A mulher do meu destino

14 I won't let this build up inside of me


Notas iniciais
* I won't let this build up inside of me = Eu não vou deixar isso crescer dentro de mim - Trecho da música "Vermillion (pt. 2)" da banda Slipknot. Bom!! Chegamos ao capítulo tão esperado!!! hehehehe escrevi com muito carinho!! Espero que gostem!!

Dias depois, estávamos uma noite novamente na biblioteca na busca incansável por uma forma de mandar Aredhel de volta para a outra realidade. Apesar de ser algo enfadonho e cansativo, prosseguíamos. Já tínhamos conseguido verificar uma boa parte dos livros sobre lendas e magias da biblioteca. Eu estava verificando uma pilha de livros de magia e ela estava prescrutava uma pilha de livros sobre lendas.

— Maçãs e rejuvenescimento, foi só o que entendi desse livro — falou Aredhel me estendendo o livro.

— Não. Este não tem o que procuramos — bufei impaciente. — Acho que misturei os livros. Deveríamos estar procurando apenas em livros sobre portais mágicos — resmunguei ao pegar o livro das mãos dela.

Ao me estender o livro pude notar o pulso direito de Aredhel. Nele havia uma cicatriz que dava a volta no pulso todo. Eu sabia que tinha sido responsável por aquilo. Era a marca que tinha ficado quando eu a algemei em Midgard. Uma onda tristeza tomou conta de mim ao notar o quanto havia machucado Aredhel, não só fisicamente, mas inclusive com palavras. Senti-me culpado.

— Perdoe-me — falei de repente e ela me encarou confusa. — Eu não deveria ter feito isso com você — olhei com tristeza em direção a seu pulso. — Eu não deveria ter lhe tratado daquele jeito — fui sincero.

Aredhel me olhou meio assustada e vi seu rosto corar. Ela rapidamente puxou a mão de volta e tentou esticar a manga do vestido, cobrindo a cicatriz.

— Não tem problema, isso é passado — murmurou baixando os olhos e voltando a mexer nos livros.

Fiquei a observando por um tempo. Perguntava-me por que ela queria tanto voltar para casa. Ela parecia gostar de Asgard, tinha tanta sede de conhecimento e não possuía o melhor dos relacionamentos com os pais. Incomodava-me muito a ideia de que ela tivesse que partir. Estava mais do que acostumado à sua companhia. Eu desejava que ela pudesse ficar em Asgard.

— Porque você deseja tanto retornar para seu lar? — indaguei repentinamente. — Você mesma disse que não tem um bom relacionamento com a sua família. Poderia permanecer em Asgard e continuar aprendendo. Quem sabe ate aprender magia e poderia ler todos esses livros que você tanto deseja — argumentei.

— Sinto falta de minha mãe — ela começou com um semblante triste. — E também tem outra pessoa que deixei lá e que espera por mim — mordeu os lábios pensativa.

— E quem seria essa pessoa? — perguntei curioso.

— Phillip, meu noivo — respondeu meio sem jeito.

Fiquei surpreso com o que ela disse, mas nada falei. Dei as costas a Aredhel e voltei à minha pilha de livros. As palavras “meu noivo” ecoavam em minha mente. Senti uma pontada em meu peito. Uma tristeza e ao mesmo tempo raiva. Eu já havia ouvido o nome Phillip antes, como tantos outros nomes que ela havia citado quando estávamos presos. Mas nunca havia me dito que ele era noivo dela. Imaginei que era apenas um amigo. Eu me senti traído.

Traído? Mais uma vez as palavras de Frigga vieram à minha mente “Sempre tão perspicaz sobre todos, menos sobre si mesmo”.

Olhei novamente para Aredhel e ela estava distraída lendo um livro. Ela não fazia ideia da confusão que se instaurou dentro de mim a partir daquele momento. Eu estava cego esse tempo todo! Como eu não percebi? A sensação estranha que senti ao tê-la tão próxima a mim dias atrás. O sentimento estranho que me tomou quando revelei minha forma Jotun a ela. O quanto eu gostava de estar em sua companhia. Como me sentia feliz ao lado dela. Porque me incomodava ela ter que partir. Agora tudo fazia sentido.

Eu estava apaixonado por Aredhel. Como eu deixei isso acontecer?

Perturbado, eu ignorava o livro que tinha em mãos. Não conseguia tirar os olhos de Aredhel. Tão frágil e tão perigosa. Solenemente hipnótica. Meu par perfeito. Era inteligente, atrevida, astuta e corajosa. Aredhel era como uma cópia minha, uma versão feminina, porém era doce, amigável e alegre. Ela fazia tudo por mim. Arriscava-se por mim. Aceitava-me como eu era. Aos pouco foi se revelando para mim e, à medida que isso foi acontecendo, eu fui gostando cada vez mais dela. Antes eu estava sozinho sem ela, agora não conseguia parar de pensar nela.

Passado mais algum tempo, eu não pude mais me concentrar em nada. Eu precisava respirar, fugir dali.

— Acho que por hoje chega — levantei-me inesperadamente. — Amanhã continuamos — virei de costas para ela. Eu não tinha coragem de encará-la.

— Está certo... Boa noite Loki — disse.

— Boa noite... — murmurei. Eu nem conseguia pronunciar seu nome.

Eu a vi saindo da biblioteca e esperei mais algum tempo. Não queria vê-la. Depois de ter certeza que não a encontraria nos corredores, fui para meu quarto às pressas e tranquei-me.

Um nó se formou em minha garganta. Sentia-me sufocado. Sendo rasgado em pedaços. Eu não podia sentir aquilo. Não queria isso, mas eu não sabia o que fazer. Ela era agora algo em mim que eu desprezava. Não poderia amá-la. Os sentimentos são uma fraqueza. Amar é para os tolos! Pelos deuses! Como pude me deixar apaixonar por uma humana? Um ser inferior, frágil e efêmero. Eu não poderia deixar isso crescer dentro de mim.

Ouvi alguns móveis de meu quarto se chocarem contra a parede. Era minha raiva por não poder controlar o que sentia. Sentia-me impotente e como se estive me afogando. Como se algo dentro de mim me puxasse abaixo da superfície. Aquilo me consumia, me confundia. Eu estava perdendo meu autocontrole. Senti-me tão inseguro e desamparado diante daquela nova onda de sentimentos confusos e contraditórios. Mas de uma coisa eu ainda tinha certeza: eu não podia deixar aquilo crescer dentro de mim! Eu tinha que encontrar uma solução, me livrar daquilo e afastar-me dela de uma vez por todas. Tinha que matar o que eu estava sentindo por ela! Aredhel devia ir embora!

Como eu não conseguiria dormir aquela noite, resolvi voltar para a biblioteca. Eu tinha que encontrar uma forma de mandar Aredhel de volta o mais rápido o possível. Aquilo tinha que ter um fim. Dessa forma, passei a noite inteira procurando e adiantando o que eu pude da infindável pilha de livros. Pela manhã, ainda que não quisesse, eu tive que voltar à minha farsa, mas o dia se mostrou improdutivo. Eu mal conseguira ouvir meus pensamentos. Passara o dia inteiro disperso. Eu não conseguia tirar Aredhel de minha cabeça.





À noite fui procurá-la para voltarmos à biblioteca. Naquele momento, eu tinha muita pressa que ela voltasse para a outra realidade.

Bati à porta de seu quarto e aguardei nervoso. Temia revê-la e não sabia como agir. Assim que ela abriu a porta, entrei e disparei a falar.

— Vamos! Temos que nos apressar! — vociferei sem encará-la. — Temos que encontrar uma forma de mandar você de volta e ainda faltam muitos livros! — mal conseguia conter a irritação.

— Se quiser eu posso procurar sozinha hoje — falou Aredhel meio indignada. — Não precisa ir se não quiser.

— Sozinha? — mantive-me de costas. — Você levaria a vida toda e não conseguiria ver metade do que consigo! — rosnei. — E duvido que disponha de tanto tempo — provoquei.

— Mas que diabos! — sibilou de volta. — O que houve? Por que está tão irritado? — questionou.

— Nada! — ergui os braços, perdendo o controle. — Só quero que você vá embora! Que volte para seu mundo! Estou cansado de ter você feito uma sombra me seguindo por onde quer que eu vá! — gritei.

Finalmente olhei para ela. Ela pareceu espantada com o que eu havia dito. Doeu-me ter dito aquelas palavras.

— Quer saber de uma coisa? — encarou-me. — Se eu incomodo tanto, por que você não aproveitou e me matou no mundo sombrio? — gesticulava. — Teria resolvido os seus problemas! — rosnou de volta.

Aquilo tinha que terminar. E a sugestão dela talvez fosse a solução. Em vez de matá-la em meu coração, talvez fosse mais efetivo matá-la de verdade. Sentia uma raiva incontrolável e meu resto de autocontrole se esvaiu feito água entre meus dedos. Agarrei-a pelos ombros e a empurrei com força contra a parede. Ela fechou os olhos e franziu a testa, em uma expressão aparente de dor com a batida. Eu a estava machucando? Parte de mim lamentou amargamente o fato. A outra parte mandava eu seguir em frente. Uma luta interna começava novamente em mim.

Racionalmente eu sabia que matá-la resolveria de uma vez por todas meus problemas. Seria um caminho sem volta, um fim para o que eu sentia e para a tortura que eu estava passando. Mataria não só ela, como qualquer sentimento que persistisse crescer dentro de mim. Estaria livre desta fraqueza.

Eu coloquei uma de minhas mãos em seu pescoço e fechei levemente os dedos. Ela era tão frágil, não precisaria mais que uma mão para acabar com tudo.

Olhei-a nos olhos e notei pela primeira vez que eram castanhos, bem escuros, mas castanhos. Pude ver em seus olhos que, apesar de meu comportamento, ela não tinha medo. Vi também tudo o que desejei a vida inteira. A indecisão travou meus dedos e uma dor pulsou em meu peito. Ela era um mito no qual eu tinha que acreditar. Uma canção que ninguém nunca cantou. Um poema que ninguém recitou. Um sonho não correspondido. O inalcançável. Percebi que jamais conseguiria fazer algo contra ela. Ela era tudo para mim.

— Não posso... Não consigo... — minha voz saiu engasgada. Retirei a mão de seu pescoço e cerrei meus punhos com força.

— Por quê? — murmurou confusa.

— Porque eu te amo! — gritei com raiva.

Senti meu rosto corar. Ela me fitou boquiaberta. Eu não podia mais me controlar. Tinha que admitir. Eu a amava mais que tudo e queria desaparecer em um beijo seu.

Puxei-a para perto de mim. Curvei-me sobre ela e, segurando o seu rosto, a beijei nos lábios. Parei de respirar e senti algo entrar em erupção em meu peito. Beijava-a com urgência, de um jeito forte e feroz, como se o mundo fosse acabar. Como se não houvesse amanhã.

Deslizei minhas mãos por seu pescoço, ombros e agarrei-a com força pela cintura. Senti suas mãos apoiadas em meu peito. Ela não me repelia, estava claramente correspondendo ao meu beijo. Um alívio tomou conta de mim. Apertei-a ainda mais em meus braços. Subi uma de minhas mãos por suas costas, apoiando-a enquanto me curvava ainda mais sobre ela. Continuei beijando-a em um ritmo frenético e desesperado. E só quando eu já estava perdendo o ar, é que percebi que eu a estava afogando naquele beijo. Temi sufocá-la, machucá-la e então me afastei. Olhei para ela ofegante e assustado com o que eu havia feito.

Aredhel estava rubra, tentando recuperar o ar encostada à parede. O medo tomou conta de mim e decidi que tinha que partir. Eu não podia continuar com isso. Mesmo tendo admitido que a amava, ela ainda pertencia a outro.

Saí correndo do quarto dela e bati a porta com força. Fui buscar refúgio na biblioteca. Frustrado e confuso, tinha que aceitar o fato de que a amava. Fiquei pensando na reação dela durante o beijo. Ela não havia me rejeitado. Será que ela também me amava e não percebia? Ou será que apenas não queria admitir? Só isso explicaria tudo o que ela fazia por mim.

Comecei a rir. Eu estava me perguntando se era correspondido? Aquilo era tão tolo e patético, mas não conseguia evitar. Eu, que sempre fora racional, controlado e calculista, agora estava perdido, desajustado e irracional. Eu não podia acreditar na minha falta de autocontrole. Estava cometendo atos impensados e sendo imprudente. Ela havia me mudado. E muito! Isso era ruim, era péssimo!

Mesmo que eu quisesse aceitar aquela situação absurda, ainda assim, não poderia ficar com ela. Ela estava noiva de outro e desejava retornar ao seu mundo. Ela não ficaria em Asgard, ela não pertencia àquele lugar. Talvez fosse melhor assim. Com o tempo eu a esqueceria. “Será fácil” dizia a mim mesmo, tentando me convencer dessa mentira.

Voltei a me agarrar nos livros e passei o resto da noite procurando. No dia seguinte, assim que me livrei das obrigações de Odin, voltei novamente para a biblioteca. Fiquei por lá e segui noite a dentro na procura. Resolvi não ir buscar Aredhel e ela tampouco apareceu. Peguei-me várias vezes me perguntando por que ela não havia ido. Perguntava-me se ela não queria me ver ou se estava com raiva de mim pelo que fiz. Sempre que pensava que ela me rejeitava, sentia uma pontada em meu peito.





Na manhã seguinte encontrei um livro no qual falava de um lago em Asgard que tinha uma água mágica. Uma água que poderia transportar pessoas para onde ela desejasse. Finalmente, eu havia encontrado uma forma de mandar Aredhel de volta ao mundo dela.

Eu iria mandá-la para os braços de outro. Era chegada a hora de dizer adeus.

Notas finais
O que acharam? Deixem seu comentários!!! *NOTAS: Para escrever esse capítulo utilizei como inspiração algumas músicas: "Vermillion (pt. 1)" e "Vermillion (pt. 2)" da banda Slipknot, "Crawling" da banda Linkin Park e "Every little thing" dos Beatles.