A mission for life
2 Primeiro contacto
Notas iniciais
Já tinha passado algum tempo desde que o incidente com a Aiya tinha acontecido e eu continuava sem saber o que realmente se tinha passado com ela. Como se pode imaginar, não é assim muito fácil um rapaz desconhecido e ainda por cima estrageiro como eu, conseguir estabelecer sequer uma amizade com uma rapariga japonesa. Elas são muito conservadoras. Eu nem sequer tinha o direito de saber o que se tinha passado com ela…
De qualquer maneira, e já que era praticamente impossível estabelecer qualquer tipo de contacto com a Aiya, acabei por tentar esquecer o que tinha acontecido e concentrar-me em ajudar a minha mãe nas mudanças e a mim mesmo a integrar-me melhor na escola. Uma das coisas que descobri foi que, ao contrário do que acontecia na América, no Japão, não era costume os rapazes terem um contacto muito próximo com as raparigas e isso foi uma das razões que me impediram de tentar aproximar-me da Aiya mais do que era normal.
Algumas vezes, ainda tentei estabelecer algum contacto visual com ela, isto só resultou durante um curto espaço de tempo porque assim que os seus olhos se encontravam com os meus ela desviava imediatamente o olhar para outro sítio. Depois tentei aproximar-me dela quando alguns rapazes, seus amigos, se juntavam ao seu grupo de amigas para almoçar, mas acabávamos por não falar quase nada, até que depois de tudo, acabei por desistir. Afinal, se ela não queria estabelecer contacto comigo, não era eu que a ia obrigar.
***
“Matt ajuda-me a trazer as compras para cima por favor”
Larguei os auscultadores e desci para ajudar a minha mãe. Desde que nos tínhamos mudado para o Japão as nossas vidas tinham mudado drasticamente e estranhamente, ainda não havia sinal do meu pai. As marcas da violência que a minha mãe tinha pelo corpo começavam a desaparecer e eu conseguia vê-la muito mais feliz embora muito mais cansada por causa do trabalho. Quanto mais tempo passava, mais a nossa mudança me deixava feliz porque a cada dia parecia que todos os maus momentos que tínhamos vivido não passavam de um pesadelo, apesar das lembranças e os medos persistirem na nossa memória.
Os pesadelos continuava a atormentavam-me todas as noites. Sonhos em que o meu pai chegava a casa bêbado e agarrava a minha mãe pelos cabelos abanando bruscamente a sua cabeça até ela perder os sentidos e parar de gritar e chorar. Numa tentativa de acabar com aquele espectáculo de terror lanço-me ao meu pai tentando fazê-lo parar. Inexplicavelmente, em todos os sonhos a minha força não existe e acabo por ser eu a ser espancado e estrangulado acordando completamente sem folgo e a suar. Mas não me podia dar ao luxo de me queixar, a última coisa que a minha mãe precisa é de preocupações e eu sei que apesar de tudo estar mais calmo e de ela parecer mais feliz, a opção de o meu pai nos ter mandado procurar ainda não estava fora de questão e não nos podíamos afeiçoar muito ao sitio onde estávamos, porque a qualquer momento podíamos ter de nos mudar outra vez para fugir do meu pai.
Outro problema que não saía da minha cabeça era o facto de há várias semanas não consumir nada e de a minha condição estar a piorar cada vez mais. Na América não exagerava muito para não dar muito nas vistas e acabei por não me tornar exageradamente dependente e talvez tenha sido isso que me tem safado no Japão. Sem ninguém em quem confiar realmente e sem dinheiro era impossível arranjar nem que fosse uma pequena dose para ir aguentando. Tentar contactar com os meus amigos na América também estava fora de questão, pois podia estar a comprometê-los e a revelar onde eu e a minha mãe nos encontrávamos. Estava num buraco sem saída e a cada dia me sentia mais fraco, as minhas mãos tremiam cada vez mais e a minha falta de concentração e dor de cabeça aumentavam, sendo que nos primeiros dias de aulas, tive de ficar em casa sob o pretexto de estar constipado. Por mim, talvez parasse, mas a dependência era mais forte que eu. Tinha de arranjar rapidamente uma maneira de comprar um pouco de droga, o mais rapidamente possível.
“Obrigada… “ A minha mãe tentava pegar em vários sacos ao mesmo tempo com a minha ajuda. Pousei-os em cima da banca da cozinha e encostei-me à mesa a comer dum dos donuts que ela tinha trazido da loja de conveniência. Este era um dos meus truques para combater o nervosismo devido à falta de cigarros, o açúcar acalmava-me bastante.
“Então… “ A minha mãe tirava as cenouras dos sacos e começava a cortá-las enquanto tentava meter conversa comigo. “Como foi o teu dia?” A típica conversa de mãe. Aquela pergunta simples, mas para a qual todos tínhamos de estar reparados com antecedência e de separar bem quais eram os acontecimentos do nosso dia que nos convinha relevar ou não. Como nas últimas semanas as únicas coisas que me tinham acontecido eram o meu incidente com a Aiya, os constantes pesadelos e a minha fraca condição física, de todos acabei por escolher o que achei que me traria menos problemas em revelar. Fiz um longo silêncio a pensar como conseguiria começar a falar do assunto e depois de uma dentada no donut rompi o silêncio.
“É uma rapariga…”
Fui imediatamente interrompido pela minha mãe que continuava a cortar as cenouras sem desviar o olhar “Matt?! Já?!”
“Tem calma! Não é o que estás a pensar… Mas sim, eu conheci uma rapariga, chama-se Aiya” A minha mãe largou a faca e as cenouras e virou-se para mim com um olhar intrigado e atento. Acenou com a cabeça como sinal para que eu continuasse a falar. Não era normal eu relevar tanto da minha vida à minha mãe e ela devia estar a adorar.
“Olha mãe, eu sei que não é normal eu contar-te muita coisa, mas o que aconteceu há umas semanas deixou-me um bocado preocupado e como tu és mulher…”
“Sim, desembucha!!” A minha mãe estava inquieta e apercebi-me do quanto ela devia sentir falta da proximidade entre nós.
Comecei a falar rápido poque não tinha muito jeito pra estas coisas “Ela estava bem na biblioteca, eu ri-me dela, e de repente, encontro-a na casa de banho a chorar como uma desalmada a tremer, com falta de respiração e com a mão no peito, quando tentei ajudá-la ela recusou e começou a gritar algumas coisas em japonês que eu não percebi!” Fui interrompido pela minha mãe de novo.
“Tem calma, Matt, deixa-me ver se percebi.” A minha mãe começou a falar calmamente como se eu fosse uma criança “Estavas na biblioteca com essa tal Aiya, e riste-te dela?”
“Não, eu não estava com ela… quer dizer… até estava, mas… Ela apareceu ao meu lado a tentar tirar os livros da estante e deixou-os cair e eu ri-me dela, sei lá! Foi um impulso, não queria magoá-la nem nada parecido!”
“E depois ela foi para a casa de banho e tu também?”
“Passado um bocado fui ao wc e ouvi alguém chorar, fui ver o que se passava e lá estava ela!! Estava completamente lavada em lágrimas e, como qualquer pessoa normal faria, eu tentei ajudá-la mas ela não deixou…”
“Então… tu tens medo… que ela tenha ficado nesse estado por causa de te teres rido dela... é isso?”
Baixei a cabeça “Não… Não sei… Sei lá… Ela parecia estar com dores no peito, eu tentei sentir-lhe o batimento do coração, mas ela gritou comigo.”
“Matt…” A minha mãe olhou seriamente para mim “Nunca, mas nunca, se ri de uma rapariga… quanto mais tentar tocar-lhe no peito sem permissão… É normal que ela te tenha tratado mal…”
“Estás a dizer que foi por minha causa que ela ficou naquele estado?”
“Não sei Matt… algumas raparigas são bastante sensíveis, mas como disseste que lhe doía o peito, pode ter sido apenas um momento de mal estar… percebes?”
Foquei o meu olhar no chão e passei a mão pelo cabelo nervosamente “Eu sei que eu devia esquecer… já se passou algum tempo e não é comigo mas… É só que… não me sai da cabeça a ideia de que pode ter sido tudo minha nada culpa… e o peso na consciência…”
“Pergunta-lhe!” A minha mãe falava com a maior naturalidade do mundo “Fácil e eficaz, além disso é a única maneira de descobrires se foste o culpado ou não.”
“Ohh, mãe! Não é assim tãoo fácil como pensas! Isto não é a América… Achas que já não tentei!?” Dei uma pequena pancada na mesa e dirigi-me para as escadas enquanto a minha mãe pegava nas cenouras para voltar a cortá-las para o jantar.
“Matt… faz o que entenderes… Mas Não sejas cobarde…” As palavras dela ecoaram na minha cabeça. Retomei o meu caminho e subi as escadas.
***
Sempre odiei o frio. Estávamos a meio de Outubro e já me sentia um chouriço de tanta roupa que usava. Sorri quando me lembrei de quando era pequeno e fazia bonecos de neve com o resto dos miúdos do bairro. Como ia a pé para a escola, parecia que o frio aumentava dez vezes mais e ainda me restavam atravessar duas ruas, subir uma ladeira, passar uma ponte de pedra que atravessava um riacho e andar mais uns 50 metros até chegar à escola.
Logo a seguir de subir a ladeira, do lado esquerdo, há uma casa relativamente grande. Quase sempre paro para esperar que alguém saia. Mesmo em frente à entrada da casa, está uma placa de mármore muito brilhante que tem escrito: Karakuteyama. Quais são as probabilidades daquela ser a casa da Aiya? Eu diria que eram quase de 100%... Não é que a esteja a perseguir nem nada parecido, mas não pude deixar de reparar nisso . Ultimamente a minha consciência tinha andado a pesar muito e eu tinha de arranjar maneira de falar com ela fora da escola. Como se costuma dizer: “situações desesperadas requerem medidas desesperadas”. A casa da Aiya é uma vivenda tipicamente japonesa, árvores orientais, vidro, madeira e um muro que me impede de ver para além dele. Digamos que ando tão envolvido na minha missão de conseguir falar com a ela que já me atrasei para a escola algumas vezes por demorar demasiado tempo à espera que alguém naquela casa desse sinal de vida.
Hoje não era uma exepção. Mas não ia desistir. À tarde ia voltar a tentar. Todos os dias a Aiya saía da escola com um grupo de amigas, as quatro faziam o caminho até as suas casas e à medida que avançavam, o grupo ia reduzindo até a Aiya ficar sozinha durante um curto espaço de tempo, era nesse curto espaço de tempo que tinha de a abordar. Esta tarde, tinha saído um pouco mais cedo do que ela e as amigas para a poder encontrar sem que notassem a minha presença. Encostei-me a um muro que me dava perspectiva sobre a rua e o cruzamento entre a ladeira e a casa, acendi um cigarro e esperei. Passados 15 minutos de espera, uma sombra começou a aparecer no alcatrão da estrada, levantei-me. Descontraída e com os cabelos ao vento, a Aiya atravessava a rua sem pressa. Comecei a dirigir-me a ela, ao ouvir os meus passos a Aiya assustou-se e virou-se para traz. Quando me viu começou a recuar e notei na cara dela uma expressão de grande surpresa e medo, se calhar não devia tê-la abordado daquela maneira.
“Tem calma!” Dei uma pequena gargalhada. Ela abraçou a mala como sinal de desconfiança. “Olá… tudo bem contigo?” Estendi a mão com intenção de a acalmar e faze-la confiar mais em mim. A Aiya olhou-me de cima a baixo durante um tempo, senti-me um palerma, ali, com a mão estendida à espera de que ela retribuísse a acção. Depois de um tempo calada a observar-me, ajeitou o cabelo com uma mão e quase ia deixando cair a mala. Tive de fazer um esforço enorme para não me rir devido ao que tinha acontecido na biblioteca, mas lembrei-me do que a minha mãe me disse e consegui conter-me. Depois de ter bem segura a sua mala, a Aiya estendeu a mão. Já era um começo. A sua mão era quente, suave, pequena e de um branco cor de pérola, reparei que ela tinha o costume de roer as unhas.
“Olha… desculpa se no outro dia começámos mal… Quando eu me ri não tinha intenção de te magoar…” Esbocei um ligeiro sorriso à espera que que ela dissesse alguma coisa. Silêncio. O vento lançava rajadas sobre nós e o cabelo negro da Aiya, ora lhe cobria a cara, ora se elevava e abanava com leveza. Voltei a insistir. “Não sei porque estavas a chorar no outro dia, mas espero que estejas melhor… quer dizer… Não sei se foi por causa de mim… ou…” Suspirei. O silêncio dela dificultava a minha tarefa porque parecia que nada do que eu dissesse era suficientemente sustentável ou certo. Por momentos pensei que ela poderia não saber falar inglês e desanimei. O vento insistia sobre nós. De repente pareceu-me ver um pequeno sorriso na cara dela e a sua voz cortou o silêncio.
“Não foi… por tua causa… mas… obrigada” A rapariga curvou-se rapidamente e num ápice entrou dentro de casa deixando-me espectado a olhar para o nada e a ser levado com o vento. Eu não estava habituado a este tipo de comportamentos, de todo. A Aiya comportava-se de uma maneira incompreensível aos olhos de um rapaz como eu, ela começou a despertar um enorme interesse em mim e ,apesar de alguma coisa me dizer que ia ser preciso muito tempo e paciência para a conseguir perceber, eu achei que isso podia ser uma coisa boa…
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