A mulher do meu destino

54 I promise you I will learn from my mistakes


Notas iniciais
* I promise you I will learn from my mistakes = Eu te prometo que vou aprender com meus erros - Trecho da música "Fix You" do Coldplay. Olá!!! XD Quase que esse capítulo não sai... Acabei de escrever!! Tive um bloqueio causado pelo sofrimento dos personagens.. Eu não sabia que rumo seguir... Mas graças a esse bloqueio, surgiram novas ideias e digo que a fic vai se alongar mais um pouco... hehehe.. Espero que gostem da notícia... Obrigada pelos comentários!! Amei!! Sejam bem-vindos quem estava sumido e novos leitores!! Sobre o capítulo.. peguem mais lencinhos... Boa leitura!

Independente da confusão que Aredhel estava passando, através de seu desabafo também pude perceber como ela se sentia a respeito de algumas situações. Pelo jeito já havia algum tempo que minha esposa sofria em silêncio, sentindo-se oprimida por meu ciúme e pela solidão que minha obsessão por ela impunha. Doía-me imaginar que ela escondia tanta dor e sofrimento. Perguntei-me por que escondia isso de mim. Será que tinha receio que se indispor comigo? Tinha medo de mim?

Senti-me culpado. De fato, eu mal a deixava se aproximar das pessoas. Direta ou indiretamente, eu sempre a afastava de todos, inclusive de sua família. A única pessoa que deixei ela se aproximar foi de James. E praticamente fui obrigado a isso pelas circunstâncias do momento.

Aredhel chorava copiosamente, de joelhos, no chão do quarto. Vê-la ali, confessando que era infeliz comigo, me deixou devastado. Silenciosamente me ajoelhei ao lado dela e a abracei. Ela ergueu a cabeça e me fitou por alguns instantes.

— Parece que a coroa que você colocou sobre minha cabeça está muito pesada para mim… — murmurou chorando. — Talvez seja melhor eu voltar para casa... — o olhar era de súplica. — Então, deixe-me ir... — pediu com a voz quase sumindo.

Senti uma pontada no peito. Minha mulher queria me deixar.

— Não posso deixar que você me abandone… — as palavras escaparam de meus lábios. — Não posso viver sem você… — confessei.

Vi-a baixar a cabeça, parecendo desolada.

— Sua memória ainda não voltou por completo — apressei-me em dizer. — Eu te amo… E acredite... Você era feliz comigo — argumentei tentando conter as lágrimas.

— Você já pensou que talvez eu nunca recupere totalmente a minha memória? — olhou-me nos olhos novamente.

Aquilo me atingiu feito um soco. Sabia que era uma possibilidade.

— Então confie em mim — pedi. — Deixe-me provar que o que digo é verdade… — apertei as mãos dela entre as minhas. — Que você era feliz e que posso continuar te fazendo feliz… Por favor, me dê uma chance — implorei a fitei nos olhos e deixando algumas lágrimas rolarem.

Aredhel ficou me olhando assustada por um tempo. Ela tocou as lágrimas no meu rosto com a ponta os dedos e franziu o cenho.

— V-você… V-você m-me pediu p-perdão… — gaguejava. — Disse que sempre confiou em mim… Que nunca se esqueceria do mal que tinha me feito... De ter desejado me matar... E que nunca esqueceria o quanto me ama... — tropeçava nas palavras. — Não é a primeira vez que te vejo chorando... — murmurou aturdida.

— Você se lembrou disso... — sorri maravilhado.

Ela balançou a cabeça afirmativamente, mas ainda parecia confusa.

— Confie em mim. Você se lembrará de tudo — beijei sua fronte.

Naquele mesmo dia escondi todas as garrafas com a água do lago. Antes de qualquer coisa, queria me certificar de que Aredhel não fugiria. Ela passou o resto do dia ainda desconfiada e não se lembrara de mais nada de bom que tivesse vivido ao meu lado. Eu a convenci a treinar, mas logo percebemos que ela pouco recordava. Conseguia apenas se defender e se esquivar, acreditei que isso acontecia por instinto. Seu corpo, por reflexo, se “lembrava” de como se defender. De magias ela não se recordou de nenhuma.

À noite, ela foi dormir cedo e eu fiquei ainda por algum tempo ocupado. Eu passava boa parte do dia com Aredhel, então somente pela noite eu cuidava dos demais assuntos de Asgard. Quando finalmente fui para o quarto, encontrei Aredhel tendo um sono agitado. Sentei-me ao lado dela e acariciei seus cabelos. Ela parecia angustiada e começou a choramingar. De repente ela acordou aos gritos.

— Não! Não! Não! — gritava aos prantos.

— Aredhel, o que houve? Acalme-se, meu amor — falei colocando a mão sobre seu ombro.

— Você causou o acidente de Phillip e Peter! — berrou comigo, afastando minha mão de forma brusca. — Você estava lá! — disse entredentes. — Will me mostrou o vídeo e as fotos! Eu lembro!

O que eu mais temia tinha acontecido.

— Aredhel... Foi um acidente... Deixe-me explicar... — pedi desesperado.

— Como assim foi um acidente? — rebateu incrédula. — Eu vi você lá! Não tente me enganar... Eu vi! — rosnou.

— Eu vou lhe explicar... — comecei a falar.

— Eu não confio em você! — interrompeu-me. — Você vive mentindo para mim! Por que não me contou sobre o acidente antes? — estreitou os olhos. — Will! — exaltou-se. — Eu preciso falar com o Will! — jogou o lençol para o lado, se levantou e foi em direção ao armário.

Meu maior medo tinha se tornado real. Aredhel lembrara que eu causara o acidente e visivelmente não me ouviria. Definitivamente não confiava mais em mim. Ela pegou a bolsa e vasculhou a procura da garrafa com a água. Eu apenas fiquei calado a observando.

— Onde está? Eu deixei aqui! — perguntava agitada, enquanto revirava o armário — Loki! Onde está a água? Eu preciso ver o Will! — sibilou para mim.

Percebi que precisava recuperar o controle da situação. De qualquer maneira...

— Você não vai sair de Asgard — falei calmamente. — Eu já lhe avisei.

— Você não pode me manter presa aqui! — retrucou lívida de raiva. — Eu quero voltar para minha casa! — gritou.

Eu mal a reconhecia. Ela tremia de raiva. Teria que ser firme com ela.

— Aredhel, aqui é sua casa — disse pausadamente. — Eu não posso deixar que você vá. Você é minha esposa e não pode me deixar — fui seco.

— Eu não pertenço a você! — disse entredentes. — Não sou um animalzinho com o qual você se diverte enquanto lhe é conveniente! — jogou na minha cara as palavras que um dia eu dissera. — Não sou sua propriedade! — rosnou e saiu em direção à porta.

Sem saída, me teletransportei para frente da porta.

— Deixe-me passar! — tentou passar por mim.

Eu a agarrei pelos ombros e ela começou a se debater.

— Largue-me! — gritou enquanto lutava para se soltar. — Eu vou embora!

— Chega, Aredhel! — gritei e a sacudi. — Eu já disse que você não vai me abandonar! Nunca! — apertei seus braços.

— Thor! — esbravejou. — Socorro! Thor! — começando a chorar.

Aredhel, às lágrimas, ainda tentava se desvencilhar de mim. Empurrava,socava meu peito e me chutava com todas as forças. Estava totalmente fora de si e decidida a lutar até o fim. Contudo, seus esforços seriam em vão. Eu era muito mais forte que ela.

Ainda naquela luta, eu a carreguei e a joguei sobre a cama. Em seguida me teletransportei para a porta, saí do quarto e a tranquei. Em poucos segundos pude ouvir Aredhel esmurrando a porta e, aos berros, chamando por Thor.

— Eu te odeio, Loki! Está ouvindo? Eu te odeio! — berrava aos soluços. Ouvi o barulho de coisas se quebrando.

Encostei-me na parede do lado de fora e deslizei até o chão. Pus as mãos sobre o rosto e suspirei derrotado. Minha vida tinha virado um pesadelo. Aredhel não confiava mais em mim, me odiava e queria me deixar. Senti as lágrimas descendo pelo meu rosto. Entreguei-me ao desespero.

Contudo não fiquei muito tempo sozinho. Os berros de Aredhel chamaram a atenção de quem andava por aquela ala do palácio. Uma serva e um guarda apareceram e ao me avistarem, deram meia volta. Tentei me recompor, não podiam ver seu soberano daquele jeito. Levantei-me e limpei as lágrimas. Logo,Thor surgiu no corredor.

— O que está acontecendo, Loki? Por que a pequena está gritando? — perguntou preocupado. — Você a trancou no quarto? — fechou a cara ao me encarar.

— Ela se lembrou de que causei a morte do noivo dela, mas não se lembra de que foi um acidente. Acho que ela só se lembra da confusão que o irmão dela fez quando descobriu — dei um suspiro triste. — Thor... Ela quer me deixar — murmurei desamparado.

Ele exalou o ar lentamente e passou a mão pela barba rala.

— Loki, você não pode mantê-la aqui contra a vontade dela — franziu o cenho. — Você tem que deixá-la ir se é o que ela quer.

— Nunca! Eu jamais vou permitir isso! — rebati impaciente.

— Loki... — começou.

— Não, Thor — interrompi-o. — Se ela for para a casa dela, a família vai encher sua cabeça com besteiras. A família toda está contra mim — trinquei os dentes. — Lembre-se do que aquele acéfalo do irmão dela fez! Por muito pouco ele não colocou em risco a vida de Narfi! Ela podia ter perdido o menino!

Thor levantou a mão e balançou a cabeça.

— Então me deixe falar com ela — ele crispou os lábios. — Eu tentarei explicar o que houve. Se ela não acreditar, posso acalmá-la pelo menos — ergueu os ombros.

Grato, eu prontamente concordei. Quando fui destrancar o quarto, notei que estava tudo em silêncio. Ela havia parado de esmurrar a porta e gritar. Ao abrir a porta vi alguns objetos quebrados e tinha um pouco de sangue no chão. Fiquei preocupado. Olhei ao redor e não a vi, mas notei que a porta da sacada estava aberta. Desesperei-me imaginando que Aredhel poderia ter tentado fazer alguma insensatez. Thor e eu nos dirigimos rapidamente para a sacada. Ao chegarmos lá, nos deparamos com Aredhel apaticamente sentada no chão. Com o rosto banhado de lágrimas, ela segurava o braço direito contra o peito e tinha um corte no pé esquerdo.

Assim que viu Thor, Aredhel se levantou em um átimo, correu na direção dele e encolheu-se em seus braços. Ela voltou a cair em prantos.

— E-eu s-só q-quero p-pegar m-meus f-filhos e-e i-ir p-para c-casa… — ela olhou para ele. — E-eu s-só q-quero i-ir p-para c-casa...

— Acalme-se, pequena — Thor afagou seus cabelos e ela soluçou alto.

— Aredhel, eu... — tentei me aproximar.

— F–fique... L-lon.. L-longe de mim... — falou Aredhel em meio a soluços, encolhendo-se mais ainda nos braços de Thor. — E-eu o-odeio v-você… — olhava-me com ódio.

Senti parte de mim morrer com aquelas palavras. Thor fez sinal com a cabeça para mim. Então, vencido, eu me retirei do quarto.

Fiquei do lado de fora esperando Thor conversar com ela. Eu estava desconsolado. Nesse tempo fiquei rememorando o que tinha ocorrido. Os gritos de ódio de Aredhel ainda ecoavam em meus pensamentos. Perguntei-me quando aquela tortura toda terminaria. Quando minha esposa se lembraria do quanto eu a amava?

Passado algum tempo Thor saiu.

— Então? — perguntei ansioso.

— Eu expliquei como tudo ocorreu, mas ela ainda está muito confusa com as lembranças — deu um suspiro em desalento. — Estava muito agitada e pediu que eu ficasse com ela até ela adormecer. Agora é bom cuidar do braço e do pé dela. Ela machucou o braço quebrado esmurrando a porta e cortou o pé em um caco de vidro — comentou preocupado.

— Eu cuidarei dela — afirmei rapidamente.

— Ela irá se lembrar, irmão. Não perca as esperanças — deu-me um tapinha no ombro.

— Obrigado, Thor — dei um suspiro cansado.

— Agora tenho que lhe dizer que não pode mantê-la trancada. Ela tem o direito de ir embora se assim quiser. Eu não permitirei que você a maltrate — alertou.

— Eu não a estou maltratando. Ela é minha esposa e eu sei o que é melhor para ela — retruquei.

— Sabe mesmo? Você ignora o que ela quer — acusou.

— Ela não sabe o que realmente quer. Mal sabe quem é! Está sem memória! Então, eu cuidarei dos interesses dela até que ela volte ao normal — rebati.

— Cuidado, Loki. Você pode acabar fazendo-a te odiar. Vou ficar de olho em vocês — avisou.

Assim que Thor foi embora, entrei no quarto. Aredhel, de fato, dormia, contudo o sono estava longe de ser tranquilo. A aflição estava estampada em seu rosto.Com os olhos inchados de chorar e segurando o braço direito, elaera o retrato do sofrimento. Eu a estava fazendo sofrer.

Sem opção e determinado em mantê-la comigo, me restava cuidar dela. Seus braços tinham alguns hematomas, então passei uma mistura de ervas neles. Imobilizei novamente seu braço direito e fiz um curativo em seu pé. Deitei-me ao seu lado na cama e, passando uma das mãos por seu rosto, permiti-me chorar silenciosamente minha dor.

Todas as minhas mentiras e planos ambiciosos tinham me conduzido ao inferno no qual eu estava vivendo naquele momento. Se eu não tivesse começado minha busca pelas Gems e não tivesse mentido tantas vezes para Aredhel, nada daquilo aconteceria. Eu não teria causado o acidente de Phillip e Peter, nem despertado a cobiça de Tivan e, por conseguinte, Aredhel não teria perdido a memória. Agora a mulher que eu amava me odiava e queria me abandonar. Eu havia errado tanto e isso tinha atingido tudo o que eu mais amava. Todos os meus erros caíram sobre Aredhel, a faziam sofrer, e temia que a levassem à loucura.

— Eu te prometo que vou aprender com meus erros... — sussurrei em meio às lágrimas, enquanto acariciava seu rosto.

Adormeci vencido pelo cansaço.

No dia seguinte acordei e Aredhel ainda dormia. Levantei-me e, mesmo com pena dela, a deixei trancada no quarto. Dei ordem aos servos para que levassem as refeições dela, mas que a mantivessem trancada. Ordenei aos guardas que vigiassem o quarto e que não permitissem a entrada de ninguém sem minha autorização.

No meio da manhã Thor, Sif, Fandral e Volstagg vieram me ver.

— Loki, você ainda está mantendo a pequena trancada? — sibilou Thor.

— Você não pode fazer isso com ela! — reclamou Sif.

— Isso é loucura, Loki! — protestou Fandral.

— A coitada acabará louca — atalhou Volstagg.

— Eu não lembro de ter pedido a opinião de nenhum de vocês a respeito de minha vida conjugal — cortei. — Vocês cuidem dos assuntos de vocês, que de Aredhel cuido eu. Ela ficará trancada pelo próprio bem — fui firme.

— Os guardas disseram que ela não pode receber visitas. Isso é crueldade! — rosnou Thor.

— Ela pode receber visitas, mas com a minha permissão — repliquei calmamente.

— Eu desejo vê-la — Thor deu um passo à frente. — Quero me certificar de que a está tratando bem.

— É claro que eu a estou tratando bem! — trinquei os dentes. — Mas se deseja vê-la eu permitirei — balancei a mão. — Entretanto, eu lhe aviso Thor. Não tente tirá-la de lá — alertei.

Depois do almoço, Thor foi ver Aredhel, mas ficou pouco tempo, vez que ela estava dormindo. Aproveitando que ela estava desacordada eu também fui vê-la. Encontrei-a ressonando tranquila. Sentei-me ao seu lado e afaguei seus cabelos carinhosamente. Notei que as bandejas do café e do almoço ainda estavam sob a mesa, porém intactas. Estranhando aquilo, procurei as servas que levaram a comida.

— Aredhel não comeu nada. Ela falou algo para você? — indaguei a uma delas.

— Não, majestade. Quando levamos a do café, a rainha ainda estava dormindo. E quando levamos a do almoço vossa majestade estava na sacada, mas não falou nada — explicou a serva.

— Quando forem levar a do jantar me avisem — ordenei.

Passei o resto do dia preocupado com Aredhel, mal conseguira me concentrar. As crianças perguntaram por ela, então tive que mentir dizendo que ela não estava se sentindo bem e que precisava descansar. Váli pareceu não acreditar, mas os dispensei.

À noite eu mesmo fui levar a bandeja com o jantar de Aredhel. Quando entrei no quarto ela estava sentada na cama, de costas para a porta. Coloquei a bandeja ao lado das outras duas, que continuavam intocadas.

— Leve de volta — disse com a voz fraca. — Eu não estou com fome e não gosto de desperdício de comida — permanecia de costas.

— Você precisa comer Aredhel... — murmurei.

Ela se virou sobressaltada e me fitou com os olhos cheios de lágrimas. Levantou-se e veio correndo aos tropeços em minha direção. Pensei que tentaria fugir novamente, mas se jogou no chão de joelhos e rompeu em prantos.

— Aredhel? — perguntei confuso, me abaixando ao seu lado.

— E-eu... E-eu lhe... Imploro… — juntou as mãos e fechou os olhos com força. — E-eu... E-eu não... N-não suporto mais... — soluçava.

— Aredhel, me perdoe — afaguei seus cabelos. — Eu não queria ter que fazer isso com você... — sussurrei com pesar.

— V-você diz que... Q-que me ama... Mas me mantém t-trancada... Nem meus filhos e-eu p-posso ver! Que tipo de amor é esse? — perguntou com lágrimas escorrendo pelo rosto.

Um nó se fez em minha garganta.

— Você não está bem, meu amor. Ainda não se lembra de muita coisa. O que eu faço é pelo seu bem — tentei argumentar.

Aredhel baixou a cabeça e soluçou. Silenciosamente, ela se levantou, voltou para a cama, deitou-se e encolheu-se.

— Coma seu jantar. Você passou o dia sem comer. Vai adoecer se continuar assim — falei preocupado.

— Então logo estarei livre... — murmurou sem me encarar.

— Aredhel, por favor. Não faça isso — implorei com a voz embargada.

Ela me ignorou e permaneceu deitada, chorando baixinho. Saí do quarto arrasado. Aredhel havia desistido de viver.

Eu fiquei desesperado. O tempo corria contra mim. Ela tinha que recuperar a memória antes que morresse de fome. Já não sabia mais o que fazer. Fiquei um longo tempo ponderando sobre possíveis soluções.

Pensei que talvez pudesse trazer James de volta, mas eu sabia que ele jamais concordaria com o que eu estava fazendo. Eu poderia usar a hipnose para influenciá-la comer e acalmá-la, mas não achava muito seguro fazer isso, pois poderia deixá-la mais confusa e perturbada do que já estava. Eu tinha treinado Aredhel para tentar resistir à hipnose, mas eu sabia que ela dificilmente conseguiria lutar contra isso. Entretanto, ela perceberia se alguém tivesse tentando fazer isso. Eu sempre respeitei a vontade dela, somente quando ela permitia eu tentei influenciá-la.

Horas depois, quando finalmente voltei para o quarto, Aredhel já estava dormindo e não tocara no jantar. Sem ter encontrado uma resolução para aquilo,deitei-me ao seu lado e adormeci desesperançoso.

Na manhã seguinte acordei sobressaltado, com Aredhel chorando e sacudindo-me.

— Lo... Lo... L-loki... E... E-eu... — soluçava.

— Aredhel, o que houve? — perguntei assustado, já me preparando para algo pior.

— Per... P-perdoe-me... L-loki... E-eu... N-não... Não lembrava... E-eu não... — gaguejava aos prantos.

— Aredhel, acalme-se — segurei suas mãos. — Respire fundo e tente se acalmar.

Ela fez o que pedi, mas terminou em um novo soluço.

— E-eu... E-eu.. Te... A-amo... — gaguejou.

— Você se lembrou? — indaguei esperançoso.

— E-eu... Lembrei! — arfou. — Phillip e Peter... F-foi u-um a-acidente... Eu... E-eu me lembrei do... Do... N-nosso primeiro beijo... Do nosso c-casamento... — falava exasperadamente.

O alívio tomou conta de mim.

— Aredhel, que bom! — abracei-a apertado. — Meu amor… — beijei-lhe o rosto molhado.

— Eu.. E-eu não devia ter dito aquelas coisas… — resfolegou. — E-eu não te o-odeio… N-não mesmo... — choramingava.

— Está tudo bem, meu amor — beijei-a na bochecha. — Eu sei que não era sua real intenção. O importante é que você lembrou o quanto eu te amo. O resto é passado… — fui sincero.

— M-minha vida ao seu lado nunca f-foi um inferno... — murmurou em meio às lágrimas, abraçada a mim.

— Aredhel, eu já disse que está tudo bem. Sua memória está voltando aos poucos e isso lhe deixou confusa — tentei confortá-la.

— Eu sempre f-fui muito feliz contigo — fungou. — E ainda sou. Tenha sempre a certeza disso — franziu o cenho e me encarou.

— Eu sei — sorri. — Eu também sou muito feliz ao seu lado.

— Eu n-nunca vou me p-perdoar por desejar te deixar... — disse baixinho.

— Esqueça isso... Você nunca vai me deixar... — murmurei.

Segurei seu rosto em minhas mãos e a beijei nos lábios. Ficamos abraçados por um longo tempo.

Passei o dia inteiro com Aredhel. Fiquei ao seu lado quase a venerando. Eu mal podia acreditar em sua mudança. Tudo o que havia acontecido nos últimos dias pareciam um sonho ruim do qual eu finalmente acordara.

Ela me obedecia em tudo, sem questionar. Eu fiz Aredhel fazer todas as refeições e fomos à sala de cura ver o braço dela. Ada informou que o braço dela ainda não havia cicatrizado por inteiro e que Aredhel havia insistido que tirassem os curativos antes do tempo. Com o treino e seus atos violentos o braço estava com uma fissura novamente.

Aredhel falou com os filhos, com Thor e os demais. Thor ficou aliviado ao vê-la bem. Passamos o dia conversando sobre o que ela lembrara. Eu estava radiante e podia respirar aliviado. Aredhel lembrara-se de que eu a amava.

Os dias passavam devagar e as coisas aos poucos foram encontrando o seu lugar e Aredhel e eu seguimos reconstruindo nossas vidas. Gradativamente ela recobrava a memória de outros momentos nossos e por conta disso ela passou a ficar muito deprimida. A cada coisa que Aredhel se lembrava, mais ela ficava triste e sentindo-se culpada por ter sido dura comigo.

Quase dois meses depois do ocorrido, Aredhel recuperara totalmente a sua memória e aos poucos eu recuperara a minha paz. Aredhel voltou a treinar e a praticar magia, mas não luta por conta do braço. Ela o machucara novamente em um treino de teletransporte, seu maior pesadelo.

Finalmente eu soube dos maiores detalhes do que ocorreu no dia em que sequestraram Váli. Aredhel e Váli contaram detalhadamente o que ocorrera naquele dia.

— Eu e as crianças fomos para a casa de Jane — contava Aredhel. — Lá ficamos algumas horas conversando com ela sobre Thor e a relação deles. O problema ainda era a indecisão de Jane de comer a maçã e de formarem uma família. Thor deseja se casar e ter filhos, mas Jane ainda está muito envolvida em seus projetos científicos. Thor afirmou que esperaria o tempo que fosse, desde que ela comesse a maçã. Mas ela ainda está muito indecisa — explicou.

— Entendo — fiz uma careta. — O tempo está contra ela. Ela já devia ter tomado essa decisão. Mas continue — pedi.

— Depois do almoço, a pedido de Váli, liguei para Stark e perguntei se podia fazer-lhe uma visita para ver seu laboratório — ela prosseguiu. — Então deixei Hela e Narfi dormindo na casa de Jane e fomos, com a água do lago, para a casa de Stark. Nós mal tínhamos chegado, quando do nada aconteceu uma explosão no laboratório. Do nada aquele homem surgiu… — meneou a cabeça. — Ele disse que levaria Váli — olhou para o menino — e que ficaria com ele até que você entregasse as Gems que possuía — deu um suspiro triste.

— O tio Tony tentou defender a mamãe, mas Tivan atacou os dois. Eu caí e tudo ficou escuro — disse Váli.

— Váli bateu a cabeça quando o Collector me atingiu com uma arma estranha e fomos arremessados ao chão. Eu segurei Váli nos braços como pude, mas o Collector quebrou meu braço e, em seguida, me atingiu na cabeça. Daí só acordei no hospital — Aredhel disse com amargura. — Depois do que você me disse no hospital eu me desesperei e resolvi ir me oferecer para ficar no lugar de Váli. O Collector aceitou a proposta — franziu o cenho.

— É, mas ele enganou a mamãe — atalhou, Váli. — Eu ouvi Tivan conversando com aquela mulher da pele cor-de-rosa e vi quando comentou que apagaria a memória de mamãe. Disse que ela ficaria presa e passaria a fazer parte de sua coleção. Eu fiquei revoltado! Eu me transformei em lobo e saí da cela, quebrando ela inteira! Ai ataquei primeiro a moça e depois fui para cima do Tivan! — contou meio empolgado.

— Qual era o interesse dele em manter sua mãe em sua coleção? — fiquei confuso.

— Ele disse que a mamãe era uma humana diferente, porque ela tinha comido a maçã de Iduna — revelou o menino.

— Claro… — murmurei pensativo. — Isso a torna diferente de qualquer outro humano.

— Eu estou orgulhosa do que você fez, meu filho — Aredhel deu um beijo na bochecha do menino. — Todos aqueles seres ganharam a liberdade e poderão recomeçar... Mesmo que seja do zero... — murmurou entristecida.

— Quanto ao que eu falei no hospital, sinto muito, meu amor. Eu não deveria ter dito aquelas coisas. E tão pouco ter começado a juntar as Gems. Se eu não tivesse feito isso, nada disso teria acontecido — fui sincero.

— Está tudo bem, meu amor. Esqueça isso. Agora é passado — ela disse afagando minha mão. — Mas o que aconteceu depois que Tony e Thor me tiraram de lá? — indagou.

Não contei detalhes da morte de Tivan para Aredhel. Disse apenas que Váli o tinha matado sob a forma do lobo. Ela ficou visivelmente brava comigo por ter deixado Váli matar uma pessoa ainda tão novo, mas não discutiu sobre o assunto. Depois de tudo o que aconteceu, Aredhel andava meio apática e passiva, não contrariava nenhuma decisão minha. Isso, estranhamente, começava a me incomodar, pois eu sabia que ela não estava bem. Não era o normal dela.

Durante esse período todo, Thor retornara a Midgard apenas uma vez. Cheguei a perguntar a Thor como tinha ficado a situação dele com Jane. Ele falou que Jane e ele precisavam pensar. Logo, esse tempo separados era necessário. Percebi que a visita de Aredhel pouco havia ajudado no impasse dos dois.

Aredhel e Thor se aproximaram muito, passavam horas conversando e aquilo começava a me inquietar. Eu ansiava que ele resolvesse logo seus problemas com Jane e retornasse para Midgard. Como minha esposa andava muito deprimida e eu descobrira o quanto ela se sentia solitária, resolvi controlar meu ciúme e não me deixar importunar pela situação.

Uma manhã eu estava à procura dela e a vi com Thor no jardim. Eles conversavam animadamente. Thor levantou-se e, nervosamente, ajoelhou na frente de Aredhel, abriu uma caixinha e exibiu um anel. Eu fiquei pasmo, aquilo era um pedido de casamento. Ela havia me contado como os midgardians faziam isso. Thor se levantou e Aredhel, dando pulinhos de alegria, deu um abraço nele. Thor deu um beijo nela e da posição que eu estava, não deu para saber exatamente onde ele a beijou. Ele se afastou rapidamente e seguiu em direção a Bifrost. Eu marchei furioso na direção dela.

— O que pensa que estava fazendo com Thor? — rosnei agarrando seu braço direito, fazendo-a virar para me encarar.

Ela deu um grito e se curvou. Eu olhei para minha mão e vi que tinha puxado o braço ainda imobilizado. Soltei-a e ela caiu de joelhos, segurando o braço contra o peito. Ao perceber o que eu tinha feito, fiquei desesperado. Eu a havia machucado Aredhel novamente.

Notas finais
Gostaram? Odiaram? Comentem. *NOTA: A música "Hunter" da Dido também serviu de inspiração para alguns trechos do capítulo.