A mission for life

1 O destino que nos une


Notas iniciais
"O destino encarrega-nos a todos de uma missão, descobrir qual é a nossa, é a parte mais interessante da vida."

3 da manhã, Setembro

Mãe… está na hora.” –sussurrei. Tinha ficado acordado até à hora combinada e a minha mãe ainda dormia. Encostei-me à borda da cama para a abanar um pouco e recebi um queixume.

Saí e fui para o meu quarto para acabar de arrumar as malas, íamos levar pouca coisa, apenas o essencial. A maior parte das coisas que eu tinha ficaram estáticas no mesmo sítio onde tinham sido colocadas, não fazia mal, também não ia sentir saudades delas. Íamos deixar tudo para traz, e isso significava deixar também os bens materiais. Cada objecto para onde eu olhava trazia lembranças, lembranças que eu não queria lembrar e era como se cada um deles estivesse assombrado, queria que esta viajem me livrasse dos fantasmas que me seguiam. “Não há nada a perder” pensei. Salvar a minha mãe, salvar-me a mim mesmo, mesmo que já não houvesse esperança nenhuma. Olhei para a minha cama. Debaixo daqueles cobertores escondia o que mais me fazia feliz, sabia que se ousasse leva-los para o aeroporto seria preso de certeza, como ia fazer? Nem sequer sabia se conseguia sobreviver um dia sem eles. Pensei na minha mãe, não podia ser egoísta, se os levasse arruinaria por completo todas as hipóteses que ela tinha de se livrar dos maus tratos do meu pai. Por mim já não me interessava se ele me batia mais ou menos, as cicatrizes não iam desaparecer de qualquer maneira, mas a minha mãe eu não suportava ver sofrer. Fechei a porta devagar. Com as malas ao ombro fui ter com ela. Com toda a calma acabava de pôr a maquilhagem para esconder as cicatrizes que ainda se notavam ligeiramente. Sorriu para mim. Da última vez que tinha tentado protegê-la, o meu pai tinha-me partido um dedo que ainda permanecia um pouco dorido por não ter ido às urgências. Com todo o carinho de mãe, passou a mão pela minha cara deu me um beijo na testa. “Vamos, já perdemos muito tempo…

***

Quando chegámos ao aeroporto respirei de alívio, metade do caminho estava feito sem qualquer problema, se por acaso o meu pai viesse a saber do que estávamos a planear fazer não acredito que pudéssemos continuar sequer vivos.

Preciso de tomar um chá para acalmar os nervos…” a minha mãe tremia, imagino o medo que devia estar a sentir.

Hei…” Abracei-a “ Vai correr bem, estamos quase lá” Ela deu um sorriso nervoso.

O aeroporto era enorme, muita gente circulava perdida nos seus pensamentos, compromissos e objectivos. Sentámo-nos num café á espera que os passageiros do nosso voo fossem chamados. Acabei por beber um café porque não tinha dormido nada e a minha cabeça estava pesada.

Não sei se quando chegarmos já vamos ter a chave do apartamento por isso antes de tudo eu tenho que ir regularizar umas coisas na empresa onde vou trabalhar

“E eu?”

“Tu vais ver a tua nova escola claro”

Mãe… não dormi nada esta noite

Dormes no avião Matt, por favor…” Apesar da minha expressão de descontentamento, a cara de desespero da minha mãe fez-me fazer-lhe a vontade. Assenti.

De repente uma voz acompanhada pelo seu eco anunciou a partida do nosso avião por todo o aeroporto. Peguei na maior parte das malas e juntamente com a minha mãe dirigimo-nos para a plataforma de entrada. A cada passo que dávamos estávamos mais perto da felicidade, era agora, nada podia correr mal, ainda olhei para traz para verificar se ninguém nos queria impedir. Não, nada nem ninguém o ia fazer, tínhamos entrado. As hospedeiras ajudavam-nos a arrumar as malas de mão e a arranjar um lugar lado a lado. Logo a seguir à minha mãe, sentei-me. Preparávamo-nos para um voo de 10 horas e meia e eu estava quase a adormecer. Pousei a cabeça no ombro da minha mãe. Passado um quarto de hora o piloto anunciou a partida, o avião descolou, tínhamos conseguido.

***

Os campos de arroz cercavam-nos. Esta mudança de ambiente fez-se sentir logo que pisei pela primeira vez o solo do Japão no aeroporto, tinha pesquisado e achava que o ar ia ser mais difícil de respirar, mas pelos vistos isso é só nas grandes cidades, estávamos a mudar-nos para uma pequena cidade no campo daí respirar ser ainda mais agradável do que em Seattle ou Tóquio. O táxi andava de aldeamento em aldeamento, para um rapaz como que eu que estava habituado a viver no meio de apartamentos e confusão, as pequenas casa tradicionais japonesas e serenidade faziam-me ter medo de que, apesar de ser bonito, tivéssemos ido parar ao fim do mundo. A minha mãe parecia feliz, eu sabia que uma das coisas que ela mais queria era viver no campo. Os campos eram de perder a vista, a estrada era antiga e tudo tinha um ar campestre. As casas eram rodeadas por árvores e mais ao longe conseguia avistar uma pequena cidade com uma pequena aglomeração de casas e alguns pequenos apartamentos.

É ali” A minha mãe apontou para a pequena cidade.

O céu estava azul com algumas nuvens, estava fresco e um pouco de vento por ser Outono, vários agricultores passavam de bicicleta no sentido contrário ao nosso com os legumes amarrados ao selim, algum acenavam, outros seguiam o seu caminho sem parar. Depois de mais 30 minutos de viagem uma placa praticamente gasta pela chuva e pelo tempo anunciava em Japonês com uma tradução inglesa: “おいでやす田舎館!- Welcome to Inakadate

Cidade tem anualmente época de Tanbo no Geijutsu (*arte nos campos de arroz) desenhos gigantes nos campos, muito bonito.” O taxista falava alegremente com o seu fraco inglês. Apercebi-me do quão difícil ia ser habituar-me a aquela língua completamente diferente da minha. A minha mãe ficou com as malas e pediu ao taxista para que me deixasse na escola da cidade. Com 18 anos, um ano de atraso na escola e agora uma mudança extrema de país, costumes e línguas, eu não fazia a mínima ideia de que em que turma ia ficar, e se ia perceber alguma coisa. O taxista deixou-me em frente a uma grande escola igual às que eu costumava ver nos animes na América, alguns alunos estavam sentados nos bancos completamente distraídos a almoçar. Entrei.

Comecei a andar pelo pátio até chegar à porta de entrada. À medida que andava, mais pessoas me olhavam e falavam coisas que eu não percebia, olhei para mim, era o único que não usava uniforme. As raparigas, com as suas minissaias, meias acima do joelho, camisas brancas e pequenas gravatas, cochichavam provavelmente sobre mim e os rapazes, com as suas camisas e calças passadas meticulosamente a ferro, olhavam-me como se fosse de outro mundo, o que de uma maneira ou de outra, até era.

Um professor, provavelmente de inglês, veio até mim e curvou-se, fiz o mesmo desajeitadamente. Enquanto andava-mos até à minha sala cumprimentou-me e a deu-me as boas vindas. Quando chegámos à sala e a porta se abriu, um outro professor curvou-se e disse alguma coisa em Japonês, confuso, acabei por sorrir e deixar as coisas andar com esperança de que acabasse rapidamente. Os alunos da turma levantaram-se e curvaram-se também dizendo “Welcome Matthew-san” como o professor provavelmente lhes tinha pedido. Estranhamente, havia mais rapazes do que raparigas, o que era mau para uma pessoa como eu que costumava afogar as mágoas nos lábios das raparigas. Colocaram-me no segundo grau do ensino superior (*correspondente ao 11ªano) com a disciplina de língua estrangeira.

O professor de inglês que ainda ali estava traduziu: “Eles iam agora à biblioteca fazer uma pesquisa, querem que vás com eles.

Acenei com a cabeça que sim. O professor de inglês continuou enquanto chamava uma rapariga bastante mais baixa que eu, de cabelos castanhos até aos ombros, muito sorridente que caminhava direita e em equilíbrio até mim. Em vez de se curvar, estendeu a mão numa tentativa de me fazer sentir mais em casa. Enquanto eu a cumprimentava com o aperto de mão ela apresentava-se- “Watachi no namae wa Chinatsu desu”- Depois traduziu em inglês-“ O meu nome é Chinatsu

O professor de inglês começou a falar -“Esta é a nossa melhor aluna a Inglês, se precisares de alguma coisa podes sempre pedir-lhe ou perguntar-lhe”- A rapariga continuava ao meu lado, pegou-me na mão levemente e conduziu-me atrás do resto da turma que veio toda tentar falar comigo, embora maior parte não conseguisse dizer uma única frase em condições. Chinatsu, muito enérgica e dominante, traduzia e retraduzia o que eu e os outros diziam e fazia maior parte das perguntas.

Quando chegámos à biblioteca, Chinatsu disse-me que era suposto, durante o resto da aula, procurarmos livros que nos interessassem para fazer uma apresentação na aula sobre eles e foi ter com as amigas, triunfante.

Mal fiquei sozinho dirigi-me à estante de banda desenhada e comecei a ver o que lá tinham, peguei em alguns mangas e comecei a folheá-los. Passado pouco tempo comecei a sentir tonturas, precisava urgentemente do que tinha deixado em casa debaixo dos cobertores, tinha de fumar alguma coisa e rápido.- “Aguenta mais um pouco”- Pensei, enquanto me tentava distrair com a banda desenhada.

De repente, uma rapariga um pouco mais alta que Chinatsu aproximou-se, andava lentamente e era como se fosse feita para aquele momento, de expressão serena e cabelo negro flutuante que chegava até meio das costas. Pensei que viria falar comigo, afinal, não a tinha visto há pouco, talvez por não gostar de confusões. Mas não, ela sorriu calmamente como um “Olá” ou “Prazer em conhecer-te” e focou o seu olhar nos livros da estante sobre Arte, que estava ao lado da de Banda desenhada. Talvez não falasse bem inglês e não quisesse arriscar. Sorri de volta sem que ela visse e fingi que voltava a ler o meu manga enquanto pelo canto do olho observava o que ela fazia.

Depois de passar o olhar por vários livros sobre pintores dos séculos passados, arte moderna, contemporânea e digital o seu olhar parou num livro enorme e grosso sobre Caravaggio. Desajeitadamente, a menina franzina começou a pegar no livro enorme e com outro braço a tentar chegar aos livros de trás, talvez em busca de outros pintores. Depois de o seu braço esquerdo aguentar muito tempo com Caravaggio, começou aperder a força, e o seu braço direito foi forçado a ajudar a segurar o livro, acabando assim por fazer com que todos os outros livros caíssem num grande estrondo. A rapariga ainda tentou “salvar” os livros que caíam mas não foi a tempo.

Apertou o livro que tinha nas mãos contra ela, começou a ficar vermelha e, num fio de voz, murmurou alguma coisa em japonês que eu não consegui perceber. Olhei para a sua cara, e numa tentativa de me meter com ela, soltei uma pequena gargalhada, pelos vistos ela levou a mal e virou-me as costas. Pelos vistos os japoneses levam as coisas muito a sério.

Mal o sino soou, saímos da biblioteca e perguntei a Chinatsu se podia sair da escola por um momento, ela afirmou que sim e levou-me até à entrada. A única coisa que tinha trazido para fumar eram uns cigarros fracos para acalmar os nervos, naquele intervalo fumei uns 3 até me sentir menos nervoso e as mãos pararem de tremer. Comecei a pensar. Seria possível que o meu pai já tivesse descoberto que não estávamos mais na América? Será que pretendia mandar procurar-nos? Apesar de tudo eu rezava para que ele não quisesse saber de nós e nos deixasse em paz. Fiquei um tempo a ver as nuvens passar e a pensar. Pensei no meu pai, pensei na minha mãe, pensei que talvez não me devesse ter rido da rapariga na biblioteca, mas não tinha sido por mal.

Quando voltei à escola descobri que o sino já tinha tocado há muito e eu estava atrasado. Com alguma pressa tentei dirigir-me para a sala, mas já não sabia onde era. Avistei uma casa de banho e quis ir lavar a cara para ver se me sentia melhor. Enquanto lavava a cara e a água batia no lavatório pareceu-me ouvir o choro de alguém perto de mim. Parei um pouco. Olhei para as divisões da casa de banho, não havia ninguém. Era na divisão ao lado, na casa de banho das raparigas. Com calma para não chamar muito a atenção entrei devagar para ver o que se passava. Em frente ao espelho, de cabeça baixa, a olhar para o lavatório com o cabelo a tapar-lhe a cara e as mãos a agarrarem com força o lavatório, uma rapariga chorava desesperadamente, tremia compulsivamente e a sua respiração era semelhante a uma pessoa com falta de ar. Fiquei de imediato preocupado e sem saber o que fazer, aquela rapariga era inconfundivelmente a rapariga de quem me tinha rido na biblioteca. Aquele sorriso tímido tinha-se transformado numa fonte interminável de tristeza. Não quis acreditar. Mal a rapariga me sentiu entrar no wc levantou a cara rapidamente fazendo alguns cabelos colarem-se à sua cara devido às lágrimas, a sua expressão de medo e surpresa fizeram-me lembrar de quando a minha mãe era violentada pelo meu pai e arrepender-me por ter entrado. Mal saí do estado de choque, dirigi-me à pobre rapariga que tentava conter o choro sem obter resultado. Em inglês e calmamente murmurei- “ O que tens? estás bem? não chores…” A rapariga escondia a cara de mim e afastava-se de cada vez que eu me aproximava e lhe tentava tocar. Quando acabou por ficar entre mim e a parede colocou a mão no peito do lado esquerdo, o que me fez deduzir que havia alguma coisa de errado com o seu coração.

Dói-te o coração?” Tentei afastar a sua mão e sentir o seu coração para ver o que se passava. Mal sentiu a minha mão no seu peito a rapariga empurrou-me a gritar-“YAMETE!!” (*deixa-me!) O seu coração batia muito rápido, demasiado rápido o que lhe devia causar desconforto. Seria possível que estivesse a ter um ataque de ânsia? Pedi desculpa, nervoso. A rapariga não parava de chorar. Juntei um bocado de papel higiénico para ela se assoar. Os seus gritos acabaram por atrair alguns professores incluindo o de Inglês que, ao ver-me ali, quis saber o porquê de eu estar no wc com uma rapariga e porque é que ela estava a chorar. Eu tentava explicar o melhor possível o que tinha acontecido apesar do meu nervosismo. A serenidade dela tinha desaparecido. Fui levado de novo para a sala por Chinatsu que tinha vindo procurar a rapariga com uma amiga que tinha ficado a dar-lhe apoio. Ainda atordoado perguntei a Chinatsu qual era o nome dela

O nome dela é Karakuteyama

Fiz uma cara de incompreensão.

Haha, desculpa, este é muito difícil, ela chama-se Karakuteyama Aiya

Notas finais
Comentem por favor! Bj