A mulher do meu destino
53 Love hurts, love scars, love wounds and marks
Notas iniciais

Váli e eu estávamos nos preparando para partir, quando o menino se aproximou de um painel da aeronave e começou a mexer em alguns botões.
— O que está fazendo? — perguntei.
— Vou libertá-los — falou calmamente. — Seria algo que mamãe faria. Eles não lembram quem são — olhou para o chão com uma tristeza estampada no rosto —, mas podem recomeçar.
— Sua mãe ficaria orgulhosa de você — sorri.
Meu filho sorriu de volta. Eu estava certo, Váli tinha o jeito doce da mãe. Ele podia ser vingativo como eu, mas havia herdado a compaixão de Aredhel.
Depois de libertar as criaturas, retornamos para Asgard. Assim que chegamos pedi para Greta cuidar de Váli e depois fui à procura de notícias de Aredhel. No caminho, me encontrei com Thor.
— Como foi com Tivan? — questionou Thor.
— Está morto — fui sucinto.
— Mas ele não era imortal? — franziu o cenho.
— Não, ele pode se regenerar… Então, digamos que Váli resolveu o problema — falei rapidamente.
— Loki! Pelo pai de todos! Váli é só uma criança! Como você pode deixar que ele matasse Tivan? — disse Thor com severidade.
— Da educação de meus filhos cuido eu. E nem sabemos se ele morreu mesmo — falei impaciente.
— A pequena não vai gostar de saber disso — rebateu.
— Aredhel? — disse entredentes. — Ela nem lembra que Váli é filho dela! — desabafei.
Thor articulou dizer algo, mas se calou e me olhou com pena.
— Loki, eu sinto muito — murmurou.
Deixei escapar um suspiro.
— E ela? Como ela está reagindo? — perguntei com tristeza.
— Ela está muito confusa, nos encheu de perguntas. Expliquei que aqui era outra realidade, na qual os filmes que ela assistiu são reais — gesticulava. — Eu resumi a ela o que aconteceu nos últimos anos. Contei sobre o noivo, seu casamento, sobre as crianças, mas não entrei em detalhes. Ela ficou muito abalada ao saber que o noivo está morto. Ficou quase descontrolada — suspirou e passou a mão pela nuca. — Eu não sabia o que fazer, então recorri às nossas curandeiras. Ada achou melhor dar algo para a pequena dormir. Também já cuidaram dos ferimentos dela e do braço. Ela está na sala de cura, junto com Stark. Ele também foi socorrido — explicou.
Fui ver Aredhel enquanto Thor foi falar com Sif e os demais. Aredhel estava deitada, dormindo tranquila, com um curativo na cabeça e com o braço direito imobilizado. Tivan, além de deixá-la desmemoriada, havia quebrado seu antebraço. Acariciei seu rosto e depositei um beijo em sua cabeça.
— Ela vai recuperar a memória? — ouvi Stark perguntar.
Virei-me e vi Stark sentado em outra cama. Ele também tinha curativos novos.
— Espero que sim — dei um suspiro em desalento. — “Talvez”, disse Tivan. Segundo ele, provavelmente sim. Mas ele disse que pode levar semanas. Não deu certeza — cerrei os punhos, irritado, ao lembrar disso.
— Eu sinto muito — murmurou o outro e, em seguida, ficou um tempo em silêncio, até me encarar novamente. — Ainda bem que ela só levou Váli até o laboratório — meneou a cabeça. — Senão as coisas poderiam ter sido piores — crispou os lábios.
— É… — concordei. — Thor me falou que ela deixou Hela e Narfi com Jane e disse que voltaria logo. Como eles demoraram, Thor foi até lá e encontrou vocês desacordados.
Voltei a olhar para Aredhel dormindo e passei a mão por seus cabelos.
— Ou você é um excelente ator ou você realmente a ama — comentou.
— Pouco me importa se você acredita ou não… — rebati. — O importante é ela acreditar… — toquei o rosto dela. — Ela voltar a acreditar...
— Ok… Você a ama — fez um muxoxo. — Eu diria que neste momento dá para ver isso estampado na sua cara.
— Ela é tudo para mim e eu fui tão duro com ela... — murmurei fitando Aredhel.
— Ela vai se lembrar…
— Espero que sim… — quase sussurrei.
— A “raposinha” sempre foi assim... curiosa? — Stark mudou de assunto. — Nossa, ela encheu a gente de perguntas.
— Sempre — anui. — Ela é curiosa demais e muito questionadora — deixei escapar um sorriso, saudoso da época em que a conheci.
— Você é um cara de sorte. Ela é muito inteligente e esperta, mas, ainda assim, ela se apaixonou por você — comentou com sarcasmo.
— Obrigado, Stark — finalmente eu o encarei. — Obrigado por tentar defendê-la e a meu filho e por ajudar no resgate dos dois — fui sincero.
— Uau! Jamais imaginei que receberia um “Obrigado” do “homem rena” — levou a mão ao peito. — Estou quase emocionado. As coisas mudaram mesmo por aqui... — riu. — De nada cara. Eu já disse. Eu tinha dívidas com ela — sorriu.
No fim do dia levaram Aredhel para o quarto. Ela acordou um pouco antes do jantar e fui vê-la. Entrei no quarto e ela estava sentada na cama. Aredhel estava com uma aparência abatida, com os olhos inchados e parecia meio distante. Girava no dedo, nervosamente, a aliança que eu dera a ela. Tal cenário me deixou um pouco apreensivo. Não sabia como ela reagiria a todas as informações que recebera. Se ela nem se lembrava de ter me conhecido pessoalmente, não sei como absorveria a ideia de estar casada comigo.
Aproximei-me dela e sentei em uma poltrona ao lado da cama. Ela me olhou sobressaltada e franziu o cenho. Aquilo não parecia um bom sinal.
— Você está bem? — criei coragem de iniciar o diálogo.
— Estou — balançou a cabeça de forma errática e deu um sorriso fraco.
— O braço ainda dói? — apontei.
— Não. Eu não sinto dor alguma... — mordeu os lábios, visivelmente nervosa.
Um silêncio constrangedor se fez entre nós. Nunca tivemos um momento assim. Nem quando éramos apenas dois estranhos discutindo. Isso me entristeceu profundamente.
— Tudo o que Thor disse é verdade? — indagou de repente. — Que eu vim de outra realidade, conheci vocês e... — baixou os olhos — ...meu noivo está morto? — a voz saiu embargada.
— Sim. É tudo verdade — afirmei.
Novo silêncio. Esperei pacientemente.
— Então, agora eu sou sua esposa? — perguntou olhando para a aliança no dedo.
— Sim e temos três filhos. Váli, Hela e Narfi. Somos casados há anos — completei, por mais óbvio que fosse.
Ela ficou calada e pensativa por um tempo, então me encarou.
— Você me ama ou isso tudo fazia parte de um plano seu para virar rei de Asgard? — indagou-me com um olhar astuto.
Fiquei surpreso com a pergunta, mas não deveria. Conhecia bem a inteligência de minha esposa, então deveria ter esperado tal questão. Aquela Aredhel me conhecia como o personagem de um filme. Sendo assim, conhecia meu passado e, pelo jeito, já sabia que agora eu era rei de Asgard. Baseado nos conhecimentos que tinha sobre mim, ela astutamente pensou que eu poderia tê-la usado para alcançar meus objetivos. Essa era a mulher esperta por quem eu tinha me apaixonado.
— Eu te amo — confessei. — De verdade. Amo demais — afirmei olhando-a nos olhos.
Ela corou e ficou claramente sem jeito. Adorava quando ela ficava assim. Contive um suspiro saudoso.
— Isso é muito bizarro — comentou repentinamente. — Não parece você — riu. — Você sempre teve praticamente nojo de humanos. Sempre nos viu como seres inferiores e efêmeros — deu um sorriso torto. — Por que se apaixonaria por um? — ela me olho de soslaio e enrugou a testa. — O que você viu em mim?
Lá estava a baixa autoestima dela, se manifestando de maneira disfarçada e muito mais latente que antes da perda da memória. Mesmo depois de anos casada comigo, Aredhel ainda não tinha ideia do valor que tinha. Pior que isso… Não acreditava no seu próprio potencial.
— Você não é como os demais — fiz um muxoxo. — Não é atoa que sempre sentiu que não se encaixava… — vi-a prender a respiração. — Aredhel, você é muito inteligente. É bem mais que isso… É astuta, atrevida e também uma excelente manipuladora. Não tão boa quanto eu, mas se parece comigo… Na verdade temos muito em comum. Você também é doce, amigável e corajosa. E mesmo ainda inexperiente no campo de magias, se mostrou uma excelente maga — ela franziu o cenho. — Você me enfeitiçou. Foi me conquistando aos poucos. Primeiro a minha amizade, depois meu coração — sorri de leve.
Aredhel ficou rubra e deu uma risada nervosa. Após amassar o lençol sob seus dedos, ela voltou a me encarar e sorriu timidamente.
— Você poderia me contar como tudo aconteceu? — pediu.
Eu calmamente contei tudo o que aconteceu desde o começo. Como ela veio para a outra realidade, como ela ajudou os Avengers, como ficamos amigos, nosso casamento, enfim… Quase tudo. A única coisa que ocultei dela foi a forma como Phillip e Peter morreram. Achei melhor deixar para contar depois ou esperar que ela lembrasse. Temia que ela não compreendesse como tudo ocorreu.
Aredhel ouviu tudo como uma expressão de fascínio no rosto. Lembrei-me de quando eu contava sobre Asgard e ela ficava com aquela expressão no rosto. Durante a conversa ela ficou muito surpresa com seus atos, parecia não acreditar que tivesse tanta coragem. Sempre se subestimando.
— Eu sou meio doida mesmo... — riu. — Primeiro faço as coisas, depois que penso nas consequências.
— Você não é doida. É corajosa, mas meio imprudente e muito teimosa — falei meio rindo.
No final da conversa Aredhel ficou meio apreensiva quando comentei que aquele era nosso quarto. Segurava as mãos de um jeito nervoso e logo compreendi o que se passava. Aproximei-me dela e segurei uma de suas mãos e afaguei.
— Não se preocupe. Eu pedi que preparassem outro quarto para mim — disse rapidamente.
Inclinei-me em direção ao seu rosto e ela pareceu ficar tensa. Dei um suspiro frustrado e depositei um beijo em sua bochecha.
— Boa noite, Aredhel — murmurei, tentando ocultar minha tristeza.
— Boa noite, Loki. — respondeu baixinho.
Ia me levantando para ir embora, quando ela agarrou minha mão.
— Espere... — apertou a minha mão.
Eu voltei a sentar e ela me olhou nos olhos.
— Eu não tenho medo de você é só que...
— Tudo é muito novo para você… — completei o que dizia.
— Isso! E... E-eu simpatizo com você. Gosto de você — falou ficando vermelha.
— Eu sei... Desde o início você me dizia isso — sorri.
— Prometo que vou me esforçar para me lembrar — deu um sorriso tímido.
— Eu sei que vai… Você é muito determinada — sorri e dei um beijo em seu topo.
Na saída do quarto Thor e Stark esperavam. Stark queria se despedir, pois tinha que partir. Os dois entraram juntos para falar com Aredhel. Depois do jantar Stark partiu e Thor falou que ficaria mais algum tempo em Asgard, por Aredhel. Em seguida fui para o outro quarto e fiquei pensando em tudo o que tinha acontecido. Sabia que passaria a noite insone, ansiando que minha esposa recuperasse a memória.
Eu finalmente havia juntado todas as Infinity Gems, mas agora não me dava satisfação alguma. Na verdade, isso era o que menos me importava. Minhas ambições ficaram de lado, perderam a importância. Minha maior preocupação naquele momento era a amnésia de Aredhel. Sentia-me sem rumo e desconsolado. Como fui ficar assim? Tentando me colocar no lugar dela, diria que o meu “eu” do passado, ficaria pasmo com meu comportamento atual. Como uma mulher podia me afetar tanto? Ainda mais, sendo uma humana...Quanto mais eu pensava no que eu era antes dela, mais me perguntava onde estaria se não estivesse ao seu lado e sem tudo o que construímos juntos.
No meio da madrugada fui até seu quarto e fiquei observando-a dormir. Desejava tanto poder abraçá-la e me desculpar pelas coisas duras que disse a ela no hospital. Eu mal podia imaginar que observá-la dormir todas as noites viraria quase uma rotina nos dias que viria a seguir…
Os dias se arrastavam e Aredhel continuava alheia ao seu passado. Aos poucos ela reaprendia sobre Asgard, a diferença entre as realidades, sobre os filhos e tudo que viveu comigo. Thor, Sif, Fandral e Volstagg ajudavam bastante, contando o que sabiam a ela. Com as crianças ela se esforçava para parecer normal. Agia como se lembrasse de tudo. Algumas vezes ela manifestou o desejo de ver a família, mas eu sempre a persuadia a desistir da ideia. Tinha medo de que a família dela a envenenasse contra mim.
Quanto a mim... Tudo o que fazíamos era conversar, como fora no início. Era como estar na masmorra novamente: muitas perguntas todos os dias. A fome dela em desvendar milhares de anos em poucas horas. Aquela sede de saber dela sempre me contagiava.
Eu dedicava o máximo do tempo que tinha para fazer companhia a Aredhel. Sentia falta de beijá-la, abraçá-la, de tê-la em meus braços, mas me continha. Eu mal a tocava. O máximo que fazia era dar um beijo em seu rosto todas as noites ao me despedir dela. Tudo estava sendo dolorosamente torturante, mas eu estava decidido. Se ela não recuperasse a memória, eu a reconquistaria de novo, nem que levasse milênios para isso.
Uma semana depois, para minha imensa felicidade, Aredhel começara a recuperar algumas lembranças. Já se lembrava de sua vinda, da batalha em Midgard e dos Avengers. Eu mal podia me conter de empolgação. Foi como se o sol brilhasse novamente. Fora o sinal que eu mais aguardei na vida: uma prova de que ela poderia recuperar a memória.
Durante as duas semanas seguintes ela começou a ter também flashes de memória de outros acontecimentos, como o nascimento dos filhos, a discussão com sua família e de alguns momentos da estadia de James. As lembranças vinham de forma aleatória e nem sempre eram esclarecedoras ou se encaixavam entre si. Aredhel nem sempre sabia definir que acontecimento tinha vindo antes.
— É como fragmentos de um arquivo salvo em um computador — Aredhel gesticulava. — Eles ao serem gravados, não necessariamente ficam próximos uns aos outros. Então é como se eu pudesse ver esses fragmentos individualmente. Vejo vários pedaços, mas parecem não se conectar. Não formam uma sequência lógica e, às vezes, não fazem sentido — murmurou frustrada. — É como um quebra-cabeças faltando muitas peças… Vejo que forma uma imagem, mas não consigo saber o que é ainda — amassou a saia do vestido, sob suas mãos. — Eu me lembro do nascimento das crianças e da emoção que senti, mas não me lembro da gravidez. Se não pudesse ser notável a diferença de idades entre eles, eu não saberia dizer quem teria nascido primeiro — deu um suspiro triste.
— Tudo bem. Não se cobre demais — tentei consolá-la.
— É tão estranho — resmungou. — É como se essas coisas tivessem ocorrido em minha infância. Tenho que forçar a memória para lembrar melhor. É como se tivesse algo as bloqueando.
— Você, pelo menos, já está começando a lembrar, pequena — comentou Thor.
O destino e a memória de Aredhel pareciam conspirar contra mim. Sobre nossos momentos juntos, ela ainda tinha poucas lembranças. Lembrou-se apenas até o período que passamos na prisão e da morte de Frigga. Entretanto, graças a essas lembranças e a minha dedicação, estávamos cada vez mais próximos, éramos amigos e cúmplices novamente. Passávamos muito mais tempo juntos.
Em um desses dias eu fui chamá-la para o jantar e bati a porta. Aredhel pediu que eu entrasse e, quando entrei, vi algo que me deixou surpreso. Ela trajava o vestido com o qual havia chegado nesta realidade, o que tinha feito em minha homenagem. Na última visita que fizemos à Midgard da outra realidade, eu havia trazido o vestido em segredo.
Acredito que fiquei algum tempo paralisado, apenas a contemplando.
— Loki? — ela me chamou, me trazendo de volta à realidade.
— Oh… — sorri, sem jeito. — Vim chamá-la para o jantar. E o braço? — perguntei.
— Bem melhor, sem aquele troço imobilizando — disse balançando o braço direito.
— Ainda acho que deveria ter seguido o conselho de Eir e aguardado mais algum tempo antes de tirar a proteção — comentei casualmente, mas com os olhos fixos nela.
— Meu braço já está bem — fez um muxoxo.
Fiquei admirando Aredhel naquela roupa. Era irônico que aquele vestido me trouxesse tantas lembranças e a ela tão poucas. Deixei escapar um suspiro triste.
— O que houve? — ela me olhou curiosa.
— Nada — fiquei sem graça. — É que fazia muito tempo que não a via nesse vestido — aproximei-me dela.
— Ah… — sorriu abertamente. — Eu adoro esse vestido. Sabia que eu o mandei fazer em... — começou a falar.
— Em minha homenagem — completei o que ela ia falar.
— Sim... Você sempre foi meu vilão preferido... — disse baixinho e ficou meio pensativa.
Eu a fiquei encarando por um tempo. Aredhel me olhava com carinho e sorriu toda corada.
— Sabe — mordeu o lábio inferior. — Eu gosto de você do jeito que é e...
Eu não consegui me conter. Segurei seu rosto em minhas mãos e a beijei. O tempo parou junto com minha respiração. Era como se tivesse passado mil anos longe dela. Jamais imaginei que sentiria tanta falta de beijá-la. Eu a beijava com desespero. Eu a abracei apertado, temendo que ela fosse fugir de mim. Contudo Aredhel não me rejeitou, pelo contrário, ela se entregou àquele beijo, se entregou a mim. Foi como tocar o paraíso novamente.
Meu ser tinha a necessidade de estar junto dela. A única coisa que eu pensava era que não podia ficar mais longe de Aredhel. Só parei o beijo quando senti que ia sufocá-la. Separei-me dela por um momento e ela olhou para mim rubra e assustada.
— Perdoe-me. Eu... — comecei a falar.
— Eu... E-eu te amo... — falou de repente, com a voz entrecortada.
Eu a encarei aturdido.
— Você se lembrou? – perguntei ansioso.
— Não... — meneou a cabeça negativamente. — Eu só sinto que te amo. Na verdade, sei disso… — pareceu confusa. — Quando você me beijou. Senti algo estranho... Familiar... Eu pude te sentir como fogo em meu sangue... — murmurou ficando carmim.
— Eu também te amo, Aredhel — confessei, sorrindo feito bobo.
Ergui seu rosto fazendo-a me olhar e ela sorriu para mim. Passei uma das mãos por sua cintura, com a outra segurei seu rosto e voltei a beijá-la. Aos poucos o beijo foi ficando intenso, ávido. Podia sentir nossos corações batendo acelerados em uníssono. Gradativamente fui me curvando sobre ela e quando dei por mim, eu já estava desabotoando seu vestido e beijando seu pescoço. Parei por um momento e a encarei. Temia que isso não fosse o que ela queria e não queria forçá-la a nada. Ela me olhou com o cenho franzindo, pareceu indecisa.
— Desculpe-me — fui o primeiro a falar. — Eu acho que estou indo rápido demais — falei receoso, tirando a mão do vestido dela.
— Não… — ela segurou a minha mão. — Eu também quero.. – murmurou e desviou o olhar, toda envergonhada.
Eu a olhei meio surpreso e ela sorriu para mim.
— Tem certeza? — indaguei meio incrédulo. Era bom demais para ser verdade.
— Sim — afirmou ficando vermelha.
Arfei de excitação.
— Prometo que vou com calma — sussurrei em seu ouvido.
Aredhel assentiu com a cabeça. Eu a puxei pela cintura e a beijei com sofreguidão. Depois desci beijando seu pescoço enquanto tirava seu vestido. Em seguida tirei minha roupa e ela obviamente ficou envergonhada com a nossa nudez. Eu a carreguei até a cama e deitei-a calmamente. Debrucei-me sobre ela e voltei a beijá-la. Deslizei minhas mãos por seu corpo e desci beijando seu colo e seus seios. Depois continuei descendo até chegar ao seu ventre. Ouvi-a gemer baixinho enquanto acariciava meus cabelos. Subi novamente depositando beijos cálidos por seu corpo e novamente olhei-a nos olhos.
— Eu te amo, Aredhel.
— Eu também te amo, Loki — respondeu com doçura.
Passei uma das mãos por seu rosto e ela a segurou mantendo-a em sua bochecha. Lentamente comecei a penetrá-la e ela apertou minha mão. Eu a beijei nos lábios e aos poucos ela foi relaxando. Iniciei o movimento de vai e vem de meus quadris, enquanto ela me apertava entre suas pernas.
Era tão bom poder ter Aredhel novamente em meus braços. Mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Ela sorria para mim e tudo parecia mágico e irreal que pensei que estava sonhando. Eu podia ver claramente em seus olhos que, para ela, aquilo tudo era novo. Isso me entristeceu um pouco.
Para Aredhel era a nossa primeira vez e para mim era um reencontro. Desejei profundamente que ela pudesse recordar de todos os nossos momentos juntos. Minha alma implorava que ela pudesse se lembrar do quanto eu a amava.
Voltei a beijá-la, mas com calma e ternura. Queria que Aredhel pudesse ter certeza do amor que eu sentia por ela. Parei de beijá-la por um instante e a fitei nos olhos.
— Eu te amo tanto... — sussurrei emocionado.
Ela sorriu e fechou os olhos se entregando ao prazer que sentia. Segui aumentando progressivamente a velocidade até ver Aredhel extasiada em meus braços. Logo em seguida eu atingi também o êxtase. Depois fiquei acariciando seu rosto enquanto eu lhe dizia palavras doces e, por fim, ela lentamente adormeceu em meus braços. Naquela noite dormimos juntos novamente em nosso quarto e foi primeira vez que dormi tranquilo em tanto tempo.
No dia seguinte acordei e vi Aredhel encolhida na cama. Ela estava sentada abraçando as próprias pernas. Levantei-me e sentei ao seu lado.
— Algo errado, meu amor? — perguntei passando meus dedos por seu rosto.
— Nada — balançou a cabeça, com a cabeça longe dali. — Eu só estava tentando entender algumas lembranças — falou de forma inexpressiva.
— Lembrou-se de mais alguma coisa?
— Nada importante — respondeu secamente e em seguida se levantou.
Aredhel ficou calada durante o café e comecei a desconfiar que ela tentava esconder algo de mim. Contudo, ela passou boa parte da manhã com as crianças e parecia estar tudo bem.
No almoço resolvi convidá-la para treinarmos. Queria ver se ela se lembrava de algo.
— O que acha de voltar a treinar? — fui amistoso. — Vamos ver o que você recorda das técnicas de luta e de magia — convidei despreocupadamente.
— Não. Eu não vou voltar a treinar — foi fria.
— Por que não? Você adorava — questionei surpreso.
— Não vale a pena — encarou-me seriamente. — Afinal, minhas magias são inúteis — declarou, pontuando cada palavra com rispidez.
Fiquei boquiaberto. Ela se levantou bruscamente e acabou derrubando uma bandeja que uma serva trazia. Ela abaixou-se e ajudou a serva a juntar as coisas.
— Desculpe-me. Eu sempre faço tudo errado — falou com amargura e em seguida saiu às pressas marchando para fora do salão.
— Aredhel! — chamei, me levantando.
Logo eu entendi o que estava acontecendo. Ela se lembrara do que eu havia dito a ela no hospital. Precisava me desculpar com ela. Fui atrás dela e alcancei-a no corredor. Segurei-a pelo braço e ela me encarou inexpressiva.
— Aredhel, eu sinto muito. Você não faz ideia do quanto me arrependo do que falei para você — fui sincero.
— Arrepende-se? — indagou entredentes. — Será mesmo? — olhou-me com uma raiva que nunca vira antes em seus olhos. Soltou-se de mim e saiu correndo.
— Aredhel! Espere! — gritei.
Eu a segui até o quarto. Ela havia pegado uma bolsa, na qual colocou alguns livros e outros objetos. Pegou a garrafa com a água do lago e também guardou na bolsa. Tirou a roupa e começou a vestir o vestido do dia anterior. Rapidamente percebi o que ela estava fazendo e o desespero tomou conta de mim.
— O que você pensa que vai fazer? — perguntei seriamente.
— Vou pegar meus filhos e voltar para minha miserável vida na Terra — rosnou para mim.
Foi como levar uma bofetada.
— Não! Você não vai me deixar! Não vai! — gritei, agarrando-a pelos ombros.
— O que você vai fazer para evitar que eu te deixe? — rebateu descontrolada. — Vai me matar? — quase gritou. — Então por que você não faz o que pensou fazer um dia? — pegou minha mão e a colocou em seu pescoço. — Você mesmo não disse que antes de eu te abandonar, você preferia me ver morta? — disse entredentes. — Vá em frente! Termine de vez com isso! Liberte-me dessa tortura que venho vivendo! — berrou enraivecida, com lágrimas descendo pelo seu rosto.
Fiquei pasmo diante da explosão dela.
— Aredhel... Eu jamais te machucaria. Eu te amo... — murmurei desolado, tirando as mãos dela.
Ela caiu de joelhos no chão e rompeu em soluços.
— Que droga de mãe eu sou que não consigo me lembrar dos meus próprios filhos? — encarou-me desconsolada. — Eu não devo ser uma boa mãe... Pois... P-pois, m-meu filho parece não gostar de mim... Ele virou um lobo e me mordeu. D-depois mandou aranhas me atacarem... — soluçava.
— Aredhel... — comecei a falar, mas ela me interrompeu.
— Eu... Eu… — interrompeu-me. — E-estou tão... T-tão confusa… — debulhava-se em lágrimas. — Eu te amo... Mas suas palavras ríspidas giram em minha mente. Lembro-me de seu ciúme me sufocar, de me isolar. De você sendo rude comigo.. Eu me lembro de sentir tanta solidão… — os olhos dela se perderam em alguma lembrança. — Recordo das brigas com minha família por sua causa, de Other invadindo Asgard. Relembro suas mentiras e — arfou —, foram tantas mentiras, que parecem não ter fim… — balançou a cabeça. — Recordo das mortes. Meu Deus… — estertorou. — Foram muitas mortes... E eu me lembro de sentir tanta culpa, tanta dor... — passou a mão pelo rosto exasperada. — Tudo que me lembro, é de minha vida ao seu lado ser um inferno! — disse com a dor estampada no rosto.
Foi como um soco em meu peito. A memória de Aredhel deu-me um novo golpe. Fiquei perplexo. Senti meus olhos se encherem de lágrimas ao ouvir o desabafo dela. Minha mulher apenas se recordava dos momentos ruins que teve ao meu lado. As lembranças fragmentadas dela estavam deturpando a verdade. Faziam-na acreditar que eu apenas a maltratava.
Aredhel parecia tão perturbada e torturada com a situação. Eu não sabia o que fazer e nem como ajudá-la. Não poderia deixá-la ir embora. Isso eu jamais permitiria... Mas temia que Aredhel deixasse de me amar e começasse a me odiar. Pelo que entendi ela preferia morrer a continuar comigo. O que eu podia fazer?
Fale com o autor