A mulher do meu destino
86 A pérola mais bela irei buscar, sem recear as iras do senhor..
Notas iniciais
Acordei deitado em um chão rochoso. Abri os olhos e viu um local escuro envolto em uma espécie de névoa densa. Apesar do golpe doloroso que levei de James, eu não sentia dor alguma, logo deduzi que realmente estava morto. Levantei-me e olhei ao redor, estava a caminho de Helheim, definitivamente.
Segui por uma pequena estrada e logo aviste o que pensei ser o rio Gjöll, divisor do mundo dos mortos. Continuei caminhando até avistar uma ponte de piso dourado, era a ponte de Gjöll. Ao me aproximar da ponte, rapidamente avistei Modgud, uma Jotun, a guardiã da ponte.
– Quem vem lá? — gritou a Modgud.
– Loki, filho de Odin, rei de Asgard recém-morto. — respondi prontamente.
– Hum.. — pareceu ponderar – Filho de Odin? — riu – Sei muito bem de quem você realmente é filho, Loki, filho de Laufey. — disse com desdém.
– Tanto faz. — rebati impaciente — O que importava dizer eu lhe disse, agora deixe-me passar. — disse rispidamente.
– Hunf. — bufou – Pode passar, majestade. Seja bem-vindo a Helheim. — foi sarcástica e fez uma reverência exagerada – Siga a estrada, descendo em direção ao norte. — explicou.
Eu já estava na metade da ponte quando resolvi perguntar por Aredhel. Ela era humana e havia morrido em batalha, mas não era uma guerreira propriamente dita. Diziam que quem morria de velhice ou doença iria para Helheim e quem morria em batalha iria para Valhala. Então eu não tinha certeza para qual local ela teria sido mandada, se para Helheim ou Valhala. Entretanto eu fora assassinado e aceito em Helheim, olhando por este âmbito o que eu sabia anteriormente não parecia ter muita lógica.
– Saberia me dizer se uma mulher chamada Aredhel, esposa de Loki, passou por aqui cerca de um mês atrás? — indaguei à Jotun.
Modgud olhou inexpressivamente por um longo tempo.
– Eu lhe disse o que importava dizer, contente-se em atravessar a ponte, rei de Asgard. — deu um sorriso de escárnio.
Tranquei os dentes com raiva e atravessei a ponte de uma vez. Segui o caminho indicado e, após algum tempo de caminhada, finalmente cruzei os portões de entrada de Helheim. Ao longe via algumas pessoas vagando por aquele local, tudo era estranho e novo para mim. Já havia lido muito sobre o lugar, mas era a primeira vez que de fato eu estava lá. Perguntava-me se Aredhel estaria mesmo em Helheim ou se teria que tentar achá-la em Valhala. Eu definitivamente estava perdido e confuso.
– E agora? Como vou encontrar Aredhel neste local? – resmunguei comigo mesmo.
Por um momento ponderei que, antes mesmo de encontrar Aredhel, eu deveria primeiro encontrar aquela que governa o reino dos mortos.
– Como farei para falar com ela? Onde ela ficaria? — pensei em voz alta olhando ao redor.
– Eu estou em todos os lugares onde estiver uma alma.. – disse uma voz atrás de mim – Sou eu que sempre encontro vocês. – sussurrou maliciosamente ao meu ouvido.
Virei-me e deparei-me com uma figura visivelmente feminina, cujo rosto estava escondido por um capuz. Era a Mistress Death, ou como também é conhecida, Morte. Ela estendeu a mão com dedos longos e finos, tão alvos, que pareciam ser da cor de leite. Aproximou o dedo de mim e tocou de leve meu rosto. Seu toque era espantosamente gélido.
– Hum.. Loki.. — ela falou com uma voz tão bela que pareciam sinos tilintando — Você queria me ver, não é Loki? – indagou suavemente.
– Er.. Sim.. — respondi espantado.
– Então parece que dessa vez você não escapou de minhas garras. — disse alegremente – Há tanto tempo que rondeio você, mas no final sempre acabava escapando. Acho que foi muito irônico morrer pelas mãos de alguém que tinha a sua cara. — riu.
Olhei para ela espantado. Temi que ela pudesse ler os meus pensamentos. Se isso fosse verdade, meu plano poderia dar errado.
– Tolinho.. — voltou a tocar em meu rosto – Eu sempre vejo o fim de todos. E também estou por perto quando vocês se aproximam de seus momentos finais. — explicou – Quanto mais risco vocês correm mais presente estou nesses eventos. — disse despreocupadamente.
Ela se afastou de mim e parecia me analisar. Eu estava angustiado por não poder ver o seu rosto.
– Sim.. Você vai ficar aí calado apenas me olhando? — questionou de repente.
– Ah.. Não.. — murmurei.
– Então diga logo o que quer. Eu não tenho tempo para ficar atendendo a cada pensamento das almas que aqui chegam. – disse seriamente – Tempo.. – deu uma longa risada – Na verdade tenho todo o tempo do mundo.. Só não tenho a disposição.. – riu – Só vim lhe atender em nome dos velhos tempos.. Afinal, você contribuiu, e muito, durante esses seus anos de vida.. Foram tantas almas que você me encaminhou.. – falou em tom alegre.
– Tenho uma proposta para lhe fazer. – falei rapidamente, enquanto me aproximava dela e tentava ver seu rosto.
– Proposta? – ela riu – E o que seria? Deixe-me adivinhar.. — levou a mão até o capuz e fingiu estar pensando — Voltar a vida? — perguntou-me.
Fiz menção de responder, mas ela rapidamente me interrompeu.
– Acho engraçado que todos os que chegam aqui sempre tentam barganhar pela própria vida. Isso é tão clichê. — disse com desdém – Não.. É pior.. É patético, enfadonho! — sibilou — Será que vocês não conseguem entender que tudo tem um fim? Que não se pode ser eterno? Ah.. Se vocês tivessem ideia do quanto é inútil insistir nessa busca de vocês incessante pela eternidade material. – dizia gesticulando com as mãos pálidas – Vocês já são eternos.. Aqui, pelo menos.. – riu.
– Não vim barganhar por mim, mas sim por outra pessoa. – disse de uma vez e a vi parar de rir.
– Você pedir por outra pessoa? — indagou incrédula – Logo você? O egoísmo em pessoa? O frio e calculista, Loki? Eu estou impressionada, Loki.. – parecia realmente surpresa – Isso é algum truque barato? Seria mais uma artimanha do rei da mentira? Não.. Você não teria tamanha audácia.. Você, sendo esperto como é, deve saber que ninguém pode me enganar.. — alertou seriamente – Todo ser vivo sabe que a única coisa que nunca poderão enganar é a morte. — lembrou severamente – Você sabe disso, não é? — foi incisiva.
Anui silenciosamente e ela voltou a se aproximar de mim. Senti como se ela pudesse ver através de mim. Foi uma sensação realmente incômoda e aterradora.
– E quem seria essa pessoa? Seu pai, Odin? – perguntou retoricamente – Não.. Sei que vocês não se davam bem.. – deu-me as costas – Ah.. Seria Frigga? – virou-se novamente para me encarar – Deseja ver a sua mãe, Loki?
Deu uma risada alta e, com um movimento de suas mãos, Frigga repentinamente apareceu diante de mim. Ela parecia confusa olhou para os lados e depois de Mistress para mim.
– Loki.. Meu filho.. – disse Frigga surpresa e ela correu para me abraçar.
– Mãe? – murmurei perplexo, enquanto a abraçava de volta.
– Meu filho.. Você por aqui? – disse com tristeza – Como isso foi acontecer? — lamentou.
Dei um abraço silenciosamente demorado em Frigga. Era tão bom poder vê-la novamente, sentia tanta falta dela. Jamais esqueci de nossa última conversa e da culpa que sentia em relação à morte dela.
– Senti tanto a sua falta, mãe. — confessei – Peço que me perdoe.. Não deveria ter falado com você daquela forma, em nossa última conversa. E.. — dei um suspiro triste – Jamais deveria ter indicado o caminho àquele monstro.. Eu fui o grande responsável por sua morte. — lamentei.
– Não, meu filho.. Esqueça isso. — ela me fitou docemente — Minha morte foi algo inevitável, eu diria que até necessária. Não se sinta culpado. — tentava me consolar acariciando meu rosto.
– Eu te amo tanto.. — murmurei e dei um beijo em sua mão.
– O que foi que houve? Por que veio parar aqui? Como estão meus netos? – Frigga começou a perguntar.
Olhei longamente para ela bastante surpreso.
– Como você sabe sobre meus filhos? – perguntei confuso.
– Er.. Sua esposa me contou sobre eles e tudo o que vocês já passaram nesses últimos anos. – ela disse com um semblante triste.
– Você viu Aredhel? – questionei ansioso.
– Sim.. Aredhel.. – Frigga começou a falar.
– Que tocante! – interrompeu a Morte – Mãe e filho matando a saudade.. “Matando”.. – riu de sua piada sem graça – Bem.. Então é por sua mãe que veio barganhar, ou será que seria por sua amada esposa? – mais uma vez moveu as mãos e Aredhel apareceu diante de nós.
Aredhel olhou em minha direção, franziu o cenho e vi seus olhos se encherem de lágrimas. Ela correu em minha direção e abraçou-me apertado.
– Meu amor.. – ela murmurou começando a chorar – O que faz aqui? O que houve? Nossos meninos estão bem? – indagava aflita.
– Seu marido, Aredhel, foi morto por aquele amiguinho de vocês.. James.. – a Morte riu alto – Só não entendi bem o motivo.. Eu apenas assisto o momento da morte, infelizmente.. – disse meio desconfiada.
– Jimmy? – chocou-se Aredhel – Mas.. Por.. Por quê? Ele.. Ele jamais seria.. Seria capaz.. Ele só.. Só pode estar sendo controlado.. Isso é.. Impossível... – gaguejou.
– Então, Loki? — a Morte nos interrompeu novamente — Afinal por quem você veio barganhar? Por sua mãe ou por sua esposa? — indagou maldosamente.
Olhei de Aredhel para Frigga e senti-me despedaçar por dentro. Faria tudo para ter a minha mãe ao meu lado novamente, mas não podia abrir mão de Aredhel. A Morte tinha feito aquilo de propósito. Ela me faria escolher entre Aredhel e Frigga.
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