A mulher do meu destino

13 Don't you see that what you need is standing in front of you?


Notas iniciais
*Don't you see that what you need is standing in front of you? = Você não vê que o que você precisa está bem na sua frente? - trecho da música "Something That I Want" do filme Enrolados da Disney. Obrigada pelos comentários! Conforme eu havia prometido, o capítulo de hoje é muito fofo!! Eu caprichei por vocês! Esse e o capítulo de amanhã são meus prediletos até agora! Espero que gostem!

Passado algumas semanas, em uma manhã chuvosa, eu estava procurando por Aredhel. Precisava saber se ela tinha tido sucesso pu feito algum avanço em mais um dia de buscas na biblioteca. Havia pouco movimento no palácio neste dia, então eu não estava usando meu “disfarce” de Odin. Procurei Aredhel por todo o palácio, inclusive na biblioteca, mas não a encontrei. Pensei que se não estivesse chovendo ela deveria estar na área externa de Valhala. Passado mais da metade do dia, eu ainda não a havia visto, sendo assim, resolvi arriscar o jardim. Chegando lá encontrei Aredhel brincando na chuva. Ela estava cantarolando uma música enquanto dançava.

Fiquei paralisado.

Esta foi a primeira vez que realmente notei Aredhel fisicamente. Ela estava com um vestido verde escuro e estava descalça. A roupa molhada deixava evidentes as curvas de seu corpo. Seu cabelo escuro e solto alcançava um pouco além da metade de suas costas. Ele e seus olhos escuros contrastavam com a sua pele clara. Eu tinha que ser sincero. Aredhel era muito bonita.

Fiquei por um tempo observando-a até que ela notou minha presença. Parou de cantar, sorriu e acenou para mim.

— O que está fazendo? — perguntei me aproximando, mas evitando sair da área coberta.

— Nada de especial... — deu de ombros. — Estou aproveitando esse lindo dia. Eu gosto da chuva. Somos amigas — sorriu e rodopiou com os braços abertos.

— Está se arriscando a ficar doente — alertei. — Vocês midgardians têm a saúde muito frágil.

— Nada... — meneou a cabeça negativamente. — Eu sempre gostei de tomar banho de chuva. Nunca adoeci por isso. Eu não tenho medo.

— Você parece não ter medo de nada... — murmurei.

Fiquei pensando por um momento em minhas próprias palavras. Notei que Aredhel também nunca demonstrou me temer, mesmo sabendo de quase tudo sobre mim.

— Aredhel... — fiz uma pausa e dei um pigarro tentando limpar a garganta. — Você nunca temeu o fato de eu ser um Jotun? Depois de tudo o que lhe contei sobre eles e de saber sobre minha origem, nunca me temeu? Nunca achou que eu seria... — comecei a indagar.

— Que você seria um monstro? — completou o que eu ensaiava inquirir.

Senti-me congelar com as palavras dela, mas anui silenciosamente, movendo minha cabeça. Ela se aproximou de mim, saindo da chuva e me encarou com um olhar calmo. Pude notar que a roupa estava semitransparente e revelava mais detalhes dela. Senti meu rosto corar e desviei o olhar de seu corpo.

— Não mesmo... — ela abriu um sorriso tímido. — Depois de todo esse tempo convivendo comigo na prisão, acredita que eu realmente julgaria você por sua origem? — fez uma careta, visivelmente indignada.

— Bom... Eu... — enrolei-me.

— Loki — interrompeu-me —, para mim, o que define as pessoas não são suas origens ou suas aparências, mas sim os seus atos — arqueou as sobrancelhas.

— Mas o que fiz em Jotunheim e em Midgard não foi monstruoso? — lembrei-a.

— Foi... — mordeu os lábios e franziu o cenho, exibindo um semblante triste. — Mas há sempre a chance de poder mudar. Você não era mal... Ou nem tanto assim... — riu — Era apenas mal compreendido e acabou descontando suas magoas nas pessoas erradas... Eu sempre tive a esperança de que voltasse a ser o que era — sorriu de leve.

Vi que Aredhel tinha a mesma esperança que Thor já havia perdido, a de que eu voltasse a ser o mesmo de antes. Ela ainda confiava em mim. Isso era surpreendente.

Ela ficou pensativa por um tempo e então me olhou novamente.

— Por que você tentou destruir os Jotuns? — perguntou repentinamente. — Não foi só para impressionar Odin, não é? Afinal, você já tinha matado Laufey pelo que ele fez a você e “salvo” Odin. Você queria apagar qualquer ligação sua com suas origens ou queria se vingar deles por achar eles tão cruéis quanto Laufey? Era uma vingança por ter sido abandonado ou queria provar que nunca foi um Jotun? — franziu a testa e fitou-me nos olhos.

As perguntas dela me pegaram de surpresa. Ficou bem claro aonde ela queria chegar. Ela sabia a verdade.

— Pela maneira que você perguntou, creio que você sabe a resposta — respondi meio irritado.

— Você não precisava ter agido assim — balançou a cabeça. — Só porque todos acham que eles são monstros, você não precisava agir como um. Só porque foi magoado, você não tinha o direito de ser cruel com os outros. No final você estava agindo como eles agiram com você — sibilou.

— Agora então eu sou um monstro e você vai me dar lição de moral? — rosnei de volta.

— Eu não disse que era um, mas que agiu como um. E não é lição de moral — disse com veemência. — Eu sei que você estava ferido e que ainda está magoado. Mas sei que você não é mal, tenho certeza — foi firme.

— É? E como tem certeza? — rebati.

— Não sei... — mordeu os lábios — Apenas sinto isso... Eu confio em você... — afirmou.

— Talvez não devesse... — murmurei. — Talvez esteja errada e isso seja perigoso para você.

Ela entreabriu os lábios, mas nada disse. Virou e voltou para a chuva. Ficou fitando o céu por um tempo, voltou a me olhar e deu-me um meio sorriso.

— Eu prefiro arriscar — falou despreocupadamente.

Ela voltou a se aproximar de mim, abriu um largo sorriso e estendeu a mão fazendo uma reverência.

— Você me daria a honra de dançar comigo? — convidou.

Aquilo parecia um ato infantil e sem nexo, mas peguei em sua mão gelada e dei um sorriso. Ela me puxou para a chuva.

— Como vocês dançam aqui? — indagou de repente.

— Bom, eu não gosto muito de festas, mas seria mais ou menos assim...

Peguei uma de suas mãos, beijei de leve e a ergui. Passei a outra mão por sua cintura a puxando para mais perto. Tive uma sensação estranha ao ficar tão próximo a ela, sentindo o seu calor. Nunca me deixei impressionar pela proximidade de outras mulheres e tampouco por suas aparências. Meus interesses sempre iam além de um desejo físico. Sempre fui muito controlado e calculista. O poder, a inteligência e o que poderia conseguir através delas eram o que me atiçavam. Aredhel era apenas uma humana. Era inteligente e perspicaz, mas... Era comum, efêmera e frágil. Não tinha nada a me oferecer. Não fazia sentido. Estava me perguntando o porquê daquela sensação quando Aredhel interrompeu meus devaneios.

— Vamos dançar sem música? — ela inclinou a cabeça e riu de leve.

— Bom. Se quiser eu canto uma de nossas canções de Asgard — respondi meio sem jeito.

— Ótimo! Sou toda ouvidos — sorriu abertamente. — Só aviso que não sei dançar muito bem. Então cuidado com o pé — riu.

Comecei a cantar uma das canções que Frigga cantava para mim quando pequeno e nos pusemos a dançar. Aredhel me fitava com um sorriso doce no rosto. Pela primeira vez, em muito tempo, eu estava me divertindo. Sentia-me feliz. Era quase estranho se sentir assim depois de tanto tempo.

Quando terminei a canção e afastei-me de Aredhel, ela fez uma nova reverência.

— Você canta e dança muito bem — bateu palmas.

— Você não é tão ruim quanto havia dito — retruquei.

Aredhel deu uma gargalhada e abraçou o próprio corpo. Notei que ela tremia.

— Acho que chega de ficar na chuva. Você está tremendo de frio e notei que sua mão estava gelada — argumentei.

— O frio nunca me incomodou — sacudiu os ombros. — Eu sempre gostei do frio — disse em meio a um sorriso.

— Você é sempre tão teimosa? — questionei-a.

— Hum... — fez uma pausa teatral. — Só... Sempre! — respondeu rindo. – Mas você está certo... Acho que por hoje chega — ergueu as mãos.

Ela me pegou pelo braço e me guiou para dentro do palácio. Eu a acompanhei reclamando de sua impulsividade e tenacidade. Caminhamos em direção aos quartos, tentando ser discretos e evitando encontrar algum servo ou guarda. Ao chegar à porta do quarto onde ficava hospedada, ela parou e virou-se para mim.

— Você poderia me mostrar sua forma Jotun? — pediu de repente.

Fui pego de surpresa novamente. Por que ela queria ver a minha outra forma?

— Por que você quer ver? — surpreendi-me — Para zombar de mim? — perguntei meio irritado.

— Zombar? — encarou-me boquiaberta. — Por que eu faria isso? Eu quero ver por curiosidade. Queria ver como você é em sua outra forma. Cruzes! Você está sempre na defensiva — ergueu os braços.

— Eu não mudo assim facilmente. Só quando eles me tocam — rebati contrariado.

— Ou quando toca a Casket — corrigiu-me com um sorriso cínico. — Eu sei que está com ela — balançou o indicador em minha direção.

Dei um suspiro meio irritado. Encarei-a seriamente, agarrei o braço dela e puxei-a para dentro de seu quarto. Fechei a porta e virei-me em sua direção.

— Lembre-se que foi você quem pediu — sibilei.

Movendo rapidamente minhas mãos, trouxe de volta a Casket e a segurei pelas alças. Aos poucos, minha pele foi se modificando e fui assumindo minha forma Jotun. Aredhel observava tudo com um olhar curioso.

— Agora você já pode fugir — falei entredentes.

Mas ela não o fez. Aredhel se aproximou silenciosa, tocou de leve em minhas mãos, depois me fitou e deu-me um sorriso. Não havia o menor sinal de medo em seus olhos.

— Sua pele está gelada — comentou. — Extremamente gelada. Chega a queimar — disse baixinho massageando os dedos após me tocar.

— Essa minha forma não a assusta? — indaguei meio chocado com a reação dela.

— Não. Por quê me assustaria? — deu de ombros. — É só meio estranho para mim. Não... Estranho não... Novo... Diferente... Mas, de qualquer forma, eu realmente não me importo com sua aparência ou origem — falava calmamente. — Loki... Eu gosto de você... Do jeito que é... — disse com a voz quase sumindo e com o rosto corando.

Ela, uma humana, uma estranha nesse mundo, não ligava para minha origem. Passei a vida toda me sentindo diferente e depois de adulto descobri que Odin me tratava dessa forma porque, realmente, eu não era como eles. Eu poderia dizer que Aredhel estaria agindo dessa forma por ignorância, mas agora ela tinha consciência de quem eram os Jotuns, sabia de toda minha história e, ainda assim, eu não a assustava. O que, para Odin, sempre fora o motivo para me tratar de forma diferente, para Aredhel não passava de um mero detalhe. Ao constatar isso senti algo estranho dentro de mim. Algo que eu não conseguia decifrar e nem compreender.

Escondi novamente a Casket e aos poucos fui retornando à minha forma original.

— Obrigada — murmurou Aredhel. — Fico feliz que tenha confiado em mim — disse sorrindo.

— Obrigado você, por confiar em mim — falei sem pensar, em meio a um sorriso.

Nós ficamos em silêncio e nos olhamos demoradamente. A sensação estranha retornou.

— Acho melhor eu ir — apressei-me. — Você precisa se trocar. De noite nos vemos na biblioteca. Certo? — perguntei.

— Certo — confirmou despreocupada.

Deixei o quarto de Aredhel e segui pelos corredores me perguntando o que estava acontecendo comigo. O que era aquela sensação estranha que tive? Presumi que eu estava grato por ter uma pessoa que não me tratava como monstro, que não me temia. Estava feliz por ter alguém que me aceitava do jeito que eu era.

Notas finais
Então? Gostaram? Por favor deixem seus comentários! Eu preciso saber se estão gostando da história.