A mulher do meu destino
66 And in the night, you hear me calling.. And in your dreams, you see me falling..
Notas iniciais
Cheguei a Asgard e ao entrar no salão principal, James estava sentado no trono. Ao me ver, ele desceu a escadarias às pressas. Ouvi Aredhel começar a engasgar, então a deitei de lado do chão e ela tossiu sangue. Minha mulher estava sangrando por dentro.
— Loki, meu Deus, o que houve? — indagou James ajoelhando, pasmo, ao lado dela.
— Depois eu explico... Preciso levá-la o rápido para sala de cura — falei desesperado me levantando novamente com ela em meus braços.
Segui quase correndo pelos corredores com James em meu encalço. Podia ouvir claramente Aredhel voltando a sufocar com o próprio sangue. Entramos na sala de cura e saí distribuindo ordens para que socorressem minha esposa. Ada e as outras servas me olharam assustadas e confusas, mas correram para socorre-la.
— Sr. James, peço que se retire e aguarde lá fora — disse Ada para mim. — E, meu rei, precisamos que fique para ajudar na magia — dirigiu-se a James. — Sua esposa está com hemorragia interna — explicou.
James olhou de mim para Ada.
— Ada, ele é o Loki — indicou-me com a cabeça. — Fizemos uma troca temporária. Depois explicamos — disse resumidamente.
Ada olhou confusa de mim para James, mas assentiu. Ele olhou com tristeza para Aredhel, deu um beijo em sua testa e se retirou. Ada e as outras servas começaram a cortar a roupa de Aredhel. Por primeiro, cortaram sua blusa e depois a calça. Ela possuía hematomas por todo o corpo e no rosto também. Senti um nó na garganta ao ver o enorme hematoma nas costas dela. Lorelei quebrara duas costelas de minha esposa e, pelo que Eir descobriu durante o exame na forja de almas, perfurara o pulmão dela. Ela ainda estava com três dedos da mão direta e o nariz, quebrados. No que dependesse de mim, a morte de Lorelei seria lenta e dolorosa.
Depois de controlado o sangramento e ter os demais ferimentos medicados, as servas colocaram um vestido branco em Aredhel. Eir me afirmou que Aredhel estava fora de perigo, mas que se recuperaria lentamente. Depois Ada, Eir e as servas se retiraram, deixando-me a sós com minha mulher. Sentei em uma das cadeiras ao lado da cama e acariciei seus cabelos. A respiração de dela era irregular e parecia sufocar às vezes. Seu nariz estava inchado, seus lábios machucados e tinha o olho direito totalmente roxo. Aredhel tinha ainda um hematoma na lateral direita de seu rosto próximo ao queixo e um corte no supercílio esquerdo. Cerrei os punhos com raiva e mordi um deles tentando me conter. Minha esposa estava quebrada por fora e eu por dentro.
De repente James entrou na sala e se sentou em uma cadeira ao lado da cama de Aredhel.
— Loki… — olhou-a de cima a baixo. — O que aconteceu? Como Aredhel ficou assim? Ela vai ficar bem? — perguntou aturdido.
Contei a James tudo o que ocorreu em nossa ida para a outra realidade. Comecei contando sobre a visita à família de Aredhel. Ele ficou visivelmente irritado com o que revelei sobre Wilson.
— Não sei se teria ficado tão quieto se o ouvisse falar assim com ela — meneou a cabeça com um semblante sério. — Estou surpreso que tenha se controlado tanto.
— Eu sabia que se abrisse a boca para falar algo, não conseguiria me controlar mais — trinquei os dentes. — Tive vontade de matar aquele velho! — confessei.
— Mas você fez algo que eu faria... — murmurou pensativo. — Quando eu disse daquela vez que apoiaria Aredhel, caso ela quisesse lhe deixar, eu falei a verdade — passou a mão pela nuca. — Eu a ajudaria com o que pudesse. Ela nem precisaria se preocupar em devolver o dinheiro — deu um sorriso tímido. — Cuidaria dela — olhou na direção dela e franziu o cenho.
— Sei que sim… — anuí.
— Não me interprete mal, Loki — atalhou. — Fiquei com receio que você fizesse mal a ela novamente. Mas isso é passado — balançou a cabeça. — Sei o quanto você a ama e o quanto quer reparar seus erros do passado. Você tem mudado muito e sei que Aredhel é feliz ao seu lado. Assim como você, eu também quero o bem e a felicidade dela — sorriu.
Em seguida, continuei narrando a James a história. Contei sobre nosso encontro com Lorelei e Amora, até a chegada de Sif.
— Minha nossa, Loki — pareceu chocado. — Eu realmente não sei como você conseguiu assistir tudo sem poder fazer nada. Eu… — crispou os lábios. — Eu só posso imaginar como você se sentiu impotente diante da situação — olhou-me entristecido.
Olhei para ela e seu rosto estava mais inchado do que antes. Os hematomas pareciam maiores e ainda respirava com dificuldade. Peguei sua mão machucada entre as minhas e a fitei com pesar.
— Não se preocupe, James. Lorelei, Amora e Thanos pagarão muito caro por tudo isso — afirmei entredentes.
— E quanto a William e os pais dela? — ele franziu a testa.
— William tem muitas explicações a dar — cerrei meus punhos. — Afinal, mesmo estando sob os encantos de Lorelei, ele se juntou com Thanos antes da fuga dela — a raiva latejava em minha cabeça. — E o pai dela ouvirá algumas verdades… — trinquei os dentes.
— Então o plano de Thanos é atacar Asgard? — mudou de foco.
— Aparentemente sim… — tamborilei os dedos sobre o braço da cadeira. — Pelo menos foi o que Lorelei falou. Disse que viriam até Asgard atrás de mim e Aredhel. Mas desconfio que Thanos planeje algo mais do que só se vingar de mim. Vingança é apenas uma distração para ele… Tem algo que não estou conseguindo enxergar — pensei alto.
Continuamos conversando por mais algum tempo e James me informou que havia se passado quatro meses. Disse que as crianças sentiram muita a falta da mãe. Revelou que Váli e Hela se conformaram com a situação, mas que Narfi não reagira muito bem. O menino andava recluso e evitava falar na mãe.
— Quando eu tentava conversar, ele sempre mudava de assunto. Ele praticamente me ignorava quando falava de Aredhel — disse James preocupado.
— E agora mais essa... — dei um suspiro exasperado e passei as mãos pelo rosto.
Estava esgotado e preocupado, mas tinha que pensar em meus filhos também.
— Talvez ele esteja tentando evitar falar por sentir falta dela — ele prosseguiu. — Agora que ela está de volta, creio que aos poucos ele volte a ser o mesmo de antes. Por falar nisso... — fez uma pausa. — Vou avisar as crianças que vocês voltaram — levantou-se e saiu.
Passado algum tempo, James retornou junto com Greta, trazendo as crianças. Váli ficou boquiaberto ao ver a mãe naquele estado. Narfi ficou olhando impassível para Aredhel. Hela abraçou James e começou a chorar. Greta levou as mãos à boca segurando um lamento.
— Papai... O que.. O que houve com a mamãe? — perguntou Hela, aos prantos, para James.
Ele me olhou meio encabulado e abraçou a menina. Tínhamos que mudar nossa aparência e desfazer essa troca rapidamente. Isso ainda confundiaos mais novos.
— Pai, quem fez isso? — murmurou Váli com uma expressão de fúria no rosto.
— Meu filho, depois nós conversamos sobre isso — comentei com cautela. — Prometo lhe contar tudo –- pus as mãos sobre seus ombros e deu um suspiro triste.
Váli e Hela aproximaram-se da cama de Aredhel. Váli tocou levemente o rosto da mãe. Vi sua boca formar uma linha fina e ele cerrar os punhos. Hela pegou a mão esquerda da mãe e a beijou, enquanto chorava copiosamente. Narfi ficou olhando Aredhel por um tempo, depois franziu o cenho e começou a chorar. O menino correu para a cama e se debruçou sobre a mãe debulhando-se em lágrimas.
— Papai... A m-mamãe... Vai... Vai f-ficar bem? — a pergunta de Narfi, mais uma vez, foi direcionada à James, em meio a soluços.
— Ela vai ficar bem... — murmurou James passando a mão pela cabeça de meu filho.
Algum tempo depois, meus filhos se retiraram e Siegfried e Sigrid também vieram ver Aredhel. Sigrid também chorou. Os dois ficaram algum tempo e depois também se retiraram. Ada retornou e então decidi me retirar juntamente a James e Greta. A jovem nos informou que Aredhel havia lhe deixado instruções para nos ajudar a voltar a nossa real aparência. Fomos para um dos banheiros e Greta tingiu meus cabelos e cortou os cabelos de James. Usei a magia e fiz meus cabelos crescerem um pouco. Estavam curtos demais.
Após vestir meu traje ponderei que no final, aquele disfarce foi uma perda de tempo para mim. Sem poder usar meus poderes para socorrer minha esposa, teria energia de sobra manter a imagem de James ou assumir qualquer outra forma. O velho inimigo chamado medo falou mais alto. Por um medo primal, concordei em anular minha principal habilidade e, ainda assim, assisti Aredhel ser massacrada.
No resto daquele dia fiquei me atualizando com Fandral e Heimdall sobre as questões do reino. Pedi para Heimdall redobrar a vigilância e tentar observar os movimentos de Jack. Lorelei, Amora e Thanos conseguiam se esconder de Heimdall. Depois de resolver algumas pendências, voltei para a sala de cura a fim de ficar ao lado de minha esposa.
À noite as crianças vieram ver a mãe mais uma vez. Eu os levei até seus quartos e os coloquei para dormir. Váli me deu um abraço apertado e disse que sentira minha falta e de Aredhel. Abracei-o de volta e dei um beijo em seu topo.
— Eu te amo, pai — sorriu.
— Também te amo, Váli — murmurei.
Eu passei a noite ao lado de Aredhel. Acabei cochilando apoiado na cama dela. Sonhei que ainda era um garoto e que Thor e eu estávamos em Midgard, nos divertindo como sempre. Estávamos em uma floresta, próximo a uma vila, quando vi uma garota de cabelos escuros, com um vestido esfarrapado, andando perdida. Aproximei-me dela e então ela me encarou surpresa. Notei que tinha os olhos castanhos escuros, iguais ao de Aredhel. Na verdade, ela muito me lembrava dela. A garota correu para se esconder. Percebendo tratar-se de uma brincadeira, entrei no jogo e corri atrás dela. Alcancei-a com facilidade e a encontrei escondida perto de uma rocha.
Ela tinha um belo e doce sorriso. Conversamos amenidades e, repentinamente,a jovempassou a sorrir malignamente para mim. Possuía nos olhos um brilho diferente, mas, ao mesmo, tempo familiar. Tentei me afastar, entretanto não consegui fugir e me vi encurralado. Com um largo sorriso maquiavélico,ela veio em minha direção com uma adaga para me atacar. Tentei me defender e instintivamente a empurrei. Embora não tivesse usado muita força, a garota se chocou contra uma árvore e caiu de bruços no chão. Preocupado e me sentindo culpado, me aproximei dela e, ao virá-la, fiquei chocado com o que vi. A jovem era Aredhel e estava morta.
Caí de joelhos no chão desesperado e rompi em prantos. De repente o corpo dela desapareceu e comecei a ouvir a voz de Aredhel repetindo incansavelmente que não havia acreditado nela. Desesperado, saí a sua procura da fonte daquela voz e deparei-me com um lago. Ao olhar meu reflexo na água me via mais velho. Sentia um vazio e com uma dor no peito. Era como se esperança de ser feliz tivesse morrido há muitos anos. Parecia que meu sofrimento jamais teria fim. Tomado pela dor e a culpa, me vi afundar no lago.
Acordei de forma abrupta, muito assustado com o pesadelo. Notei que era madrugada ainda. Senti lágrimas descendo por meu rosto. A dor, o vazio e a desesperança que eu senti no sonho eram tão reais. Olhei para Aredhel e ela ainda respirava de forma anormal. Aproximei meu rosto do dela e encostei meus lábios em sua fronte. Depositei um beijo em sua testa e permiti-me chorar a angustia que sentia pelo estado em que ela se encontrava e pelo pesadelo que tivera.
Tudo parecia remeter àquele passado ainda recente e do qual carregaria o arrependimento pela eternidade. Além do remorso, a perda revelou que minha sanidade, minha vida, dependia intensamente do amor de uma mulher. Jamais imaginei que um dia ficaria tão vulnerável e dependente. Perguntei-me porque levei tanto tempo para perceber que ela era minha vida, meu doce e grande amor.
Tentei não pensar muito no que sonhara. O pesadelo era angustiantemente sombrio e macabro. Passei o resto da noite acordado, cuidando de minha esposa.
Na manhã seguinte, graças às magias e aos remédios, Aredhel já respirava com menos dificuldade e os inchaços começavam a diminuir. Antes do almoço um dos guardas veio me informar da chegada de Sif e da família de minha esposa.
Sif estava ao lado de dois guardas que amparavam William. Mary parecia aflita, enquanto Wilson bufava de raiva.
— Loki? — perguntou Sif meio em dúvida e eu apenas confirmei com a cabeça. — Estão aqui conforme você pediu. O que faço com ele? — referia-se à William.
— O que esse louco quer conosco? — começou Wilson na defensiva. — É um absurdo que, por causa de Aredhel, tenhamos que... — tagarelava.
— Cale-se! — rugi e o velho se assustou. — Lady Sif, peça aos servos que providenciem acomodações para os três. Mas quero vigilância sobre eles — Wilson bufou. — William deve permanecer trancado no quarto — ordenei. — Ele ainda deve levar alguns dias para sair do feitiço de Lorelei.
— Vai nos vigiar como se fôssemos criminosos? Vai manter Will preso? Por quê? — insistia o velho. — Isso é sequestro! — exaltou-se. — Com certeza isso deve ser tudo culpa de Aredhel! Eu disse que ela não deveria ter ido se esconder lá em casa! Aredhel só nos causa problemas! — rosnou.
— Basta! — gritei — Eu já estou cansado de ver você falando disparates sobre Aredhel! Você a maltrata e vive a humilhando! Aredhel é minha esposa, mãe de seus netos e sua filha, então você deve respeito a ela! Deveria ser grato a ela, pois você e William só estão vivos pelo amor que tenho a essa mulher! É por ela que os trouxe para cá! — berrei.
Mary se encolheu e começou a chorar nervosamente. Wilson não pareceu se intimidar.
— Você ama Aredhel? — deu um sorriso cínico. — James disse que você tentou matá-la! Por isso ela fugiu!
— Eu a… — suspirei — Eu a machuquei, é verdade... — confessei. — E mesmo tendo feito isso de forma não intencional, carregarei essa culpa pelo resto da vida! — fui sincero. — Quanto à visita a sua casa, eu era o James! — revelei. — Estava disfarçado. Aredhel nunca fugiu de mim! Fomos até a sua realidade para investigar o que o povo de sua Midgard estava tramando contra nós! Seu filho tramou contra a própria irmã! Juntou-se a Thanos e foi até a Midgard dessa realidade ajudar Thanos a controlar a mente de Thor! A confusão causada quase custou a vida de Aredhel teve a participação de seu filho! — vociferei.
— Eu não acredito nisso! Meu filho não faria isso! — retrucou o velho.
— Seu filho está envolvido, sim, nisso tudo! Está afundado nesta lama até os cabelos! E agora ele voltou a tentar contra a vida da irmã! — falei entredentes e agarrei o braço de Wilson. — Venha ver o resultado do que William fez!
Arrastei o velho até a sala de cura. Mary veio atrás nos seguindo desesperada. Entramos na sala de cura.
— William entregou a própria irmã à mulher que fez isso a ela! — rosnei mostrando Aredhel na cama.
Mary deu um grito. Wilson ficou boquiaberto.
— Minha filhinha! — a mulher rompeu em prantos.
— Você está inventando toda esta história! — negava exaltado. — Com certeza foi você quem fez essa atrocidade a ela! Você é um monstro! Olhe o estado de minha filha!
— Pare de agir como se realmente se importasse com a sua filha! — trinquei os dentes. — Eu não fiz e nem nunca faria isso! Ao contrário de você, eu a amo! O que para você foi um erro, para mim foi minha salvação! Você pode não gostar da filha que tem, mas ela é tudo para mim! Aredhel é um tesouro inestimável ao qual você nunca deu valor! Você é um péssimo pai! Não merece a filha que tem! Monstro é você que sempre descontou suas frustrações em Aredhel e é incapaz de amar a própria filha! — vomitei as palavras sobre o velho.
— Ora seu... — começou Wilson, pronto para rebater.
— Chega, Wilson! Chega! — gritou Mary. — Eu só quero ficar em paz com a minha filha! — disse em meio às lágrimas.
— O que está acontecendo aqui? — indagou Eir aparecendo repentinamente. — Aqui é um local de recuperação. Respeitem o lugar e o estado da rainha — ralhou.
Wilson bufou e saiu da sala a passos firmes. Mary olhou para mim com tristeza e voltou a olhar para Aredhel. Sentou-se em uma das cadeiras e acariciou os cabelos da filha.
— Desculpe-me, Mary... — murmurei tentando me acalmar. — Eu só não suportava mais essa situação com seu marido. Eu… — exalei o ar lentamente. — Eu sinto muito...
Mary nada disse e permaneceu sem tirar os olhos da filha. James entrou na sala e olhou de mim para Mary.
— O que houve? Wilson passou por mim furioso — el franziu o cenho.
— A verdade nunca é algo fácil de engolir — murmurei entristecido.
— Ah... — pareceu entender o que havia ocorrido.
James pôs uma de suas mãos sobre o ombro de Mary e a confortou.
— Ela vai ficar bem... — ele murmurou.
— Vou buscar as crianças para você ver, Mary — falei, envergonhado.
Eu não sabia exatamente como me comportar ou o que dizer àquela mulher. Afinal eu também havia falhado duplamente com sua filha. Errei quando duvidei dela e quando não a protegi.
— Quem fez isso com minha filha? — ela perguntou em meio a um soluço — Por quê?
James acenou com a cabeça para mim indicando que eu fosse buscar as crianças.
— Eu vou lhe contar tudo... — James apanhou uma cadeira e se sentou.
Retirei-me da sala e assim que encontrei Greta, pedi que levasse as crianças para verem a avó. Um dos guardas me avisou que William já estava trancado em um dos quartos. Solicitei que me avisassem assim que ele acordasse. Aproveitei a oportunidade para perguntar por Wilson e fui informado que ele também estava em um dos aposentos e que, conforme minhas ordens, ambos estavam sendo vigiado. Chamei Fandral, Volstagg, Hogun e Sif para conversarmos sobre o que descobrimos na outra realidade.
— Temos que nos preparar para um possível ataque. — falei inicialmente. — Creio que Thanos planeja nos atacar, mas não tenho ideia de quando isso acontecerá. Pretendo interrogar William assim que ele estiver em condições — expliquei.
— Heimdall está mais vigilante do que nunca enós já estamos reforçando os Einherjar — revelou Fandral. — Inclusive estamos convocando e treinando mais homens para compor a nossa guarda de elite. Na verdade gostaria de sugerir que um novo exército de Valkyries seja criado.
— Mas quem as treinaria? — indaguei. — Não houve sobreviventes daquela época.
— Podemos fazer uma seleção e começar do zero — o loiro deu de ombros.
— Acho de devemos avisar Thor — disse Sif. — Ele prometeu ajudar a proteger Asgard.
— Acho que Thor deve estar muito ocupado agora. O bebê já deve estar quase para nascer — comentou Volstagg.
— Que bebê? — Sif indagou com uma expressão no rosto que misturava medo e confusão.
— Volstagg! — ralhou Hogun.
— Vocês ainda não contaram a ela? — fechei os olhos es suspirei.
— Não deu tempo... — murmurou Fandral.
— Contar o quê? O que eu não estou sabendo? — ela se exaltou.
— Sif... Thor se casou com Jane alguns meses atrás. E ela espera um filho dele — Fandral revelou com cautela.
Sif abriu a boca como se fosse dizer algo, mas logo voltou a fechar e saiu às pressas do salão. Fandral saiu atrás dela.
— Pobre Sif... — apenou-se Volstagg.
— Hogun... — retomei o assunto. — De qualquer forma, Thor precisa saber o que houve. Combinamos que assim que tivesse alguma informação eu os avisaria. Além disso, não temos certeza que o plano de Thanos não pode oferecer alguma ameaça a Midgard. Afinal, Lorelei estava lá antes de ser presa. Sem contar que talvez realmente precisemos da ajuda de Thor no caso de uma batalha — explanei.
— Eu irei avisá-lo se assim quiser — prontificou-se.
Ao final da conversa, ficou combinado que Hogun partiria para Midgard no dia seguinte.
No almoço encontrei meus filhos, Siegfried e Sigrid almoçando. Logo depois James chegou acompanhado de Greta e se juntou a nós. Aredhel há um longo tempo havia banido a “hierarquia” no que dizia respeito à Greta e os amiguinhos de nossos filhos. Eles faziam as refeições conosco regularmente. No início a ideia não me agradou, mas, com o passar do tempo, não me importava mais. Aredhel trouxe consigo ideais de mudança e rapidamente me vi concordando com elas.
— E Mary? — dirigi-me a James.
— Ela foi descansar — informou. — Estava muito abatida. Expliquei tudo e ela ficou chocada com o envolvimento de William nisso tudo.
— Obrigado pela ajuda, James. Eu tinha que tomar algumas providências urgentes. Hogun irá até Midgard avisar Thor e os demais sobre o ocorrido —comentei. — Eles também precisam estar preparados.
— Verdade — concordou. — Ah... Eir pediu para avisar que Aredhel será levada para o quarto de vocês. Ela já não corre mais perigo — revelou.
— Mamãe vai ficar bem? — perguntou Narfi.
— Vai, meu filho. Logo ela estará bem — afirmei.
Depois do almoço Váli me procurou e voltou a pedir que revelasse quem havia feito aquilo com a mãe. Pacientemente tive uma longa conversa com ele e expliquei o ocorrido. Ele ficou pasmo com a participação do tio na situação, mas acreditava que o tio também poderia estar sob o controle de Thanos. Eu não quis discutir isso com ele, por mais raiva que eu tivesse de William, não jogaria meu filho contra ele. Eu já tinha problemas de família o suficiente para me preocupar.
No meio da tarde fui ver Aredhel e a encontrei dormindo. Ainda tinha a respiração dificultosa, mas parecia muito melhor. Fiquei algum tempo sentado ao seu lado lendo um livro e, sem maior aviso, ela acordou. Abriu o olho esquerdo, mas o direito continuou meio fechado devido a seu inchaço.
— Jim? — fitou-me meio confusa e depois olhou ao redor.
— Não, sou eu, meu amor. Estamos em casa — falei acariciando seu rosto.
Ela tentou se sentar na cama, mas não deixei.
— Não, Aredhel. Você ainda está se recuperando. Precisa descansar — ralhei.
—-- Eu estou bem — fez um muxoxo e tentou sentar novamente, mas deu um gemido de dor.
— Não seja teimosa. Você teve duas costelas quebradas — alertei.
Ela desistiu de se sentar e voltou a se deitar, pareceu extremamente cansada após aqueles poucos movimentos.
— Eu devo estar horrível — ensaiou uma careta. — Meu rosto e corpo doem — confessou.
— Sua aparência deveria ser a última de suas preocupações neste momento. Para mim você continua linda — dei um beijo em sua fronte. — Eu vou cuidar de você — afaguei seus cabelos.
Aredhel sorriu timidamente e pôs sua mão na minha.
— Eu sinto muito — disse entristecida. — Não queria dar trabalho. Não queria ser tão fraca.
— A culpa não é sua — indignei-me. — Você não é fraca — encarei-a. — Aguentou firme até o fim. Fui eu que fracassei com você… Não pude defendê-la… Foi uma tortura assistir você quase ser morta e eu não poder fazer nada...
— Não se sinta culpado, meu amor... — murmurou levando a mão até meu rosto. — Por isso que fui incisiva quando disse que teria que se controlar... — deu-me um olhar triste. — Não sabia exatamente o que aconteceria… No sonho me vi apanhando e você estático olhando. Mas ouvi claramente uma voz me dizendo que tudo ficaria bem enquanto você continuasse só olhando — explicou.
Aredhel pareceu ficar sem ar depois de falar tanto. Respirava pesadamente.
— Se eu soubesse disso, não levaria você… Teria pensado em outra coisa, sei lá…
— Eu sei disso, por isso não lhe contei tudo.
— Lorelei vai pagar caro pelo que fez a você — prometi.
— Queria eu mesma poder dar o troco a ela... — murmurou irritada. — E Will? — olhou-me assustada. — Ele está bem? Você não fez nada a ele, não é? Como voltamos para cá? — disparou.
— William está bem, ele e seus pais estão aqui — fui sucinto. — Depois que Lorelei parou de... — fechei os olhos com raiva — ...lhe bater, ela se retirou levando aqueles homens todos. Mandou que William e eu levássemos você para uma cela. Eu desacordei seu irmão e ia lhe socorrer quando Sif chegou. Pedi que ela trouxesse seu irmão e seus pais para cá — contei.
— E quanto tempo se passou? E nossos filhos? — ficou agitada. — Eles estão com raiva de mim? — franziu o cenho preocupada.
— Passaram-se quatro meses — revelei. — Eles estão bem. Narfi estava meio estranho, taciturno, evitava falar de você, mas depois que ele lhe viu, aparentemente voltou ao normal.
— Meu Deus... Eu praticamente os abandonei... Eu quero vê-los, por favor — pediu.
— Acalme-se. Vou trazê-los, mas fique aí quietinha.
Levei as crianças para vê-la. Nossos filhos ficaram animados ao verem a mãe acordada. Várias vezes tive que pedir que tomassem cuidado, tamanha era a agitação. Contaram sobre o que fizeram e aprenderam no tempo em que ela esteve fora e o quanto “eu” fora carinhoso com eles em sua ausência. Fiquei feliz de descobrir que eles praticamente não perceberam a troca. Após beijos e muitas demonstrações de carinhos, finalmente os convenci a deixarem a mãe descansar. Depois que saíram, Aredhel tentava recuperar o fôlego, visivelmente cansada.
— Temos que avisar Thor e os outros. Não sabemos se Thanos tem planos de atacar a Terra ou não — ela voltou ao assunto de antes.
— Hogun irá a Midgard avisá-los. Não se preocupe.
— Sabe, Loki… — ficou pensativa. — Eu tive um sonho estranho.
— Foi um daqueles sonhos premonitórios? — perguntei meio preocupado.
— Não... Foi só um pesadelo esquisito. Ouvia você me chamando, mas não te encontrava. Depois sonhei que era outra pessoa e tentava lhe matar — mordeu o lábio.
Percebi que o pesadelo era semelhante ao que tive, mas preferi não comentar. Ela precisava de paz.
— Deite aqui ao meu lado — pediu e me puxou pela camisa.
Fiz o que queria e ela ficou me observando.
— Você sabe que eu jamais te machucaria — disse olhando em meus olhos.
— Eu sei, meu amor… — afirmei.
Eu a fiquei olhando toda machucada e me lembrei da tortura que passei ao vê-la apanhar e ir aos poucos perdendo as forças. Senti uma pontada no peito ao lembrar os chutes que ela levou e do barulho que ouvi quando seus ossos se quebraram. Passei os dedos por seu rosto e senti um nó se formar em minha garganta. Tambémrecordei do dia em que a matei e de todo o desespero que vivi. Havia uma linha tênue, mas muito clara, entre o intento e a ação. O autor preferido de James dissera em uma de suas peças, que “a intenção é escrava da memória”. Eu reformularia esta frase e diria que a intenção é escravade sentimentos e atos. Nunca imaginei que a machucaria um dia. Conscientemente jamais faria algo contra ela, mas, ainda assim, acabei fazendo. No final daquele drama, a intenção não importava, mas sim consequências de emoções e atos descontrolados. Tudo que eu podia fazer era manter meus sentimentos e minhas ações escravas de minha memória e que esta ficasse viva e alerta por milênios, até o fim de minha vida.
— Tive tanto medo de te perder... — confessei, ainda absorto.
Ela se inclinou e me beijou nos lábios. Tentei ir com calma e cuidado, mas havia uma ansiedade crescente emanando tanto dela quanto do meu interior. O beijo rapidamente perdeu seu controle e se intensificou feito as minhas emoções daquela noite terrível. O autocontrole sobre meus sentimentos eram como uma vela ao vento, bastava uma brisa para se apagar. Quando se tratava daquela mulher minha racionalidade ia às favas e o que eu sentia fustigava feito um vento forte em dias tempestuosos.
Só percebi que ela sufocava quando senti sua mão empurrar meu peito. Abri os olhos e a encontrei com um olhar aturdido, arfando desesperadamente. Ela agarrou minha camisa e seus olhos se encherem de lágrimas. Eu rapidamente a socorri, mas ao respirar, ela chiava cada vez mais.
— Aredhel, respire, meu amor. Respire lentamente. Inspire e solte o ar devagar — instruí com o desespero latente na voz.
Ela tentou fazer o que pedi por um tempo, mas estava cada vez mais pálida. Seus lábios começaram a ficar roxos e aos poucos foi soltando a minha camisa.
— Por favor, meu amor... Devagar... Respire devagar… Por favor... — implorei.
Aredhel me olhou com lágrimas descendo pelo rosto, tombou a cabeça contra meu peito e desmaiou.
Segundos depois ouvi minha própria voz pedir por socorro, em um dos intervalos nos quaiseu impelia o ar em sua boca.
— Respire meu amor, respire. Por favor, por favor, por favor... — supliquei às lágrimas enquanto repetia o procedimento.
Ali estava, mais uma vez, o resultado de minha falta de controle sobre o que sentia por ela.
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