A mulher do meu destino
52 You will come... To save me
Notas iniciais

— Sim — afirmou Thor —, Váli foi sequestrado. Taneleer Tivan, o Collector, os atacou e levou Váli — deu um suspiro de pesar.
Eu sabia! Algo me dizia que era um erro essa ida de Aredhel a Midgard e eu, infelizmente, estava certo. Maldita hora em que Aredhel resolveu ir para aquele lugar asqueroso! Desesperadamente preocupado, Thor, Jane e eu partimos para Midgard. Hela e Narfi ficaram sob os cuidados de Greta, em Asgard.
No caminho eu ia tentando controlar minha fúria. Eu desconfiava dos motivos de Tivan para levar Váli, mas Thor não tinha muitas informações. Assim que soube do ocorrido veio à minha procura. Pelo que Thor contou, Aredhel havia ido visitar o laboratório de Stark e lá Tivan os surpreendeu e foram atacados. Váli fora sequestrado e deixaram Aredhel e Stark feridos. Ambos estavam em um hospital particular, pertencente às empresas de Stark.
Quando chegamos, Jane e Thor me acompanharam até o quarto onde estava Aredhel. Quando entrei no quarto, ela estava sentada na cama com a cabeça e o braço direito enfaixados. Ao vê-la fiquei furioso. Por causa da teimosia dela tudo isso tinha acontecido. Ela franziu o cenho e me olhou com os olhos cheios de lágrimas.
— Loki... Collector levou Váli e... — começou a falar com aquela voz chorosa.
— O que ele pediu em troca? — interrompi-a, perguntando com frieza. Conhecia bem a forma de Tivan negociar. Ele não sequestrara meu filho sem motivo.
— Ele... E-ele quer as Infinity Gems q-que e-estão em Asgard — ela gaguejou.
Era exatamente o que eu tinha imaginado. O fato de Tivan ter ficado com a posse do Aether, fez despertar nele o desejo de juntar todas as Infinity Gems. O que ele planejava fazer com as Gems? A ira que sentia por ele ter levado meu filho não me deixava raciocinar direito sobre o assunto. Eu estava a ponto de explodir de raiva.
— Afinal — trinquei os dentes e me dirigi a minha esposa —, o que você foi fazer lá no laboratório de Stark, Aredhel?
— Eu... E-eu fui ver as novas armaduras... E... E... Ver... O no... Novo dispositivo que gera energia... e... — gaguejava irritantemente.
— Você não tinha nada que ter ido até lá! — rosnei. — Eu já tinha dito para você ficar longe de Stark e de todos os outros Avengers! Você nem deveria ter vindo para Midgard! — fui ríspido. — Tivan com certeza estava observando vocês! Quando viu que você estava sozinha com Váli aproveitou a oportunidade e atacou vocês! — mal conseguia me controlar.
— Loki, acalme-se — murmurou Thor.
— Eu... E-eu... Pen... P-pensei que... — Aredhel tentou falar.
Rangi os dentes. A gagueira dela só me irritava mais.
— Pensou o quê? — interrompi-a novamente. — Que estaria segura nesse lugar imundo que chamam de Terra? Que Stark poderia oferecer alguma proteção? Achou que suas magias inúteis poderiam defender nossos filhos e você? — despejei as perguntas com uma agressividade desenfreada.
— Thor... Faça alguma coisa... — ouvi Jane pedir com uma voz temerosa.
— Loki — Thor me chamou com um tom severo.
— Loki... Co... C-como... E-eu... Eu i-ia... — Aredhel tropeçava miseravelmente nas palavras.
Perdi o que restava de minha paciência. A ira tomou conta de mim e já não via mais nada além do que tinha dado errado.
— Pare de gaguejar! — gritei. — Maldita hora em que escolhi uma esposa tão teimosa! — sibilei. — Você nunca me ouve! Sempre faz o que quer! Já estou farto de suas imprudências! Vive se arriscando pelos motivos mais torpes! E agora colocou a vida de nosso filho em risco! Você está sempre fazendo tudo errado! Aredhel, se algo acontecer a Váli, a culpa é sua! — cuspi as palavras sobre ela.
— Loki! — exclamou Jane.
— Basta, Loki! — Thor me agarrou e em seguida me arrastou para fora do quarto.
— Largue-me! — berrei.
Thor me levou até uma sala e empurrou-me para dentro, fechando a porta logo depois de entrar.
— Você está descontrolado! — disse entredentes. — Praticamente jogou toda a culpa na pequena! Eu entendo sua raiva e frustração, mas você está descontando na pessoa errada!
— Se ela não tivesse vindo para cá, nada disso teria acontecido! — retruquei, ainda irado.
— Loki, pense um pouco — sibilou. — Mais cedo ou mais tarde Tivan se aproveitaria de um descuido seu para chegar às Gems. E o fato de ter sequestrado eles aqui é a prova de que ele os observava. Se não fosse aqui, poderia ser em Asgard mesmo. Bastava que ela ou uma das crianças estivesse sozinha para serem sequestrados! Tivan pode não parecer muito poderoso, mas ele possui um arsenal de armas. Ele coleciona de tudo — passou uma das mãos pelos cabelos exasperadamente. — Você fala como se Aredhel tivesse feito isso de propósito. Por Odin, ela é mãe do pequeno… É sua esposa... Você viu pelo menos como ela está machucada? Tivan quebrou o braço da pequena para arrancar o menino dela — disse com tristeza.
Foi como se de repente eu caísse em mim.
— Ele quebrou o braço dela? — indaguei sentindo algo se partir dentro de mim.
— Sim — deu um suspiro. — Stark disse que, mesmo machucada, a pequena continuou lutando e só parou de quando a acertaram na cabeça e ela desmaiou — revelou.
Fiquei sem palavras. Eu mal havia olhado para Aredhel. Não imaginei que as faixas escondessem tais ferimentos. Eu estava com tanta raiva de Tivan e de minha impotência diante da situação, que descontei toda minha fúria em Aredhel. Passei as mãos pela cabeça, arrependido pelas coisas que havia dito. Eu fora injusto com ela e no final a culpa era minha. Quando fui buscar o Aether, Tivan deve ter deduzido que eu tinha outras Gems. Despertei nele a cobiça por juntar as Infinity Gems.
Saímos da sala para retornar ao quarto onde estava Aredhel. No caminho encontramos Stark. Ele também estava visivelmente muito machucado.
— Já viram Aredhel? Ela já acordou? — perguntou Stark preocupado. — Eu sinto muito — encarou-me apenado —, fiz o que pude para evitar que levassem seu filho — franziu o cenho.
— Ela já acordou — Thor foi sucinto. — Estamos indo até o quarto dela. Se quiser nos acompanhar.
— A raposinha é muito corajosa — Stark seguiu falando. — Lutou até o fim para que não levassem o menino — baixou a cabeça. — Quando a vi cair… — fez uma pausa pensativa. — Juro que pensei que ela tinha morrido — o pesar era evidente em sua voz.
Thor me olhou e meneou a cabeça negativamente. Baixei os olhos me sentindo um monstro. Senti um nó se formar em minha garganta. Aredhel quase havia morrido e tudo o que eu fizera fora atacá-la. Eu estava sendo consumido pela culpa.
— Ela vai ficar bem — Stark deu um tapinha em minhas costas. — Quando vocês voltarem para Asgard, a medicina do “país das maravilhas” vai fazê-la se recuperar mais rápido. Difícil vai ser pra mim. Acho que estou ficando meio enferrujado para tantas emoções — riu de forma nervosa.
Seguimos em direção ao quarto de Aredhel, mas ao chegarmos lá, ele estava vazio. Não havia sinal de nenhuma das duas mulheres. Antes que pudéssemos perguntar a alguém, Jane apareceu no corredor com um copo na mão e me lançou um olhar furioso.
— Onde está Aredhel? — adiantei-me.
— Ela está no quarto — deu de ombros. — Ela pediu para eu ir comprar um café — indicou o copo que tinha em mãos.
— Ela não está no quarto! — falei agoniado.
— Como assim? — a outra pestanejou. — Eu a deixei lá. Para onde ela terá ido? — ergueu os ombros, confusa.
Saímos à procura de Aredhel, mas sem sucesso. Ninguém a tinha visto no hospital. Depois de procurarmos por ela em todo o hospital, Stark nos conduziu até uma sala e pediu para que verificassem as câmeras de vigilância do local. Nas gravações feitas no quarto de Aredhel, eu aparecia gritando com ela e Thor, em seguida, me arrastando para fora do local. Depois vimos Aredhel chorando e Jane a consolando. Aredhel balançava a cabeça, parecendo meio confusa e desesperada. Como eu pude ser tão cruel com ela?
Aredhel e Jane conversaram por mais algum tempo e depois Jane saiu do quarto. Assisti minha esposa se levantar com dificuldade e conjurar uma tigela e uma garrafa. Na hora reconheci os objetos que a ensinei a “esconder” com magia: era uma tigela e uma garrafa com a água do lago. Ela colocou a tigela sobre a mesa, encheu com água e mergulhou o rosto, desaparecendo em seguida. O vídeo foi paralisado e eu fiquei ali, estarrecido com aquela revelação.
— O que diabos você disse a ela? — Stark me encarou carrancudo.
— Ele disse um monte de besteiras para ela! — gesticulou Jane. — Foi cruel! Só faltou chamá-la de inútil — bufou.
Stark olhou de mim para Thor.
— Ele brigou com a pequena — Thor ergueu os ombros. — Culpou-a pelo sequestro de Váli.
Dei um suspiro triste.
— Você é um idiota mesmo! — sibilou Stark.
— Para onde será que ela foi? — Thor coçou a barba.
— É claro que ela foi atrás do cara! — Stark respondeu irritado.
— Será? Mas sozinha? — comentou Thor, incrédulo.
— Acho que sim, Thor — intrometeu-se Jane. — Antes de eu sair do quarto, ela falou coisas confusas. Disse que tinha que resolver isso. Ela murmurou algo como “será que ele me aceitaria em troca dele?” Como ela estava muito nervosa eu ignorei — falou aflita.
Repentinamente tudo fez sentido.
— Por Odin, Thor! — desesperei-me diante daquela nova. — Ela foi se oferecer para ficar no lugar de Váli! Ele está com os dois agora!
— Oh, meu Deus — arfou Jane. — Coitada da Aredhel. Vocês precisam fazer algo! — afligiu-se.
— Parabéns “homem rena”! — começou Stark, batendo palmas. — Você ganhou o prêmio de idiota do ano! Espero que fique feliz se o “topete dourado” acabar de vez com a sua mulher! — foi sarcástico.
— Veja como fala comigo, seu petulante! Os assuntos referentes à minha mulher não lhe dizem respeito! Eu sei cuidar dela! — vociferei, avançando sobre Stark.
— Percebi! — sorriu abertamente. — Cuida tão bem dela. É o melhor marido mundo! — ironizou.
— Stark tem razão. Você não a merece — reclamou Jane, me olhando com desprezo.
Bufei. Fiquei furioso com o comentário de Stark e de Jane, mas estava mais irado comigo mesmo. No fundo eles tinham razão. Eu havia sido tão injusto com Aredhel.
— Ei! Ei! — disse Thor intervendo. — Vocês ficarem discutindo sobre de quem é a culpa não vai resolver nada!
— Você tem razão. Não posso perder mais tempo. Tenho que ir atrás dela e rápido! — falei desesperado.
— Vou com você, irmão — disse Thor.
— Certo — assenti. Toda ajuda seria bem-vinda.
— Eu também vou com vocês — atalhou Stark.
— Você? — fiquei surpreso. — E por quê?
— Você ainda está ferido. Tem certeza? — inquiriu Thor.
— Sim, tenho — afirmou o outro. — Eu vou porque tenho dívidas com a raposinha. Além disso, ela e o menino estavam sob minha proteção quando isso aconteceu.
Trinquei os dentes, extremamente contrariado. Não me agradava aquela conversa melosa sobre dívidas com minha mulher, tampouco a ideia dele ir junto, mas no momento eu não estava em condições de recusar ajuda. Preparamo-nos, conjurei a água do lago e então partimos atrás de Aredhel e Váli.
Quando chegamos à aeronave de Tivan, Thor e Stark olharam ao redor surpresos. Como imaginei, era um local horrendo. Cheio de criaturas presas em esquifes ou celas de vidro. Tivan não apenas colecionava relíquias e armas, mas também seres vivos. As coisas aparentavam estar confusas. Havia algumas celas com vidros quebrados e algumas relíquias no chão.
— Cara... Isso aqui parece um circo de horrores... — sussurrou Stark.
— Tivan coleciona de tudo. De relíquias à pessoas — esclareceu Thor falando baixo.
— Esse lugar é muito grande — murmurei. — Acho melhor nos separarmos. Tentem não se perder — alertei.
Separamo-nos e cada um seguiu por um corredor diferente. Eu caminhava lentamente quando vi ao longe uma esfera flutuando. Logo reconheci. Era Orb, a Gem da Alma. Mal podia acreditar, a última Gem estava com Tivan. Definitivamente ele objetivava juntar todas as Gems e aquela era a minha chance de furtá-la. Continuei me aproximando quando ouvi um uivo alto e alguns gritos. O uivo era tão alto que os vidros das celas vibraram. Desesperadoramente reconheci o uivo. Era Váli.
Deixei de lado a Orb e saí correndo na direção de onde vieram os uivos e os gritos. Cheguei a um corredor onde a bagunça parecia maior. Havia um lobo gigante destruindo as celas e esquifes, enquanto avançava ameaçadoramente em direção a Tivan. Havia uma mulher de pele cor-de-rosa caída no chão e algumas armas espalhadas também. Atrás de Tivan vi Aredhel desacordada dentro de um esquife.
Meu sangue ferveu. Finalmente enxerguei o quanto estava machucada. Seu braço direito estava imobilizado com algumas faixas em volta do pescoço. A faixa de sua cabeça estava levemente tingida de vermelho em alguns pontos. Ela ainda estava sangrando. Amaldiçoei-me pela forma que a tratei. Olhei furioso para Tivan. Eu o faria pagar pelo que tinha feito a Aredhel e por ter sequestrado meu filho.
Thor e Stark surgiram de corredores laterais. Váli, em forma de lobo, sentiu nossa presença e virou-se em nossa direção, rosnando para nós. Fiquei chocado com o tamanho dele, sua cabeça tocava o teto da aeronave. Temerosos, Thor e Stark se prepararam para atacar Váli. Thor girava o Mjölnir e Stark apontava algumas armas para ele.
— Thor, não! Esse é Váli! — gritei.
Gritei tarde demais. Stark o atingiu com um raio de energia. O golpe não teve efeito nenhum sobre Váli, porém o deixou furioso e o fez desviar a atenção de Tivan. Váli avançou rapidamente sobre Stark. Thor pulou e tirou Stark do caminho de Váli, derrubando Stark sobre algumas vidraças.
— Váli! Não! Concentre-se! — chamei-o.
— Você só pode estar de sacanagem — resmungou Stark, se levantando. — Esse monstro é aquele guri? — pasmou-se.
— O pequeno já domina esse tipo de magia, Loki? — indagou Thor, igualmente surpreso.
Eu apenas assenti com a cabeça, sem tirar os olhos de Váli.
— Vamos, Váli... Concentre-se. Sou eu, seu pai. Não somos seus inimigos. Tente se controlar — falei pausadamente.
Váli parou e ficou nos encarando. Ganiu e soltou outro uivo. Depois ele se virou ruidosamente em direção a Tivan, que agora se escondia atrás de onde estava Aredhel. Váli avançou velozmente em direção a Tivan. Fiquei desesperado, pois o menino, naquela forma gigante, podia atingir Aredhel acidentalmente. Corri em direção a meu filho.
— Váli, cuidado! — gritei.
Váli contornou o esquife de Aredhel e, com uma das patas, derrubou Tivan no chão, o imobilizando. Porém seu enorme corpo esbarrou no esquife e o fez tombar. Stark surgiu ao lado e amparou o caixão de vidro antes que caísse no chão. Váli fez menção de atacar Tivan.
— Espere, meu filho! — sibilei. — Mantenha-o imobilizado — ordenei.
O menino parou e manteve a pata sobre o corpo de Tivan. Este se debatia tentando se soltar. Thor e eu corremos até Stark e abrimos a caixa de vidro. Tirei Aredhel de dentro do caixão e notei que estava gelada, porém estava viva e respirando. Olhei para ela aflito. Passei uma das mãos por seu rosto, afastando as mechas de cabelo escuro.
— Aredhel, acorde, meu amor... — chamei-a desesperado.
Os olhos tremularam e ela os abriu lentamente, fitando–me confusa. Olhou ao redor e seu rosto assumiu uma expressão aturdida.
— Loki? Thor? Tony Stark? — ela franziu o cenho.
— Meu amor — abracei-a aliviado. — Que bom que está bem — inclinei-me para beijá-la.
— Ei! — Aredhel levou a mão ao meu peito e me empurrou. — É sério que você ia me beijar? — encarou–me incrédula.
— Aredhel, eu sei que fui injusto com você e... — comecei a me explicar.
— Cara... Eu só posso estar dentro de um sonho — ela riu repentinamente. — Sim… Estou sonhando… — meneou a cabeça. — Eu adoraria beijá-lo, mas não posso. Eu sou muito sua fã, mas eu sou uma mulher comprometida. Sou noiva — riu e deu de ombros.
— O quê? — exclamou Stark.
— Perdão? — murmurou Thor.
— Aredhel, do que você está falando? — encarei-a sem entender.
— Que isto aqui é um sonho — ergueu os ombros. — Ok, você é Loki dos filmes e vocês também não são reais — sorriu. — Espere... Se é um sonho, então acho que não teria problema se você me beijasse — deu um sorriso malicioso. — Beijar outro homem em um sonho é traição? — piscou os olhos, parecendo meio confusa.
— Aredhel, você não está sonhando. Isso é real. Eu sou seu marido — falei com o desespero palpável em minha voz.
Ela me fitou boquiaberta. Balançava a cabeça confusamente.
— Não… — balançou a cabeça. — Não somos casados. Eu mal o conheço. Isso só pode ser um sonho... Meu noivo é o Phillip... Você não existe… É apenas um personagem... — murmurou confusa.
Olhei Aredhel nos olhos e vi o quão perdida estava diante da situação. Cerrei meus punhos com ódio. Aquilo não podia ser real.
— Ela não lembra sobre vocês — murmurou Thor.
— Merda! — praguejou Stark.
— Levem-na daqui — eu disse em um quase sussurro para Thor e Stark.
Thor e Stark assentiram.
— Vamos direto para Asgard — comentou Thor, me olhando apenado. — Você nos encontra lá.
Deixei Aredhel sentada no chão e levantei-me indo em direção de Tivan. Vi eles carregarem Aredhel e seguirem por um dos corredores. Ao longe podia ouvir Aredhel perguntando confusamente sobre onde estava, para onde iriam e sobre o braço quebrado. Eu respirava pesadamente, sentindo que algo estava prestes a explodir dentro de mim. Encarei Tivan, que continuava imobilizado por Váli.
— Tivan! O que você fez com a minha mulher? — berrei.
— Ela… — ele gemeu. — Ela se ofereceu para ficar no lugar do menino e fazer parte da minha coleção — falou com dificuldade. — É sempre mais fácil de manter dóceis, seres que não sabem quem são ou de onde vêm. Eles aceitam com maior facilidade a vida que passam a ter aqui… — sorriu com ironia.
— Váli! — chamei-o, bufando de raiva.
Váli rosnou e aproximou a enorme boca de Tivan.
— Espere! — vi Tivan se desesperar. — Sua esposa recebeu apenas a primeira dose da droga! Ela não esqueceu tudo! — contorcia-se sob a pata do menino.
— Espere Váli — levantei uma das mãos. — Ela vai recuperar a memória? — indaguei com a mandíbula rígida de ódio.
— Talvez — a voz saiu esganiçada. — Vai depender da fisiologia dela. Comoela é humana, eu não tenho certeza. Alguns seres recuperavam em algumas semanas, outros demoravam mais — explicou afobadamente.
— Talvez? — repeti, sentindo algo me sufocar. — Você disse que talvez ela recupere a memória? — a indignação pontuava cada palavra que eu dizia.
— Ela é apenas uma humana. Por que você se importa tanto? Pode conseguir outra — falou de forma displicente.
— Outra? — gritei furioso.
— Você a ama... — elemurmurou surpreso. — Ama de verdade...Como justo você pode amar uma humana? Pensei que você, o senhor da trapaça, fosse incapaz de amar alguém, muito menos uma humana — senti a ironia em sua voz.
— Ela é minha mulher! — berrei e instintivamente Váli pesou a pata sobre ele.
— Espere… — gemeu Tivan. — Eu não comentei por mal… Apenas estou surpreso. Com certeza ela recuperará a memória — o medo era evidente na voz dele. — Como falei, ela apenas tomou uma dose. Só não posso afirmar quanto tempo ela levará para se recuperar — explicou.
Eu sabia que a afirmação dele era fruto do medo do que eu pudesse fazer contra ele. Sentia que claramente não havia garantias de que ela recuperaria a memória. Tentei respirar, mas não encontrava ar. Talvez Aredhel jamais se lembrasse do que vivemos? Ela não se lembraria dos filhos? Eu me negava a aceitar aquela sentença. Desejava desesperadamente alimentar a esperança de que ela se lembraria. Mas se pudesse recuperar a memória, quanto tempo levaria? Eu mal conseguia me conter. Tivan pagaria caro por isso e a morte era pouco para ele.
— Sei que pode se regenerar... — falei calmamente. — Contudo, eu me pergunto quanto tempo levará para regenerar algumas partes de seu corpo? — sorri com ironia. — Semanas? O mesmo tempo que minha esposa levará para recuperar a memória? Isso se ela recuperar! — sibilei com raiva. — Quem sabe você tenha o mesmo destino e não consiga regenerar tantas partes do corpo ao mesmo tempo — disse entredentes.
— Não Loki, não — desesperou-se. — Poupe-me. Eu lhe entrego o Orb. Ele é uma das Infinity Gems — implorou.
Aproximei-me de Tivan e inclinei minha cabeça para o lado.
— Se você está querendo barganhar, está fazendo isso de forma errada — comecei de forma serena. — Quando se negocia, devemos oferecer algo em troca. O que faz você achar que possui algo a me oferecer? Quem disse que eu não levaria o Orb? O que você poderia fazer para evitar que eu o levasse? — sorri malignamente. — Váli. Ele é todo seu — ergui a mão.
— Não! — berrou Tivan.
Em seguida me afastei ainda encarando o horror estampado na cara de Tivan. Ouviu-se o rosnar de Váli. Ruídos de carne sendo rasgada e ossos quebrando foram abafados pelos gritos de dor de Tivan. Aquilo soava como música para meus ouvidos.
Caminhei até onde estava o Orb. Quebrei o vidro, peguei a Gem e a escondi a com minha magia. Notei o silêncio pairar no local e sorri satisfeito.
— Vamos, Váli! Vamos voltar para casa! — chamei-o.
De repente, no corredor, surgiu meu garotinho, todo sujo de sangue. Ele olhou para mim, deu um sorriso e, com sua pequena mão, agarrou a minha.
— Pronto, papai. Ele não vai mais machucar a mamãe — o menino falou muito sério.
— É... Ele não irá — anuí.
Ainda que estivesse satisfeito com o que Váli fizera com Tivan, aquilo não devolveria a memória a minha esposa. Nada conseguiria aplacar o medo que sentia de nosso futuro.
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