A mulher do meu destino

58 Il nous reste toute une vie pour pleurer


Notas iniciais
* Il nous reste toute une vie pour pleurer = Nós ainda temos uma vida inteira a chorar - Trecho da música "Protège Moi" do Placebo. Bom... Gente... eu sei que peguei pesado... Peço mil perdões a todas.. Teve gente que chorou, jurou que nunca ia me perdoar.. Enfim.. Ainda assim agradeço todos os comentários.. Por causa dessa comoção toda, eu praticamente não dormi.. Fiquei escrevendo o capítulo seguinte até as 6h da manhã.. Depois que dormi até o meio-dia, ai fui fazer a revisão e o meu marido fez a dele.. Então o capítulo tá quentinho... u_u os títulos dos capítulos têm tudo a ver com eles... espero que me perdoem.. Esse capítulo tem várias inspirações. Vocês vão achar trechos da música "The air that I breathe" do The Hollies em alguns pontos... Também temos uma citação tirada do filme "Rocky Balboa". Peguem seus lencinhos.. Nós ainda temos um capítulo inteiro para chorar... Boa leitura..

Estava tudo acabado… Minha magia tinha falhado. Eu fracassara com Aredhel...

Eu estava desconsolado... Havia perdido a mulher do meu destino. Não… Pior, era muito pior... A minha vida, a mulher que eu amava, estava morta. E a culpa de tudo era única e exclusivamente minha...

Minha inocente esposa tinha sido vítima, mais uma vez, de meus atos impensados, de meu ciúme e de meus erros do passado. Nós criamos nossos próprios demônios e não podemos fugir deles... Eu era o meu próprio demônio, havia criado meu inferno e agora passaria a vida toda nele. Milhares de anos... Eu tinha toda uma vida para chorar... Remorso e culpa eram palavras demasiadamente doces para serem usadas a fim de descrever o que eu sentia. Eu estava destruído, arruinado. Meu coração estava aos pedaços. Minha vida tinha acabado junto com a de Aredhel.

Acima de alguns soluços contidos meus e dos presentes, o silêncio imperava o local. Não sei por quanto tempo eu fiquei abraçado ao corpo sem vida de Aredhel. Eu não sentia nada além de dor e desespero. Amargamente, desejei morrer junto com ela. Passado um longo tempo James, às lágrimas, pôs a mão sobre meu ombro. Thor se levantou.

— Elas precisam levá-la, irmão... — murmurou Thor.

Olhei para cima e vi Ada, Eir e as outras servas me observando com tristeza. Aquilo que eu estava vivendo não era um pesadelo, era real...

— Eu mesmo a levo... — falei em um sussurro.

Levantei-me com Aredhel nos braços e segui as servas até a sala onde preparavam os mortos. James me acompanhou. No caminho percebi sinais de luta, móveis e colunas quebradas, guardas feridos. Foi então que me lembrei de que o Tesseract e o Aether haviam sido roubados. Percebi que aquilo pouco me afetava. Nada mais importava para mim.

Na sala, deitei Aredhel sobre uma mesa de mármore e a olhei mais uma vez. Nesse momento vi o resultado de minha possessividade e de meu ciúme estúpido e doentio. Minha esposa, além dos cortes nas costas e do ferimento mortal no abdome, tinha cortes em sua perna, pés, braços e mãos. Ainda havia cacos de vidro cravados em sua pele em vários pontos. Seus joelhos, as palmas das mãos e os pés estavam em pior estado. Ela provavelmente havia engatinhado e andado sobre o vidro quebrado. A minha ignorância e violência também estavam visíveis nas marcas que meus dedos deixaram em seu pescoço. Não importava se eu fora induzido pelas circunstâncias a acreditar que ela havia me traído. Isso não justificava meus atos. Eu era um monstro. Seria muito fácil responsabilizar Thanos por tudo. Ele tinha sua grande parcela de culpa e pagaria por isso, mas eu também era culpado por ter caído estupidamente em sua armadilha e acreditado na infidelidade de Aredhel.

Como pude acreditar?

Não suportei e novamente rompi em soluços. Passei a mão por seu rosto me perguntando como eu tinha feito aquilo. Como eu havia tido coragem de machucá-la dessa forma? Como eu pude pensar, por um momento que fosse, que ela poderia ter me traído? Ela que sempre tinha feito tudo por mim, que arriscava a vida por mim, que me olhara com tanto amor durante a dança naquela noite. Eu a conhecia tão bem, conhecia sua alma. Como pude duvidar de seu amor por mim?

Passei os últimos anos tentando protegê-la, mantê-la viva e a salvo de tudo. Se dependesse de meu amor obsessivo por ela, a teria colocado dentro de uma redoma. Aredhel era um paradoxo. Era uma mulher tão frágil e forte ao mesmo tempo. Eu havia falhado em protegê-la tantas vezes e ela vinha resistindo a tudo corajosamente. A cada golpe do destino ela ressurgia como a fênix, a ave dos livros de mitologia que ela tanto gostava. Aredhel costumava dizer “Ninguém vai bater mais em você do que a vida, mas o importante não é o quanto você pode bater de volta e sim o quanto você consegue apanhar e continuar seguindo...” Ela era uma lutadora, mas dessa vez a vida tinha “batido” nela à exaustão e eu não tinha conseguido defendê-la. Afinal, eu tinha esquecido de protegê-la contra algo mais mortal, do meu amor por ela. O pai de minha esposa tinha razão… Contudo, eu não apenas a arruinei, mas também tirei a vida dela.

Dei um beijo em seus lábios e senti o quanto eles estavam frios. Dei uma última olhada em Aredhel e me afastei. James beijou-lhe a mão, sussurrou algumas palavras inteligíveis e me conduziu para fora da sala.

O Sol timidamente banhava os corredores, anunciando que já estava amanhecendo. Até mesmo aquela luz, a promessa de um novo dia, parecia pesar sobre meus ombros. Como o dia podia nascer normalmente para mim, sem ela ali para brilhar?

James me acompanhou até o quarto. Falou que iria ver as crianças e que depois retornaria. As palavras dele ecoaram em minha cabeça: “as crianças”. Como eu contaria a eles que a mãe estava morta? Pior ainda, que eu a havia assassinado? Eles ainda eram tão pequenos. Narfi tinha um pouco mais que dois anos, Hela tinha apenas quatro e Váli tinha completado oito anos. Minha vida definitivamente estava acabada. Meus filhos iriam me odiar para o resto da vida. Podia poupá-los da verdade naquele momento, mas um dia eles saberiam que eu tinha tirado a vida da mãe deles. Que meu ciúme tinha arrancado deles o amor e o carinho dela.

Olhei ao redor e tudo naquele quarto lembrava Aredhel. Embora a decoração tenha pouco mudado desde que nos casamos, cada detalhe ali despertava alguma lembrança daquela mulher. Tinha o cheiro dela. Meus olhos pousaram sobre a cama e dei um suspiro de pesar. Ter Aredhel em meus braços e amá-la me deixava tranquilo, aquecido e cansado. Eu encontrava paz no seio dela. Eu tinha tudo que poderia querer ao lado de Aredhel. O que mais eu poderia pedir? Não havia mais nada para ser desejado. Percebi que não conseguiria deitar naquela cama e não me lembrar dela e de nossos momentos íntimos. Eu nunca mais queria dormir ali. Isso seria uma tortura.

Sentei-me em uma poltrona ao lado da cama e muitas recordações começaram a passear em minha mente. Lembrei-me do jeito que ela sorria para mim quando estávamos juntos, do som estridente da risada que tinha, de sua voz doce, das melodias que ela cantava para mim, de suas perguntas incessantes, da perspicácia e inteligência dela. Eu amava sua companhia e realmente acreditei que envelheceríamos juntos.

E eu nunca mais teria nada disso… Não teria mais sua companhia, não ouviria sua voz ou a veria sorrir. Comecei a respirar pesadamente e sentia que algo apertava em meu peito. Era a dor voltando. Eu ficaria louco de tanta dor. De repente aquele quarto parecia me sufocar, me oprimir. Saí de lá as pressas, precisava respirar. Já no corredor, encontrei-me com James novamente.

— Loki — ele evitava me encarar, mas percebi seus olhos inchados de tanto chorar —, eu falei com as crianças — deu um suspiro triste. — Contei que ontem aconteceu um acidente e que isso acabou vitimando a mãe deles. Eu não entrei em detalhes — a voz dele falhou. — Eles querem te ver. Precisam de você... — falou visivelmente emocionado.

— Obrigado por se adiantar. Eu nem saberia o que dizer a elas — murmurei.

Deixei James para trás e fui em direção ao quarto de meu filho mais velho. Mal dei alguns passos e, através de um espelho que havia ali, vi que eu estava coberto de sangue. Eu não podia ver meus filhos daquele jeito. Voltei para meu quarto e tomei um banho rápido. Não queria ficar muito tempo ali, trazia lembranças demais.

Depois de pronto segui para o quarto de Váli. Ao entrar vi Hela agarrada ao irmão, ela soluçava enquanto ele chorava silenciosamente acariciando seus cabelos. Sigrid e Siegfried estavam sentados na cama, ambos chorando baixinho. Assim que me viram Hela e Váli correram em minha direção. Ajoelhei-me e os dois me abraçaram forte. Eu acariciei o cabelo dos dois enquanto eles choravam copiosamente. Não sabia o que dizer ou fazer, então fiquei calado. Era tão doloroso ver meus filhos, tão pequenos, sofrerem tanto e saber que eu era responsável por isso. Sigrid e Siegfried me olharam quase com súplica. Eu fiz um sinal com as mãos e os dois vieram me abraçar aos prantos também. Parecia que Aredhel tinha bem mais que três filhos, tinha cinco.

Não sei por quanto tempo fiquei agarrado às crianças. A única coisa que eu pensava naquele momento era que eles eram tudo o que havia me restado. Eu tinha que ser forte por eles, pelo menos até o dia em que eles começassem a me odiar. Isso seria inevitável...

Greta entrou no quarto e trazia Narfi nos braços. Dei um beijo na fronte de Narfi e deixei meus filhos aos cuidados dela.

Ao sair do quarto, Thor me aguardava. Seu rosto era a imagem da aflição.

— Loki, eu sei que esse não é o melhor momento, mas preciso lhe pôr a par do que está acontecendo — disse com o semblante preocupado.

— Certo, vamos ao salão. Lá conversaremos melhor — falei meio impaciente.

Eu não estava em condições de pensar em nada, mas eu precisava afastar meus pensamentos de Aredhel e tinha que entender melhor a participação de Thanos em tudo aquilo. Ele pagaria caro pela morte de minha mulher.

— Loki, como eu lhe falei, Thanos está por trás de tudo — começou. — Ainda em Midgard ele controlou minha mente. Fez-me dizer coisas horríveis para Jane. Obrigou-me a me comportar daquele jeito estranho e... — respirou fundo — ...a beijar a pequena. Ela havia ido ao meu quarto falar sobre Sif. Eu ouvi você falar com James no corredor, então algo me obrigou a beijá-la e dizer aquelas coisas. Eu realmente lamento… — baixou os olhos. — Tinha consciência do que fazia, mas não podia me controlar. Thanos fez tudo de propósito — falou aflito.

— Ele disse que Aredhel seria minha ruína e que me faria matá-la... — murmurei amargurado, relembrando as palavras de Thanos.

— Eu sinto muito, Loki — disse com pesar. — Ele também me fez roubar as Infinity Gems que estavam no salão de relíquias. Eu ajudei Amora e Lorelei a escaparem e entreguei as Gems a elas — desviou o olhar, claramente envergonhado. — Entretanto, a roxa ficou comigo e felizmente não foi levada. O plano era lhe matar e fugir. Porém você me fez desmaiar e acabei me livrando do controle dele — explicou.

— E o que mais você sabe sobre os planos dele? — fui direto.

— Só sei o que precisava fazer — meneou a cabeça. — Depois de fugir daqui eu teria que me encontrar com um homem, da Midgard de Aredhel, chamado Arthur — informou.

— Eu sabia! — rilhei os dentes. — Tinha que ter alguém mais poderoso por trás daqueles malditos Midgardians! — esbravejei. — Por isso eles sabiam sobre as Gems. Thanos sabia que eu tinha as localizações das Gems e provavelmente sabia de algumas que eu teria localizado. Ele deve ter continuado a me vigiar. Maldito seja! Vinha planejando isso há muito tempo! Ele vai se vingar apoiando aqueles idiotas da Midgard de Aredhel! — rosnei.

— E tem mais, irmão... — fez uma pausa. — O irmão da pequena está envolvido com eles. Ele, Arthur e Thanos é que foram me ver — revelou.

Passei as mãos por meus cabelos, lívido de raiva. Agora tudo se encaixava. Por isso William sabia sobre a Gem do Tempo. Pensei que a mudança no comportamento da família de minha esposa fosse apenas antipatia e medo pela retaliação que pudessem sofrer. Mas não, a agressividade deles contra mim e a tentativa de convencer Aredhel a me abandonar tinha outro significado. A família dela havia trocado de lado.

— Eu sabia! Maldito William! — gritei dando um murro em uma mesa e a fazendo em pedaços.

— Sif, Fandral, Volstagg e Hogun seguiram, ainda de madrugada, atrás de Lorelei e Amora — prosseguiu Thor. — Eles não sabem o que aconteceu com Aredhel. Aliás, poucos sabem aqui no palácio. Eu disse aos servos e guardas que a rainha deles havia sido morta durante a fuga e pedi discrição. Também já cuidei dos detalhes do funeral dela e dos guardas mortos na fuga de ontem. A cerimônia será ainda esta noite — falou colocando a mão sobre meu ombro.

O funeral, eu já até tinha esquecido dele. Tudo o que eu pensava naquele momento era me encontrar cara a cara com William. Aredhel estava morta e agora não havia mais nada que me impedisse de matar ele ou o velho nefasto do pai dela. Lorelei e Amora também pagariam por seu envolvimento. Vingança era tudo o que me restava. Eu iria me vingar de todos os envolvidos na morte de minha mulher. Eu os faria implorar para morrer.

Segui para o quarto de Thor a fim de recuperar a Gungnir. Eu estava decidido a partir imediatamente para a Midgard da outra realidade e acertar contas com William. Depois eu seguiria atrás de Lorelei, Amora e, por fim, Thanos. No caminho encontrei-me novamente com James.

— Loki, eu preciso falar com você — abordou-me.

— Agora não, James. Eu tenho uma coisa muito importante para fazer — fui ríspido.

— É sobre o funeral de Aredhel — insistiu. — Thor me avisou que será hoje a noite. Eu acho que deveríamos avisar a família dela. Eles têm o direito de se despedir de Aredhel e... — começou a falar.

— Eles não têm direito a nada! — vociferei.

O ator me fitou chocado.

— Você sabe quem está do lado de Thanos? — disse entredentes. — Sabe? William! — sibilei. — Aquele maldito está envolvido nisso tudo! Ele é cúmplice na morte da própria irmã! Não duvido que o próprio pai dela também esteja conluio com Thanos também! Ele nunca gostou dela e muito menos de mim! — rosnei com raiva. — Então o único direito que o irmão dela tem é morrer pelas minhas mãos! — berrei.

— Então Thanos está ajudando o pessoal da Terra? — pasmou-se. — Tem certeza que William está envolvido? — parecia incrédulo.

— Tenho, foi o próprio Thor quem me disse! — ergui os braços. — William e outro homem chamado Arthur foram junto com Thanos à Midgard daqui para controlar Thor! — revelei.

— Meu Deus… — levou a mão ao rosto. — O próprio irmão... — murmurou perplexo.

— Aquilo não é um irmão! É uma víbora! — retruquei. — Pelo jeito, os únicos “irmãos” que Aredhel teria nessa vida eram você e Thor. Pelo menos era assim que ela os considerava... — murmurei com tristeza.

— Ela disse isso? — encarou-me e franziu o cenho.

— Sim… — anuí. — Tempos atrás ela disse que vocês eram como irmãos para ela.

James deu um sorriso fraco e baixou os olhos com uma expressão de tristeza. Pelo jeito ele gostava tanto de Aredhel, quanto ela gostava dele.

— O que você pretende fazer agora? — perguntou-me de repente.

— Eu vou para a sua Midgard atrás de William e dos demais! Vou vingar a morte de Aredhel! — declarei com raiva latente.

— Loki — fitou-me sério —, eu entendo a sua raiva, mas pense um pouco. Ele ainda é irmão dela e você não sabe se ele não fora enganado ou forçado a se unir a eles.

— Forçado? — quase ri. — Tolice! Ele veio várias vezes aqui tentar envenenar Aredhel contra mim. Ele está nisso por vontade própria! — afirmei convicto.

— Ainda assim — meneou a cabeça —, pense em seus filhos. Eles adoram o tio.

— Mesmo que por um ato súbito de benevolência eu o deixasse vivo… Algo que eu não pretendo fazê-lo... Eu não deixaria ele se aproximar novamente de meus filhos! Ele seria capaz de jogá-los contra mim!

— Bom… — ele deu um suspiro. — Eu já vi que não vou convencê-lo a não fazer isso. Mas, pelo menos, fique para o funeral de Aredhel, você deve isso a ela depois do que fez — disse me encarando seriamente.

Foi como levar um tapa. Assim como eu, James também me via como responsável pela morte de Aredhel. Creio que ele não tenha sido mais incisivo comigo por pena, mas pude ver nos olhos dele a mágoa.

— Eu sei que me consideras um monstro e realmente eu sou — admiti. — Jamais me perdoarei por tê-la ferido daquele jeito e, no fim, tê-la assassinado. Mas se eu tinha que fazer algo por ela, fiz enquanto estava viva. Fazer agora depois de morta não tem mais sentido... — falei amargurado.

— Então faça por seus filhos! — rebateu irritado. — Ir para a Terra, por algumas horas, atrás de vingança pode levar meses aqui. Vai deixá-los sozinhos, no momento em que eles mais precisam de seu apoio? Você tem o dever de cuidar dessas crianças! Você tirou a mãe deles e você é tudo que eles têm agora! — despejou a raiva em mim.

Pisquei os olhos, um pouco surpreso com a explosão dele. Nunca o tinha visto tão irado. Em outro momento eu teria ficado irritado com a sua petulância, mas sabia que James tinha razão. Algumas horas que eu passasse na outra realidade seriam meses aqui e meus filhos ficariam desamparados.

— Pense um pouco, Loki — a voz dele saiu embargada. — O tempo passa tão lento na outra realidade. Você pode esperar alguns anos antes de partir atrás de sua vingança. Ajude seus filhos a superarem a perda e aproveite a infância deles. Crianças crescem tão rápidos e eles são tudo o que restaram de Aredhel — seus olhos marejaram e o vi trincar os dentes. — Se você a amava tanto quanto diz, cuide do que ela deixou para você. Ela te deu três fortes razões para continuar vivendo — disse exasperado.

James nem esperou eu dizer algo e saiu marchando irritado, deixando–me as sós com meus pensamentos. Ele estava certo... Meus filhos eram tudo o que havia restado de Aredhel e, de fato, eles eram minha razão para continuar vivendo. Era por eles que eu ainda não havia perdido a sanidade e desistido de viver. Eu havia perdido um dos meus sóis, mas eu ainda tinha três para me guiarem nessa vida. Jamais esqueceria de Aredhel e certamente nunca superaria sua morte, mas tinha que seguir adiante por nossos filhos.

Thor, ainda pela manhã, havia partido para Midgard a fim de resolver o mal entendido com Jane e ficara de retornar antes da hora do ritual. A hora do funeral se aproximava. As servas já havia preparado o corpo de Aredhel para a cerimônia.

Ela estava deitada sobre uma placa em cima de uma mesa, esperando para ser colocada no barco. As serviçais tinham vestido Aredhel com um vestido longo branco, com bordados dourados, de mangas compridas e gola alta. Imaginei que fora escolhido propositalmente para ocultar as marcas da morte violenta que ela tinha pelo corpo. Deixaram-na com os cabelos soltos, adornaram o topo de sua cabeça com uma coroa de flores e espalharam flores de jasmim por todo o comprimento de seu cabelo. Era quase uma tortura sentir aquele perfume. Sabia que aquelas imagens e o cheiro daquela flor me assombrariam pelo resto da vida.

Aredhel trazia as mãos juntas sobre seu abdome e entre elas estava a sua adaga. Suas mãos, mesmo maquiadas, ainda mostravam alguns cortes. E em sua mão esquerda ainda estava a aliança com meu nome gravado.

Novamente senti as lágrimas rolarem por meu rosto. Às vezes eu pensava que tudo que eu precisava era o ar que eu respirava e o amor daquela mulher. Eu estava errado. Aredhel também era meu ar. A quem eu estava querendo enganar? Eu precisava dela para continuar vivendo.

Acariciei seus cabelos, enquanto soluçava, e dei um beijo leve em seus lábios.

— Perdoe-me, meu amor — pedi mais uma vez. — Eu te amo. Durma em paz, meu anjo... — sussurrei.

Thor entrou no salão acompanhado por Jane. Ela estava com lágrimas nos olhos.

— Meus pêsames. Eu sinto muito — ela murmurou.

Eu nada disse, apenas meneei a cabeça e sentei em uma poltrona próxima. Ela olhou rapidamente para Aredhel e encolheu-se nos braços de Thor. Ouvi Jane perguntar pelas crianças e então eles se retiraram.

Fiquei um longo tempo perdido em minhas lembranças, remoendo meus erros e lamentando minha perda. Viver durante milênios agora parecia uma maldição e invejei a efemeridade dos humanos. Sem Aredhel viver seria um castigo.

Passado mais algum tempo James entrou acompanhado por Hela e Váli. Meus filhos correram e mais uma vez me abraçaram apertado, depois seguiram em direção onde a mãe estava deitada.

— Então você decidiu ficar — James disse baixinho ao se aproximar de mim.

— Sim… Você estava certo. Meus filhos são o mais importante agora — suspirei com pesar.

Váli acariciava o rosto da mãe enquanto chorava silenciosamente. Hela debruçou-se sobre o corpo da mãe e soluçava desesperada.

— O que será de nós sem ela, James? — indaguei sentindo um nó se formar em minha garganta.

Antes que James pudesse dizer qualquer coisa, vi Hela deslizar e desabar no chão desacordada. Levantei-me em um átimo e corri. Carreguei minha menina nos braços e vi que estava desmaiada. James e Váli se aproximaram assustados.

— Hela! Minha filha! Acorde! — chamei preocupado, sacudindo-a.

Nesse momento eu ouvi um suspiro alto. Olhei para trás e vi o vestido de Aredhel lentamente começar a tingir-se de vermelho em seus braços e pernas. Os ferimentos de Aredhel estavam sangrando novamente. Observei aquela cena aturdido.

— Mas o quê... — ouvi James murmurar.

— Papai... O que está acontecendo? — perguntou Váli assustado.

Isso não era para acontecer. Mas o que me deixou mais chocado foi o que veio a seguir. Pude ver claramente o peito de dela subir e descer. Perguntei a mim mesmo se havia enlouquecido ou se estava alucinando. Seria possível ela estar respirando? Fiquei confuso. James pegou Hela de meus braços e pude me aproximar de Aredhel. Ouvi claramente seu coração batendo.

— Aredhel está viva... —murmurei perplexo.

Notas finais
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