A mulher do meu destino
63 And when I go there, I go there with you, it's all I can do
Notas iniciais
Na manhã seguinte acordei abraçado à minha amada Aredhel. Ela estava encolhida com a cabeça encostada em meu peito. Eu adorava observá-la dormir. Ressonava tranquila, nem parecia que o dia anterior tinha sido tão difícil para ela. Eu gostava de imaginar que eu tinha o poder de fazê-la se sentir segura em meus braços e que, por isso, ela conseguia ter um sono tão sereno.
Seus cabelos bagunçados cobriam seu rosto e colo. Com os dedos afastei seus cabelos e os coloquei atrás de sua orelha. Acariciei seu rosto e Aredhel se mexeu revelando seu corpo desnudo. Mordi os lábios e meneei a cabeça negativamente ao ver seu corpo cheio de marcas. Visivelmente eu tinha exagerado na noite anterior. Tinha marcas avermelhadas e roxas pelo pescoço e seios, mas os pulsos estavam piores. Acredito que ficaram tempo demais amarrados. Dei um suspiro exasperado. Mesmo após a maçã de Iduna, Aredhel, como todos os humanos, ainda era frágil como vidro. Passei os dedos pelas marcas de seu pulso sentindo um pouco de culpa. Dei um beijo em seu rosto e Aredhel acabou acordando.
— Bom dia, meu amor... — sorriu sonolenta e se espreguiçou.
— Bom dia, Aredhel... — murmurei meio sem jeito. — Er... Você está bem? Está sentindo dor? — perguntei preocupado.
— Estou bem sim… — franziu o cenho. — Por que eu estaria sentindo dor? — fez uma careta.
Entristecido, apontei para seus pulsos. Ela olhou, passou as mãos massageando eles e sorriu.
— Não doem... — deu de ombros.
— Tem certeza? — insisti desconfiado. — Acho que exagerei... Você está toda marcada — fui sério.
— Tenho — deu um suspiro impaciente e puxou um robe para se cobrir. — Se tivesse sentido dor na hora, eu teria reclamado. Você já me marcou desse jeito em outras vezes. Sendo feitas dessa forma eu não ligo. Pelo contrário... Eu adoro! — riu.
Fiquei calado apenas massageando os pulsos dela.
— Ei… — ela ergueu meu queixo para que a encarasse. — Não estrague a minha fantasia preferida… Loki… Você sabe que eu gosto desses nossos — fez aspas com os dedos — “joguinhos sexuais”. Eu amei a noite passada... Da próxima vez eu amarro você... — deu um sorriso malicioso.
— Aredhel... Minha taradinha... — ri. — Na próxima vez vou usar algemas. Elas não vão apertar seus pulsos dessa forma — sorri maliciosamente e dei um beijo em seus lábios.
— Ainda assim vou amarrar você… — deu uma risada. — Serei sua dona e mestra! — Fechou os olhos e um sorriso brincou em seus lábios. — Vou aguardar ansiosamente essas próximas vezes — mordeu os lábios.
Fomos juntos tomar um banho. Estávamos sentados na banheira e eu, delicadamente, passava a esponja nas costas dela enquanto ela lavava os próprios cabelos. Aproveitei a ocasião para tocar em um assunto delicado.
— Aredhel... — passei os dedos por seu pescoço e em seguida a esponja. Ela fez um som que lembrou um ronronado. — E se sua família estiver nisso por vontade própria? Está preparada para lidar com isso? — indaguei meio preocupado.
Ela jogou a água sobre os cabelos e deu um suspiro. Ficou calada por um tempo e, ainda de costas para mim, respondeu.
— Sim... — murmurou despreocupadamente.
— E no que pensou? — perguntei meio ansioso.
Aredhel virou o rosto e encarou-me.
— Quando será que você vai entender que há muito tempo eu já fiz minha escolha? — começou meio impaciente.
— Meu amor, quando perguntei isso minha intenção não era pressionar você e nem nada do tipo… — fui sincero. — Estou apenas preocupado com você no meio dessa confusão. No impasse de ter que escolher entre sua família e eu.
— Eu escolhi você, Loki — meneou a cabeça, como se falasse de algo óbvio. — Eu sempre estarei ao seu lado até o fim. Já lhe falei isso tantas vezes... — encostou-se em meu peito e ergueu o rosto para continuar me olhando. — Você e nossos filhos são também minha família e vou defender vocês com a minha vida se for preciso. Contra quem for — disse com firmeza.
— Saber disso, não me deixa menos preocupado com você… — murmurei.
Afaguei seus cabelos e dei um beijo em seu topo. Lembrei-me daquele dia no qual, na saída das masmorras, Aredhel sussurrou em meus ouvidos que sabia o que eu planejava e jurou que estaria ao meu lado até o fim. Ela sem dúvida vinha sendo fiel a mim desde o início. Sempre ao meu lado, me apoiando, mesmo quando não concordava com meus métodos ou objetivos. A fidelidade de minha Aredhel era incontestável, contudo não sabia como isso a afetaria. Tudo o que eu não queria era vê-la infeliz ou arrependida das escolhas que fez.
Aredhel se virou ficando de frente para mim e sentou-se em meu colo.
— Você confia em mim, não é? — perguntou repentinamente.
— Claro que confio, Aredhel — falei com urgência e segurei seu rosto entre as mãos. — Você não imagina o quanto eu me arrependo de um dia, mesmo que por alguns instantes, ter duvidado de sua fidelidade — dei um beijo em seus lábios. — Confio em você plenamente — falei com sinceridade. — Mas é com seus sentimentos que estou preocupado.
— Então confie no que eu digo. Eu vou ficar bem— sorriu. — Eu também confio em você, Loki. Cegamente — afirmou.
Ficamos em silêncio por um tempo. Aredhel brincava com minha mão e começou a rir.
— O que é engraçado? — fiquei curioso.
— Eu confiar cegamente no rei da trapaça — riu de novo.
— É irônico mesmo… Afinal, eu confio na rainha da trapaça também... — ri e a abracei.
Durante o café da manhã, aproveitando que as crianças ainda não haviam descido, contei para Aredhel e James a conversa que tive com os Avengers.
— Eu gostei da ideia! — comentou James. — Vai ser até engraçado ver você menos mal-humorado — riu.
— Eu vou com você — disse Aredhel de repente.
— O quê? — fiquei surpreso. — Não, Aredhel. Você vai ficar aqui, não quero que se arrisque — retruquei decidido.
— Não estou lhe pedindo permissão, Loki — falou despreocupadamente. — Estou apenas informando que vou com você — foi firme.
Trinquei os dentes e James riu baixo. Aredhel já ia começar com a sua notória tenacidade.
— Aredhel... — ensaiei um argumento.
— Escute, Loki — interrompeu-me. — Ouçam meu plano primeiro. Vocês vão ver como fica bem melhor se eu for! — disse empolgada. — Thanos sabe que houve uma briga aquela noite por causa do beijo que Thor me deu. Então eu tive uma ideia. Pensei que poderia ir para casa acompanhada de Jim — apontou para mim. — Posso dizer que Loki foi violento comigo naquele dia e que por isso eu resolvi lhe abandonar e buscar refúgio com minha família. Pensem bem! Será mais fácil eu conseguir tirar informações de Will do que o Jim, uma vez que ele não é tão íntimo de minha família — explicou.
Ainda me era sofrido lembrar daquela fatídica noite. Não podia fingir que, apesar de ser apenas uma mentira, a ideia de Aredhel não me incomodava. Aquela mentira tinha um fundo de verdade. Eu realmente fora violento com minha esposa e ela teria todo o direito de me deixar. Olhei para ela com tristeza. Definitivamente eu jamais esqueceria aquilo.
— Uma mentira parece mais verídica se nela tiver algo de verdadeiro… — murmurei.
— Não diga isso, meu amor… — Aredhel suplicou, franzindo o cenho e apertando minha mão. — Por favor… A última coisa que eu queria era trazer esse assunto de volta, mas a idéia é boa.
Eu nada disse. Fiquei fitando-a com pesar e Aredhel baixou os olhos. Percebi que a minha compunção sempre estaria entre nós. Um silêncio melancólico se fez à mesa. James ficou calado olhando de mim para Aredhel.
— Ela tem razão, Loki — ele disse, de repente, quebrando o clima tenso. — Tudo que Thanos sabe é que houve uma confusão, mas nem imagina as consequências disso. E quanto a família dela, de fato, eu não sou tão próximo a eles. Talvez eles desconfiassem se eu começasse a fazer muitas perguntas. Deve se lembrar de que eu fiquei de coletar informações aqui e não lá — lembrou.
— Está vendo, Loki? Eu tenho razão — ela deu um sorriso fraco.
— Eu não sei, Aredhel — comecei relutante. — Ainda acho que pode ser perigoso. Além disso, você e eu ficaríamos longe de nossos filhos por meses. E nem pense na possibilidade de levá-los. Mesmo o tapado de seu irmão desconfiaria se eu deixasse você simplesmente me abandonar e levar nossos filhos — alertei.
— Eu sei, meu amor. Não levaríamos as crianças. Sentirei falta deles, mas é um sacrifício que estou disposta a fazer — entristeceu-se. — Afinal, é justamente pela segurança de nossos filhos, de Asgard e da própria Terra que estou fazendo isso.
— E quem administraria Asgard, Aredhel? — questionei. — Pretendo esperar o retorno de Fandral e dos demais antes de partir, mas eu esperava que você auxiliasse Heimdall e Fandral nisso, durante minha ausência. Eu já vinha lhe passando algumas responsabilidades da administração. E nossos filhos? Quem os protegerá? — tentei argumentar.
— Heimdall e Fandral podem cuidar de Asgard sozinhos — rebateu Aredhel. — Já administraram Asgard várias vezes em sua ausência. Quanto a nossos filhos, Sif e os demais estarão aqui para defendê-los. E convenhamos, nossos filhos são muito poderosos. Váli é mais forte do que eu, pode cuidar tranquilamente dos irmãos — contra-argumentou.
Passei a mão pelo rosto. Quando se tratava de debates, eu sempre perdia para minha mulher. Era inútil persistir.
— É... Pode ser... Sei que não poderei convencê-la do contrário — resmunguei, erguendo as mãos. — Você é muito teimosa — bufei contrariado.
— Admita... Meu plano é muito bom — sorriu toda convencida.
— Sim. Minha esposa é uma estrategista nata — deixei escapar um sorriso.
— Eu tenho uma dúvida — James se inclinou sobre a mesa. — Não acham que a informação de que Loki não está em Asgard pode chegar aos ouvidos de Thanos? Afinal, ele seguia seus passos na procura pelas Joias — questionou.
— Mas para todos os efeitos eu estarei aqui. Em carne e osso — sorri olhando para James.
— Loki, você não está pensando em usar o Jim nesse... — Aredhel começou a reclamar.
— Genial! — interrompeu James. — Você pensou em tudo! Contudo… — levantou um dedo. — Eu sei que consigo interpretar você. Quero ver se você vai conseguir se passar por mim também — cruzou os braços e riu.
— Não, Jimmy! Isso pode ser perigoso! — ela protestou.
— Não, Aredhel. Eu quero ajudar. Estamos juntos nisso até o fim — afirmou o outro.
— A teimosia não é exclusividade sua Aredhel... — ri e cruzei os braços atrás da nuca. — Quanto a você, James, terei tempo para aprender a agir como você. Acha que o rei da trapaça não conseguiria se passar por alguém? Enganar os outros é minha especialidade — lembrei-o.
Aredhel bufou e em seguida me encarou.
— Ah, pago para ver você sendo gentil e fazendo a “snake hips” — Aredhel riu com escárnio. — Aliás... Eu adoraria que aprendesse a fazer essa dança — sorriu com malícia.
— “Snake hips”? — perguntei confuso.
Aredhel e James trocaram olhares e começaram a rir. De repente, Greta entrou no salão acompanhada de Váli, Hela e Narfi. Os dois menores correram para abraçar a mãe. Váli ficou parado encarando o chão.
— Não vem me dar um beijo, meu filho? — inquiriu Aredhel com doçura na voz.
Váli se aproximou da mãe e deu-lhe um abraço apertado.
— Perdoe-me, mãe. Eu... Eu…. Te amo tanto. Eu não quis magoar a senhora — o menino falou baixinho.
— Oh, meu filho... Eu também te amo — ela o puxou para um abraço. — Eu já disse que está tudo bem, meu anjo — ergueu o rosto dele com a ponta dos dedos. — Vamos esquecer isso, certo?
Váli balançou a cabeça afirmativamente e deu um beijo no rosto de Aredhel.
— Greta, onde estão Siegfried e Sigrid? — enrugou a testa. — Já faz alguns dias que eles não vêm aqui.
— Segundo a mãe deles, eles viajaram para visitar os avós paternos. Mas voltam ainda hoje — informou Greta.
— Que bom! Eu já estava com saudades deles — comentou Aredhel.
— Eu também! — concordou Narfi.
Depois do café, Aredhel, Greta e James seguiram com Hela e Narfi para a biblioteca. Pedi que Váli me acompanhasse até o salão. Eu ainda tinha que conversar com ele sobre o ocorrido no casamento. A mão o podia tê-lo perdoado facilmente, mas eu não era tão complacente.
— Você sabe que foi cruel ao dizer aquilo sobre sua mãe, não é? — questionei-o seriamente.
— Sei, pai... Eu não quis magoá-la — disse entristecido. — A mamãe sempre nos ensinou a não menosprezar nenhum povo ou reino — pareceu envergonhado.
Aredhel, movida principalmente por sua compaixão, havia ensinado nossos filhos a respeitar todos os povos. Embora eu achasse que esse seu jeito complacente sempre a levaria a problemas ou decepções, acreditava que seria bom ensinar isso para as crianças. Cresci ouvindo relatos sobre o comportamento de jotuns que não necessariamente condiziam com os meus, embora só tenha descoberto sobre minha origem já adulto. Minha esposa, uma midgardian, me ensinou que há humanos muitos inteligentes e que nem todo jotun precisa ter um comportamento monstruoso. Conceitos pré-estabelecidos podem causar muitos danos. Eu mesmo fora derrotado algumas vezes exatamente por subestimar meus adversários. Váli havia herdado a minha arrogância e precisava aprender sobre isso para que não cometesse os mesmos erros que eu cometi.
— Não acho que a mamãe seja realmente fraca ou um peso por ser midgardian. Pelo contrário, já a vi tão machucada e tantas vezes... Até da morte ela voltou — encarou-me aturdido. — Imagino que ela deve ter superado tantas outras coisas no passado, como ela superou a perda de memória... — murmurou cabisbaixo.
— Eu tinha esquecido que você, mesmo na forma de lobo, havia ouvido tudo naquele dia — suspirei.
— Mesmo que não tivesse ouvido, a mamãe estava estranha, parecia não se lembrar de quase nada — encarou-me com um olhar triste. — De repente não sabia mais nada sobre magia. Foram dias confusos e dolorosos... Por mais que ela se esforçasse para disfarçar, eu percebia que ela não se lembrava de mim. Mas o dia mais triste foi quando eu — apertou as mãos nervosamente — ouvi vocês brigando uma noite. Ouvi-a gritar que lhe odiava. Eu não sei por que vocês brigaram, mas eu sabia que ela jamais falaria isso... — olhou para o chão.
Percebi que erroneamente havia tentado em vão esconder o óbvio das crianças. Hela e Narfi podem não ter percebido todo o tormento pelo qual passamos nos últimos tempos, mas foi tolice achar que Váli era pequeno demais para não perceber nada. Eu abracei Váli e ficamos em silêncio por um tempo.
— Não se preocupe, Váli — afaguei seus ombros. — Isso tudo é passado. Sua mãe recuperou a memória, agora estamos bem e juntos novamente. Não deixarei que nada e nem ninguém tire ela de nós — confortei-o. — Agora, tem outra coisa que preciso falar com você. Tenho uma missão para você — encarei-o.
— Missão? Pode dizer, pai! Eu farei o que pedir — disse meio agitado.
— Sua mãe e eu teremos que nos ausentar de Asgard — revelei. — Vamos investigar a atuação de Thanos na Midgard de sua mãe. Sendo assim, ficaremos alguns meses fora, Heimdall e Fandral cuidarão da administração de Asgard, mas para todos os efeitos eu nunca terei saído daqui — alertei. — James fingirá ser eu durante minha ausência. Quero que você e seus irmãos o obedeçam. E quero que você cuide de seus irmãos. Defenda eles, James e Asgard se assim for necessário. Sei que você gostaria de ir, mas preciso de alguém com seus poderes aqui para defendê-los. Entende?
— Entendo, papai — meneou a cabeça. — Eu prometo obedecer ao tio Jimmy e cuidar de todos — sorriu de leve.
— Eu sabia que podia contar com você, meu filho — sorri satisfeito.
Depois que deixei Váli, encontrei-me com Aredhel no corredor. Ela estava acompanhada de Hela e Narfi, tinha um sorriso cínico no rosto.
— Posso saber o motivo desse sorriso? — perguntei curioso.
— Ah, nada muito especial. Digamos que eu resolvi dar uma volta com as crianças e deixar o caminho livre — comentou enigmaticamente.
— Caminho livre? Do que está falando? — insisti confuso.
Aredhel aproximou-se de mim e sussurrou em meu ouvido.
— Greta e Jim — sorriu.
— Os dois? Sério? — fiquei meio surpreso e ela afirmou com a cabeça. — E você já está dando uma de alcoviteira — ri.
— Ah, você sabe... Eu adoro formar casais — disse divertida.
— Aredhel, já falei isso uma vez e volto a lhe avisar. Eles não pertencem ao mesmo mundo. Ele gosta da vida que ele tem lá e ela não se adaptaria àquela realidade — alertei.
— Ah... — fez um muxoxo. — Vamos deixar que eles decidam isso. O destino cuidará de tudo. Se for para ser, será. Deu certo com a gente, não é? — sorriu animada.
— Deu, meu amor. Deu certo — dei um beijo em seu rosto. — Só não tenha muitas esperanças — avisei.
Greta era uma das servas do palácio e responsável por cuidar das crianças. Segundo Aredhel, Greta era órfã e veio ainda muito jovem trabalhar no palácio. Era uma moça de pele clara, com a mesma altura de Aredhel, magra, de cabelos e olhos castanhos claros. Desde que Aredhel veio morar em Asgard simpatizara muito com a garota. Greta era tímida, gostava das crianças e também tinha o mesmo gosto por leitura que Aredhel. De fato, ela passava muito tempo na companhia de James e das crianças. Eu já havia visto os dois conversando várias vezes, mas nunca imaginei que pudesse haver algo entre os dois. Talvez meu receio de que James tivesse algum interesse em Aredhel não me deixara enxergar a realidade.
Nos dias em se seguiram, passei a me informar mais sobre o dia a dia de James em Midgard. O que fazia, as pessoas que conhecia, e outros detalhes. Ele e Aredhel também se esforçaram ao máximo para que eu aprendesse mais sobre as tecnologias de lá. Imitar o jeito de James agir e falar era a parte mais fácil, difícil era saber as peculiaridades de Midgard. Mesmo convivendo com Aredhel durante todos esses anos, nunca me importei muito em aprender sobre a terra média. Tudo que pudesse me interessar sobre aquele lugar eu já tinha em meu poder. Eu tinha Aredhel, o resto era resto.
Os dois me entregaram uma lista de praticamente todos os livros de Shakespeare. Eu já havia lido alguns, mas, pelo que entendi, este autor era praticamente uma especialidade de James. Supostamente se alguém perguntasse algo como um teste de identidade, eu não poderia mostrar ignorar tais conhecimentos. Aredhel corrigia-me na maneira de falar, dizia que eu não poderia usar os termos Midgard ou midgardians. James também me explanou sobre sua profissão e, com ajuda do seu celular, mostrou-me fotos de seus amigos e conhecidos. Eles ficaram espantados com a minha facilidade de memorizar tudo em tão pouco tempo.
A parte mais difícil e irritante foi aprender algumas trivialidades dos midgardians, como costumes, gírias e outras coisas desnecessárias. Começou a ficar exaustante quando os dois começaram coisas que eu julguei inúteis, como aprender a dançar como o ator. Aredhel e James dançavam feito bobos uma música cujo refrão era “We're up all night to get lucky”. Podia jurar que, às vezes, eles trocavam a palavra “lucky” por meu nome. Fiquei apenas observando aquele espetáculo ridículo, até que os dois começaram a me puxar da cadeira para me juntar a eles nos passos. Depois que fiquei de pé, Aredhel insistiu muito para que a acompanhasse e cometi o erro de tentar. Ao vê-los rirem descontroladamente de minha performance, perdi a paciência.
— Qual o propósito de tudo isso? — gritei. — Aredhel e eu não pretendemos passar muito tempo lá! Nem podemos! Não sei qual a necessidade de aprender todas essas tolices! — rosnei.
Os dois pararam de rir e depois recuperaram o fôlego.
— Ai, Loki… O brincalhão não aceita brincadeira? — ela sorriu de lado. — A dança era só pra gente descontrair… Poxa… Você está levando a sério demais o treino.
Cruzei o braços e a encarei.
— Tem razão… — ela se rendeu. — Vamos voltar ao que é importante. De fato, não podemos nos demorar lá. Eu não posso ficar longe de meus filhos por muito tempo.
— Bem... — começou James. — Pelos cálculos de Aredhel, o período que estou passando aqui, corresponde ao período da noite lá. No dia seguinte, pela tarde, tenho uma entrevista em um programa de TV — comentou.
— Hum… — anuí. — Em que horário você ficou de encontrar com o homem que lhe fez a oferta?
— Não marquei nada. Fiquei de ligar para ele quando tivesse a informação.
— Certo, melhor assim. A ideia é ficar o menos tempo o possível por lá, então Aredhel e eu iremos pela manhã ainda. Eu a levarei para ver a família. De lá ligo para o homem e tento marcar com ele para nos encontrarmos durante o almoço, no máximo. Nesse período coletaremos o máximo de informação possível, investigaremos quem tivermos que investigar e retornaremos. E eu não irei a nenhum compromisso seu — alertei.
— Como você quiser — James deu de ombros. — Acho até melhor que seja assim.
— Pronto… — Aredhel suspirou. — Agora que está tudo certo, podemos voltar a nos descontrair.
— Se vocês quiserem continuar com essa bobagem, não contem comigo — rebati.
— Por mim tudo bem… — ela deu de ombros. — Você já aprendeu o que me interessava, a “snake hips” — sorriu cinicamente.
Senti meu rosto corar. James sorriu timidamente. Depois de assistir a dança, entendi claramente as intenções de Aredhel.
— De qualquer forma... — James voltou a falar. — Acho importante que repassemos algumas coisas sobre mim. Como já alertei, não sabemos se ao reencontrar os caras envolvidos nisso tudo, não irão testá-lo. Thanos, Amora e Lorelei, sabem de seus truques — alertou.
— Verdade — murmurou Aredhel.
— Parece que as dancinhas de vocês ficará para mais tarde — sorri satisfeito.
Nesse mesmo período voltei a treinar magia com Aredhel. Era preciso que ela conseguisse manter as ilusões por um maior tempo e conseguisse expandir para mais áreas. Também era necessário que Aredhel parasse de errar o teletransporte.
A concentração de Aredhel havia melhorado bastante. Ela começou a acertar se teletransportar de forma correta para distâncias curtas e também já conseguia manter suas ilusões por maior tempo. Eu estava orgulhoso dela.
— Posso tentar mais uma vez? — perguntou empolgada.
— Não sei. Nós já estamos treinando há muito tempo. Não está cansada? — preocupei-me.
— Não. Eu ainda tenho muita energia — afirmou.
— Certo. Só mais uma vez — concordei.
Voltei a atacar Aredhel. Ela conseguia se esquivar com muita destreza e chegou a usar algumas ilusões para se defender e fazer um contra-ataque. Comecei a me empolgar com a luta. Estava indo tudo bem até Aredhel tentar se teletransportar seguidas vezes. Depois de três teletransportes bem-sucedidos ela errou o quarto e por muito pouco eu não a acertei no rosto. Com o susto ela se desequilibrou e caiu no chão sentada.
— Droga! — gritou com raiva.
— Você está bem, Aredhel? — estendi a mão para ajudá-la a se levantar. — Agora chega. Por pouco eu não lhe acertei no rosto. Podia ter se machucado — afligi-me.
— Certo — resmungou contrariada.
— Não fique assim, vamos continuar treinando — confortei-a. — Ainda temos tempo. Você se cobra demais.
— Você também se cobraria se um erro seu tivesse custado tão caro. Todos os dias você me olha com culpa, por algo que foi erro meu — disse visivelmente amargurada. — Merda de teletransporte! — exasperou-se.
— Mas a culpa não foi sua… — murmurei com tristeza. — Foi minha… De meu ciúme — falei com veemência. — Se não fosse você teria sido Thor. Alguém teria morrido naquela noite por causa de minha fúria cega. Fui eu que a matei e...
— Não foi! — berrou.
Fiquei calado fitando o chão. Aredhel podia falar o que quisesse, mas eu sabia que a culpa era minha. Se eu não tivesse me deixado levar pelo ciúme e pela ira aquilo não teria acontecido. Além disso, não foi apenas a morte dela, eu também a machuquei. Quase a estrangulei.
Aredhel se aproximou de mim e abraçou-me apertado. E ficamos abraçados por um longo tempo.
— Desculpe-me. Eu não queria gritar com você... — sussurrou. — Eu só não aguento mais ver você sofrendo pelo que aconteceu... — disse com a voz chorosa.
— Meu remorso e sofrimento são penas brandas pelo crime que cometi… Eu tive muita sorte de você ter voltado à vida… Uma sorte que não merecia… — falei com sinceridade.
— Não diga isso… A sua dor é a minha dor — falou com a voz quase sumindo.
Apertei-a em meus braços e continuei em silêncio.
Aproximava-se o aniversário de Aredhel e a data de nossa partida para a outra realidade. Todos nossos esforços estavam concentrados em deixar tudo preparado. James, Váli, Aredhel e eu continuávamos treinando nossos futuros papéis. Nesse meio tempo, também aproveitei para desenvolver o controle de Narfi sobre sua habilidade incendiária. Ele se saiu muito bem, mas ao contrário de Hela, ele não se sentia intimidado em utilizar isso em insetos. Na verdade a satisfação dele em conseguir executar a combustão me deixou um pouco preocupado. Fiz ele prometer que não utilizaria suas habilidades para machucar animais ou pessoas.
— Nem nas pessoas ruins eu posso usar? — perguntou com um sorriso malicioso.
— Não, Narfi — falei seriamente. — Você só usará essas suas habilidades com o consentimento de sua mãe ou meu, entendeu? Não quero ver você incendiando nada e nem ninguém. Estamos entendidos?
— Sim, papai — fez um muxoxo.
Algo me dizia que ainda teria muitos problemas com Narfi.
Semanas antes de partirmos, acordei com Aredhel me sacudindo.
— Eles voltaram! — exclamou. — Digo... Eles chegam hoje! — falou meio confusa.
— Eles quem, Aredhel? — questionei meio confuso e sonolento.
— Fandral, Volstagg e Hogun! — disse rapidamente. — Estranho... Não vi a Sif no sonho... Por quê? — murmurou.
— Não sei, Aredhel. Não tenho sonhos premonitórios — dei de ombros.
— Espero que nada de ruim tenha acontecido — comentou meio preocupada.
No meio da manhã, de fato, Fandral, Hogun e Volstagg retornaram. E chegaram com uma expressão preocupada no rosto. Pelo jeito as notícias não eram boas.
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