavam.

Talvez houvesse algo que meu pai não queria que eu ouvisse.

Mas eu não me forcei a nada, pois a exaustão tomou conta do meu corpo e eu acabei dormindo.

Eu acordei pouco tempo depois com o mesmo médico tratando minhas feridas.

Ele me falou do estado do meu corpo, que eu estava com algumas costelas quebradas, meu antebraço também, além de vários hematomas, cortes e arranhados.

Ele cortou e removeu o restante da minha roupa cuidadosamente e lavou minhas feridas.

Me avisou que iria doer, mas eu já estava acostumado com a dor então eu tentei suportar sem reclamar.

O médico até me elogiou por aguentar o tratamento.


— Aliás, seu nome é Dinus, certo? — Ele falou enquanto fazia um curativo em meu peito. — Me chamo Nori. Eu fiquei sabendo de você em Vegúrlia.

— Boatos sobre mim chegaram até você? — Eu sorri enquanto me segurava pela dor.

— Sim. Um boato que uma criança Elfo Negro aventureiro apareceu e que estava estudando na metrópole. Era você, certo? — Ele perguntou retornando o sorriso.

— Sim, era eu. — Então eu pensei um pouquinho. — Obrigado por estar cuidando de mim.

— Não precisa agradecer. É meu trabalho afinal. Eu gostaria de estar lá na frente lutando com vocês, mas eu não sou um bom guerreiro no fim. — Então ele mudou para outra ferida. — Eu ouvi que você treinou com Necifran também.

— Sim, é verdade. — Eu percebi que ele estava tentando me desviar a atenção conversando para sentir menos dor, mas eu não sabia o que falar, então deixei ele conduzir a conversa.


Ele falou que teve uma experiência incrível tratando um dragão e que ele tratou vários companheiros meus 3 dias atrás.

Então ele começou a mexer na minha orelha esquerda e na minha cabeça.

Foi quando eu notei que meu cabelo não estava lá.

Havia apenas algumas mechas, mas o meu cabelo comprido havia sido cortado e a maior parte estava careca.

Eu ostentava cabelo cumprido como qualquer outro Elfo Negro, indo até abaixo dos ombros.

Meu cabelo era ondulado e volumoso como o de minha mãe, mas com a cor do cabelo do meu pai, que era menos volumoso, e eu sempre mantinha ele preso como os caçadores de Khuma, pois ele atrapalhava na caça se mantido solto.

Pode parecer besta, mas eu gostava do meu cabelo e aquilo foi um choque para mim.

Nori percebeu que fiquei inquieto e tentou me acalmar.

De qualquer maneira ele cresceria novamente, então não era algo tão ruim.

No fim eu pedi para Nori cortar as mechas que sobraram e eu fiquei todo careca.


Depois que eu já estava tratado e meu braço esquerdo imobilizado, meu pai apareceu com comida.

Era uma comida não muito gostosa, mas eu sabia que era perfeita para resolver a desnutrição que eu me encontrava.

Eu comi sem reclamar enquanto meu pai estava quieto.

Logo eu senti cansaço novamente e voltei a dormir.

Eu acordei mais tarde com meu pai trazendo mais comida para mim, e mais uma vez durante a noite.

No dia seguinte eu já estava me sentindo bem melhor.

Embora meu braço estivesse quebrado, eu já podia voltar a andar.

Meu pai voltou a sorrir quando me viu comendo sozinho com meu braço direito e sentado na mesa com todos.

Eu me recusava a ficar deitado sendo que já estava melhor e quis liberar o leito caso mais alguém precisasse.

Levei uma bronca de Nori, mas no fim ele me fez prometer não me forçar muito para me recuperar 100% logo.

No fim da tarde eu fui levado à tenda do General para reportar o que aconteceu.


— General! Aqui está o caçador Dinus de Khuma para o reporte. — Disse o soldado que nos acompanhou dentro da tenda.

— Sim, deixe-o entrar. — Dentro da tenda, havia uma separação até onde ficava o General.

— Senhor General. Com licença. — Meu pai e eu entramos na parte da tenda onde estava o General, onde havia uma mesa com um mapa da caverna dos Renegados e várias peças posicionadas nele.

— Capitão Targo, quem é essa criança, onde está o caçador? — Perguntou o General.

— General. Esse é meu filho Dinus. — Meu pai respondeu.

— Dinus? Ele é o caçador que foi resgatado? — Espanto apareceu no rosto do General.

— Sim, senhor. — Meu pai respondeu. — Dinus, diga ao general tudo o que você se lembra quando você foi capturado.

— Certo. Antes de ser nocauteado por um Renegado, eu me lembro que estávamos lutando contra mais de 20 deles. — Eu comecei a falar, enquanto o General prestava intensa atenção em mim. — Lembro que estava apenas eu lutando e sobraram 3 renegados vivos quando fui nocauteado. Depois disso eu acordei em um beco sem saída mais no fundo da caverna, onde havia um Renegado e os corpos dos meus companheiros. Eu consegui pegá-lo desprevenido e acabei escapando, depois de um tempo fugindo, eu me encontrei com meu pai, Umbaku e alguns soldados imperiais.

— Isso realmente bate com os reportes que eu recebi. — O General respondeu, pegou uma esfera de vidro branca e colocou em cima de seu mapa na mesa. — Coloque sua mão nessa esfera.

— Sim, senhor. — Eu sabia que esfera era aquela, era um detector de mentiras. Então eu obedeci.

— Nesse relatório diz que durante o "embate" contra os mais de 30 oponentes você, sozinho, derrotou pelo menos 10 deles. Isso é verdade? — Ele fez uma expressão bem séria quando perguntou.

— Sim, senhor, eu me lembro de derrotar 12 deles. — Depois da minha resposta o general encarou a esfera, que permaneceu branca.

— Nesse outro relatório diz que foram encontrados pelo menos 7 cadáveres de Renegados no caminho que você guiou e que possivelmente você que os abateu. O que aconteceu?

— Eu fiz meu caminho sem fazer barulho e surpreendi eles com minha magia e espada, então consegui derrotá-los sem eles perceberem. — Eu respondi e novamente ele olhou para a esfera.

— Então você derrotou todos eles sozinho? — Ele perguntou.

— Sim, senhor.

— Você se lembra de algo desses 3 dias que você ficou em "cativeiro" — Ele usou outra palavra que eu não conhecia. Mas eu entendi o que ele perguntou.

— Não, senhor. Eu me lembro apenas de acordar amarrado em uma poça do meu próprio sangue no dia que fui resgatado. — Eu respondi.

— Capitão Targo, eu precisarei reportar esses feitos para o imperador, provavelmente Dinus será chamado para se apresentar na presença dele. — Então ele se virou para o soldado que estava conosco. — Soldado! Faça um relatório de tudo que Dinus falou aqui e me traga para assinar.

— Sim, senhor. — O soldado respondeu.

— Se me permite, General, Dinus precisará de alguns meses para se recuperar para uma viagem à Vegúrlia. — Meu pai falou.

— Sim, eu entendo. Então esperem por contato em Khuma. — Então ele pegou a esfera da mesa. — Em nome do Imperador, eu agradeço os seus serviços. Vocês estão dispensados.


Nós voltamos para a tenda dos Elfos Negros, onde estavam apenas os caçadores de Khuma e Norek.

Meu avô me perguntou como eu estava me sentindo.

Ele acompanhou minha recuperação médica, porém ele sempre me visitava enquanto eu estava dormindo.

Os outros caçadores comemoraram minha volta e me parabenizaram por ter sobrevivido.

Alguns deles ainda estavam com curativos, braços e pernas quebrados ou até sem um membro.

Era uma visão triste, mas eu senti que todos eles estavam com sentimento de dever cumprido e eu sabia que aquilo era muito melhor que ter a Vila atacada por um exército Renegado.

No fim, alguns caçadores se aposentariam de função e procurariam outro serviço para fazer, compatível com sua situação atual.

Havia 3 caçadores faltando no nosso grupo, aqueles que havia falecido.


Mesmo que eu tivesse feito tão pouco esforço, eu já me sentia muito cansado e precisa dormir novamente.

Alguns outros estavam dormindo já, então eu apenas acompanhei-os.

Mais tarde, quando já havia escurecido e já estava bem tarde da noite, meu pai me trouxe comida.

Eu disse que ele não precisava me trazer mais, pois eu já podia comer sozinho, mas ele respondeu dizendo "Você precisa comer regrado para se recuperar logo!", então eu me levantei para comer.

Enquanto eu estava comendo, uma grande algazarra começou a acontecer no acampamento.

Notas finais
Caso encontre algum erro gramatical ou de digitação, fique à vontade para me enviar a correção. Agradeço profundamente qualquer apoio. Você chegou até aqui!? Sabia que existe uma página no facebook para acompanhar as postagens dessa história? Pesquise por "A nova vida de uma alma sem lembranças" e acompanhe os lançamentos semanais.