A mulher do meu destino
85 E tudo muda menos a saudade de você
Notas iniciais
Eu sempre soube que não era perfeito, principalmente na maneira de tratar Aredhel. Há muitas coisas que eu gostaria de não ter feito. Mas eu continuei tentando aprender com cada erro meu. Eu nunca quis fazer aquelas coisas com Aredhel, jamais desejei machucá-la. Sentia muito por tê-la magoado. E agora eram lembranças tristes com as quais eu iria ter que conviver todos os dias. Toda a dor que eu a havia feito passar, queria ter o poder de retirá-las por completo. Queria poder ter evitado cada lágrima que ela derramou.
Fiquei rememorando o que falei a ela e certas coisas não saíam da minha cabeça. Eu deveria ter dito mais uma coisa antes dela partir. Queria que ela soubesse que havia encontrado em mim uma razão para mudar quem eu costumava ser. Uma causa para começar de novo. Um motivo para mostrar um lado que nem eu mesmo conhecia. Uma razão para tudo o que eu fazia. E a razão era ela.
O sol brilhava novamente e fazia reluzir a cor dourada dos corredores do palácio. Os servos caminhavam silenciosamente, compenetrados em seus afazeres, mas todos tinham a mesma expressão no rosto, a de pesar.
Eu vivia em um reino onde era rei, mas eu não tinha mais a minha rainha. Tinha ainda muitos anos de minha vida para dedicar a ela, mas era um rei que se sentia morto por não poder encontrá-la novamente. Tudo o que restava era a história de dois amantes, que tinham construído o próprio céu e vivido em alguns infernos. Um homem e uma mulher que se amaram intensamente, como se sua existência dependesse apenas um do outro. Corações em brasa, que dariam até a alma para permanecerem unidos.
“Não me deixe” eram as palavras de minha alma, na súplica de nossa breve despedida. Eu implorei, pedi, lutei por sua vida, mas tudo foi em vão. As palavras se perderam no ar, como os ecos de meus gritos naquela manhã. Mais uma vez meus poderes não foram o suficiente para mantê-la viva. O torpor se apoderou de mim e eu fiquei sem ser mais nada. Aredhel era minha razão de viver. A esperança havia morrido precocemente e saudade chegado cedo demais. Parecia que meu sofrimento seria eterno. Eu faria qualquer coisa para tê-la comigo novamente.
O sol poderia ter nascido para todos, mas não havia mais novas chances, não para minha Aredhel. Hela continuava dormindo e o tempo de trazer minha esposa de volta havia se esgotado. Tudo era dor.
Já havia passado um mês desde o funeral de Aredhel. Tudo tinha mudado, menos a saudade que eu sentia dela. Hela acordara uma semana depois do ocorrido e quando soube o que houve, passou outra semana sem falar. Meus filhos sabiam lidar com a perda tão bem quanto eu. Se tornaram taciturnos, agressivos e afastaram-se de mim. Narfi vivia criando incêndios e Váli se tornou recluso. Nem Sigrid e Siegfried conseguiam animá-los. Não podia negar, os meninos eram uma cópia fiel minha, de Aredhel só tinham a compaixão. Hela passou a seguir James feito uma sombra, parecia que ele era a única pessoa com quem ela ainda dialogava. Confesso que mal conseguia olhar para minha menina. Era muito doloroso ver em suas feições a mulher que eu amava. A cada dia ela se parecia mais com Aredhel.
Minha Aredhel costumava dizer que temos duas vidas. A primeira vivemos para nós, a segunda para nossos filhos. Eu estava falhando na segunda vida.
Diferente de meus filhos, Igor passou a ficar grudado a mim. Ele me acompanhava de um lado para outro sem cansar. Apesar de não estar acostumado a esse tipo de comportamento, a companhia do menino não me incomodava. Ele geralmente permanecia quieto a me observar. Vez ou outra eu lhe falava sobre o que lia ou o que estava fazendo e Igor ouvia atentamente, sem nada declarar. Eu sentia muita pena do garoto.
Sif havia me procurado antes do funeral para pedir perdão pelo que dissera a Aredhel. Eu quase avancei nela. Só não a mandei embora de Asgard, porque Thor saiu em sua defesa. Desde esse dia não dirigi mais a palavra a ela e Thor a mantinha longe de minhas vistas. Eu jamais a perdoaria.
De maneira geral, eu não tinha ânimo para nada e vivia irritado. Deleguei várias funções para Fandral e outras até deixei nas mãos de Thor. Cheguei a incumbir James de algumas atividades. Muitas vezes ficava apenas perdido, ouvindo a caixinha de música e olhando para aliança que um dia pertencera a Aredhel. Eram umas das poucas lembranças que tinha dela. Eu passara a carregar o anel feito um amuleto, pendurado em meu pescoço e as vezes passava horas ouvindo “Lago dos Cisnes”. Mudei de quarto e mantive o nosso fechado e isolado. Não retornei nenhuma vez até lá, tinha medo das lembranças me assombrarem.
Voltei a passar horas na biblioteca, fiquei obcecado com a ideia de achar uma forma de trazer Aredhel de volta. Eu não desistiria tão facilmente. Muitas vezes James tentava inutilmente me tirar de lá.
– Loki, você tem que aceitar que não pode desfazer tudo. Que existem coisas que estão além do nosso alcance. E que a morte é uma delas! — ralhou James.
– Eu já disse para me deixar em paz. — falei impaciente.
– Por Deus.. Você nem liga mais para o reino. — lembrou – Nem mesmo dá atenção aos seus filhos. Eles estão abandonados! Precisam de seu apoio! Você está sendo negligente e irresponsável! Fraco! — vociferou.
– Basta! — gritei — Quem você pensa que é para falar assim comigo? — rosnei agarrando ele pelo traje – Aredhel não está mais aqui para defendê-lo! Não brinque com a sua sorte! — sibilei.
– Eu sou seu amigo! Pode fingir não perceber ou ligar, mas eu me importo com você! — rebateu – Sei que Aredhel jamais iria querer vê-lo assim! Muito menos ver seus filhos largados! — deu um longo suspiro e passou as mãos pelos cabelos exasperadamente – Eu faço o que posso, mas não posso te substituir. Você é o pai deles, não eu! — rosnou.
Larguei James e bufei com raiva.
– Eles têm que ser pacientes. Esse sofrimento logo terminará. Eu sei que trarei Aredhel de volta. — falei com convicção.
– Você está totalmente louco.. — James olhava-me perplexo – Como vai trazê-la? Sabe que isso é impossível! — olhou-me com pena.
– Não me olhe assim! — empurrei-o — Você não sabe de nada! Não sabe do que eu seria capaz de fazer para trazê-la de volta! — comecei a gritar — Eu iria até Helheim atrás dela! Daria minha alma se fosse preciso! — desabafei e parei pasmo com as minha próprias palavras – É isso! — exclamei abrindo um largo sorriso.
– O que houve? — James perguntou assustado – O que você esta tramando? — indagou desconfiado.
– James! Como eu não pensei nisso antes? — eu o sacudi pelos ombros — Pelos deuses! A resposta para essa busca toda, estava na minha cara e não vi! — falava sozinho extasiado com a minha descoberta.
– Você só pode estar delirando.. Do que é que você está falando? — ele perguntou franzindo o cenho preocupado.
– Eu já sei como vou trazer Aredhel de volta! — revelei – Em breve a terei de volta em meus braços! — sorri feliz.
Contei com detalhes o meu plano para James. Afinal, se tratava de um plano suicida e precisaria da ajuda dele. Ele ouviu tudo calado inicialmente, mas chegando no final da narrativa, ele se alterou.
– Não! — James gritou – Não! Não mesmo! Eu não vou lhe ajudar nessa loucura! — rosnou.
– James.. Você sabe que eu farei com ou sem sua ajuda, mas se você me auxiliar será bem mais fácil. — fui sincero.
– Não, Loki.. — ele murmurou.
– Não faça por mim, faça por Aredhel.. Tudo isso será para trazê-la de volta. Você também não quer isso? — indaguei.
– Não seja injusto. Você está tentando me manipular.. — James bufou irritado – Eu não posso.. Não conseguiria.. — passou a mão pelo rosto – E se eu não souber o que fazer ou como agir? Além disso, quem garante que isso vai dar certo? — ele rebateu visivelmente perturbado.
– Eu sei que você vai conseguir. — tentei amenizar – Vai dar certo. Saberá o que fazer, é só seguir o plano. Vai dar tudo certo. Meu plano é perfeito. — sorri.
– Está bem.. — ele deu um suspiro – Meu Deus.. Eu devo estar tão louco quanto você para fazer isso.. — murmurou vencido — Mas eu faço qualquer coisa por ela. — por fim concordou.
Dei um largo sorriso.
– Minha Aredhel em breve estará conosco de novo. — disse sorridente.
James e eu levamos alguns dias preparando tudo, afinal havia algumas coisas a serem executadas para não ocasionar certos problemas. Dessa vez nada poderia dar errado em meu plano. Depois de muita angústia e ansiedade, finalmente chegara o tão esperado momento.
– Pronto. — inspirei e exalei o ar lentamente – Seja rápido e não erre. — falei seriamente.
– Que Deus me perdoe.. — disse James fitando as próprias mãos .
James correu em minha direção, ergueu o braço e cravou a adaga em meu peito. Senti uma dor imensa, mas contive o grito. Ele me olhava com uma expressão que era um misto de arrependimento e desespero.
– Loki! — gritou — Eu sinto muito.. Eu não queria.. — James começou a chorar.
Agarrei-me ao traje dele e comecei a sentir estar perdendo as forças. Aos poucos minha vista foi escurecendo e, por fim, tudo ficou escuro e silencioso.
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