A mulher do meu destino
54 I promise you I will learn from my mistakes
Notas iniciais

Independente da confusão que Aredhel estava passando, através de seu desabafo também pude perceber como ela se sentia a respeito de algumas situações. Pelo jeito já havia algum tempo que minha esposa sofria em silêncio, sentindo-se oprimida por meu ciúme e pela solidão que minha obsessão por ela impunha. Doía-me imaginar que ela escondia tanta dor e sofrimento. Perguntei-me por que escondia isso de mim. Será que tinha receio que se indispor comigo? Tinha medo de mim?
Senti-me culpado. De fato, eu mal a deixava se aproximar das pessoas. Direta ou indiretamente, eu sempre a afastava de todos, inclusive de sua família. A única pessoa que deixei ela se aproximar foi de James. E praticamente fui obrigado a isso pelas circunstâncias do momento.
Aredhel chorava copiosamente, de joelhos, no chão do quarto. Vê-la ali, confessando que era infeliz comigo, me deixou devastado. Silenciosamente me ajoelhei ao lado dela e a abracei. Ela ergueu a cabeça e me fitou por alguns instantes.
— Parece que a coroa que você colocou sobre minha cabeça está muito pesada para mim… — murmurou chorando. — Talvez seja melhor eu voltar para casa... — o olhar era de súplica. — Então, deixe-me ir... — pediu com a voz quase sumindo.
Senti uma pontada no peito. Minha mulher queria me deixar.
— Não posso deixar que você me abandone… — as palavras escaparam de meus lábios. — Não posso viver sem você… — confessei.
Vi-a baixar a cabeça, parecendo desolada.
— Sua memória ainda não voltou por completo — apressei-me em dizer. — Eu te amo… E acredite... Você era feliz comigo — argumentei tentando conter as lágrimas.
— Você já pensou que talvez eu nunca recupere totalmente a minha memória? — olhou-me nos olhos novamente.
Aquilo me atingiu feito um soco. Sabia que era uma possibilidade.
— Então confie em mim — pedi. — Deixe-me provar que o que digo é verdade… — apertei as mãos dela entre as minhas. — Que você era feliz e que posso continuar te fazendo feliz… Por favor, me dê uma chance — implorei a fitei nos olhos e deixando algumas lágrimas rolarem.
Aredhel ficou me olhando assustada por um tempo. Ela tocou as lágrimas no meu rosto com a ponta os dedos e franziu o cenho.
— V-você… V-você m-me pediu p-perdão… — gaguejava. — Disse que sempre confiou em mim… Que nunca se esqueceria do mal que tinha me feito... De ter desejado me matar... E que nunca esqueceria o quanto me ama... — tropeçava nas palavras. — Não é a primeira vez que te vejo chorando... — murmurou aturdida.
— Você se lembrou disso... — sorri maravilhado.
Ela balançou a cabeça afirmativamente, mas ainda parecia confusa.
— Confie em mim. Você se lembrará de tudo — beijei sua fronte.
Naquele mesmo dia escondi todas as garrafas com a água do lago. Antes de qualquer coisa, queria me certificar de que Aredhel não fugiria. Ela passou o resto do dia ainda desconfiada e não se lembrara de mais nada de bom que tivesse vivido ao meu lado. Eu a convenci a treinar, mas logo percebemos que ela pouco recordava. Conseguia apenas se defender e se esquivar, acreditei que isso acontecia por instinto. Seu corpo, por reflexo, se “lembrava” de como se defender. De magias ela não se recordou de nenhuma.
À noite, ela foi dormir cedo e eu fiquei ainda por algum tempo ocupado. Eu passava boa parte do dia com Aredhel, então somente pela noite eu cuidava dos demais assuntos de Asgard. Quando finalmente fui para o quarto, encontrei Aredhel tendo um sono agitado. Sentei-me ao lado dela e acariciei seus cabelos. Ela parecia angustiada e começou a choramingar. De repente ela acordou aos gritos.
— Não! Não! Não! — gritava aos prantos.
— Aredhel, o que houve? Acalme-se, meu amor — falei colocando a mão sobre seu ombro.
— Você causou o acidente de Phillip e Peter! — berrou comigo, afastando minha mão de forma brusca. — Você estava lá! — disse entredentes. — Will me mostrou o vídeo e as fotos! Eu lembro!
O que eu mais temia tinha acontecido.
— Aredhel... Foi um acidente... Deixe-me explicar... — pedi desesperado.
— Como assim foi um acidente? — rebateu incrédula. — Eu vi você lá! Não tente me enganar... Eu vi! — rosnou.
— Eu vou lhe explicar... — comecei a falar.
— Eu não confio em você! — interrompeu-me. — Você vive mentindo para mim! Por que não me contou sobre o acidente antes? — estreitou os olhos. — Will! — exaltou-se. — Eu preciso falar com o Will! — jogou o lençol para o lado, se levantou e foi em direção ao armário.
Meu maior medo tinha se tornado real. Aredhel lembrara que eu causara o acidente e visivelmente não me ouviria. Definitivamente não confiava mais em mim. Ela pegou a bolsa e vasculhou a procura da garrafa com a água. Eu apenas fiquei calado a observando.
— Onde está? Eu deixei aqui! — perguntava agitada, enquanto revirava o armário — Loki! Onde está a água? Eu preciso ver o Will! — sibilou para mim.
Percebi que precisava recuperar o controle da situação. De qualquer maneira...
— Você não vai sair de Asgard — falei calmamente. — Eu já lhe avisei.
— Você não pode me manter presa aqui! — retrucou lívida de raiva. — Eu quero voltar para minha casa! — gritou.
Eu mal a reconhecia. Ela tremia de raiva. Teria que ser firme com ela.
— Aredhel, aqui é sua casa — disse pausadamente. — Eu não posso deixar que você vá. Você é minha esposa e não pode me deixar — fui seco.
— Eu não pertenço a você! — disse entredentes. — Não sou um animalzinho com o qual você se diverte enquanto lhe é conveniente! — jogou na minha cara as palavras que um dia eu dissera. — Não sou sua propriedade! — rosnou e saiu em direção à porta.
Sem saída, me teletransportei para frente da porta.
— Deixe-me passar! — tentou passar por mim.
Eu a agarrei pelos ombros e ela começou a se debater.
— Largue-me! — gritou enquanto lutava para se soltar. — Eu vou embora!
— Chega, Aredhel! — gritei e a sacudi. — Eu já disse que você não vai me abandonar! Nunca! — apertei seus braços.
— Thor! — esbravejou. — Socorro! Thor! — começando a chorar.
Aredhel, às lágrimas, ainda tentava se desvencilhar de mim. Empurrava,socava meu peito e me chutava com todas as forças. Estava totalmente fora de si e decidida a lutar até o fim. Contudo, seus esforços seriam em vão. Eu era muito mais forte que ela.
Ainda naquela luta, eu a carreguei e a joguei sobre a cama. Em seguida me teletransportei para a porta, saí do quarto e a tranquei. Em poucos segundos pude ouvir Aredhel esmurrando a porta e, aos berros, chamando por Thor.
— Eu te odeio, Loki! Está ouvindo? Eu te odeio! — berrava aos soluços. Ouvi o barulho de coisas se quebrando.
Encostei-me na parede do lado de fora e deslizei até o chão. Pus as mãos sobre o rosto e suspirei derrotado. Minha vida tinha virado um pesadelo. Aredhel não confiava mais em mim, me odiava e queria me deixar. Senti as lágrimas descendo pelo meu rosto. Entreguei-me ao desespero.
Contudo não fiquei muito tempo sozinho. Os berros de Aredhel chamaram a atenção de quem andava por aquela ala do palácio. Uma serva e um guarda apareceram e ao me avistarem, deram meia volta. Tentei me recompor, não podiam ver seu soberano daquele jeito. Levantei-me e limpei as lágrimas. Logo,Thor surgiu no corredor.
— O que está acontecendo, Loki? Por que a pequena está gritando? — perguntou preocupado. — Você a trancou no quarto? — fechou a cara ao me encarar.
— Ela se lembrou de que causei a morte do noivo dela, mas não se lembra de que foi um acidente. Acho que ela só se lembra da confusão que o irmão dela fez quando descobriu — dei um suspiro triste. — Thor... Ela quer me deixar — murmurei desamparado.
Ele exalou o ar lentamente e passou a mão pela barba rala.
— Loki, você não pode mantê-la aqui contra a vontade dela — franziu o cenho. — Você tem que deixá-la ir se é o que ela quer.
— Nunca! Eu jamais vou permitir isso! — rebati impaciente.
— Loki... — começou.
— Não, Thor — interrompi-o. — Se ela for para a casa dela, a família vai encher sua cabeça com besteiras. A família toda está contra mim — trinquei os dentes. — Lembre-se do que aquele acéfalo do irmão dela fez! Por muito pouco ele não colocou em risco a vida de Narfi! Ela podia ter perdido o menino!
Thor levantou a mão e balançou a cabeça.
— Então me deixe falar com ela — ele crispou os lábios. — Eu tentarei explicar o que houve. Se ela não acreditar, posso acalmá-la pelo menos — ergueu os ombros.
Grato, eu prontamente concordei. Quando fui destrancar o quarto, notei que estava tudo em silêncio. Ela havia parado de esmurrar a porta e gritar. Ao abrir a porta vi alguns objetos quebrados e tinha um pouco de sangue no chão. Fiquei preocupado. Olhei ao redor e não a vi, mas notei que a porta da sacada estava aberta. Desesperei-me imaginando que Aredhel poderia ter tentado fazer alguma insensatez. Thor e eu nos dirigimos rapidamente para a sacada. Ao chegarmos lá, nos deparamos com Aredhel apaticamente sentada no chão. Com o rosto banhado de lágrimas, ela segurava o braço direito contra o peito e tinha um corte no pé esquerdo.
Assim que viu Thor, Aredhel se levantou em um átimo, correu na direção dele e encolheu-se em seus braços. Ela voltou a cair em prantos.
— E-eu s-só q-quero p-pegar m-meus f-filhos e-e i-ir p-para c-casa… — ela olhou para ele. — E-eu s-só q-quero i-ir p-para c-casa...
— Acalme-se, pequena — Thor afagou seus cabelos e ela soluçou alto.
— Aredhel, eu... — tentei me aproximar.
— F–fique... L-lon.. L-longe de mim... — falou Aredhel em meio a soluços, encolhendo-se mais ainda nos braços de Thor. — E-eu o-odeio v-você… — olhava-me com ódio.
Senti parte de mim morrer com aquelas palavras. Thor fez sinal com a cabeça para mim. Então, vencido, eu me retirei do quarto.
Fiquei do lado de fora esperando Thor conversar com ela. Eu estava desconsolado. Nesse tempo fiquei rememorando o que tinha ocorrido. Os gritos de ódio de Aredhel ainda ecoavam em meus pensamentos. Perguntei-me quando aquela tortura toda terminaria. Quando minha esposa se lembraria do quanto eu a amava?
Passado algum tempo Thor saiu.
— Então? — perguntei ansioso.
— Eu expliquei como tudo ocorreu, mas ela ainda está muito confusa com as lembranças — deu um suspiro em desalento. — Estava muito agitada e pediu que eu ficasse com ela até ela adormecer. Agora é bom cuidar do braço e do pé dela. Ela machucou o braço quebrado esmurrando a porta e cortou o pé em um caco de vidro — comentou preocupado.
— Eu cuidarei dela — afirmei rapidamente.
— Ela irá se lembrar, irmão. Não perca as esperanças — deu-me um tapinha no ombro.
— Obrigado, Thor — dei um suspiro cansado.
— Agora tenho que lhe dizer que não pode mantê-la trancada. Ela tem o direito de ir embora se assim quiser. Eu não permitirei que você a maltrate — alertou.
— Eu não a estou maltratando. Ela é minha esposa e eu sei o que é melhor para ela — retruquei.
— Sabe mesmo? Você ignora o que ela quer — acusou.
— Ela não sabe o que realmente quer. Mal sabe quem é! Está sem memória! Então, eu cuidarei dos interesses dela até que ela volte ao normal — rebati.
— Cuidado, Loki. Você pode acabar fazendo-a te odiar. Vou ficar de olho em vocês — avisou.
Assim que Thor foi embora, entrei no quarto. Aredhel, de fato, dormia, contudo o sono estava longe de ser tranquilo. A aflição estava estampada em seu rosto.Com os olhos inchados de chorar e segurando o braço direito, elaera o retrato do sofrimento. Eu a estava fazendo sofrer.
Sem opção e determinado em mantê-la comigo, me restava cuidar dela. Seus braços tinham alguns hematomas, então passei uma mistura de ervas neles. Imobilizei novamente seu braço direito e fiz um curativo em seu pé. Deitei-me ao seu lado na cama e, passando uma das mãos por seu rosto, permiti-me chorar silenciosamente minha dor.
Todas as minhas mentiras e planos ambiciosos tinham me conduzido ao inferno no qual eu estava vivendo naquele momento. Se eu não tivesse começado minha busca pelas Gems e não tivesse mentido tantas vezes para Aredhel, nada daquilo aconteceria. Eu não teria causado o acidente de Phillip e Peter, nem despertado a cobiça de Tivan e, por conseguinte, Aredhel não teria perdido a memória. Agora a mulher que eu amava me odiava e queria me abandonar. Eu havia errado tanto e isso tinha atingido tudo o que eu mais amava. Todos os meus erros caíram sobre Aredhel, a faziam sofrer, e temia que a levassem à loucura.
— Eu te prometo que vou aprender com meus erros... — sussurrei em meio às lágrimas, enquanto acariciava seu rosto.
Adormeci vencido pelo cansaço.
No dia seguinte acordei e Aredhel ainda dormia. Levantei-me e, mesmo com pena dela, a deixei trancada no quarto. Dei ordem aos servos para que levassem as refeições dela, mas que a mantivessem trancada. Ordenei aos guardas que vigiassem o quarto e que não permitissem a entrada de ninguém sem minha autorização.
No meio da manhã Thor, Sif, Fandral e Volstagg vieram me ver.
— Loki, você ainda está mantendo a pequena trancada? — sibilou Thor.
— Você não pode fazer isso com ela! — reclamou Sif.
— Isso é loucura, Loki! — protestou Fandral.
— A coitada acabará louca — atalhou Volstagg.
— Eu não lembro de ter pedido a opinião de nenhum de vocês a respeito de minha vida conjugal — cortei. — Vocês cuidem dos assuntos de vocês, que de Aredhel cuido eu. Ela ficará trancada pelo próprio bem — fui firme.
— Os guardas disseram que ela não pode receber visitas. Isso é crueldade! — rosnou Thor.
— Ela pode receber visitas, mas com a minha permissão — repliquei calmamente.
— Eu desejo vê-la — Thor deu um passo à frente. — Quero me certificar de que a está tratando bem.
— É claro que eu a estou tratando bem! — trinquei os dentes. — Mas se deseja vê-la eu permitirei — balancei a mão. — Entretanto, eu lhe aviso Thor. Não tente tirá-la de lá — alertei.
Depois do almoço, Thor foi ver Aredhel, mas ficou pouco tempo, vez que ela estava dormindo. Aproveitando que ela estava desacordada eu também fui vê-la. Encontrei-a ressonando tranquila. Sentei-me ao seu lado e afaguei seus cabelos carinhosamente. Notei que as bandejas do café e do almoço ainda estavam sob a mesa, porém intactas. Estranhando aquilo, procurei as servas que levaram a comida.
— Aredhel não comeu nada. Ela falou algo para você? — indaguei a uma delas.
— Não, majestade. Quando levamos a do café, a rainha ainda estava dormindo. E quando levamos a do almoço vossa majestade estava na sacada, mas não falou nada — explicou a serva.
— Quando forem levar a do jantar me avisem — ordenei.
Passei o resto do dia preocupado com Aredhel, mal conseguira me concentrar. As crianças perguntaram por ela, então tive que mentir dizendo que ela não estava se sentindo bem e que precisava descansar. Váli pareceu não acreditar, mas os dispensei.
À noite eu mesmo fui levar a bandeja com o jantar de Aredhel. Quando entrei no quarto ela estava sentada na cama, de costas para a porta. Coloquei a bandeja ao lado das outras duas, que continuavam intocadas.
— Leve de volta — disse com a voz fraca. — Eu não estou com fome e não gosto de desperdício de comida — permanecia de costas.
— Você precisa comer Aredhel... — murmurei.
Ela se virou sobressaltada e me fitou com os olhos cheios de lágrimas. Levantou-se e veio correndo aos tropeços em minha direção. Pensei que tentaria fugir novamente, mas se jogou no chão de joelhos e rompeu em prantos.
— Aredhel? — perguntei confuso, me abaixando ao seu lado.
— E-eu... E-eu lhe... Imploro… — juntou as mãos e fechou os olhos com força. — E-eu... E-eu não... N-não suporto mais... — soluçava.
— Aredhel, me perdoe — afaguei seus cabelos. — Eu não queria ter que fazer isso com você... — sussurrei com pesar.
— V-você diz que... Q-que me ama... Mas me mantém t-trancada... Nem meus filhos e-eu p-posso ver! Que tipo de amor é esse? — perguntou com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Um nó se fez em minha garganta.
— Você não está bem, meu amor. Ainda não se lembra de muita coisa. O que eu faço é pelo seu bem — tentei argumentar.
Aredhel baixou a cabeça e soluçou. Silenciosamente, ela se levantou, voltou para a cama, deitou-se e encolheu-se.
— Coma seu jantar. Você passou o dia sem comer. Vai adoecer se continuar assim — falei preocupado.
— Então logo estarei livre... — murmurou sem me encarar.
— Aredhel, por favor. Não faça isso — implorei com a voz embargada.
Ela me ignorou e permaneceu deitada, chorando baixinho. Saí do quarto arrasado. Aredhel havia desistido de viver.
Eu fiquei desesperado. O tempo corria contra mim. Ela tinha que recuperar a memória antes que morresse de fome. Já não sabia mais o que fazer. Fiquei um longo tempo ponderando sobre possíveis soluções.
Pensei que talvez pudesse trazer James de volta, mas eu sabia que ele jamais concordaria com o que eu estava fazendo. Eu poderia usar a hipnose para influenciá-la comer e acalmá-la, mas não achava muito seguro fazer isso, pois poderia deixá-la mais confusa e perturbada do que já estava. Eu tinha treinado Aredhel para tentar resistir à hipnose, mas eu sabia que ela dificilmente conseguiria lutar contra isso. Entretanto, ela perceberia se alguém tivesse tentando fazer isso. Eu sempre respeitei a vontade dela, somente quando ela permitia eu tentei influenciá-la.
Horas depois, quando finalmente voltei para o quarto, Aredhel já estava dormindo e não tocara no jantar. Sem ter encontrado uma resolução para aquilo,deitei-me ao seu lado e adormeci desesperançoso.
Na manhã seguinte acordei sobressaltado, com Aredhel chorando e sacudindo-me.
— Lo... Lo... L-loki... E... E-eu... — soluçava.
— Aredhel, o que houve? — perguntei assustado, já me preparando para algo pior.
— Per... P-perdoe-me... L-loki... E-eu... N-não... Não lembrava... E-eu não... — gaguejava aos prantos.
— Aredhel, acalme-se — segurei suas mãos. — Respire fundo e tente se acalmar.
Ela fez o que pedi, mas terminou em um novo soluço.
— E-eu... E-eu.. Te... A-amo... — gaguejou.
— Você se lembrou? — indaguei esperançoso.
— E-eu... Lembrei! — arfou. — Phillip e Peter... F-foi u-um a-acidente... Eu... E-eu me lembrei do... Do... N-nosso primeiro beijo... Do nosso c-casamento... — falava exasperadamente.
O alívio tomou conta de mim.
— Aredhel, que bom! — abracei-a apertado. — Meu amor… — beijei-lhe o rosto molhado.
— Eu.. E-eu não devia ter dito aquelas coisas… — resfolegou. — E-eu não te o-odeio… N-não mesmo... — choramingava.
— Está tudo bem, meu amor — beijei-a na bochecha. — Eu sei que não era sua real intenção. O importante é que você lembrou o quanto eu te amo. O resto é passado… — fui sincero.
— M-minha vida ao seu lado nunca f-foi um inferno... — murmurou em meio às lágrimas, abraçada a mim.
— Aredhel, eu já disse que está tudo bem. Sua memória está voltando aos poucos e isso lhe deixou confusa — tentei confortá-la.
— Eu sempre f-fui muito feliz contigo — fungou. — E ainda sou. Tenha sempre a certeza disso — franziu o cenho e me encarou.
— Eu sei — sorri. — Eu também sou muito feliz ao seu lado.
— Eu n-nunca vou me p-perdoar por desejar te deixar... — disse baixinho.
— Esqueça isso... Você nunca vai me deixar... — murmurei.
Segurei seu rosto em minhas mãos e a beijei nos lábios. Ficamos abraçados por um longo tempo.
Passei o dia inteiro com Aredhel. Fiquei ao seu lado quase a venerando. Eu mal podia acreditar em sua mudança. Tudo o que havia acontecido nos últimos dias pareciam um sonho ruim do qual eu finalmente acordara.
Ela me obedecia em tudo, sem questionar. Eu fiz Aredhel fazer todas as refeições e fomos à sala de cura ver o braço dela. Ada informou que o braço dela ainda não havia cicatrizado por inteiro e que Aredhel havia insistido que tirassem os curativos antes do tempo. Com o treino e seus atos violentos o braço estava com uma fissura novamente.
Aredhel falou com os filhos, com Thor e os demais. Thor ficou aliviado ao vê-la bem. Passamos o dia conversando sobre o que ela lembrara. Eu estava radiante e podia respirar aliviado. Aredhel lembrara-se de que eu a amava.
Os dias passavam devagar e as coisas aos poucos foram encontrando o seu lugar e Aredhel e eu seguimos reconstruindo nossas vidas. Gradativamente ela recobrava a memória de outros momentos nossos e por conta disso ela passou a ficar muito deprimida. A cada coisa que Aredhel se lembrava, mais ela ficava triste e sentindo-se culpada por ter sido dura comigo.
Quase dois meses depois do ocorrido, Aredhel recuperara totalmente a sua memória e aos poucos eu recuperara a minha paz. Aredhel voltou a treinar e a praticar magia, mas não luta por conta do braço. Ela o machucara novamente em um treino de teletransporte, seu maior pesadelo.
Finalmente eu soube dos maiores detalhes do que ocorreu no dia em que sequestraram Váli. Aredhel e Váli contaram detalhadamente o que ocorrera naquele dia.
— Eu e as crianças fomos para a casa de Jane — contava Aredhel. — Lá ficamos algumas horas conversando com ela sobre Thor e a relação deles. O problema ainda era a indecisão de Jane de comer a maçã e de formarem uma família. Thor deseja se casar e ter filhos, mas Jane ainda está muito envolvida em seus projetos científicos. Thor afirmou que esperaria o tempo que fosse, desde que ela comesse a maçã. Mas ela ainda está muito indecisa — explicou.
— Entendo — fiz uma careta. — O tempo está contra ela. Ela já devia ter tomado essa decisão. Mas continue — pedi.
— Depois do almoço, a pedido de Váli, liguei para Stark e perguntei se podia fazer-lhe uma visita para ver seu laboratório — ela prosseguiu. — Então deixei Hela e Narfi dormindo na casa de Jane e fomos, com a água do lago, para a casa de Stark. Nós mal tínhamos chegado, quando do nada aconteceu uma explosão no laboratório. Do nada aquele homem surgiu… — meneou a cabeça. — Ele disse que levaria Váli — olhou para o menino — e que ficaria com ele até que você entregasse as Gems que possuía — deu um suspiro triste.
— O tio Tony tentou defender a mamãe, mas Tivan atacou os dois. Eu caí e tudo ficou escuro — disse Váli.
— Váli bateu a cabeça quando o Collector me atingiu com uma arma estranha e fomos arremessados ao chão. Eu segurei Váli nos braços como pude, mas o Collector quebrou meu braço e, em seguida, me atingiu na cabeça. Daí só acordei no hospital — Aredhel disse com amargura. — Depois do que você me disse no hospital eu me desesperei e resolvi ir me oferecer para ficar no lugar de Váli. O Collector aceitou a proposta — franziu o cenho.
— É, mas ele enganou a mamãe — atalhou, Váli. — Eu ouvi Tivan conversando com aquela mulher da pele cor-de-rosa e vi quando comentou que apagaria a memória de mamãe. Disse que ela ficaria presa e passaria a fazer parte de sua coleção. Eu fiquei revoltado! Eu me transformei em lobo e saí da cela, quebrando ela inteira! Ai ataquei primeiro a moça e depois fui para cima do Tivan! — contou meio empolgado.
— Qual era o interesse dele em manter sua mãe em sua coleção? — fiquei confuso.
— Ele disse que a mamãe era uma humana diferente, porque ela tinha comido a maçã de Iduna — revelou o menino.
— Claro… — murmurei pensativo. — Isso a torna diferente de qualquer outro humano.
— Eu estou orgulhosa do que você fez, meu filho — Aredhel deu um beijo na bochecha do menino. — Todos aqueles seres ganharam a liberdade e poderão recomeçar... Mesmo que seja do zero... — murmurou entristecida.
— Quanto ao que eu falei no hospital, sinto muito, meu amor. Eu não deveria ter dito aquelas coisas. E tão pouco ter começado a juntar as Gems. Se eu não tivesse feito isso, nada disso teria acontecido — fui sincero.
— Está tudo bem, meu amor. Esqueça isso. Agora é passado — ela disse afagando minha mão. — Mas o que aconteceu depois que Tony e Thor me tiraram de lá? — indagou.
Não contei detalhes da morte de Tivan para Aredhel. Disse apenas que Váli o tinha matado sob a forma do lobo. Ela ficou visivelmente brava comigo por ter deixado Váli matar uma pessoa ainda tão novo, mas não discutiu sobre o assunto. Depois de tudo o que aconteceu, Aredhel andava meio apática e passiva, não contrariava nenhuma decisão minha. Isso, estranhamente, começava a me incomodar, pois eu sabia que ela não estava bem. Não era o normal dela.
Durante esse período todo, Thor retornara a Midgard apenas uma vez. Cheguei a perguntar a Thor como tinha ficado a situação dele com Jane. Ele falou que Jane e ele precisavam pensar. Logo, esse tempo separados era necessário. Percebi que a visita de Aredhel pouco havia ajudado no impasse dos dois.
Aredhel e Thor se aproximaram muito, passavam horas conversando e aquilo começava a me inquietar. Eu ansiava que ele resolvesse logo seus problemas com Jane e retornasse para Midgard. Como minha esposa andava muito deprimida e eu descobrira o quanto ela se sentia solitária, resolvi controlar meu ciúme e não me deixar importunar pela situação.
Uma manhã eu estava à procura dela e a vi com Thor no jardim. Eles conversavam animadamente. Thor levantou-se e, nervosamente, ajoelhou na frente de Aredhel, abriu uma caixinha e exibiu um anel. Eu fiquei pasmo, aquilo era um pedido de casamento. Ela havia me contado como os midgardians faziam isso. Thor se levantou e Aredhel, dando pulinhos de alegria, deu um abraço nele. Thor deu um beijo nela e da posição que eu estava, não deu para saber exatamente onde ele a beijou. Ele se afastou rapidamente e seguiu em direção a Bifrost. Eu marchei furioso na direção dela.
— O que pensa que estava fazendo com Thor? — rosnei agarrando seu braço direito, fazendo-a virar para me encarar.
Ela deu um grito e se curvou. Eu olhei para minha mão e vi que tinha puxado o braço ainda imobilizado. Soltei-a e ela caiu de joelhos, segurando o braço contra o peito. Ao perceber o que eu tinha feito, fiquei desesperado. Eu a havia machucado Aredhel novamente.
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