A mulher do meu destino
57 Perdus les rêves de s'aimer
Notas iniciais

O dia da festa se aproximava e Aredhel andava cada vez mais estranha. Praticamente não conversávamos mais. Ela parecia estava me evitando, inclusive na intimidade. Quando eu chegava no quarto ela sempre já estava dormindo. Eu não a tocava há dias. Quando eu a questionava, dizia estar muito cansada devido a seu envolvimento no planejamento da festa e que estava dormindo mal por conta de um sonho recorrente que vinha tendo.
De fato, eu mal a via durante o dia. Aredhel passava o dia dividida entre acompanhar Thor na tal organização do evento e ficar na companhia de James e as crianças. Inclusive deixou os treinos de lado. Quanto ao sonho, sempre que eu perguntava sobre o mesmo, ela dava respostas evasivas. Cada vez mais soturna, nos últimos dias ela andava nervosa e com olheiras. Na manhã do baile, cansado com comportamento bizarro e a falta de respostas, a questionei sobre isso.
— Afinal, o que você vê nesse sonho? — indaguei impaciente.
— Não é muito claro, eu já disse — ela murmurou sem me encarar. — Mas hoje foi diferente. Foi como se eu estivesse em um lugar no escuro. Senti-me angustiada, com medo e ouvi uma risada ao fundo. A risada me pareceu familiar, mas ainda não consegui reconhecer — passou a mão pela testa visivelmente cansada.
— Então não deve ser uma premonição — comentei. — Geralmente suas premonições se concretizam de imediato.
— É... Talvez você tenha razão — falou com um olhar sombrio. — Desde o que aconteceu com a minha memória, meus sonhos têm sido confusos mesmo.
— Ainda bem que hoje acontecerá essa maldita festa — ergui as mãos. — Graças a ela eu mal lhe vejo. Você não tem me dado atenção alguma nesses últimos dias — cobrei.
— Perdoe-me — falou me fitando com tristeza e apertando uma de minhas mãos. — Eu realmente não queria que se sentisse assim… — pareceu pensativa. — Mas para o bem ou para o mal... Prometo que isso termina hoje — deu um sorriso fraco.
Dei um suspiro e a beijei nos lábios. Não queria discutir com Aredhel. Afinal, no dia seguinte teria minha mulher de volta.
— E então? Tudo pronto para hoje, garota? — perguntou Thor entrando no salão animadamente.
— Tudo pronto, Thor — afirmou Aredhel sem muita emoção.
Todos estavam animados para a festa. Sif estava empolgada, acredito que ela imaginava, assim como os demais, que a tal surpresa poderia ser um possível anúncio de noivado dela com Thor. Ela e Thor foram visto várias vezes juntos, passeando pela noite, tanto no palácio, quanto por Asgard. Os comentários a respeito de um suposto namoro do casal se espalhavam.
As crianças também estavam empolgadas com o baile, seria o primeiro delas. Aredhel concordara com a participação das crianças, desde que elas se comportassem e Váli se comprometesse a não fazer travessuras. James, por sua vez, estava extremamente curioso para saber como era uma festa em Asgard. Parecia deslumbrado com os preparativos.
Chegara a hora da festa. Aredhel havia providenciado vestimenta para todos. Para mim ela havia escolhido um traje novo com mais detalhes dourados, mas mantendo boa parte do desenho original e as minhas cores. James vestia um elegante conjunto de calça, camisa e casaco na cor azul-escuro. Váli também trajava um conjunto, só que era verde-escuro com detalhes em bronze. Hela estava com um vestido rosa com bordados dourados.
Minha rainha estava deslumbrante. Vestia um vestido que era da cor dos meus olhos, um tom entre azul e verde. Ele era longo, esvoaçante e sem mangas. Tinha um decote profundo nas costas e um mais discreto na frente, mas que, de qualquer forma, valorizava os fartos seios que ela tinha e marcava sua cintura com uma faixa dourada. Aredhel estava com os cabelos soltos e usava a tiara de Frigga que eu havia dado a ela. Não poderia ter escolhido mulher mais bela para estar ao meu lado pelo resto de meus dias.
Ela desceu as escadas de forma primorosa. Quase perdi o ar quando a vi.
— Você está radiante, minha rainha — sorri estendendo a mão para ela.
— Você também, meu rei — sorriu de volta. — Gostou? — deu uma volta. — Foi um presente de seu irmão — seu sorriso se alargou.
— Presente de Thor? Hum — fingi não me incomodar. — Ficou perfeito em você — puxei-a pela cintura, fitei-a nos olhos e a beijei nos lábios calidamente.
Em segundos irromperam as vozes das crianças. Desceram acompanhada por James. Váli e Hela vieram correndo em minha direção.
— E o que achou do meu vestido, papai? — perguntou Hela puxando a barra do meu casaco.
— Está linda, minha princesa — acariciei seu rostinho. — Você ficou muito bem nesse traje, Váli. E você também, James — fui sincero.
— É parecido com o seu, papai — Váli desfilou todo convencido.
— O mérito é todo de Aredhel — James sorriu na direção dela. — Ela que escolheu a roupa. Eu fico grato com a hospitalidade.
— E Narfi? — indaguei.
— Já está dormindo — informou Aredhel. — Greta cuidará dele esta noite.
Seguimos para o salão. Chegando lá, Fandral, Volstagg e Hogun já estavam presentes. Hogun fora convidado pessoalmente por Thor e veio especialmente para a ocasião. Os esforços de Aredhel estavam refletidos por todo lado. A decoração da festa era digna de uma coroação e o banquete deixou Volstagg extremamente animado.
Na hora marcada os convidados começaram a chegar. Aredhel e as crianças recebiam os convidados e, em seguida, estes vinham me cumprimentar. A maioria dos convidados eram amigos de longa data de Thor e donzelas de famílias renomadas de Asgard. Logo Sif apareceu trajando um vestido vermelho escandalosamente sensual, o qual destacava as curvas voluptuosas da guerreira. Ela parecia animada. Em seguida chegou o dono da festa, Thor. Entrou no salão todo pomposo e exibido.
Thor agia como quando éramos jovens. Bebeu muito hidromel e quebrou muitos copos, enquanto narrava suas aventuras recentes em Midgard. Eu estava achando tudo aquilo muito entediante, mas parecia que todos estavam se divertindo muito. Váli e Hela se juntaram a Sigrid e Siegfried e dançavam alegremente. Thor dançou com várias moças e agia como se as cortejasse, o que deixou Sif meio triste. Eu estendi minha mão para Aredhel e a conduzi para o salão. Durante a primeira música ela sorria para mim amorosamente. Na segunda música Aredhel encostou a cabeça em meu peito e dançamos quase abraçados. Ao final da música a beijei de leve nos lábios e ela foi dançar com Volstagg.
Ao ver Sif tristonha, James também a tirou para dançar. Em seguida dancei com Hela e Thor convidou Aredhel para dançar. Durante a dança, ele a olhava de um jeito estranho, com malícia. Ela parecia ignorar ou não se importar com aquilo. Tentei me controlar como pude, mas ele lançava olhares para mim, como se me provocasse. Estava prestes a tirá-la das mãos dele, quando James se aproximou dos dois e rapidamente pediu uma dança com Aredhel. Fandral dançou com Sif. Depois de ver Sif dançando com James e em seguida com Fandral, Thor finalmente voltou sua atenção para Sif e valsou com ela.
Após muitas danças, hidromel, comilanças e flertes infantis, no meio da festa, Thor pediu a atenção de todos para fazer um anúncio.
— Muito bem... — deu um pigarro. — A festa de hoje foi para comemorar o meu retorno à Asgard, mas principalmente para anunciar que — fez uma longa pausa — estou procurando uma esposa — anunciou com entusiasmo. — Por isso convidei todas as mais belas donzelas de nosso reino. Espero que esta noite uma delas roube meu coração e consiga a proeza de me levar ao altar — gargalhou, então levantou a caneca e bebeu em seguida.
Um burburinho se espalhou pelo salão. As moças riam nervosas e coradas, todas evidentemente encantadas com a notícia. Coloquei uma das mãos no rosto, envergonhado com aquele espetáculo ridículo. Thor estava sendo infantil. Estava óbvio que tudo aquilo não passava de uma grande brincadeira. O motivo da festa eram frivolidades? Criara uma competição entre as jovens apenas para se divertir. Isso era patético. Foi o começo do fim da festa.
Mal acabara o anúncio, Sif se retirou da festa visivelmente chateada. Aredhel foi atrás dela e não mais retornou. Passado algum tempo Thor também desapareceu da festa, imaginei que estava com uma das muitas damas presentes. Greta veio recolher as crianças e os convidados, já demasiadamente embriagados, começaram a se retirar. Depois que o último convidado foi embora despedi-me de Fandral, Volstagg, Hogun e James. Já havia me cansado daquele teatro.
Eu me encaminhei para o quarto e quando lá entrei, vi que Aredhel ainda não estava lá. Ainda ponderava sobre onde estaria e ia começar a me trocar quando soou o alarme da masmorra. Voltei às pressas para o corredor e encontrei Fandral subindo as escadas afobadamente.
— Houve uma fuga, Loki! — anunciou nervoso. — Lorelei está fugindo com a ajuda de Amora e... — retomou o fôlego — ...elas estão com o Aether e o Tesseract! — falou rapidamente. — Volstagg e Hogun já foram atrás delas!
— Chame Sif! Aredhel ainda deve estar com ela! Vou avisar Thor! — gritei me afastando dele.
No caminho para o quarto de Thor fiquei pensando o que poderia ter dado errado. Inúmeras perguntas se formaram em minha mente. O que estava acontecendo? Como Lorelei havia fugido? Como ela e Amora tinham conseguido entrar no salão das relíquias sem que o alarme disparasse. Somente Thor, eu e Aredhel tínhamos acesso àquele local.
O quarto de Thor ficava do outro lado do corredor. No caminho avisei alguns guardas para auxiliarem a retirada das crianças para o local combinado. James abriu a porta do quarto assustado.
— O que houve? — ele indagou, franzindo o cenho.
— Volte para dentro — ordenei. — Houve uma fuga da masmorra. Fique trancado até segunda ordem.
— Certo — concordou aturdido e se trancou.
Cheguei ao quarto de Thor e a porta estava entreaberta. Eu entrei rapidamente e senti perder o chão diante da cena que vi. Aredhel estava encostada na parede envolta nos braços dele. Ele se curvava sobre ela em um beijo apaixonado. Thor a beijava lascivamente e com voracidade. Senti-me partir em pedaços por dentro e um bolo se formou em minha garganta. Aredhel estava me traindo com Thor.
Uma fúria cega apoderou-se de mim. Os móveis ao meu redor voaram e chocaram-se contra as paredes. De repente tudo o que vinha acontecendo nos últimos dias se encaixaram como peças de um grande quebra-cabeça. O comportamento estranho de Aredhel, a maneira como ela me evitava nos últimos dias, as horas que ela passou em companhia de Thor, o vestido que ele deu de presente para ela. A visão daquele dia em que eles saíram para distribuir os convites para a festa me veio a mente. O jeito como Thor parecia sorridente, o quanto Aredhel parecia cansada, o quanto eles estavam corados. Não pude deixar de imaginar que ela havia se entregado a ele. Eles passaram horas fora… Tempo suficiente para… Cerrei os olhos enfurecido. Tudo fazia sentido. A maneira maliciosa como Thor olhava para Aredhel durante a dança, como se fosse dono dela. Trinquei os dentes com raiva. Era isso que Aredhel escondia, tinha virado amante de Thor.
Logo Thor... Ele que havia passado a vida inteira tirando de mim tudo aquilo que eu mais desejava... Thor que sempre tivera o amor e a preferência de Odin. Era o filho legítimo de Frigga. Ele era quem fora o escolhido para assumir o trono... E agora tinha tirado de mim a minha esposa! Mais do que nunca eu o odiava e queria vê-lo morto aos meus pés!
Thor largou Aredhel e ela me olhou boquiaberta. Ele, por sua vez, encarou-me com um sorriso malicioso. Era um sorriso de vitória. Ele a tinha e agora queria esfregar na minha cara a minha derrota! Eu nem pensei, fui furioso em direção a Thor e dei um soco nele fazendo cair sobre uma mesinha, a esmagando.
— Loki! — exclamou Aredhel.
Ele se levantou, limpou o sangue da boca e avançou sobre mim, me dando murro no estômago e em seguida me acertando um golpe no rosto.
— Não, Thor! — ouvi-a gritar.
Voltei a atacar Thor, o feri no abdome com uma de minhas adagas e acertei outro soco em seu rosto, derrubando-o no chão. Conjurei a Gungnir. Estava farto daquela “brincadeira”. Eu acabaria logo com aquele espetáculo, mataria Thor de uma vez por todas. Aredhel correu e agarrou meu braço.
— Loki, não! Você vai matá-lo! — ela berrou desesperada.
Sentia tanta raiva e nojo dela, que eu nem a encarei. Eu apenas a empurrei com força, me desvencilhando dela e a fazendo voar para longe. Ouvi o barulho de vidro se quebrando e Aredhel dar um gemido em algum lugar do quarto. Thor retirou a adaga que estava cravada em seu corpo, se levantou e me encarou sorrindo.
— Não sei o porquê desse alarido todo — ele deu de ombros, meio rindo. — Que culpa eu tenho se todas as mulheres sempre preferem a mim, irmão? Sempre foi assim! — jogou os braços para o alto. — Já deveria ter se acostumado — fitou-me com um olhar fingido de pena. — Além disso, foi sua esposa que veio se oferecer a mim — sibilou venenosamente.
— Thor? — ouvi Aredhel indignar-se com a voz entrecortada.
Senti meu sangue ferver. Apontei a Gungnir para Thor e o atingi com o raio. Ele atravessou a parede e foi parar no quarto ao lado. Eu estava seguindo em direção ao buraco para finalizar Thor, quando Aredhel segurou o cabo da Gungnir.
— Não... N-não faça... I-isso... L-loki... E-ele... Ele é seu... S-seu irmão... T-tem... Tem algo errado... C-com... Com... — começou a gaguejar.
Virei-me rapidamente em sua direção. Agarrei-a pelo pescoço com uma das mãos e a ergui do chão, fazendo-a largar a Gungnir. Eu tremia de raiva e podia sentir as lágrimas descendo continuamente por meu rosto. Olhei para aquela mulher em quem eu tinha confiado durante tanto tempo, com a qual compartilhei meus segredos mais íntimos. Aquela que havia me jurado amor eterno, a qual eu havia tornado rainha de Asgard e soberana dos nove reinos. Sentia tanto ódio de Aredhel naquele instante. Eu estava ferido e minha alma sangrava. Ela havia me traído com Thor e jogado fora tudo que eu a havia oferecido.
— Por quê, Aredhel? Por quê? — indaguei entredentes apertando seu pescoço involuntariamente. — Eu confiei em você! Eu lhe dei longevidade, um lar, filhos, lhe dei meu amor! — gritei. — Entreguei a você minha vida e alma! — estertorei. — E é assim que você me paga? Com traição? — questionei em meio a um soluço.
Lágrimas também corriam pelo rosto dela. Aredhel estendeu as mãos e colocou sobre meu braço. Foi neste momento que notei que havia cortes que sangravam em suas mãos e braços. Lembrei-me do som de vidro se quebrando que ouvi. Imaginei que ela havia se cortado em algum vidro ou espelho do quarto. Forcei-me sorrir ao vê-la ferida, mas aquilo não me dava satisfação alguma. Pelo contrário, nunca um sorriso meu me magoara e doera tanto em meu coração. A dor da traição me consumia. Meus dedos se fecharam ainda mais sobre o pescoço dela e a vi começar a sufocar. De repente, senti-me sufocando junto com ela. Ela começou a ficar vermelha e então tive um momento de lucidez diante daquela insanidade toda. Percebi que eu a estava estrangulando. Perplexo com meu ato de selvageria, soltei-a e ela desabou de joelhos no chão. Ela se apoiou com as mãos no chão e notei que também tinha cortes nas costas. Senti pena dela. Por mais raiva que sentisse de Aredhel naquela hora, doía-me machucá-la. A quem eu queria enganar? Eu ainda a amava perdidamente. Por maior que fosse meu ódio por ela, eu jamais poderia matá-la. Nunca conseguiria fazer isso.
— E-eu... N-não... B-beijei... T-thor... — sussurrou Aredhel com dificuldade, enquanto tossia engasgada. — Eu... N-não... Não te... T-traí... Vim... F-falar so... S-sobre Sif... — revelou com a voz rouca enquanto recuperava o fôlego.
A porta do quarto se abriu bruscamente e James nos encarou chocado.
— O que houve? — olhou-me perplexo. — Meu Deus! Aredhel! — correu em direção a ela e ajoelhou-se ao seu lado.
Eu não conseguia pensar direito. Passei a mão livre pelo rosto, enquanto assistia James ampará-la. Fiquei confuso, tudo que vinha acontecendo e o que eu testemunhara indicava que Aredhel beijara Thor por vontade própria. Contudo, independente de Aredhel falar a verdade ou não, o destino de Thor, mais do que nunca, estava selado. Eu iria matá-lo. Virei-me e segui em direção ao buraco feito na parede. Ouvi Aredhel implorar com dificuldade para que eu não o fizesse. Thor pelo jeito havia desmaiado, pois parecia acordar quando passei pelo buraco. Ele me fitou surpreso.
— Loki? — encarou-me aturdido. — Aredhel... A pequena… — começou a falar confusamente. — A pequena é inocente... Eu a beijei a força... E... — tropeçava nas palavras, enquanto se levantava.
Minha fúria contra ele só aumentou. Aredhel era inocente e eu a havia machucado, quase a matara, por culpa de Thor. Eu segurei a Gungnir com força, apontei em sua direção e avancei sobre ele. Eu não pensava em mais nada. Tinha me tornado um monstro sedento por sangue. Eu só queria ver Thor morto. Queria atravessá-lo com a Gungnir.
— Não, Loki! — ouvi a voz de Aredhel atrás de mim.
Fechei os olhos com força e deixei a ira me guiar. Então tudo aconteceu muito rápido...
— Espere, Loki! — pediu Thor. — Foi Thanos! Ele estava me controlando! — gritou.
Thor falou tarde demais. Não havia mais volta. Senti a Gungnir ser cravada em algo. Por alguns momentos imaginei que, inevitavelmente, eu havia atingido Thor. Mas eu estava irremediavelmente errado. Quando abri os olhos, vi que a Gungnir havia atingido o abdome de Aredhel. Meu coração parou. De repente parecia que tudo se movia lentamente. Eu mal podia acreditar no que estava acontecendo. Minha mulher estava com a boca entreaberta, em uma expressão de dor profunda e segurava a Gungnir. Ela me olhou nos olhos, franziu o cenho e deslizou pela Gungnir, desabando em direção ao chão. Eu larguei a arma, teletransportei-me e amparei Aredhel antes que ela tocasse o piso. A Gungnir, manchada pelo sangue de Aredhel, caiu no chão com um barulho estridente.
— Aredhel! — gritei desesperado.
— Loki! Oh meu Deus, Aredhel não! — ouvi James gritar atrás de mim.
— Eu... E-eu... Não o... O b-beijei... E-eu n-não... O-o beijei... Juro... E-eu — gaguejava Aredhel com lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Aredhel, meu amor — eu a segurei apertado em meus braços. — Não… Não… Meu amor… Oh, meu amor... — repetia com a voz embargada. — Pelos deuses… O que fiz? — solucei.
— L-loki... Eu... N-nun... N-nunca te traí... E-eu... Eu... N-nunca... — ela soluçava.
— Eu sei, meu amor... Shh... Não fale, meu amor... — tentei acalmá-la. — Guardas! Ajudem! Tragam Ada! Rápido! — gritei em meio às lágrimas. — Vai ficar tudo bem… — dizia mais para mim mesmo do que pra ela.
Ouvi Thor também chamar por ajuda da porta do quarto e em seguida ajoelhou-se ao meu lado. James juntou-se a nós e pegou uma das mãos dela entre as suas. Coloquei minha mão sobre o ferimento no abdome de Aredhel e comecei a tentar fazer a magia para estancar o sangramento.
— Aredhel… — começou Thor. — Thanos vem controlando a minha mente desde Midgard. Ele queria que eu roubasse as Gems. Eu... Eu jamais teria feito isso com você e Loki... — tropeçava nas palavras. — Por Odin... Perdoe-me, pequena... — pediu com a voz cheia de emoção.
— Aredhel, me perdoe… — rompi em soluços, vendo o sangue dela continuar a se esvair sem controle. — Eu te imploro que me perdoe, meu amor... E-eu... E-eu... — rompi em soluços.
— E-está t-tudo bem... A c-culpa não... N–não foi de vocês... Errei d-de... D-de novo o tele... T-teletransporte... — gaguejava. — E-eu s-sabia q-que isso a-aconteceria... V-venho sonhando com... — soluçou. — C-com isso a t-tanto tempo... N-no sonho e-eu... E-eu sabia que... E-eu v-vi você chorando... — apertou minha mão. — A risada... A-agora s-sei de quem... Q-quem era… Era T-thanos... Era dele... — revelou com dificuldade.
— Por quê não me contou? — perguntei estupefato.
— E-eu... E-eu n-não sabia q-quando aconteceria... Só s-sabia q-que... Q-que era... Era i-inevitável... E-eu n-não q-queria que sofresse... — franziu o cenho chorando.
Agora tudo fazia sentido. O comportamento estranho de Aredhel não era porque ela seria amante de Thor, mas porque sabia o que aconteceria. Vinha guardando isso há semanas. Lembrei-me do que James dissera, que ela o abraçara aos prantos, mas nada revelara. Minha pobre esposa vinha sofrendo em segredo para me poupar do pior. Ela bem sabia que eu ficaria paranoico.
— Eu vou morrer... — ela resfolegou.
— Não… Não... Você não vai, minha vida... — afirmei desesperado.
— Loki… — pressionou minha mão. — Prometa-me que... Q-que cuidará de nossos filhos... D-diga a eles... Que... Q-que eu os amo muito... — pediu me olhando nos olhos.
— Meu amor... Pare... — murmurei aos soluços.
— Prometa-me que... Q-que não voltará a ser... S-ser... Amargurado... Mau... — pediu novamente. — Q-quero que você seja feliz... — o apelo saiu sussurrado.
Aquilo me devastou.
— Aredhel, por favor... Não... — pedi desconsolado.
— Prometa-me, Loki... P-por... P-por... F–favor... — implorou e em seguida tossiu sangue.
— Eu prometo... — sussurrei encostando minha testa na fronte dela. — Por favor, meu amor... Fique comigo... Não me deixe... Não me deixe, por favor… — implorei aos prantos.
Minha magia parecia não conseguir mais conter o sangramento. O vestido que já fora da cor de meus olhos, tingia-se pouco a pouco de vermelho com o sangue de Aredhel, enquanto ela ia ficando cada vez mais pálida. Eu a estava perdendo e já não sabia o que fazer. Ouvi soluços, pensei que poderiam ser Thor e James, mas isso não era importante. Nada além de manter Aredhel viva importava naquele momento.
Minhas lágrimas molhavam o rosto dela e ela continuava chorando. Vi-a estender a mão machucada e tocar meu rosto.
— E-eu... Eu... Te... Amo... Loki… — engasgava-se. — Para... Sempre...
— Eu também... Também te amo Aredhel... — falei e dei um beijo em seus lábios.
Senti o gosto de sangue. Percebi que ela estava se afogando no próprio sangue. Aredhel tossia cada vez mais. A mulher que era a minha vida estava morrendo e eu não sabia o que fazer.
— E vou te amar para sempre… — afirmei. — Mas… Mas não me deixe... Eu... Eu te imploro, meu amor... — soluçava descontroladamente.
Aredhel sorriu para mim e então baixou a mão.
— Perdoe-me... — disse com a voz sumindo.
Lentamente, Aredhel fechou os olhos e seus braços penderam ao lado de seu corpo.
— Aredhel? — chamei incrédulo. — Aredhel! Não! — gritei desesperado.
Com um último suspiro, ela parou de respirar e pude sentir o coração dela parar em seguida. Gritei novamente. Foi um grito de dor tão alto que duvido que alguém não tenha ouvido em todo o palácio. A dor que senti era indescritível, imensurável. Senti a sanidade me abandonar. Abracei Aredhel com força e chorei desesperadamente. Eu balançava para frente e para trás, agarrado ao corpo dela.Encostei meu rosto e lábios em sua fronte e berrei. Eu estava enlouquecendo de dor.
— Não! Não! Não! Aredhel, não! — repetia desolado.
Eu havia assassinado a mulher que eu amava. Tinha perdido meus sonhos de amar. Eu havia matado Aredhel.
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